Du Ferme
3 Capítulo O3
Mabel a fitava. Longe de ser como Marc querendo expulsar a menina de casa. Olhava para filha a beira dos 23 anos como uma criança em seu colo e a idéia de lhe falar para sair daquilo lhe doía. Mas sabia que não podia prendê-la ali para sempre acomodando sua dor.
– E para ser sincera, também acho que seu pai não vai colocar roupas mesmo. — Acrescentou ao final de tudo que tinha dito.
Olliver apareceu na porta.
–Não mesmo! Se eu fosse você não descia. Irá se poupar de um grande trauma. Falo sério.
A irmã sorri e abre os braços para que o irmão que quase do seu tamanho, se encaixe em seus braços.
– Obrigada mãe. Mas amanhã voltarei ao meu apartamento e retomarei de onde parei. Mas entendi o que falou, vou ficar bem ok? E Olliver, espero sua aprovação da faculdade no final do ano. Não quero ficar sozinha muito tempo. Só não me venha com essa idéia de levar aquele felino fedido de novo!
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Já fazia uma semana que ela estava casa dos pais e aquilo estava a levando seriamente a loucura.
– Eu odeio aquele Jacques! Ele se acha trés bom! — Disse Olliver reclamando do vizinho que tinha “pego sua garota”. É, essa família não era exatamente a mais sortudo em relacionamentos.
– Ninguém é tão importante assim. As pessoas comem, cagam e trepam exatamente como você. Bom, talvez não exatamente como você. Você tem problemas no estômago. E é virgem. Bem... você me entendeu.
Bellis e Mabel riram um pouco. Anabelle olhou para o pai e se sentiu grata por um momento, ele foi realmente uma peça importante para que não ficasse tão deprimida jogada em seus pensamentos sobre aquele episódio com Dion. O velho sabia mesmo lhe arrancar sorriso mesmo em situações complicadas.
Como logo na primeira semana, que Anabelle deixou cair o faqueiro da bancada da cozinha acertando toda sua perna. Seu pai, infelizmente, apareceu na mesma hora pela porta do lugar lhe dando uma grande bronca avisando-a que era bom ela não se matar que ele não ia gastar dinheiro em velório de ninguém a não ser o dele.
– Eu não vou me matar pai! Por Dieu!
– Eu sei que você não vai fazer isso querida... — Fez uma pausa e olhou sério com aquele olhos que já demonstravam um pouco de idade. — Filha, eu limpava sua bunda. Você não sabe o quanto eu te conheço!
Bellis olhou bem para ele, erguendo uma de suas sobrancelhas bem desenhadas.
– Tudo bem. Sua mãe limpava sua bunda. Mas eu geralmente estava perto. — Admitiu dando ombros e pegando algumas facas do chão e colocando na pia e jogando um pano de pia para Anabelle. — Agora me ajude a limpar essa merda, sua mãe não gosta de sangue na cuisine dela. Aliás, acho que sua mãe não gosta de nada na cozinha dela que não seja bacon.
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Frederick olhava para suas mãos. Elas eram grossas e com alguns calos. Extremamente másculas. Mal se podia imaginar o quão delicada era o trabalho daquelas grossas mãos. Ele as usava para tapar o sol que entrava pelas cortinas leves do quarto.
Esticou o braços e o belo corpo nu bronzeado pela cama de lençóis brancos. O corpo era torneado, nos ombros um belo trapézio. Nos braços algumas tatuagens o deixavam sexy.
O Golden dourado grandalhão e desengonçado logo passou pela porta e sorrateiramente pulou na cama entre as pernas do dono lambendo seu traseiro.
– Ok. Está na hora de arrumar alguém parceiro, sinto que estamos passando muito tempo sozinho. – Disse puxando aquela cabeça grande para perto do seu rosto. — Venir sur ami! (Vamos logo amigo!)Temos um longo dia de colheita pela frente. Este final de estação está acabando comigo.
Colocou uma cueca sobre o membro rígido e pensou que talvez Feroce não fosse o único que precisasse de alguém.
Vestiu seu macacão, botas e uma regata surrada por baixo. O estilo era bem rural, mas não se podia esperar nada mais de alguém du ferme (da fazenda). O corpo dourado era um resultado dias em baixo do sol, exercendo sua tão amada função. Tudo aquilo caia bem para um cara do campo.
Feroce desceu as escadas entre as pernas de Fred o fazendo parecer um grande homem desastrado. Ao chegar na cozinha preparou seu café e olhou para fora orgulhoso. Era final do verão e a colheita desse ano havia sido incrível desde a primavera. Os girassóis se estendiam ainda por alguns hectares da fazenda apesar do ar começar a esfriar aos poucos.
– Os girassóis estão magnifique, monsieur. Este ano foi realmente muito bom. — Diz uma senhora passando pela cozinha com a forma de pão, tropeçando nos próprios pés com a bola de pelo que a rondava. — Feroce! Saia de cima de mim! Não tem nada para você, petite monstre!
Sim, Frederico trabalhava com girassóis. Uma história muito bonita na verdade. Frederico era um garoto que havia sido adotado quando pequeno, porém a família que o adotara era extremamente rígida. Acabou sendo adotado por um casal militar e passou boa parte de sua vida sendo criado a base de treinamentos pelo qual ambos haviam passados provavelmente. Quando castigado era obrigado a segurar uma espingarda para cima, com os braços retos durante uma hora. Se o braço descesse um pouco sequer, o pai começava a recontagem.
Quando sua mãe faleceu devido a algumas complicações de problemas causados durante sua época ativa de guerra, o clima de sua casa havia ficado frio. Não difícil. Apenas... frio.
Louis não era o pai mais paciente do mundo, então apenas o treinou para proteger a casa e matar inimigos se preciso. Nada de carinho, pipas ao final de semana ou uma tacada de golfe aos domingos depois do almoço. Frederico sabia manusear armas e facões com habilidade. A relação foi se perdendo com o tempo e quando completou 18 anos saiu de casa perdendo contato total com sua família adotiva voltando para seu orfanato atrás de informações sobre seus pais.
No mesmo teve apenas uma informação. A moça que o deixara lá a muitos anos atrás, sua mãe, era um jovem flori-culturista e ao pesquisar mais sobre o nome que havia conseguido e a jovem moça, descobriu que a mãe havia morrido há alguns de uma doença cardio-respiratória.Havia o deixado lá pois havia se engravidado de um namorado de adolescência que a forçou a abortar e prosseguiu com a gravidez para poder salvar seu bebê, porém acabou sendo abandonada pelo mesmo. Em sua lápide leu um verso referente a flores que o fez se apaixonar. Tanto pela mãe, uma desconhecida heroína que salvou sua vida, como pela profissão.
“Colhe a alegria das flores da primavera e brinca feliz enquanto é tempo. Sempre haverá dias em que chegará o inverno e não terás o perfume das flores, nem o sol, nem a vivência das cores.”
Então com suas notas conquistadas no colégio Militar conseguiu bolsa e formou na grandiosa Universidade de Montpellier em agricultura e por lá ficou devido sua grande variedade de vegetação.
Depois de trabalhar com alguns casamentos e festas, e na verdade ganhar um bom dinheiro trabalhando todos os anos da faculdade dando aulas para turmas mais novas, ele conseguiu comprar sua própria fazenda, um pouco velha, porém sua, onde vivia sozinho agora. Com Feroce também claro. E Marie, que vinha duas vezes por semana. Velha companheira que arrastou para ajudá-lo da faculdade pois gostava muito da senhora baixa de cabelos brancos e sorriso simpático.
– Marie, soube que houveram assaltos a fermes vizinhas, passarei com Feroce pelas extremidades para verificar se todas as cercas estão no lugar. Não queremos perder o ano bom que tivemos, non?
Abraçou fortemente a senhora que tomara quase como mãe nesses últimos anos.
– Mounsier, se meu marido não o conhecesse, tenho certeza que estas marcas roxas me trariam grande problema!
Marie gostava muito de Frederico também, era um homem bonito, mas muito enigmático. Era difícil decifrá-lo mesmo depois de tanto tempo trabalhando para ele. Nunca o via com ninguém, nunca falava de seus sentimentos, de outras pessoas, família ou amigos. Era apenas ele, Feroce e aquela enorme fazenda. E suas flores claro.
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Era uma Terça-Feira. Anabelle se lembrava porque os amigos do Olliver estavam indo ver futebol na casa e seu pai estava andando nu pela casa gerando uma breve discussão.
– A casa é minha! Uso roupas quando quiser e fico nu quando quiser. — Ele fez uma pequena pausa e completou — O fato de seus amigos estarem para chegar não tem nada a ver com isso.
Mabel entrou pela porta do quarto de Bellis e olhou para filha sorrindo calmamente.
– Estou preocupada.
–Eu também. Acho que o Olliver não vai conseguir convencer o papai de colocar roupas. — Riu.
– Não mude de assunto Anabelle.
Mabel sentou ao lado da filha que olhava para uma foto dela e de Dion.
– Você sabe que a culpa não foi sua não é?
– Será mãe? — Mabel segurava a voz para não chorar. Não por Dion, mas pela situação que se repetira com outros parceiros desde de sua adolescência. Ela se sentia enojada. Ela se sentia tão desprezível como mulher, que realmente havia um certo nojo dela mesma em questão de relacionamento.
Mabel envolveu a filha nos braços, torcendo como qualquer mãe que aquilo passasse toda a dor da filha para ela. Mas não passaria. As lágrimas da filha ardiam ao ouvido de Mabel, a dor era tão grande e tangível que parecia que ela conseguira vê-la nos olhos da filha e emanando por aquele corpo rígido e pequeno.
–Anabelle, que tal viajar um pouco?
Aquilo iria doer na mãe, mas sabia, sabia mesmo, o que a filha precisava.
– Não conte a seu pai mas... Lembra daquela época em que queria ser Hippie? Tranças, saias compridas, paz e amor. — Anabelle riu e acenou com a cabeça concordando. — Que tal você experimentar isso? Saia de casa um pouco. Largue aquele trabalho massacrante. Experimente a vida. Você sabe que estaremos aqui quando quiser voltar e a ajudaremos... Largue tudo. Vá viver filha. Viva la vie. – Disse rindo um pouco mas séria.
E apesar de todo mal contido em seu interior, Anabelle decidiu ali, nas palavras da mãe depois de mais algum tempo entre silêncio e choro, que não ia deixar que as feridas internas deixassem seu coração se fechar para o bem. Mas não choraria outra vez por ninguém. Não amaria a outro homem ou choraria por ele. Ambas as coisas eram inúteis. Ela iria fazer o bem para os outros. E isso era realmente o suficiente. Seu amor, como muitas vezes na adolescência, seria para o mundo.
Na boca Anabelle sentia o gosto das lágrimas, quase tão salgada quanto a vida. No começo riu com a proposta mãe e se lembrou dessa sua essência. A garota que aplaudia o Sol e falava para seus pais não comerem carne e desperdiçarem energia, ouvia a John Lennon e decorou seus discursos desde que ele havia se juntado a Yoko. Ah, era aquele amor que queria. De John e Yoko. E amor deles pelo mundo, e pela paz, e pelo amor. E por tudo na verdade. E isso foi lhe dando coragem. A lembrança das passeatas pela paz e suas aulas de violão e piano com as músicas ripongas. Enfim seu coração ficou alegre, com um rumo novamente que não chorar por Dion e aquele trabalho estressante. Iria focar mais em si novamente e em suas vontades. Seus pensamentos foram cortados pela voz da mãe.
– E para ser sincera, também acho que seu pai não vai colocar roupas mesmo.
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Anabelle acordou cedo no dia seguinte, entrou em seu carro e seguiu em direção a seu apartamento antigo. Daria sorte se a porta não tivesse lacrada e conseguisse entrar e usar o dinheiro que tinha pego com o pai para pagar as dívidas e ficar de vez com o apartamento apenas para ela.
Ela subiu as escadas do condomínio e girou a chave através da porta e se assustou com o grito feminino.
– Quem é você!?
Anabelle riu.
– Ah, oi Bellis... — Falou sem graça.
– Oi Amálie. Achei que sua porta fosse a outra.
Dion surgiu do quarto apenas de roupas íntimas enquanto Amálie, a adorável vizinha de ambos pegava a coberta do sofá para cobrir seu corpo nu.
Anabelle riu um pouco da situação embaraçosa, apesar da pontada de desconforto que sentiu.
– Eu vou pegar minhas coisas e não vou incomodar vocês ok? Serei rápida. Prometo. – Falou até que em um tom normal. Dion estranhou horrivelmente, olhando-a seguir por ele pelo corredor onde ficava o quarto dos dois.
Ele correu atrás de Bellis no quarto enquanto ela colocava as roupas calmamente em malas de viagem que havia usado com ele no último ano para viagem pessoais com ele, lembrando de momentos que prometeu não esquecer, mas no que no exato momento ela tentava os queimar de sua cabeça. Então em um choque de desespero Dion se pronunciou.
– Anabelle, não é... — Foi cortado.
– Não é o que estou pensando? Você estava fudendo com a vizinha. Certo?
Dion ficou quieto, assustado pela palavra usada pela mulher que normalmente, apesar do humor ácido como o do pai não falava palavrões.
– É, acho que era sim o que eu estava pensando Dion. E o que estava fazendo, diga-se também. — Riu, seca.
– Fique.
Sentiu a mão áspera dele tocar sua pele. O arrepio foi instantâneo. Virou ficando de frente para ele, tão perto que sentia sua respiração. O ar quente saindo de sua boca carnuda chegando a seu pescoço aos poucos.
– Então me dê uma única boa razão. Um motivo pelo qual eu devesse ficar. Porque eu não quero desperdiçar nenhum momento a mais pensando em coisas que nunca vão realmente acontecer, como eu fiz da última vez Dion.
Colocou a mão no peito do homem o afastando e tomando ar para si.
Dion ficou na porta, admirando sua parceira partir aos poucos e de certa maneira, se arrependeu não pelo seus atos, mas por deixá-la ir. Anabelle era uma mulher incrível, que foi sua companheira leal em muitas situações. Sentiu por não amá-la. Isso era doloroso. Queria pedir para que ela o ensinasse a amá-la. Queria que tivesse sabido atuar, porque como sua parceira, sabia que ela morria por ele e vivia por ele se preciso e nunca mediu barreiras para ajudá-lo até não entendo muito bem sua filosofia maluca e budista de vida... Mesmo sabendo que ás vezes ela era só medo. Sentiu seu coração pesar...
Anabelle fechou a mala com dificuldade e quando Dion ameaçou ajudá-la apenas balançou a mão em um movimento de desprezo.
– Au revoir Dion. — Falou passando pela porta, enquanto Dion não conseguiu tomar atitude alguma.
“Ela disse adeus...” pensou ele. Ela disse isso e chorou, mas sem nenhum sinal de amor. Ele quis lhe pedir para ficar, lhe prometer melhorar... Mas quem iria acreditar?
–Tchau Amálie. — Falou passando pela cozinha vendo de relance a garota escondida ainda em um canto da mesma.
Anabelle chegou no seu carro e antes que fechasse o porta-malas, uma grande quantidade de água começou a cair do céu. Correu para dentro do carro e encharcada tanto pela chuva quanto pelas suas lágrimas, lágrimas por ninguém, mas só porque era triste o fim. Outro amor que se acabou. E para ocupar a mente começou a dirigir. Não a Cannes, para casa de seus pais. Não sabia bem para onde na verdade.
Bellis dirigia a mais de uma hora, cantarolando uma música de John Lennon com o barulho da chuva e uma voz chorosa, apenas tentando esquecer. Aquilo tudo estava a deixando louca e aqueles pensamentos presos a cabeça dela não a deixavam raciocinar direito.
Segurou o ar e contou até 10 algumas vezes. Ok. Muitas vezes. Chegando a Montpellier parou em perto de uma ponte quando viu o Sol se abrir e pensou no que sua mãe lhe disse. Saiu do carro e perto da ponte aplaudiu o Sol se pôr. E riu de si mesma. Sentou em cima do capô de seu carro e começou a meditar como fazia aos 15 anos.
Ah... A meditação. Separando você do mundo medíocre a seu redor. De um bar, Imagine de Lennon tocava.
Ao final da música, ela sabia o que fazer. Anabelle saiu do lugar, passou em um mercado e comprou algumas coisas: Uma barraca. Comida orgânica. E precisava de algo mais... Hum. Olhou para o cactus e o pegou.
Agora tinha um lugar para morar, comida e uma companhia que não fosse lhe aborrecer. Era hora de voltar a sua época Hippie e lutar pelas coisas que sempre defendeu mas nunca teve coragem de seguir.
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Frederick andava pelas extremidades de sua terra enquanto Feroce corria de um lado para o outro, animado com a caminhada.
O homem levava consigo um carrinho de mão com algumas ferramentas que tinha pego e material extra para qualquer concerto que fosse necessário.
O vento gelado do Outono já estava chegando a cidade apesar do sol, em lugares com sombra o ar chegava a ser cortante ao corpo.
Ajoelhou-se perto da cerca que tinha sua uma estaca de madeira já velha para trocá-la por algo mais resistente para essa época do ano que prometia fortes chuvas. O lugar onde morava era propício a algumas rajadas de vento neste período também. Se levantou e por um momento seu coração pulou. Onde estava seu cachorro?
– Feroce? Feroce!
O homem gritou e saiu correndo para uma parte mais alta do campo quando viu o bichano com um menino que puxava suas orelhas. Desceu em um rápido movimento e quando estava chegando perto falou em alto tom:
– Hey moleque! O que pensa que está fazendo?
O menino pulou para trás se afastando do cachorro e do enorme homem a sua frente andando de costas com os olhos arregalados.
– Je ne... Je ne... (Eu não... Eu não..)
– “Je ne” quoi?! ( “Eu não” o que?!)
Sente o homem então algo forte lhe acertando a cabeça e murmura palavrões se virando procurando quem o havia acertado.
– Não toque o garoto.
Frederick olhou para os lados e enfim achou a irreverente pessoa que lhe havia dito isso.
– Ou o que? — Respondeu em birra.
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