— Bom. E traga suas anotações sobre o astro do futebol. Temos que repassar as reuniões da manhã. Parece que ninguém entendeu claramente o que eu queria. Precisamos repassar todo o programa. — Passou a mão no cabelo castanho. Um homem alto e com ternos que chamavam atenção, Killian tinha aquele olhar perpétuo de estresse, não importa o que fazia ou que horas eram. — Talvez você possa fazer todo mundo entender. Traduzir meu falatório em algo que o restante daqueles idiotas entenda. Vou te contar, é como trabalhar com um bando de macacos.

Ficou tentada a contar para Killian que era menos sobre idiotas e mais sobre a insistência dele em prender a equipe em consecutivas reuniões improdutivas.

— Killian, talvez, se você não fizesse tantas reuniões...

— Regina, reuniões são essenciais. Nelas nascem às melhores ideias. Ou nasceriam, se eu empregasse pessoas que possuíssem as células cerebrais de produção de ideias. Por isso, preciso de você. Você é meu braço direito. Juro, isso aqui não funcionaria sem você.

— Você não precisa de milhões de reuniões por semana para funcionar, Killian.

Ele balançou a cabeça, recusando-se a responder. Começou a sair, mas depois voltou.

— Ah, Regina, preciso que crie um script esta tarde. Preciso dele em minha mesa amanhã de manhã, sem falta.

— Criar um script? Hoje?

— É. Sabe aquele chef celebridade, o do novo livro? Aparentemente ele não sabe fazer nada além de cozinhar e ler. Então preciso que escreva algo que o faça soar e parecer inteligente e divertido. — Killian sorriu. — Sei que você consegue Regina. Você é minha faz-tudo. Vamos para a reunião.

Regina apoiou a cabeça na mesa. Não conseguiria sair mais cedo. Mesmo que Killian não estivesse lá para vigiá-la, agora tinha trabalho suficiente para preencher o restante do dia.

Cada vez que achava que teria tempo para si...

Evaporava como água no asfalto quente. Como odiava esse trabalho. Mas, se pedisse demissão, como sustentaria Bri? Onde mais trabalharia? Qualquer outro trabalho na televisão seria tão puxado quanto esse. Suspirou, apanhou o telefone e ligou para Robin novamente.

Quando ele atendeu, a primeira coisa que ouviu foi o choro alto de Sabrina, enchendo o telefone. Seu coração disparou, o instinto materno acordou dentro dela, dizendo-a para ir até a filha...

— Está tudo bem?

— Está. Ela está chorando. Tenho que ir.

— Não, espera. Ela está molhada? Está com fome?

Robin expirou, exasperado.

— Não sei ainda. Por isso estou tentando desligar o telefone para descobrir. Agora você vai me deixar fazer isso ou não?

Deixar Robin segurar Sabrina, acalmá-la. O trabalho que ela, como mãe, deveria estar fazendo, em vez de ir para outra reunião estúpida e inútil.

Regina tinha escolha? Killian acreditava que ela pensaria em algo fabuloso nos próximos três minutos. E agora, em seu bloquinho, sua ideia de fabuloso era um monte de letras “R”.

— Espere — disse ela, antes que Robin pudesse desligar.

Outra expiração exasperada.

— O quê? A criança está chorando aqui, sabe.

O nó de tensão que crescia dentro dela dizia que essa combinação com Robin não funcionaria. Longe de Sabrina. Sentindo mais falta de seu bebê a cada dia, do perfume, da sensação dela em seus braços, uma dor que se recusava a parar. Sua mente fabricava mil imagens de Robin caindo no sono, deixando o fogão aceso, esquecendo Sabrina no parque...

— Tenho uma ideia — disse ela, sabendo, enquanto falava que não havia jeito dê funcionar, pelo menos, para seu coração. Para o bolso era outra história. — Prometo você vai amar.

— Isso foi o que minha mãe disse quando me inscreveu nas aulas de dança de salão quando eu tinha 10 anos. E posso dizer, por experiência própria, que “Eu tenho uma ideia” e “você vai amar” nem sempre funcionam juntas para mim.

Quando Regina chegou, ele já havia se rendido. A criança, que originalmente acalmava-se com um olhar, agora queria que fizesse a única coisa que não faria.

Segurá-la.

Poderia dar comida, trocar a fralda, fazê-la deitar para um cochilo, pegá-la momentaneamente, só o bastante para colocá-la novamente no chão ou na cadeirinha.

Mas caminhar com ela no ombro? Não fazia parte da descrição do trabalho. E não era algo que ele, entre todas as pessoas, deveria estar fazendo. Primeiro, tinha um histórico de ser estabanado com crianças. Sua mãe não o apelidou de “Robin Derrubão” à toa. Além disso, ele e bebês não... Criavam laços.

Mas era mais que isso. Muito mais. Uma história na qual não gostava de pensar...

E não pensaria.

Era um trabalho temporário que aceitou num momento de clara fraqueza emocional, o que significava que não estava prestes a tentar mudar seus costumes. E não precisava.

Antes que percebesse, a coisa toda teria terminado.

Estava sentado na poltrona, embalando a cadeirinha de Sabrina com o pé. Bri tinha a chupeta na boca, mas ainda conseguia choramingar. Mentalmente, ele rezava para que Sabrina desistisse e voltasse a dormir.

Então a campainha tocou e, ele ouviu batidas.

— Robin? É Regina.

Sua salvação chegara.

Abriu a porta e deixou-a entrar.

— Finalmente. Ela sentiu saudade. — Na verdade, ele provavelmente sentira mais saudade, estritamente no sentido de “pegue essa criança de volta”, claro.

Regina sorriu. Um sorriso que atingia suas entranhas e quase o deixava com inveja. Será que alguém já o olhara assim? Já ficara tão feliz ao vê-lo no fim do dia?

Ela passou por ele, foi direto á cadeirinha, desafivelou o cinto da criança e pegou-a no colo. Um segundo depois, estava com Sabrina contra o peito, caminhando em círculos novamente, acalmando-há. Um pouco.

— Você está pronta? Se estiver, vou voltar ao trabalho. — Deu a bolsa com as fraldas para Regina, praticamente jogando-a em seu ombro.

— Espere. Você nem ouviu minha ideia. Lembra? Eu mencionei ao telefone?

— Conte-me depois. — Começou a andar em direção ao escritório. — Você está aqui. Meu turno acabou. — Certo, eram só três da tarde, provavelmente muito cedo para seu turno ter acabado, mas Regina estava ali, e isso era o bastante.

Havia terminado. No que esteve pensando? Tentando cuidar de um bebê, dentre todas as coisas? Não podia fazer isso. Não devia.

Durante o dia todo, tentou se convencer de que podia manter distância. Não ser enfeitiçado por aqueles olhos azuis e aquele sorriso desdentado. Que estar com essa criança não abriria aquelas, portas que se esforçara tanto para fechar.

Estava errado.

Agora queria desistir. Ficar longe. O mais rápido possível.

Caminhou para o andar de cima, mas Regina o seguiu como se morasse ali. Direto para seu escritório. Novamente.

— Tecnicamente, você não terminou ainda. Ainda preciso de uma babá porque ainda estou trabalhando. Só troquei... De lugar.

Pela primeira vez desde que ela chegou, notou a bolsa de couro pendurada em seu ombro. Papéis saindo de todos os bolsos.

— O que quer dizer com “troquei de lugar”?

— Tinha que sair de lá. Meu chefe estava me enlouquecendo. Mas me preocupar com Bri estava me enlouquecendo ainda mais. Quando meu chefe saiu para jogar golfe, percebi que podia sair mais cedo, sem ninguém sentir minha falta, então pensei que talvez...

— Talvez o quê?

— Talvez pudesse passar o resto do dia aqui. Com você e Sabrina.

— Comigo. E o bebê. — Não eram perguntas.

— Como ainda tenho que trabalhar e tenho certeza de que você quer escrever um pouco, então pensei que poderíamos trabalhar juntos. Seria o melhor para todos, não acha?

— Com você. E ela aqui.

— Você mencionou que estava bloqueado para escrever, certo? Algum tipo de bloqueio artístico? Talvez uma companhia lhe inspire.

— Isso tudo é porque você não confia em mim, não é?

— Não é isso. É... — O bebê choramingou e, instintivamente, o corpo de Regina começou a balançar, movendo os quadris facilmente, como se tivesse um conhecimento interior que ele não tinha.

Não conseguia tirar os olhos dela. O movimento era tão natural, tão feminino, e mexia com algo dentro dele, algo quase primitivo.

Engoliu em seco. Achou que poderia fazer isso, enquanto tirava sua cabeça do fato de que seu livro não estava indo tão bem.