Duas princesas, uma seleção
2 Capítulo II
Notas iniciais
AMBER
As batidas na porta me despertam. Olho para o relógio, são 10 horas. Sussurro um palavrão bem baixo. Não sou autorizada a falar essas palavras, mas pouco me importa. Obviamente, não falo na frente de meus pais e minha irmã, isso dificultaria ainda mais a minha vida de princesa perfeita, só que não.
Vou até a porta e a abro. Suspiro aliviada ao perceber que são minhas criadas. Antes elas do que minha mãe, penso. Elas adentram rapidamente e eu tranco a porta. Ignoro suas perguntas, pelo simples fato de que acabei de acordar e não tenho essa capacidade de conversar logo pela manhã.
Não sou dessas princesas perfeitas, que se preocupam ao extremo com sua aparência, e é delicada com todos. Sou legal com você se você for legal comigo. Esse é o meu lema e o que define as minhas atitudes. Com respeito as minhas criadas, nunca as tratei mal. Elas são minhas confidentes, mas eu ao menos sei os seus nomes. Podem me julgar, mas sou péssima para gravar nomes.
Dez minutos. Esse foi o tempo que levei para me banhar e vestir os vestidos bufantes feitos sob medida. O corpete apertava minha cintura e não me deixava respirar. Às vezes me sentia como uma bonequinha nas mãos de uma menina de 7 anos. Mesmo com todos esses problemas, o sorriso era notável em minha face. Independente do que estiver sentindo, levante-se, sorria e saia para brilhar. Uma frase perfeita, de um escritor perfeito.
Segui o curso até a sala de jantar, onde eram servidas as refeições. Não havia sinal de minha família. Fui atrás de meu pai, em seu escritório. O local estava bagunçado, cheio de mapas e pontos vermelhos, mas ele estava completamente vazio. Não pude negar minha curiosidade e resolvi dar uma olhada. O mapa era referente às duas ilhas que cercaram Illéa, cujas ambas estavam com vários pontos vermelhos. Ao lado os mapas estavam os currículos dos participantes da Seleção, todos os príncipes de diversas partes dos países. Talvez ele estivesse tentando fazer algum acordo com as ilhas e com os respectivos príncipes das mesmas. Não sei ao certo, mas acho que como herdeira do trono — não apenas eu, mas minha irmã também -, tinha o direito de saber sobre qualquer plano que diga respeito a minha nação. Conversaríamos sobre isso mais tarde. Saí de seu escritório e fui para o Salão das mulheres, local habitado por minha mãe e Serena. Mamãe estava lendo alguns formulários, e minha irmã praticando o violino. Passei rapidamente pela porta e me sentei no sofá, esperando que minha mãe não notasse que havia chegado agora.
– Onde estava?
Droga, penso. Porque ela não poderia estar prestando atenção nos papeis?
– Perdão, mas perdi a hora e tomei meu café um pouco tarde.
Recebi um pequeno sermão de que uma princesa nunca deveria se atrasar para seus compromissos, mas dei de ombros. Minha irmã olhou para mim e eu fui para perto dela.
– Onde você estava? — sussurrou, indo para perto da janela, nosso local preferido.
– Estava ocupada. O que ela está fazendo? – perguntei enquanto encarava minha mãe.
– Alguma coisa relacionada à recepção de hoje a noite para os selecionados.
– E o que você descobriu?
– Amber, são apenas garotos.
Realmente, acho que Serena não vai aprovar essa Seleção. Com certeza no primeiro dia mandará alguns para casa, mas ela tem de ter a minha aprovação para eliminá-los. Por isso fico meio reciosa, mas pergunto:
– Ao menos são bonitos?
Ela me olha com ar severo. Ela é Serena e pouco se importa com esses príncipes babacas. Acho melhor começar a se importar irmãzinha. A competição por seu coração começa quando adentrarem por aquela porta nesta noite.
A manhã percorre devagar e chega a tão sonhada hora do almoço. Pode me julgar, mas eu realmente sou muito indecisa quando a sobremesa. Meu pai não comparece ao almoço, portanto começamos a comer sem ele estar presente.
– O papai não virá almoçar conosco?
– Ele está atarefado e comerá no escritório.
Silêncio. Talvez todas estivessem nervosas com a chegada dos príncipes.
A tarde se passa lentamente. Fico em meus aposentos terminando o relatório sobre o livro que li ontem. Minha mãe nos obriga a fazer isso. Normalmente, eu peço para minha irmã fazer para mim e em troca eu realizo algumas de suas vontades. Mas o livro em questão era Shakespeare, e eu amo seus livros.
Ouço duas batidas apressadas em minha porta e em menos de cinco segundos um furacão loiro adentra em meu quarto.
– Desculpe entrar em seus aposentos dessa maneira... – ela diz formalmente. – Mas tem algo que você necessita notar.
– Poupe-me de suas formalidades senhorita. – digo entrando no seu jogo. Porque somos princesas e devemos ser formais com todos até mesmo com nós mesmos. Mas foda-se porque ela é a minha irmã e falo com ela da maneira que eu preferir. – O que foi?
Ela se senta perto de mim. Até mesmo nisso ela consegue ser uma dama. É tão formal que até irrita.
– Note isto, Amber. – ela aponta para alguns papeis. – Isso está me preocupando.
– A princesa Serena não agüenta um pouco de aventura? – digo, sorrindo. – Isso me parece um desafio.
– Não. – ela me corta. – Nada de desafios. Principalmente hoje. Eu estou completamente nervosa e preciso relaxar. – ela começa a se afastar de meu quarto. Que droga, porque nunca posso me divertir? Claro, um desafio em plena seleção é diferente, mas depois dessas informações, o vilarejo me parece um tanto quanto interessante.
– Serena. Pode me emprestar sua calça de cavalgar?
– Claro. – ela sorri.
Levo alguns minutos para abotoar me aprontar e colocar minha calça – na verdade a da minha irmã -, e saio devagar. Desço os degraus rapidamente, tentando não fazer tanto barulho, porém é quase impossível. Subo em meu cavalo e o comando rapidamente. Meu cabelo ao vento me da uma sensação de liberdade, e é um dos únicos momentos em que posso esvaziar minha mente. Principalmente com esse negócio de Seleção. Posso me apaixonar por qualquer um dos trinta e cinco homens e eles podem se apaixonar por mim. Me chame de sensível, mas acho que não seria capaz de partir o coração de alguém. Eu realmente estou um tanto quanto ansiosa, do mesmo modo que eu desejaria que isto não estivesse acontecendo. Pois a pressão é maior e querendo ou não, você esta numa competição com a sua irmã. Você estará lutando com a pessoa com quem dividiu metade da sua vida, e tudo isso por garotos. É muita futilidade.
Ela sempre foi a mais inteligente e com certeza vai conquistar todos que a verem. Ela é perfeita. Gostaria de ser um tanto quanto ela. Claro, ela é meio fria, porém forte e determinada.
Escapo de meus devaneios quando chegou perto da fronteira. O espaço que foi construído para separar a família real do povo da cidade. Se eu fosse rainha, demoliria isso. O povo tem de ser unido e feliz. E eu gostaria de ter uma participação real nisso.
Nunca ajudo em nada. Eles meio que ignoram qualquer idéia ou dica ou até mesmo sugestões que as princesas dão.
Não é culpa deles, e sim da sociedade que somos criadas.
Crianças não sabem de nada – mesmo sabendo que não somos crianças, sabemos discernir o certo do errado e outras coisas mais complexas -, e não devemos as deixar interferir em assuntos de tamanha importância.
Logo meus pais passaram o trono para uma de nós duas e essa será uma decisão difícil. Será uma responsabilidade enorme e não torço por mim. Acho que minha irmã sempre teve uma característica melhor para governar do que eu mesma. Sou muito desorganizada. Não consigo cuidar nem mesmo de meu peixe, quem dirá de um país.
O mesmo se dá com os pontos vermelhos. Não sei o que significa, mas meu pai não deve ter nos contado por saber que não estamos prontas para tamanha seriedade.
Os guardas vêm a minha procura, e me levam de volta para o castelo.
– A senhorita e sua irmã não poderão mais ficar fora do palácio, ordem do Rei.
Sorrio e sigo de volta para dentro e ao chegar ao meu aposento, minhas serviçais estão a minha espera. Elas preparam meu banho e sem nenhuma cerimônia, me preparam para o jantar.
– O jantar será servido no quarto. – informa a mais alta. – Seus pais estão ocupados e tem a chegada dos príncipes, e só poderão se conhecer amanhã, como foi combinado.
– Sem problemas, é apenas um jantar. – sorrio casualmente e recebo sorrisos como resposta. Se o plano de meu pai era me deixar isolada até o dia seguinte, não há nenhum problema.
Nunca me senti feliz aqui neste palácio. Claro tem muitas coisas atrativas – como jóias, bailes, vestidos e o tão sonhado conto de fadas -, mas é tudo tão sem sal. Cinza. Sem emoções. Você não se machuca e não pode aprender de seus erros. Nunca poder “quebrar a cara”. Nunca poder viver de verdade. Acho que esses garotos poderão trazer um pouco de vida para o palácio.
Passei o resto da tardinha aguardando o jantar ser servido em meu quarto e ouvindo as músicas que tocavam no meu Ipod. Olhei para meu pulso, sempre quis fazer uma tatuagem. Mas minha mãe nunca deixaria. Seria contra as inúmeras exigências de ser da realeza. Então, como predito, não sou a mais aconselhada para assumir o trono. Mas para assumi-lo, necessitasse de um rei. Acredito que minha irmã não será capaz de escolher um dos garotos, portanto teremos um pequeno problema neste quesito. Mas não podemos viver nem o passado e nem o futuro. Somente o presente, que já se parece confuso.
Ouço barulhos de carros e olho para a janela. As luzes do jardim acesas e os carros chegando. Homens distantes e desconhecidos saem dos veículos e adentram para o palácio. Confesso que são bem bonitos. Então é isso, a Seleção começou. O meu jantar chega e na verdade, não estou com fome. Mas forço-me a comer antes que comecem a implicar comigo. Odeio quando fazem isso. A comida esta deliciosa como sempre, e logo me apronto para dormir. Terei um dia e tanto amanhã. Deito-me em minha cama e as luzes são apagadas pelas criadas, que me desejam uma boa noite. Acham mesmo que eu conseguiria dormir? Ingênuas. Aguardo elas saírem e saio de meu quarto, descalça e sem fazer nem mesmo um barulho se quer. O salão esta lotado de repórteres. E logo noto os selecionados, assustados por estarem tirando foto deles. Dou uma risada baixa. Até que eles são bonitos.
– Espiando bastante? – pergunta um rapaz que logo faz uma reverência.
Assusto-me um pouco ao vê-lo, e com certeza ele sabe quem eu sou. Sou uma das princesas que ele terá que conquistar.
– Eu não deveria estar aqui.
– É tentador. Um monte de desconhecidos em sua casa. Imagino que deve ser estranho. Mas não se preocupe não direi nada a ninguém. – ele sorri. Sua fala me faz pisar nas nuvens e se todos forem deste jeito, estou começando a gostar dessa competição. – Perdoe-me, esqueci de me apresentar. Sou Daniel Sant’Germain, príncipe da Irlândia. – o loiro beijou minha mão, o que me fez suspirar internamente. Ele era tão romântico. Senti vontade de beijá-lo sem nem mesmo conhece-lo corretamente. Só então pude perceber seus olhos verdes, onde me perdi inteiramente.
– Sou Amber.
– Eu sei disso. Acho que deveríamos nos conhecer somente amanhã, então podemos fingir que isso ainda não aconteceu.
– Não se preocupe não direi a ninguém. Além do mais, a culpa é minha. Eu deveria estar em meus aposentos.
– Seria uma honra fazer companhia para a senhoria em seu dormitório. – ele diz e eu rio. Sabemos onde isso levaria, mas vamos deixar para um pouco mais tarde. Acabamos de nos conhecer. – Boa noite, Amber.
Saio sem mais cerimônias para meu quarto, evitando me encontrar com mais algum outro príncipe. Mas totalmente feliz por ter conhecido Daniel. Ele foi realmente muito gentil – e um pouco abusado, mas deixemos isso de lado, porque uma hora ou outra irá acontecer. E se for com alguém como Daniel, será perfeito.
Em baixo dos edredons começo a rir. Por ter conhecido um dos selecionados e por ele querer estar de baixo das cobertas comigo. Nunca pensei nessas coisas, mas acho que me divertiria se ele estivesse comigo neste momento. Aquele sorriso não sai da minha mente e eu espero poder sonhar com ele. E mal vejo a hora de vê-lo no café da manhã e mais outros trinta e quatro, que devem ser tão lindos quanto o dele.
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