Dream

4 Dream - 4


Avistaram uma casa. Uma casa enorme. Totalmente pintada de rosa salmão com muitas flores coloridas em volta. Em frente, um gramado aparado á perfeição.. Mesmo com a total escuridão, era possível notar a beleza do lugar. Se ouvia o som de cachoeiras, não muito longe dali. Calmas, porém poderosas. A porta da frente parecia não se abrir há muito tempo. Pela lateral da casa havia um caminho direcionado por pedras.


Jack andava com uma mão estendida para a frente, e a outra segurando a mão de Lisa. Viraram para a direita e passaram por baixo de uma parreira (ou pé de uva, como preferir). Subiram uns degraus e chegaram em uma varanda. No final da varanda, havia um grupo de pessoas, sentados em círculo, todos em cadeiras rústicas feitas de madeira. No meio deles, uma lamparina.


Lentamente se viraram em direção ao casal de jovens que havia chegado no meio da noite.


— Templo das Acácias? — Jack perguntou, nervoso.


Um garoto jovem, um pouco mais novo que Jack, vestindo uma camiseta cinza de gola V, um calção laranja, uma touca de lã e um cachecol se levantou.


— Sim, sim. Chega mais. Me chamo Clint. — e os direcionou para dentro.


Clint carregava uma xícara de chá fumegante. Realmente, estava frio. Jack e Lisa não tinham sentido o frio até entrarem na cozinha, e sentiram a diferença de temperatura.


Logo na entrada havia um relógio enorme, e sentada no canto da cozinha, em uma cadeira de balanço, uma velha com longos cabelos brancos e um ganso, não, um pato igualmente branco no seu colo. Um parecia estar contente com a presença do outro.


— Esta é Nora. Ela é a dona da casa, mas não tem mais condições de trabalhar. Então acolheu a mim e outros jovens para manter tudo em ordem. Foi um gesto muito bondoso. — Clint disse, dando um sorriso na direção de Nora, que pareceu não prestar atenção no que o rapaz dizia. Ela estava concentrada, olhando para o chão ladrilhado — Venham, vou lhes servir chá.


Clint passou uma caneca para cada, e os convidou para se juntarem ao grupo na varanda.


Lisa tomou um gole do chá e quase cuspiu fora. Tinha gosto de brócolis azedo. Derramou o conteúdo da xícara na pía, e se sentou na roda. Eram 8, contando Clint, Jack e Lisa. Só havia outra menina, muito quieta, com grandes olheiras embaixo dos olhos. Clint apresentou os recém chegados ao grupo, que os acolheram sem muito ânimo, e voltaram a discutir sobre pássaros.


'' Pássaros, sério? Achei que ia ter algum tipo de rave caótica já que este lugar supostamente atrai jovens.'' pensou Lisa, desapontada.


Ela lentamente se escorou em Jack e cochichou:


— Fofo, isso tá um saco. Vou dar uma volta.


Jack assentiu com a cabeça, e voltou a prestar atenção no que o grupo falava.
Lisa voltou para a cozinha. Observou Nora, ainda sentada. Sentia pena dela. Foi até a pia e encheu um copo com água.


— Dona Nora, a senhora aceita um copo de água?


Nenhuma resposta.


— Bonitinho o seu pato. Tem nome?


Nora levantou os olhos devagar, com o rosto ainda curvado.


— É Bob. Ele chegou aqui faz alguns dias e estava tod...


— OI? — Lisa interrompeu a velha, não certa do que tinha escutado — Você disse Bob?


— Isso. — Nora falou, recuando um pouco na cadeira, um pouco assustada com a jovem. — Eu o encontrei passeando aqui perto, mas estava com fome. Depois que o alimentei, não saiu mais do meu colo.


Lisa ficou em silêncio. Quais eram as chances? Um pato Bob aparecer no mesmo tempo que seu amigo Bob havia sumido? '' Estou ficando louca. Não é real que eu esteja levando em conta a possibilidade de Bob ter se tornado um pato. Ou será que ele foi transformado? E se Nora é uma bruxa? PARA. PARA LISA!''


Após algumas longas respiradas, Lisa notou que encarava a velha, que estava cada vez mais assustada.


— Dona Nora, me desculpe, você não entenderia seu eu te explicasse.


Falado isso Lisa arrancou o pato das mãos da pobre idosa ( ou deusa? ou louca? ou feiticeira?) e correu até a varanda. Chegando lá, disse:


— Jack, venha cá. Precisamos partir.


Incrível como Jack estava diferente. Ele até parecia se encaixar naquele grupo. Estava quieto, vidrado no seu chá. Até vestia um moletom de lã, colorido.
Lisa não iria chamar duas vezes. Foi até Jack e o levantou á força.


— Cuidadooo... com o meu chá. — ele reclamou.


Lisa tirou o chá da mão dele e jogou varanda abaixo. E foi em frente ô puxando pela gola do moletom. Jack estava igual um zumbi. Foi aí que notou então, que Clint era o único que aparentava alguma disposição, enquanto que todos os outros jovens pareciam vegetais.


Já estavam quase chegando ao fim do varal, e Lisa sentiu uma mão puxando seu ombro.


— Opa, calminha aí. Aonde pensa que vai com Jack e o Bob? — disse Clint, com um tom de voz nojento e mandão.


Lisa se virou, e com a mão esquerda deu um direto no queixo de Clint. O garoto caiu para trás, durinho, pronto pra ser enterrado.


'' Todo mundo tem um plano até levar um soco na cara.'' Lisa pensou.


Sem ter para onde ir, Lisa os guiou até uma floresta de bambu, onde passariam a noite.