Dublê de pai!
9 Capítulo 9
Antes que pudesse alcançar o cobertor, Robin pegara-o e dobrara-o. Aquela mão grande tocou a sua quando ele a estendeu para devolver o cobertor. Uma onda de calor varreu-a, dizendo que a distância era mesmo a melhor opção, apesar de já ter dado a brilhante ideia de trabalhar na casa dele, e distância não era exatamente fácil de ter enquanto dividiam 25m2 de espaço.
— Já estamos indo? — perguntou ele.
— Tenho que voltar para sua casa e trabalhar. — Suspirou Regina. — Se ficarmos aqui, eles provavelmente vão mandar uma patrulha, já que meu celular ficou desligado tanto tempo.
— Bom você realmente manteve o combinado até o fim — respondeu Robin. — Vou cuidar da criança mais um pouco, e você pode parar de se esconder. — Ele começou a empurrar o carrinho. Bri continuou a chutar e murmurar, feliz por estar em movimento.
— Obrigada.
— Só estou fazendo meu trabalho.
Às vezes, ele fazia algo assim e a surpreendia completamente. Não entendia. Ou odiava ser babá ou não. Não gostava de estar perto de crianças ou gostava. O que o fazia intervir às vezes, sem ser chamado, e tomar o controle assim?
O que quer que fosse não devia questionar seus motivos, decidiu, e ligou o celular.
Oito mensagens esperavam por ela. Tinha aproveitado uma rápida folga, mas pagaria por aqueles momentos. E, portanto, estava ainda mais atrasada e mais longe de Sabrina e de seu objetivo final do que nunca.
O que, diabos, ô possuía para fazer essas coisas?
Cinco minutos atrás, estava quieto, de barriga cheia, pronto para ir para casa e evitar Regina e essa coisa toda pelo resto do dia. Dizer que ela poderia usar sua casa como escritório, desde que o deixasse em paz.
Mas, então, ela havia ficado toda compreensível, e algo em seu coração amolecera.
Para um homem que não achava que seu coração era capaz de amolecer pelo menos não novamente, esse era um sentimento novo. E não tinha certeza se era bem-vindo.
Então, aqui estava, empurrando, entre todas as coisas, um carrinho de bebê pela rua.
Se sua mãe pudesse vê-lo agora, provavelmente pegaria a câmera de vídeo e encheria o álbum familiar de fotos para registrar a ocasião.
A criança o observava pelo quadrado transparente do toldo do carrinho, como se quisesse se certificar de que era mesmo ele empurrando. Aqueles olhos azuis pareciam discos, acentuados pelas bochechas rosadas.
— O que está olhando? — disse ele, mas sua voz perdera a rouquidão.
Deve ter sido a salada de batata.
Regina tinha ficado um pouco para trás, falando ao celular, com a voz e os dedos ocupados. Isso o deixava sozinho com a criança. Tudo o que faltava agora era um cachorro, e seria a perfeita encenação familiar.
Olhou-a de relance e viu que observava a criança enquanto falava. Toda vez que ela olhava para o bebê, aquele rosto se suavizava. Não como sorvete derretido, pensou, procurando a descrição certa, mas como...
Como seda sobre diamantes. Cada superfície enrijecida se suavizava tudo nela, que já era lindo, ficava estonteante.
O pulso dele acelerou, a respiração parou.
Desejou repentinamente parar ali mesmo, no meio da rua, e começar a escrever, tentar capturar cada palavra sobre ela. Como aquele coração se refletia em suas feições.
Mas claro que não podia fazer isso. Primeiro não tinha onde escrever. Segundo, Regina e todos os vizinhos que estavam cuidando dos gramados indubitavelmente pensariam que o autor recluso estava ainda mais louco.
Então se virou novamente e tentou empurrar o carrinho mais rápido. Queria chegar a casa, voltar ao escritório. Aí poderia tentar encontrar aquelas palavras, sozinho. Onde gostava de estar. Essa coisa de estar com pessoas era superestimada.
— Está correndo ou o quê? — perguntou Regina quando conseguiu alcançá-lo, trotando.
— Só achei que seria mais fácil para você trabalhar se estivesse em minha casa.
— Na verdade... — Sorriu esperançosa. — Meu chefe resolveu fazer uma reunião com o chefão sobre o programa da próxima semana e deixou claro que me quer lá. Você se incomodaria muito de cuidar de Sabrina por mais algum tempo? Eu pago pelas horas extras.
Sozinho? Com a criança novamente? Toda vez que estava perto de se livrar dela era obrigado a mantê-la.
Mas, dessa vez, seria forte. E Regina não estava chorando. Seria insistente, diria não.
— Não posso. Não preciso do dinheiro. O que preciso é trabalhar no livro.
Regina pensou por um segundo.
— E se eu melhorar a proposta?
Haviam chegado a casa dele. Ele abriu a porta e entrou, ajudando-a a levantar o carrinho na soleira antes de falar novamente. Precisava de um segundo para absorver aquelas palavras, porque muitas ideias sobre como ela poderia melhorar a proposta passaram por sua cabeça, e não eram provavelmente nada parecidas com o que Regina tinha em mente. Devia ser o sol, mais o momento insano no banco quando quase a beijou.
— Como pretende fazer isso?
— Paro para comprar mantimentos no caminho de volta e faço um jantar. Eu vi, e comi o conteúdo de sua geladeira. Isso não é jeito de viver. Então estava pensando... — Juntou as mãos. — Que tal macarrão caseiro com almôndegas?
Regina aqui. Em sua cozinha, cozinhando. Que tal?
Parecia o céu entrando por sua porta.
— Depende. O que você chama de caseiro?
— Feito do começo. Tudo.
A boca de Robin salivou. Quando foi a última vez que comera comida caseira?
Desde que saiu da casa dos pais, aos 19... Poderia provavelmente contar, na mão, o número de refeições caseiras que comera fora da casa de sua mãe nos feriados.
— Há uma sobremesa envolvida nessa oferta?
— Isso é um sim?
Seu estômago respondeu antes que seu bom senso pudesse intervir.
— Desde que você não acredite em queijo parmesão pronto, sou todo seu.
O cheiro de orégano e manjericão encheu a casa, assim como o de queijo parmesão.
Regina estava na cozinha gourmet de Robin, que não era muito utilizada, a julgar pela limpeza das bancadas de granito e do fogão. Ela cuidava da frigideira com as almôndegas, enquanto o molho de tomate cozinhava em fogo brando em outra panela.
À mesa, Sabrina estava sentada numa cadeira portátil alta, trazida por Regina, e batia na mesa. O que eram tapas leves minutos atrás foram logo acompanhados de uma série de gritos estridentes e exigentes.
— Acho que ela quer almôndegas — disse Robin.
— Ela é um pouco pequena para isso. Fiz ervilhas e banana amassada para ela hoje. Pode dar para ela enquanto acabo aqui?
— Eu? — indagou, fitando-a.
— É fácil. Bem, mais ou menos. — Sorriu. Decidiu que não o avisaria sobre os cuspes de ervilha e regurgitação de banana ou ele nunca lhe daria de comer. — Só coloque o babador e use a colherinha para alimentá-la. Eu alternaria ervilhas e bananas.
Ele ajustou o babador nela.
— Por que alternar?
— Ela odeia ervilhas. A banana é um suborno.
Ele riu.
— Então era assim que minha mãe me fazia comer vegetais.
— É assim que toda mãe faz, suspeito. É uma dica que aprendi com a Sra.Belle. — Deu um passo para longe do fogão e virou as almôndegas. — Eu tinha dificuldade de fazer Sabrina comer qualquer coisa que não fossem cereais. Ainda bem que a Sra.Belle estava aqui para me ajudar com essas partes difíceis. Alguns dias, eu sinto... — Assoprou uma mecha de cabelo do rosto. — Bom, é difícil estar sozinha.
Um estouro ecoou pela sala: a tampa do pote do bebê abrindo. Robin e Regina se olharam por um longo momento.
— Onde ele está?
— Quem?
— O pai de Bri.
Empurrou uma almôndega, observando a carne marrom virar e girar na panela.
— Ele morreu quando eu estava grávida.
Morreu.
A palavra atingiu Robin com violência. Ele esperava que Regina dissesse outras mil coisas: que o homem fugiu, deixou-a ou que estavam separados por alguma outra razão egoísta. Mas ouvir aquele tom final na voz dela, a mágoa que se demorava na sílaba pesada, o fazia querer pular da cadeira e...
Abraçá-la. Confortá-la.
Mas não era do tipo de abraçar e confortar. Então ficou onde estava, por mais que o desejo crescesse em seu peito.
Abriu a boca para dizer algo quando Sabrina bateu na mesa, demandando comida.
Ele mergulhou a colher no pote e levou a massa verde ensopada até o bebê. Ela abriu a boca ansiosamente, fazendo uma careta quando provou as ervilhas.
— Melhor preparar as bananas ou ela vai cuspir — riu.
Fez o que ela sugeriu, dando-lhe uma colher cheia de bananas. Bri pulou feliz em resposta. Antes que pudesse ver o verde, deu ervilhas e mais bananas quando ela engoliu. Entre as colheres, falou:
— Eu... Sinto muito, Regina.
— Você está se saindo bem.
— Quis dizer pelo pai de Sabrina.
— Ah, obrigada. Nunca pensei que minha história, ou a de Bri, terminaria assim. — Virou-se para o fogão, mexendo as almôndegas por um longo tempo. Novamente, foi tomado por um sentimento de simpatia por Regina. Ela mal deve ter tido um segundo desde que o bebê nasceu um bebê que tomava muito tempo, na opinião de Robin, para lidar com a perda do marido.
— Quem disse que terminou?
Virou-se para ele.
— O que quer dizer?
— Só porque ele morreu não significa que sua história tenha terminado. — Ele sorriu. — Escute o autor de ficção. Você sempre pode criar um novo capítulo. — Deu mais ervilhas ao bebê, usando a colher para limpar o que não entrara em sua boca.
— Robin, você não entende. Quando Daniel morreu, foi... Devastador. Minha vida ficou de pernas para o ar. Cada plano que tinha para mim, para Sabrina, tudo mudou. Agora tento conciliar tudo, sozinha, e na maioria dos dias, sinto que faço um trabalho horrível. Ele me deixou sem seguro de vida, sem saída, me deixou para... — Jogou os braços para cima. — Ser tudo sozinha. Os dois pais, provedora, responsável. Não tenho tempo de escrever um novo capítulo, imagine achar alguém para começá-lo comigo.
— Você não está se saindo tão mal. Sua filha está bem. — Deu uma colher de ervilhas ao bebê.
Regina estremeceu, então sorriu um pouco.
— Quer dizer que está gostando mais dela?
Então Sabrina percebeu que ele mudou a rotina e deu duas colheres seguidas de ervilha. Ela cuspiu a segunda colher no rosto dele. Robin fez uma careta e limpou-se, cuspindo o legume.
— Algo assim.
Regina riu. Muito. Robin riu também, mesmo que a experiência tão tenha sido engraçada na hora. A vontade de rir era estranhamente leve e divertida. Ele balançou a cabeça e maravilhou-se com as duas mulheres que entraram em sua casa e viraram a de ponta cabeça de um jeito que não quisera nem esperara. Mas estava percebendo que não se importava tanto quanto pensara.
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