Duche: Uma Paranoia de Casa de Banho

1 Duche: Uma Paranoia de Casa de Banho


As cortinas da banheira de Clea Cleverson eram translúcidas. Apenas permitiam, a partir do interior, contemplar vultos do exterior e vice-versa. Um dos seus maiores medos, apesar de ridículo, era o de alguém a tentar atacar enquanto tomava banho. E se um desconhecido aparecesse de repente? Podiam entrar na sua casa enquanto estava ocupada e roubar tudo. Ou pior: podiam aparecer na casa de banho enquanto, de olhos fechados, Clea lavava o seu cabelo. Podiam tentar matá-la. Clea estava ali completamente indefesa. Esse pensamento, essa mera possibilidade, dava-lhe certos e determinados arrepios.

Antes de fechar os olhos, sob o chuveiro, certificava-se sempre de que não estava ninguém lá fora. Nunca estava ninguém lá fora. Nunca esteve até agora, pelo menos. Depois de abrir os olhos, também verificava. Sempre, sempre, sempre sem cessar. Nunca vê nenhum vulto, mas teme ver um em primeiro lugar. Sofre pela antecipação de algo muito pouco provável, praticamente impossível e quase irrealista.

Naquele dia, uma sexta-feira, faria o mesmo que fazia todos os outros dias. Chegaria a casa após um longo e cansativo dia de trabalho, entraria na banheira e tomaria um igualmente longo banho para poder relaxar um bocado. Todavia, não conseguia relaxar. O seu receio sem fundamento permanecia, e hoje estava particularmente forte por alguma razão.

Olhou e olhou. Abriu e fechou as cortinas. Abriu-as e fechou-as novamente. Nada. Claro que não havia nada. A porta estava fechada. Trancada. Ninguém entraria. Mas agora levantavam-se outras dúvidas na sua cabeça neurótica. E se, por acaso, algo perigoso acontecesse naquela casa de banho e depois não tivesse forma de escapar. Quer dizer, bastava abrir a porta mas isso demoraria tempo. Esse tempo poderia ser precioso, poderia ser a linha entre a sua vida e a sua morte facilmente evitável. A sua cabeça estava assim preenchida pelas mais diversificadas dúvidas e opiniões, argumentos falaciosos e outros sofismas que tais. Tudo o que lhe parecesse potencialmente ameaçador ocorria-lhe naquele momento. Uma ridícula paranoia de casa de banho.

Não havia ninguém lá fora nem haveria alguém lá fora.

Derramou-se o champô. Mãos moveram-se com leveza, de um lado para o outro, esfregando os longos cabelos ruivos de Clea. A água caiu, uma chuva artificial perfeitamente controlável. São muitas as coisas que parecem controláveis. Parecem.

Pareceu ver um vulto. Pareceu-lhe ver um vulto do outro lado da cortina. Parou automaticamente o que estava a fazer, num sobressalto, e afastou as cortinas. Foi esse o momento que mudou completamente a sua forma de ver as coisas. O mundo começou a parecer-lhe diferente, mais independente e dono de si. A descarga de adrenalina no seu sangue teve um abrupto fim.

Nada.

Suspirou de alívio. Finalmente, decidiu chegar à conclusão do quão estúpidos eram os seus receios. Já não era sem tempo. Não havia nada que recear. Nunca houve nem nunca haveria, certo? Certo?

O que importa é que Clea estava agora satisfeita consigo própria, continuando a esfregar os seus delicados cabelos. Feliz, contente, alheia à realidade de que um humanóide esquisito estava curvado atrás de si, sua boca aberta revelando um conjunto incompleto de dentes apodrecidos pelo tempo. Sua pele enrugada só tornava o seu sorriso mais sinistro e incomum. Seu braço flácido estendia-se e sua mão, cujas unhas haviam caído, esforçava-se por tocar naqueles belos cabelos. Mas nunca tocava. Esperava a oportunidade certa para tal. E ela nunca iria suspeitar de nada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!