Notas iniciais
Mais um capítulo pra vcs, aproveitar as férias e vou postando :)

Mas não podia.

— Não vai funcionar. — Saiu do escritório e voltou à sala, ainda seguido por Regina. Deu uma volta ao redor da sala, juntando todas as coisas do bebê, e começou a jogá-las na cadeirinha. Levantou a cadeirinha cheia e entregou-a a Regina. Ela ignorou o gesto. — Estou... Ocupado. E essa é uma interrupção da qual não preciso.

Ela virou-se e caminhou, pensando, os quadris ainda movendo-se, enquanto a criança continuava fazendo estardalhaço.

— O que está escrevendo?

Surpreendeu-se com a mudança repentina de assunto.

— O que isso tem a ver?

— Só estou curiosa.

— Escrevo romances policiais. Suspense. Sabe pegar o cara mau e tudo mais.

Ela pegou um de seus livros da mesinha e virou-o.

— Uau. Esse é você? — Apontou para a foto publicitária de muitos anos atrás.

— É.

— Você não é feio.

— É. Impressionante o que um bom fotógrafo e um designer gráfico com experiência em um programa de edição podem fazer.

Ela riu.

— Não quis dizer isso. Você realmente é um homem bonito.

Já fora elogiado por mulheres antes, mas essa, uma fera determinada como nunca vira, bom, não esperava que dissesse algo legal sobre ele. As palavras deixaram-no meio envergonhado, algo que raramente sentia.

— Hum... Obrigado.

— Esses, caras são muito maus — disse ela, folheando o livro.

— É.

— Era de se esperar.

— Esperar o quê?

— Que você fosse tão ranzinza. Passa o dia todo aprisionado com o pior que o mundo tem a oferecer.

— Não estou aprisionado.

Ela arqueou as sobrancelhas, inclinou-se para frente.

— Quando foi à última vez que você foi ao parque?

— Parque? Que parque?

— Aquele virando a esquina, no fim da Rua Beacon

, bobo.

— Ela riu de seu olhar questionador. — Você realmente precisa sair mais.

— Temos um parque aqui perto?

— Claro que temos. Por isso que 90% das pessoas desse bairro moram aqui, porque é perfeito para famílias. Não é por isso que você comprou uma casa aqui?

— Hum... Não. Comprei porque meu irmão Peter disse que daria uma boa revenda... Peter — disse baixinho, o nome era quase uma maldição.

— O quê?

— Nada. Você gostaria de conhecê-lo. É um daqueles caras, tipo “finais felizes são para todos”.

— E você é um daqueles... — Olhou novamente para o livro. — “Ele a esganou até matá-la”?

— Exatamente — riu.

— Talvez seja por isso que você está com bloqueio. Precisa de ar fresco. Companhia.

— Não é um bloqueio. É... — A voz falhou. O estresse dos últimos meses e a frustração de mandar páginas ao editor que acabavam sendo rejeitadas acertou-o em cheio. Ele passou três meses preso em casa, longe dos amigos, da família, de todos, exceto da Sra. Belle, que trazia uma cesta de biscoitos de chocolate como solução para seu bloqueio. Bons biscoitos, mas infelizmente nada inspiradores.

— É mais... Uma obstrução. Minha escrita encontrou um obstáculo.

Tinha acabado de admitir aquilo? Para uma quase estranha? Raramente falava sobre trabalho, especialmente de sua falta de progresso.

A situação era muito embaraçosa. Ele, um autor de best-sellers do The New York Times, perdido e afundando cada vez mais num poço de má escrita, tão ruim que nem seu agente, que recebia 15% para opinar em tudo o que escrevia, podia engolir.

— Por quê?

Desabou numa poltrona, o peso da carreira, ou da atual falta dela, recaindo sobre seus ombros.

— Porque pareço ter uma incrível habilidade para escrever livros “sem emoção, superficiais”, parafraseando um dos críticos que avaliou meu primeiro livro. E essa foi à melhor coisa que disse.

— Bom, se há algo que tenho em abundância são sentimentos. — Regina riu. — Pena que você não pode ler minha mente. Daria muito que escrever.

— É pena. — Seu editor mencionara especificamente que seus personagens femininos eram os menos desenvolvidos.

Tinha que admitir evitava escrever profundamente sobre eles. Sobre um detetive esquentado, um policial exausto e um vilão sarcástico; escreveria até não poder mais. Mas uma mulher?

Passaria rápido por essas páginas, preferindo qualquer outro tipo de cena.

E sabia por quê. Não era muito bom com mulheres. Provara isso anos atrás com Marian, ao perdê-la.

Perdera tudo. Porque, quando a situação apertou, deixou-a ir. Talvez não tivesse realmente escolha, mas talvez tivesse.

De qualquer modo, não repetiria aquilo. Não desejava se aproximar de uma mulher novamente, nem para “ler sua mente”, como Regina dissera.

Acharia outro modo de terminar o livro, envolvendo-se menos.

— Sabe do que você precisa? — indagou Regina, interrompendo os pensamentos dele. — Do mesmo que eu.

O pensamento mais maluco passou pela cabeça dele naquele momento, quando olhou para aqueles olhos castanhos. O olhar de Robin

recaiu sobre aquelas curvas, e o desejo apoderou-se dele. Poderia não querer ler aquela mente ou envolver-se, mas fazia muito tempo desde que estivera com uma mulher, e cada fração de testosterona em seu corpo lembrava-o disso, insistentemente.

Do que precisava agora?

Um beijo. Quem sabe um pouco mais.

— Do que você está falando? — perguntou, afastando aqueles pensamentos.

— Uma pausa. — Ela sorriu. — Acho que nós dois gostaríamos de tomar um ar. Você está muito pálido.

— Obrigado. Bom saber que me acha tão atraente. Talvez devesse sair por aí com a foto do livro grudada no rosto.

Ela pausou, ruborizada.

— Eu não disse... Não quis dizer...

Regina estava confusa. Desejo corria pelas veias de Robin, tão rápido, tomando-o completamente de surpresa. Ele não tinha uma mulher em casa há muito tempo. De repente, aparecia essa e desequilibrava seu perfeito equilíbrio.

— Claro que não.

Então ela se recuperou, trazendo de volta o brilho aos olhos.

— Quis dizer que devemos ficar um pouco à toa. — Estendeu a mão. — Você topa Robin Hood?

Hesitou por um segundo, então segurou a mão dela, imaginando se estava fazendo a coisa certa. Quando a tocou, um choque elétrico percorreu seu braço. Algo que quase podia chamar de atração, se quisesse se sentir atraído por uma mulher. Uma mulher com uma filha, nada menos.

E isso significava que estava recebendo muito mais do que buscava. Algo que não estava preparado para receber, um bônus que não sabia se queria.

Regina era aparentemente uma profissional em piqueniques. Observou, maravilhado, enquanto ela andava pela cozinha, colocando o bebê no carrinho, junto com o que pareciam suprimentos para um ano numa bolsa. Vasculhara sua geladeira procurando ingredientes para um jantar tardio e guardou-os num cooler que resgatara da garagem.

No último minuto, apesar do mantra sobre precisar de uma pausa, ela resolveu levar sua agenda, o bloco de anotações e o celular que nunca parava. Mesmo enquanto saíam da casa e viravam a esquina em direção ao parque, ela discutia com alguém sobre realçar os traços faciais ou algo assim, fazendo-o empurrar a criança.

Robin se sentia como o pai desse trio, nada parecido com o que pretendia quando concordou com a expedição. O carrinho rosa seguia pela calçada, com a criança arrulhando feliz, enquanto os vizinhos sorriam e acenavam para eles, como se fossem só outra família indo ao parque.

Assim que Regina terminou a ligação, deu o carrinho para ela.

— Você empurra. É sua filha, afinal.

— Você é a babá. — Ela sorriu sarcástica. Raios de sol refletiam naquele corpo delicado. Abaixo dele, a criança cantava ba-ba-ba interminavelmente. — Só estou aqui para ter certeza de que você não vai trapacear e dar meia-volta em cinco minutos.

— Olha quem fala.

— Do que você está falando?

Robin apontou na direção do telefone celular dela.

— Você deve ter grudado esse celular na mão. Achei que havíamos combinado que íamos ficar à toa.

— Nós vamos, quando chegarmos ao parque. É logo ali.

— Você apelou para um detalhe técnico, Srta. Mills — bufou.

— Não é um detalhe técnico, é a realidade. Ainda tenho alguns detalhes para resolver até o fim do dia. Se não trabalhar, não pago o aluguel. Se não pago o aluguel, Sabrina e eu ficamos sem teto...

— Pensei que eu era o escritor de ficção. Você pode tomar meia hora de seu tempo para ir ao parque. E você sabe.

Ela abriu a boca para protestar. Fechou novamente. Fitou-o, finalmente desligou o telefone e guardou-o no fundo da bolsa.

— Trinta minutos. Mais do que isso e a empresa vai mandar uma patrulha.

Riu.

— Não estou brincando.

— Sou feliz por não ter um trabalho de verdade. Não acho que aguentaria um chefe em meu pescoço assim.

— Eu daria tudo para trabalhar em casa todo dia, como você. Mas, em minha área, é impossível. — Suspirou.

— Então por que trabalha nessa área?

Ela estremeceu.

— Eu meio que... Caí nela. Conheci Daniel, ele precisava de uma assistente e me contratou. Fiquei, fui promovida e aqui estou trabalhando milhões de horas por semana.

Daniel. O nome chamou sua atenção. Será que era o pai desaparecido do bebê? Ou outro alguém? Queria perguntar, mas resolveu que não era de sua conta. Estava aqui por alguns dias no máximo, para ajudá-la, depois voltaria para sua vida privada, antissocial. Era só isso.

Quando entraram no parque, havia crianças por todo lado, escalando os brinquedos, nos balanços, correndo pelo gramado, fugindo uns dos outros pelas árvores. Brincando no banco de areia gigante. Espalhadas pela área estavam às mães, conversando e dando abraços e lanches quando necessário.

Parecia ser o único homem. Não poderia ter se sentido mais fora do lugar se estivesse numa loja de lingerie.

— Vamos ficar ali — disse Regina, apontando para um pequeno banco embaixo de um carvalho. — Há sombra.

O bebê dormia no carrinho, e Regina sentou. Robin sentou-se ao lado dela, sem conseguir parar de pensar que parecia uma família passeando.

— Vai colocá-la no balanço ou algo assim? — Perguntou ele. Qualquer desculpa para levantar, mover-se.

— Ela é muito pequena para os balanços daqui, não há nenhum para bebês. Talvez eu a leve no escorregador depois, se as crianças grandes saírem. De qualquer jeito, Bri gosta de passear. Eu também. — Regina olhou para cima. Os raios que passavam por entre as folhas tocavam sua pele como joias douradas. — Vamos aproveitar um pouco antes de comer. Você pode aproveitar para relaxar também.

— Sim. Hum... É, relaxar. — Fácil falar, mas difícil fazer quando percebeu o quanto reparava nela.

Era linda. Quase... Luminescente.

Repreendeu-se. O que estava fazendo? Utilizando vocabulário requintado? Precisava sair mais mesmo.

Apoiou um braço no banco, trocou de posição. Apoiou o calcanhar no joelho oposto.

Soltou o pé novamente. Girou o quadril. Percebeu que estar confortável ao lado de uma mulher bonita como Regina não era possível.

— Não sou um cara muito de sentar em bancos de parque.

Ela fechou os olhos, apoiou a cabeça nas costas do banco, a expressão facial serena como um lago no verão.

— Então que tipo de cara é você? — perguntou, com a voz preguiçosa, baixa.

O tipo que queria beijá-la agora. Que queria absorver só um pouco do que quer que fosse que ela encontrara aquela paz, aquela doçura.

Definitivamente, estava trabalhando demais. Ficando, como ela dissera; aprisionado por muito tempo.

Inclinou-se, observando aquele rosto. Levantou a mão, a uns centímetros daquela pele, tão perto que podia sentir o calor emanando dela, o perfume de maça, mas não perto o bastante para tocá-la.

Aqueles olhos abriram-se, e ela se levantou num salto, diminuindo a distância entre eles.

— O que está fazendo?

— Hum... — O que diria? Como explicaria? — Nada.

Então se apoiou no banco novamente, antes que sucumbisse às suas loucas ideias, causadas por muito sol.

E pouco bom senso.