Dreamers

2 The mysterious boy


Esse negócio de guerra mexe com as cabeças das pessoas. Apesar de eu achar que a maioria das opiniões que escuto (tais como “temos que lutar por nosso país”, “estamos defendendo nossa liberdade”, “estamos fazendo o certo”, entre outros) são colocadas nas pessoas como um gravador (o que explica elas repetirem as mesmas coisas toda vez que digo coisas como “bem, na minha opinião acho que existem coisas mais importantes...”) que toca sem parar na mente delas , eu percebo que uma pequena, mas bem pequena minoria tem sua própria opinião, mesmo que, infelizmente, elas sejam a favor de tudo, percebi isso na aula de filosofia.

E particularmente gosto dessa aula, o professor nos deixa expressar sem correr o risco de sermos julgados (nesse caso, apenas eu corro esse risco) e é lá que solto todos os meus argumentos.

— Nossos sonhos são que importa, e eu acredito que o sonho da maioria da população, arrisco dizer que mundial, não é de ver esse bando de gente morrer — eu sempre era a primeira a responder as perguntas do professor, que desta vez era o que realmente importa?

— O meu é — comentou um garoto gordinho do fundo da sala, mas ele foi ignorado.

— Não estão só matando pessoas — tagarelava uma garota do meu lado — eles estão defendendo nosso país, nossa liberdade.

— Defendendo de que, afinal? Isso tudo é só por motivos... Toscos — a garota me olhava com cara de eu vou te matar, vadia — não estou querendo dizer que não devemos defender o país, estou dizendo que devemos fazer isso por motivos em que armar um exército e coloca-lo em batalha seja estritamente necessário, motivos concretos que...

— Você chegou ao ponto que eu queria Julie — gritou o professor — agora o que vocês acham que são motivos concretos? — ninguém levantou a mão — Julie?

— Bem, guerra é um confronto sujeito a interesses da disputa entre dois ou mais grupos distintos de indivíduos mais ou menos organizados, utilizando-se de armas para tentar derrotar o adversário...

— Alguém decorou a Wikipédia — gritou o garoto gordo, de novo.

—... Eu acho que, primeiramente os grupos que estão combatendo não estão nem um pouco organizados, eles só estão saindo na pancada. Isso sem comentar dos motivos, não há motivos, antes fosse, sei lá, a gente quer conquistar tal país para termos, sei lá de novo, petróleo, até aí tudo bem, mas não tem um motivo exposto ao mundo, estão apenas saindo e matando, a grande maioria dos países está literalmente viciada em morte, lutas...

Fui interrompida por tantas pessoas que falavam a mesma coisa várias vezes que perdi a concentração, por sorte o professor também ficou incomodado (ultimamente eu tenho percebido que esse professor é realmente muito parecido comigo) e gritou para a sala calar a boca — em outras palavras, é claro.

— Para evitar algo como isso novamente — ele gritou, me assustando — vocês terão que fazer um texto — todos, exceto eu, reclamaram — de no mínimo vinte linhas respondendo a minha pergunta — apontou para o quadro onde ainda podia se ler o que realmente importa? — comecem agora.

A maioria enrolava para poder copiar uns dos outros. Enquanto muitos estavam na décima linha (usando letras grandes e espaços exagerados), eu enchia a segunda páginas das minhas opiniões, bem organizadas e explicadas. Não é atoa que tiro notas altas em filosofia.

Eu acabei de escrever nos últimos segundos de aula, entreguei para o professor e saí da sala (com as mão doloridas de tanto escrever) e fui esperar o ônibus.

Então eu vi algo estranho. Um garoto. Não que eu nunca tivesse visto um garoto na minha vida. Mas esse garoto era diferente. Ele não era como os outros garotos da escola (idiotas, convencidos e crianças grandes), ele, apesar de não aparentar ser mais velho, parecia ser mais maduro. E eu tive certeza que ele não me conhecia, porque ele veio em minha direção e sentou do meu lado, ninguém que me conhece faz isso simplesmente por que acha que o meu modo de pensar é alguma doença.

— Tudo bem? — saudou.

Ele puxou assunto, meu Deus.

— T-tudo — respondi, engoli em seco — e você?

— Isso — por um milésimo de segundo eu tentei descobrir onde “isso” respondia minha pergunta — você parece ser bem popular —Senti uma pontinha de ironia, todo meu encanto acabou — precisa de alguém para conversar?

— Eu nem te conheço...

— Mais um motivo, não te conheço também, não posso te julgar...

— Não me conhecer não seria o motivo principal para você poder me julgar?

— Seria se eu fosse como eles — ele apontou para um lugar onde se encontrava pessoas rindo e olhando para cá — mas relaxa, eu não sou.

— Percebi quando veio falar comigo.

— Como assim?

— Eu faço parte do um por cento da população que é contra tudo o que está acontecendo.

— Com “tudo” você quer dizer...

— Tudo mesmo.

— Ah, entendi — ele sorriu — vou te contar um segredo — se aproximou e disse no meu ouvido: — eu também sou.

— Sério?

— Mais que sério.

— Então você é como eu?

— Isso mesmo — e ele não parava de sorrir, porra eu vou me apaixonar desse jeito.

— Às vezes eu só queria sumir, ou morrer, sei lá...

— É tudo a mesma coisa. Se você some, em pouco tempo dizem que você morreu, e quando você morre... Some...

— Profundo... E até...

— Faz sentido...

— Como...?

— Ah, eu tenho tanto tempo para pensar que acabo filosofando — ele riu — adoro filosofia.

— Sua vida é igual a minha!

— Estou falando...

— Mas a sua não é...

—... Complicada...

—... Como a minha?

— Era.

— Como assim?

— Eu simplesmente fiz o que queria.

Eu não tive tempo para dizer mais nada, meu ônibus chegou e eu subi, mas quando olhei pela janela não havia ninguém sentado. Cheguei em duas conclusões: estou completamente doida ou sozinha o suficiente para imaginar alguém e conversar sozinha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.