Durante as aulas...
10 A professora e o tio do pátio
Notas iniciais
Ela já dava aulas ali há muitos anos: era professora de química e biologia.
Não era a mais odiada pelos alunos, mas também não era mais amada: sua voz funcionava como sonífero, era quase que humanamente impossível permanecer acordado em suas aulas, em especial quando começava a falar da Tabela Periódica, que sabia de cor e tinha muito orgulho disso. Estava sempre desenvolvendo algum projeto de ecologia, que consistia basicamente na reciclagem de garrafas pets, as transformando em puffs e cortinas. Gostava de fazer crochê, tanto que era responsável pela maior parte de confecção de suas roupas.
Havia toda uma rotina nesses gostos. Ela se encontrava muito bem assim.
Mas em algum momento do ano, não se sabe exatamente como ou o porquê, em meio à monotonia da escola, o chamado "tio do pátio" saiu da escola, e como bem se sabe, não é seguro para uma escola não ter um tio do pátio, ainda mais quando se trata de uma em período integral. Adolescentes podem ser bem destrutivos quando querem.
Então ele chegou. O novo zelador. O novo tio do pátio. O responsável pelo andamento dos corredores. Pela manutenção da estrutura escolar.
Exceto pelo fato de que, para falar bem a verdade, não fazia nada naquele lugar além de andar e brincar com os alunos. Era até motivo de piada a sua inutilidade, não que ele se importasse. Havia alguns reparos, é claro, mas como na escola sempre faltava material...
E foi num desses reparos que ele foi parar na sala da professora de química. O motivo: o banner com a Tabela Periódica tinha caído, era preciso colocar de volta no lugar, e bem, ele colocou-o de volta no lugar, pena que cobrindo metade do quadro...
A professora, quando viu o resultado do "conserto", franziu a testa, meio que sem acreditar no que estava vendo e então, é claro, brigou com ele. Só que foi uma dessas broncas dadas em meio a risadas, que ninguém leva muito a sério. Como quando seu bichinho de estimação apronta alguma coisa e você se sente na obrigação moral de brigar com ele, mas não consegue realmente.
O tio do pátio não era exatamente a pessoa mais ativa ou animada do mundo e muito menos inteligente. Não sabia quase nada da tabela periódica e não era envolvido em nenhum projeto ambiental. Menos ainda entendia de artesanato. Mas depois daquele dia, onde estivesse a professora, orientando seus inúmeros projetos, lá estava ele também, observando.
A grande questão (embora todos já soubessem a resposta) era: quem ele estava observando? Os alunos ou a professora?
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