Notas iniciais
gente socorro mE DESUCLPEM A SINOPSE HORROROSA. eu total não consegui pensar nada melhor pra essa historia grrr

enfim, enfim, espero que ces gostem desse textinho. ele surgiu da minha necessidade de escrever um romance entre duas mulheres sem dramas ou drogas ou gente morrendo KJHSAFKJ

abraços ^-^

Na primeira vez em que ficamos sozinhas, estava escuro. O sol tinha acabado de se pôr. Tínhamos doze anos. Quase treze. Nitarle é um mês mais jovem do que eu. Exatamente um mês. Eu nasci vinte e cinco de junho, ela vinte e cinco de julho, o que me torna uma canceriana deslocada e a torna uma leonina que faz todas as luzes se apagarem quando entra em algum lugar.

Eu podia ouvir a sua respiração ofegante ao meu lado. Acabamos nos escondendo atrás do mesmo Celta preto na brincadeira de esconde-esconde.

— Ele não vai nos achar aqui. — ela disse, para a minha surpresa. Eu estava esperando apenas o silêncio. — É longe demais.

E era mesmo.

Nitarle se ajoelhou ao meu lado. Perto demais. Lembro desse exato pensamento ter me ocorrido: perto demais. Acho que fiquei um pouco assustada. Contato humano não era muito o meu forte. Ela sempre foi o tipo de garota que olha nos olhos de quem quer que esteja conversando, mesmo com aquela idade, o que sempre me pareceu um tanto intimidador, mas também admirável. Não consigo dizer de uma vez sequer que ela abaixou o rosto para alguém. Eu, naquela época, ainda precisava me esforçar para não gaguejar em algum diálogo.

E, bem, mesmo ainda não tendo entrado direito na adolescência, ela era bonita. Não parecia mais uma criança — ao menos não nos meus olhos de doze anos —, parecia uma legítima adolescente, ou qualquer coisa acima de mim. Qualquer coisa melhor que eu. Qualquer coisa que poderia muito bem se encaixar comigo, mas que eu certamente não merecia. Os cachinhos do cabelo dela sempre me pareceram perfeitamente alinhados para eu enrolar meus dedos ali. Seus dedos tinham o exato formato para se encaixarem com os meus. A curva de sua cintura era linda e parecia pedir para que eu repousasse a mão ali. Até mesmo o ralado do seu joelho esquerdo era perfeito: eu poderia fazer um curativo e depois dar um beijinho de boa sorte.

Ficamos em silêncio por um tempo — quase como eu esperava —, comigo gritando em minha mente sobre ser burra demais por não ter procurado outro lugar para me esconder assim que a vi ali, porque era simplesmente constrangedor demais estar ao lado dela e não ter nada para falar.

Éramos de cidades diferentes, nessa ocasião. Cidades diferentes e absurdamente pequenas. Nossos pais foram melhores amigos na faculdade, então nos víamos com certa frequência, mas não muita. Nunca fomos próximas. Ela nunca me pareceu alguém que gostaria de estar perto de mim. Não até esse dia.

O aniversário do meu irmão era motivo suficiente para Nitarle e seus pais virem para a cidade. Agradeço por isso.

Eu estava achando que o silêncio nunca ia acabar, mas então ela tocou no meu ombro. Olhei para ela e minha cabeça simplesmente não funcionava direito.

— Duvido que me beije. — Nitarle disse.

Eu pisquei, confusa demais. Foi o tipo de coisa que acontece tão rápido e tão inesperadamente, mas que é tão incrível de ouvir que você não consegue não se perguntar se caiu no sono em meio segundo e não se deu conta disso.

Eu balbuciei, na minha voz mais patética:

— O quê?

Ela repetiu.

Houve um momento de tensão.

Eu podia jurar que ela estava tensa, não apenas eu.

Talvez ela estivesse mesmo duvidando que eu era covarde demais para não beijá-la, mas, bem, eu nunca gostei de não cumprir um desafio. Eu podia ser lerda, mas não era burra.

Relembrando agora, consigo entender o quão errado aquele beijo foi em sentidos de técnica, porque não havia nenhuma, mas a sua mão ainda estava em meu ombro quando sorriu depois. Acredito que é o que importa.

Ainda me vejo, mais tarde, naquele dia, em meu quarto, tocando meus lábios e me perguntando o que é que havia acontecido e o que aquilo significava.

Quando penso nisso, gostaria de ter uma máquina do tempo e dizer para mim mesma que isso não significa necessariamente coisas ruins. Eu estava assustada quando comecei a pensar na significação da coisa toda. Acho que me faltava informação demais. Mantive, então, tudo dentro de mim por um bom tempo.

Nós só fomos nos ver novamente quando tínhamos quatorze anos. Seus pais estavam se mudando. Meus pais os ajudariam com a mudança. Dali em diante seria apenas quatro quadras de distância da minha casa e da de Nitarle.

Eu estava em meu quarto, ajeitando os livros em minha estante por ordem alfabética do nome do autor, porque eu era muito organizada, mas do meu jeito. Gostava de apenas eu saber onde é que as coisas estavam. Talvez por isso Nitarle me deixava tão eufórica: nunca dava para dizer onde é que a mente dela estava, o que é que ela faria em seguida.

Dom Casmurro estava em minha mão quando Nitarle entrou pela porta. Ela não sorriu para mim, mas seus lábios se curvaram e me pareceu que ela estava reprimindo um sorriso.

Ou possivelmente eu esteja inventando isso agora.

— Nós vamos ser colegas de escola. — ela disse.

— Eu ouvi. — respondi, então quis bater em mim mesma por dar uma resposta tão imbecil, mas ela não pareceu se importar. Agiu como se eu nem tivesse falado nada.

Nitarle se aproximou de mim. Gosto de como o nome dela soa. Ni-tar-le. Combina com ela: único e nunca consegui encontrar o significado, então precisei criar um.

Nós conseguíamos ouvir nossos pais conversando na sala, então eu meio que estremeci de estar ali sozinha com ela enquanto eles estavam tão próximos. A imagem dela me beijando me ocorreu, então a fiz sumir de minha mente com um esforço terrível.

(É sempre terrível me forçar a não pensar nela. Não funciona.)

— Sua mãe disse que você é uma boa aluna. — ela falou. Minhas bochechas provavelmente ficaram vermelhas. — Você vai me ajudar? Eu sou péssima na escola. Preciso de ajuda. Principalmente em matemática. Você é boa em matemática?

— Ah. — eu não conseguia entender onde é que Nitarle queria chegar, porque ela parecia estar falando sobre duas, três, quatro coisas ao mesmo tempo e era simplesmente insano e tentador. — Claro. Eu posso te ajudar.

Ela ficou ainda mais próxima de mim e se encostou na minha estante. Meu pai a construiu. Perdi as contas de quantos livros tenho quando passei dos duzentos. Palavras escritas sempre foram mais fáceis pra mim, o que é notável, considerando que naquele momento tudo o que eu conseguia era pensar no que os protagonistas faziam nos livros quando estavam interagindo com alguém como aquela garota.

Não consegui formular um pensamento útil.

— Duvido que me beije de novo. — Nitarle disse, lentamente. Apertei o livro contra mim. Nesse momento, entendi que aquele pedido dizia muito sobre a personalidade dela. — Melhor, dessa vez.

E aí estavam minhas bochechas ficando vermelhas novamente por culpa dela.

— Aquele foi meu primeiro. — tentei me defender, como uma criança. Soou patético. Quando é que eu iria parar de ser patética perto dela? — Eu não sabia o que fazer. E você me pegou de surpresa.

Não. — ela falou, um pouco rápido demais. — Tudo bem. A gente era criança ainda. Não falei que você beijou mal. Mas pode ser melhor, sabe?

Ela virou a cabeça de lado, olhando bem eu meus olhos. Quase dava para a ouvir dizendo “Faça, se quiser, porque não vou me mover”. Eu engoli em seco. O vestido branco curto que estava usando se contrastava de forma linda com a sua pele bronzeada. Estava de maquiagem, também. Descobri isso quando o gloss labial dela ficou em meus lábios.

Houve um breve momento em que lembrei de Lucca, o garoto estranho da minha classe que beijei duas vezes naquele período de tempo em que não vi Nitarle.

Beijar Lucca foi bom. Estranho, mas bom. Ele babava demais e as suas mãos eram atrapalhadas na minha cintura, mas mesmo assim eu gostei.

Beijar Nitarle era melhor.

Suas mãos estavam firmes em minha nuca. Nossos lábios se conectavam como rimas interpoladas de um poema: sabendo exatamente qual será o próximo verso.

Quando ela saiu do meu quarto, me perguntei se Bentinho se sentia daquela mesma forma com Capitu. Aqueles olhos. Acho que é isso que fez Bentinho enlouquecer: a incerteza que ele tanto via em Capitu.

Depois disso, eu meio que criei a expectativa de que nós nos víssemos mais vezes, mas não foi o que aconteceu.

Bem, eu via Nitarle quase todo dia porque estávamos estudando na mesma turma, mas eu não a via de verdade, sabe? Não sabia o que ela estava sentindo, qual era sua coisa favorita no momento, qual faculdade estava pensando em cursar. Não cheguei a ficar sozinha com ela por muito tempo, nem a ter de fato uma conversa decente, mesmo ela estava lá, em minha vida. Eu não conseguia ignorar sua presença, não conseguia fingir que não ouvia a sua risada ou a sua voz e minha mente se embaralhava com isso, ou que seu rosto e as curvas de seu corpo não me faziam rolar na cama por muitas noites.

O problema era que éramos diferentes demais. Nitarle era comunicativa, vibrante. Ela tinha muitos amigos e muitas amigas. Eu conseguia visualizar Nitarle em todas as festas que aconteciam naquela cidade, muito provavelmente segurando um copo de bebida na mão. Ela me parecia alguém que se divertia muito em festas. Eu não tinha mais dificuldades de me expressar verbalmente, mas também continuava na minha, relendo todos os livro do Machado de Assis e decorando todas as poesias do Caio Fernando Abreu.

Eu já tinha feito dezesseis quando ficamos sozinhas novamente. Ela ainda tinha quinze, mas faltava apenas alguns dias para seu aniversário. Não importa, de qualquer forma, sempre senti que Nitarle é quem é a mais velha, a mais experiente, a mais segura.

Era uma festa. Uma das primeiras que fui em minha adolescência. Eu a encontrei sozinha, no banheiro, chorando. Chorando muito. O tipo de choro que, se você vê em algum filme, acha feio. Ela tinha claramente esquecido de trancar a porta. Ninguém chora daquele jeito se pensa que alguém pode ver.

Teve aquele momento muito constrangedor em que eu a vi sentada no vaso sanitário, com a tampa abaixada, e ela me viu ali, de pé, com uma cara patética de choque.

Era, de fato, chocante. Os olhos dela estavam vermelhos, seus lábios tremendo.

— Você está bem? — eu perguntei. Uma pergunta boba, óbvio, mas é quase que protocolo oficial nessas situações.

— Feche a porta. — ela praticamente gritou.

Eu não entendi se Nitarle queria que eu saísse ou ficasse ali dentro, mas acabei optando por ficar.

Ela estava usando um vestido preto e colado no corpo nessa noite. Eu me lembro bem. Seus joelhos grudados um no outro faziam meu coração se acelerar.

— Você está bem? — eu repeti.

Ela piscou com força, provavelmente tentando parar de chorar, mas não fazendo nada a respeito de seu rosto molhado por lágrimas. Sua maquiagem estava um pouco borrada, mas continuava linda de qualquer forma.

— Você não acha que meninas são muito melhores do que meninos? — ela me perguntou, olhando bem para mim. Notei que não respondeu a minha pergunta. Ignorou, na verdade.

— Ah. — eu me sentia um pouco deslocada ali, usando all star, jeans e uma camisa xadrez de flanela. Ainda tinha um gosto tenebroso de vodca na minha boca, dos únicos três goles que bebi. Tinha planejado ficar bêbada, mas não dei conta. Só aquele pouco já fez um embrulho em meu estômago. — Eu não sei. Num geral? Acho que sim, mas não sei.

— Eu acho. Meninas são muito melhores. Nenhuma menina nunca tentou me beijar a força.

— Quem... Algum menino tentou te beijar a força?

Ela se levantou e desviou o olhar.

— Marcos é um babaca às vezes.

— Marcos... Seu namorado, certo? — eu podia não ser próxima dela, mas quando se mora em uma cidade pequena você meio que fica sabendo de tudo.

— Não mais. — ela respondeu.

Eu gostei da forma segura como ela disse aquilo, mas então algo me veio a mente.

Eu me apoiei na pia, nervosa.

— Ele fez alguma coisa? — engoli em seco, como se engolisse espinhos. — Com você, digo.

Nitarle me olhou.

— Não, ele só é babaca. — ela mordeu o lábio. A música alta estava abafada ali no banheiro. Tum, tum, tum. — Acho que eu gosto de meninas, sabe.

Não estava olhando para mim quando disse isso, o que era estranho. Ela sempre olhava para quem estivesse conversando.

— Meninas não são imbecis. — Nitarle continuou, então finalmente olhou para mim.

— Algumas são. — comentei. — Acho que não dá pra classificar uma classe inteira desse jeito.

Ela pensou um pouco.

— É, talvez você tenha razão.

Eu estralei um dos dedos de minha mão, uma coisa que fazia quando estava nervosa.

Cenas vieram a minha mente. Lembrei de Lucca e dos outros dois garotos que tiveram seus lábios pressionados contra os meus. Teve Letícia, também, porque eu precisava ter a certeza sobre todos aqueles sentimentos dentro de mim.

Gostei de todos.

— Acho que sou bissexual. — falei, erguendo o rosto.

Nitarle não pareceu se abalar.

— Por que nunca mais falou comigo, então?

Isso eu não esperava.

— O que quer dizer? Você é que nunca mais falou comigo.

Ela ergueu os braços para o alto, em um gesto exasperado.

— Eu tomei a iniciativa duas vezes, duas. E depois disso você nunca me procurou na escola. Eu achei que seríamos amigas, sabe? Você fala coisas interessantes. Não tenho nenhuma amiga ou amigo que fale as coisas que você fala.

— Eu... Eu meio que estava esperando você me procurar.

— Tudo tem que partir de mim, então?

— Eu não achei que você quisesse ser minha amiga.

— Bem, eu quero.

Passei a língua por meus lábios, tomando coragem.

— Duvido que me beije, então.

Nitarle também não gostava de não cumprir um desafio, afinal.

Escrevendo isso, lembro do nosso primeiro beijo e de todos os outros. Posso dizer que melhoramos muito a técnica.

A partir dessa noite, havia muitos lugares para nós. A sala de cinema, a biblioteca, o parque.

Todos os lugares eram nossos.

O meu quarto.

A primeira vez em que Nitarle esteve em meu quarto, a casa inteira era só para a gente. Seus dedos formavam desenhos em minhas costas. Meus dedos finalmente se enrolavam nos cachinhos do seu cabelo. Um sonho que eu podia, finalmente, cumprir.

— Duvido que me beije. — ela disse mais uma vez.

Eu nunca vou me cansar de ouvir isso.

Eu a beijei, então disse:

— Duvido que namore comigo.

— Duvido que tenha dois filhos comigo.

— Só dois?

— Três?

— Quatro.

Ela concordou.

Lembro da forma como ela murmurava meu nome lentamente, pronunciando cada sílaba com gosto. Lembro de desejar que aquilo tudo fosse eterno. Suas mãos me puxando para mais perto, seus olhos procurando pelos meus.

Nossas peles se tocaram e formaram um lindo quebra-cabeça. Sua boca se chocou contra a minha e ela disse, suavemente:

— Duvido que passe o resto da vida comigo.

E, como todas as outras coisas que Nitarle duvidou que eu fizesse, precisei mostrar que ela estava errada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!