Duelo de Emoções
4 Decepções
— Desfalque! — Rin levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, no escritório do pai, parecendo tomada por uma fúria incontida.
Passava as mãos pelos braços, em um gesto repetitivo e nervoso, estremecendo a cada novo relâmpago e subsequente trovão que rugia em meio à tempestade.— Eu gostaria que não chamasse assim — Norman protestou, mas sem muita ênfase. — Parece tão... tão...— Criminoso? — ela completou, olhando pela imensa ja nela, que tomava quase que a parede inteira.— Bem... sim.Ela se voltou para encarar o pai. Em seus olhos havia uma mistura de desespero e indignação. Mais uma vez estremeceu com um novo relâmpago. Sua reação ao temporal não era co mum. Normalmente, não se incomodava com a fúria dos ele mentos da natureza. Na verdade, até gostava de tempestades. Mas, nessa tarde, ela também não estava em seu estado normal e sentia-se devastada. Deixara seu escritório ao meio-dia, como prometera, e passara a tarde no departamento contábil de seu pai, revendo registros financeiros da companhia. Não tivera muito tempo, mas vira brevemente os arquivos do computador e concluíra que seu pai estava desviando dinheiro da firma.No dia anterior ele dissera estar com problemas... Rin sentiu um arrepio invadir-lhe o corpo. Ele poderia ir para a cadeia pelo que fizera!Desesperada, fixou o homem que fora seu grande ídolo na infância. E soube que crescer era, de fato, muito difícil...— Não consigo encontrar outra palavra para descrever o que fez, papai — murmurou. — O senhor fez um desfalque, e isso é considerado crime. As pessoas costumam referir-se a esse tipo de conduta duvidosa como "crime de colarinho bran co". Pode, até, ser preso por isso, sabia?Norman entreabriu os lábios, pigarreou, engoliu em seco e depois fez nova tentativa para falar, conseguindo algumas pa lavras intercaladas:— Eu... eu... sua mãe... Olhe, não posso ir para a cadeia! Rin, o que... o que aconteceria com sua mãe se... isso acontecesse?— Isso a destruiria, eu suponho — Rin comentou, com amargura. E sua honestidade fez com que seu pai se encolhesse na cadeira atrás da escrivaninha.— Preciso fazer alguma coisa — disse ele amedrontado, chegando a se sentir mal. — Qualquer coisa... Deve haver um modo... — e passou os olhos ao redor, como se procurasse um meio de escapar dali, ou da situação.Rin ainda o olhava, dividida entre as emoções que as solavam seu peito. Sentia pena e dor, decepção e tristeza. Pena pela fraqueza que seu pai demonstrara, decepção por sua falta de capacidade de encontrar uma solução, tristeza por ver que ele não conseguira gerenciar a firma como deveria e uma dor profunda por ver que ele não era o que idealizara.— O que posso fazer? — perguntou Norman, em voz mais alta, revelando seu descontrole emocional. — Você é conta dora, diga-me o que posso fazer! Ajude-me a dar um jeito nesta situação!— Pai, o único jeito de consertar o que o senhor fez é repor o dinheiro que tirou da contabilidade!— Mas não tenho esse dinheiro!— Perdeu tudo em jogo, não foi? — agora, havia ainda mais decepção e dor na voz dela.— Eu... sim. Não adianta negar.— Jogou sem parar, em diversos cassinos, enchendo os bol sos de golpistas com o dinheiro da companhia... — ela quase riu, tensa.— Exatamente. Eu já lhe disse tudo isso ontem à noite, não? — Norman estava encurralado e não sabia como agir.— Mas o senhor também me disse que tinha pegado o di nheiro "emprestado" da companhia. E imaginei que houvesse sido, de fato, um empréstimo. Mas foi roubo, pai... — a raiva começava a substituir a dor dentro dela. — Droga! O senhor não tirou o dinheiro de "sua" companhia, mas da companhia de mamãe!— Eu sei, eu sei! — ele cerrou os olhos. — Mas... O que posso fazer? A quem mais posso pedir ajuda?— Precisa contar tudo a ela.Norman arregalou os olhos. Eles estavam apavorados.— Contar a sua mãe? Não! Não posso! Eu...Rin interrompeu-o de imediato:— Vai ter de fazê-lo! "Deve" fazê-lo, não entende? E eu não posso ajudá-lo. Tudo o que tenho são minhas economias e algumas aplicações, que nem posso resgatar ainda. Mas ma mãe tem dinheiro suficiente para repor o dinheiro que foi tirado da firma.— Mas não posso contar a ela! — Norman repetiu. — Eu nem saberia por onde começar... Ela ficaria tão magoada, tão decepcionada...— Eu sei, mas precisará enfrentar isso, papai. — Rin respirou fundo, sofrendo não por si mesma, mas pela mãe, cujo único crime fora amar incondicionalmente sem nunca duvidar. — O senhor não tem alternativa.— Não posso, não posso — ele continuava repetindo, ne gando com a cabeça, amargurado. Por fim, levantou-se e ca minhou até a filha, junto à janela. — De qualquer maneira, nem há mais tempo... Sesshoumaru Akashi estará aqui às nove horas, amanhã de manhã. E já ouvi dizer que ele nunca se atrasa.Sesshoumaru Akashi. Rin até se esquecera dele. Era com preensível, considerando-se como seu dia terminara.— Pois cancele essa reunião com ele — sugeriu, impaciente. — Adie para daqui a uma semana, um mês, não sei...Norman negou com um gesto de cabeça antes mesmo que ela terminasse de falar e argumentou:— Já pensei em fazer isso, e até tentei, esta manhã. Liguei para a casa dele e também para seu escritório na fábrica. Só consegui falar com o irmão dele, Inu-Yasha. E ele me disse que Sesshoumaru partiu ontem, mas que não mencionou o nome do hotel onde se hospedaria aqui.
— Então... coloque empecilhos para essa reunião! Tente adiar o encontro até que tenha falado com mamãe!— Acha mesmo que posso enganar Sesshoumaru desse jeito? — ele a olhava como se Rin lhe houvesse sugerido que criasse asas e voasse. — Só pode estar brincando...— Pai, ele é apenas um homem! — ela ergueu a mão para evitar que ele a interrompesse com novo argumento, e prosse guiu: — Além do mais, o senhor não tem outra alternativa! Não vai conseguir escapar da armadilha em que se meteu!Norman acabou por assentir, como se aceitasse uma conde nação de morte.— Muito bem, então... Mas não posso fazer isso sozinho — disse. — Vou precisar de sua ajuda.— Eu? O que acha que posso fazer?— Pode me dar apoio moral, ora! — Norman tomou-lhe as mãos e olhou para ela com ar de súplica. — Rin, filhinha, por favor!...O que ela poderia dizer? Certo ou errado, bom ou mau, ou apenas tolo, aquele ainda era seu pai. E o amava.— Está bem, papai. Vou ficar aqui, ao seu lado...
Notas finais
N/A:
Esse apoio moral pode sair melhor do que encomenda...
Esse apoio moral pode sair melhor do que encomenda...
Fale com o autor