Dream - Uma revolução Sem Armas
3 Cidade Azul
Notas iniciais
O ônibus me deixou em um ponto meio deserto. Bem deserto para falar a verdade. Ninguém passava nas ruas. As lojas estavam abertas, mas as ruas vazias. Em uma placa próxima lia-se “Bem Vindo á Cidade Azul!”. Nome que soava meio estranho, não havia visto um pingo de azul se quer desde que cheguei. Estava tão preocupado em saber aonde exatamente estava que nem percebi que mina barriga já roncava. Para minha sorte havia um pequeno hotel do outro lado da rua, daqueles com lanchonete. Para meu azar, estava com pouco dinheiro, e ainda precisava achar um lugar para passar a noite. De toda forma, comer era mais importante agora. Me dirigi até o estabelecimento, ao entrar um sino em cima da porta fez um barulhinho um tanto irritante, e uma mulher de meia idade me recebeu com um sorriso generoso.
–Boa tarde, meu jovem, em que posso ajuda-lo?
Me sentei ao balcão e deixei o violão encostado no mesmo. Em seguida observei o cardápio, analisando os preços, tendo noção da minha condição atual. – Vou querer apenas um cafezinho.
A mulher foi até a cafeteira. Observei o local calmamente. Era um local aconchegante, com cheiro de café e uma música calma que vinha da caixa de musicas. Resolvi aproveitar a situação e pedir informações. – Percebi que este local é também um hotel. Saberia me informar quem é o responsável?
Ela se virou se apoiou no balcão. – Sou eu mesma. Precisa de um lugar para passar a noite?
–Para falar a verdade.. preciso. – Admiti. – Mas estou com um problema, não tenho dinheiro. – Expliquei minha situação, um pouco sem jeito.
Ela fez uma cara de sacrifício, como se detestasse ter de estar no meu lugar. – Não sei o que posso fazer por você.. Mas.. – A interrompi.
– Eu posso tocar! – Disse da boca pra fora, e pensei um pouco melhor. — Isso! Posso tocar aqui na lanchonete, pode atrair mais clientes. Se der certo você me deixa passar algumas noites aqui, caso contrario.. – Não terminei a frase.
A mulher deu sorriso de canto. –É uma boa ideia, o movimento anda meio fraco mesmo. Podemos tentar. – Ela se pôs o café em cima do balcão. Dei em sorriso agradecendo e bebi calmamente. –Quando posso começar?
Olha me olhou um tanto curiosa. – Gostei de você. Tem vontade! – Deu um sorriso. – Pode começar amanhã mesmo! A partir do meio dia. Pode passar essa noite no hotel.
–Já? Mas e se não der certo? – Perguntei preocupado.
–Não vamos nos preocupar com isso agora. Termine seu café e lhe mostrarei seu quarto. – Respondeu.
Bebi o resto do café aliviado. Como eu podia ter tanta sorte? Esperei ao menos que aquilo desse certo. A mulher me levou até o quarto. Não era muito grande, do tamanho certo, para falar a verdade. Uma cama, um criado mudo, uma televisão e um banheiro. Estava ótimo para quem a algumas horas não tinha nem para onde ir.
–Parece ótimo. – Analisei o quarto. – Á propósito, desculpe por não me apresentar. – Me chamo Roberto. – Estendi a mão para ela.
Ela apertou minha mão com um sorriso no rosto. – Pode me chamar de Camila. Mas enfim, agora preciso ir, o trabalho me espera. Espero que goste do quarto. Nos vemos outra hora.
–Muito obrigado, mesmo. – Sorri e em seguida Camila voltou para a lanchonete.
Desfiz minhas malas e resolvi sair para conhecer a cidade, ou pelo menos parte dela sem me perder. Eu estou SEMPRE perdido, me de direções e eu me perderei de novo, incrível isso. Caminhei por alguns minutos e cheguei a um píer. Agora entendi o porquê da cidade se chamar Cidade Azul. A paisagem do mar era completamente maravilhosa, tão azul quanto o céu. A água era calma e refletia como um espelho, porém quando se agitava todas as imagens refletidas na mesma se distorciam, tomando um aspecto no mínimo estranho, mas ainda assim bonito.
Me sentei na beirada do píer e deixei minhas pernas balançando enquanto observava meu reflexo na água. A brisa trazia um leve cheiro de sal. A dor parecia aumentar a cada dia. Tirei o vilão e comecei a tocar, talvez aliviasse todo aquele turbilhão de sentimentos misturados. Não consegui me conter, as lagrimas começaram a escorrer de meus olhos por conta, deixei que escorressem, talvez aquilo aliviasse minha dor. Deixei o violão de lado e observei minhas lagrimas caindo da água. E ali fiquei por um tempo, chorando em silêncio, e antes que pudesse perceber uma garota se sentou ao meu lado. Olhei para ela rapidamente, secando as lagrimas de meu rosto. Ela possuía cabelos pretos e pele pálida. Mal parecia morar em uma cidade ensolarada como aquela. A menina observou o horizonte e depois de um tempo resolveu dizer algo.
–Por que estava chorando? – Perguntou ela, ainda sem me olhar.
– Eu.. Lembrei de uma coisa triste. – Respondi de cabeça baixa.
–E está triste? – Perguntou.
–Não sei. Não sei o que estou sentido. São tantas coisas misturadas. – Disse eu meio confuso. – Estou triste por certas coisas, mais por outro lado, estou feliz por outras.
–As pessoas nunca estão tristes de verdade. Não completamente. Estar triste por causa de algo é só uma oportunidade que elas se dão de tornar outras coias piores, e até mesmo distorcer as coisas boas. – A menina olhou para baixo, em seguida me encarou com um sorriso fraco. – Pode me chamar de Gê.
Levantei a cabeça a olhando, um pouco envergonhado, mas retribuí o sorriso. – Sou Roberto.
–É bom te conhecer, Roberto. Eu nunca te vi por aqui.. De onde você vem? – Perguntou ela.
–Um pouco de longe. – Respondi, considerando o fato de que como a cidade era pequena possivelmente a maioria das pessoas se conheciam.
–Você sabe tocar? – Disse Gê, apontando para o violão.
–Ah.. – Olhei para o violão. – Sei sim. – Dei um sorriso torto.
–Será que você.. É.. Pode tocar um pouco para mim? – Pediu meio envergonhada.
–Posso, claro. – Pego o violão. – O que quer que eu toque?
–Hum.. Uma música que você goste. Para aliviar esse clima de tristeza.
Suspirei. – Deixe-me vê.... Já sei! – Comecei a tocar uma música da Legião Urbana, Eduardo e Mônica. Não pude perceber muito bem, pelo Sol que tentava me cegar, mas ela parecia estar com um sorriso no rosto enquanto eu tocava. Não pude terminar a música, antes de eu continuar fui interrompido por um beijo. Meu coração se acelerou repentinamente. Ela se afastou, um pouco vermelha.
–Me desculpe. – Disse sem me olhar. – Acho que.. eu vou indo. – Ela se levantou limpando os shorts.
–Eu.. Hum.. Te acompanho. – Disse meio sem jeito e me levantei também.
–Eu adoraria. – Olhou para baixo, ainda envergonhada.
–Nossa, como você é baixinha, agora de pé é que eu percebi. – Ri tentando descontrair um pouco.
–Cala a boca! – Gê disse rindo e me deu um leve soco no braço.
Dei um sorriso fraco, ainda rindo um pouco. – Vamos, eu te levo até em casa. – Disse juntando o violão.
Caminhamos lado a lado por um bom tempo. Conversamos sobre muita coisa, sempre que ela me perguntava sobre meus pais eu fazia de tudo para mudar de assunto. Acabamos parando em uma loja, ou duas. Lanchonetes. Lugares bem legais. No fim Gê acabou me mostrando a cidade. Já no fim do dia a deixei em casa.
–Bem.. Acho que é isso. – Disse ela com um sorriso torto.
–É.. Então.. Acho que vou indo. – Ao me virar para ir embora ela me puxou e me deu um abraço forte, seguido de um beijo no rosto.
–Obrigada por hoje. – Ela disse baixinho.
–Eu que te agradeço. – Respondi no mesmo tom de voz. – Espero te ver de novo. – Admiti.
–Eu também.
Nos afastamos e Gê entrou em casa. Voltei para o hotel com um sorriso bobo. Camila no mínimo estranhou, mas não disse nada. E em meio a tanta escuridão uma luz veio para mim. Queria eu acreditar que aquilo podia durar, mas eu sabia que não podia. Mas ainda assim dormi feliz, era bom conhecer alguém que gostava de mim por eu ser eu, e não por ser filho de quem sou.
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