Duncan
1 Fogo
Vejo Duncan andando desde sempre pela rua em frente à minha casa com um isqueiro na mão e o cigarro na boca.
Por onde passa deixa aquele enorme rastro de fumaça branca com cheiro característico.
Eu sempre o via por ali, mas só conversei com ela pela primeira vez quando tinha cinco anos.
Minha mãe me mandou comprar pães frescos para o lanche da tarde.
Afinal, a padaria fica de frente para a minha casa e todos conheciam Dona Marta, dona do estabelecimento.
Eu nem precisava falar nada, a senhorinha já sabia de cor o que eu iria comprar.
Pegava os pães mais quentes e colocava num saco, três crocantes e dois macios, como mamãe gostava.
Nesse dia em questão começou a cair a maior chuvarada. Eu fiquei do lado de fora da padaria, embaixo do teto de lona, apreciando a chuva.
Não podia me molhar senão adoecia, minha saúde era frágil.
Ficava cantarolando uma musiquinha da moda enquanto gota após gota batia no chão asfaltado.
Foi quando um moço de cerca de 20 anos parou do meu lado. Todo molhado da cabeça aos pés. Com excessão do cigarro que carregava em seus lábios.
Eu podia ver a pequena brasa alaranjada na ponta do rolinho branco.
Ele parecia fingir não me ver, enquanto liberava uma grande baforada.
Olhou para o lado e ao me ver, pareceu se assustar. É como se não fosse acostumado a ser visto.
Eu o encarei nos olhos, achando ele diferente de qualquer outro moço que eu tivesse visto.
Ele se agachou como que para ter certeza de que era para ele que eu olhava.
— Oi. — eu inocentemente falei. — Está ensopado.
Ele ergueu a sobrancelha e o cigarro vacilou na boca.
— Pode me ver? — falou bem baixinho, como se tivesse esquecido como se fazia isso.
— Claro que sim. — murmurei.
Ele parecia meio impressionado. Olhou ao redor e eu olhei também, procurando o que ele via. Um senhor saiu da padaria e passou entre nós dois.
— Olá, garotinha. O que faz sozinha aqui?
— Não estou perdida. Estou com ele. — apontei para o rapaz do cigarro.
O senhor não viu ninguém e deu de ombros.
— Crianças...Sempre tão imaginativas.
Saiu e me deixou com o outro.
Eu achei que ele era doido. Afinal, quem não viria aquele homem todo ensopado na minha frente? Que absurdo!
— Meu nome é Duncan. — ele disse.
Somente isso. Mas parecia feliz. Tragava o cigarro com mais vontade. Levantou-se e voltou a encarar a chuva.
Daquele dia em diante, todos os dias às quatro horas da tarde eu sentia o cheiro do cigarro e corria para a janela, só para acenar para o tal Duncan.
— Com quem está falando, menina? — minha mãe ria, arrumando a mesa.
— Com Duncan, o moço do cigarro.
Ninguém nunca me entendeu, até que um dia encontrei uma reportagem antiga na internet, e o moço da foto tinha o rosto de Duncan.
Minha mãe disse que nunca o viu, mas que uma antiga lenda dizia que um jovem costumava vagar pela cidade depois de morrer em um incêndio no fim da rua. Mas sua morte ocorrera a pelo menos 70 anos atrás.
Ergui as sobrancelhas, surpresa.
Será que eu via coisas?
Isso explicava o fato daquele senhor na padaria não o ter visto. Então, porque eu podia?
Duncan era um cara calado.
Aparecia e sumia de repente.
E pareceu muito feliz no dia em que o notei.
Fantasma ou não, Duncan parecia sempre tranquilo. Calmo e viciante como seu próprio cigarro sempre aceso.
A reportagem indicava que o jovem que foi morto a setenta anos atrás teve a casa incendiada por um cigarro que não foi apagado por seu padrasto.
Duncan Miles não fumava.
Pelo menos não naquele tempo, já que agora ele carregava entre os lábios o causador de sua morte, como se mostrasse que aquilo não o afetava.
Corajoso? Talvez insano.
Era como se um morto de repente passasse a amar a bala que tirou sua vida num tiroteio.
Será que ele não gostava de viver? Será que era mais feliz estando morto?
Eu não me importava muito.
Depois que me mudei, continuei a visitar a casa de minha mãe.
Mesmo depois de décadas ainda era possível sentir o cheiro do cigarro do rapaz que encontrei naquele dia chuvoso.
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