— Desfalque! — Rin levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, no escritório do pai, parecendo tomada por uma fúria incontida.

Passava as mãos pelos braços, em um gesto repetitivo e nervoso, estremecendo a cada novo relâmpago e subsequente trovão que rugia em meio à tempestade.

— Eu gostaria que não chamasse assim — Norman protestou, mas sem muita ênfase. — Parece tão... tão...

— Criminoso? — ela completou, olhando pela imensa ja nela, que tomava quase que a parede inteira.

— Bem... sim.

Ela se voltou para encarar o pai. Em seus olhos havia uma mistura de desespero e indignação. Mais uma vez estremeceu com um novo relâmpago. Sua reação ao temporal não era co mum. Normalmente, não se incomodava com a fúria dos ele mentos da natureza. Na verdade, até gostava de tempestades. Mas, nessa tarde, ela também não estava em seu estado normal e sentia-se devastada. Deixara seu escritório ao meio-dia, como prometera, e passara a tarde no departamento contábil de seu pai, revendo registros financeiros da companhia. Não tivera muito tempo, mas vira brevemente os arquivos do computador e concluíra que seu pai estava desviando dinheiro da firma.

No dia anterior ele dissera estar com problemas... Rin sentiu um arrepio invadir-lhe o corpo. Ele poderia ir para a cadeia pelo que fizera!

Desesperada, fixou o homem que fora seu grande ídolo na infância. E soube que crescer era, de fato, muito difícil...

— Não consigo encontrar outra palavra para descrever o que fez, papai — murmurou. — O senhor fez um desfalque, e isso é considerado crime. As pessoas costumam referir-se a esse tipo de conduta duvidosa como "crime de colarinho bran co". Pode, até, ser preso por isso, sabia?

Norman entreabriu os lábios, pigarreou, engoliu em seco e depois fez nova tentativa para falar, conseguindo algumas pa lavras intercaladas:

— Eu... eu... sua mãe... Olhe, não posso ir para a cadeia! Rin, o que... o que aconteceria com sua mãe se... isso acontecesse?

— Isso a destruiria, eu suponho — Rin comentou, com amargura. E sua honestidade fez com que seu pai se encolhesse na cadeira atrás da escrivaninha.

— Preciso fazer alguma coisa — disse ele amedrontado, chegando a se sentir mal. — Qualquer coisa... Deve haver um modo... — e passou os olhos ao redor, como se procurasse um meio de escapar dali, ou da situação.

Rin ainda o olhava, dividida entre as emoções que as solavam seu peito. Sentia pena e dor, decepção e tristeza. Pena pela fraqueza que seu pai demonstrara, decepção por sua falta de capacidade de encontrar uma solução, tristeza por ver que ele não conseguira gerenciar a firma como deveria e uma dor profunda por ver que ele não era o que idealizara.

— O que posso fazer? — perguntou Norman, em voz mais alta, revelando seu descontrole emocional. — Você é conta dora, diga-me o que posso fazer! Ajude-me a dar um jeito nesta situação!

— Pai, o único jeito de consertar o que o senhor fez é repor o dinheiro que tirou da contabilidade!

— Mas não tenho esse dinheiro!

— Perdeu tudo em jogo, não foi? — agora, havia ainda mais decepção e dor na voz dela.

— Eu... sim. Não adianta negar.

— Jogou sem parar, em diversos cassinos, enchendo os bol sos de golpistas com o dinheiro da companhia... — ela quase riu, tensa.

— Exatamente. Eu já lhe disse tudo isso ontem à noite, não? — Norman estava encurralado e não sabia como agir.

— Mas o senhor também me disse que tinha pegado o di nheiro "emprestado" da companhia. E imaginei que houvesse sido, de fato, um empréstimo. Mas foi roubo, pai... — a raiva começava a substituir a dor dentro dela. — Droga! O senhor não tirou o dinheiro de "sua" companhia, mas da companhia de mamãe!

— Eu sei, eu sei! — ele cerrou os olhos. — Mas... O que posso fazer? A quem mais posso pedir ajuda?

— Precisa contar tudo a ela.

Norman arregalou os olhos. Eles estavam apavorados.

— Contar a sua mãe? Não! Não posso! Eu...

Rin interrompeu-o de imediato:

— Vai ter de fazê-lo! "Deve" fazê-lo, não entende? E eu não posso ajudá-lo. Tudo o que tenho são minhas economias e algumas aplicações, que nem posso resgatar ainda. Mas ma mãe tem dinheiro suficiente para repor o dinheiro que foi tirado da firma.

— Mas não posso contar a ela! — Norman repetiu. — Eu nem saberia por onde começar... Ela ficaria tão magoada, tão decepcionada...

— Eu sei, mas precisará enfrentar isso, papai. — Rin respirou fundo, sofrendo não por si mesma, mas pela mãe, cujo único crime fora amar incondicionalmente sem nunca duvidar. — O senhor não tem alternativa.

— Não posso, não posso — ele continuava repetindo, ne gando com a cabeça, amargurado. Por fim, levantou-se e ca minhou até a filha, junto à janela. — De qualquer maneira, nem há mais tempo... Sesshoumaru Akashi estará aqui às nove horas, amanhã de manhã. E já ouvi dizer que ele nunca se atrasa.

Sesshoumaru Akashi. Rin até se esquecera dele. Era com preensível, considerando-se como seu dia terminara.

— Pois cancele essa reunião com ele — sugeriu, impaciente. — Adie para daqui a uma semana, um mês, não sei...

Norman negou com um gesto de cabeça antes mesmo que ela terminasse de falar e argumentou:

— Já pensei em fazer isso, e até tentei, esta manhã. Liguei para a casa dele e também para seu escritório na fábrica. Só consegui falar com o irmão dele, Inu-Yasha. E ele me disse que Sesshoumaru partiu ontem, mas que não mencionou o nome do hotel onde se hospedaria aqui.

— Então... coloque empecilhos para essa reunião! Tente adiar o encontro até que tenha falado com mamãe!

— Acha mesmo que posso enganar Sesshoumaru desse jeito? — ele a olhava como se Rin lhe houvesse sugerido que criasse asas e voasse. — Só pode estar brincando...

— Pai, ele é apenas um homem! — ela ergueu a mão para evitar que ele a interrompesse com novo argumento, e prosse guiu: — Além do mais, o senhor não tem outra alternativa! Não vai conseguir escapar da armadilha em que se meteu!

Norman acabou por assentir, como se aceitasse uma conde nação de morte.

— Muito bem, então... Mas não posso fazer isso sozinho — disse. — Vou precisar de sua ajuda.

— Eu? O que acha que posso fazer?

— Pode me dar apoio moral, ora! — Norman tomou-lhe as mãos e olhou para ela com ar de súplica. — Rin, filhinha, por favor!...

O que ela poderia dizer? Certo ou errado, bom ou mau, ou apenas tolo, aquele ainda era seu pai. E o amava.

— Está bem, papai. Vou ficar aqui, ao seu lado...

Notas finais
N/A:
Esse apoio moral pode sair melhor do que encomenda...