A SAGA DO SANTUÁRIO

— Isso não faz sentido — resmungou Milo, a impaciência transbordando em sua voz enquanto seus olhos percorriam a curvatura do planeta lá embaixo. — Já se passaram quase quarenta e oito horas. Nenhuma explosão de Cosmo, nenhum sinal de Ki, nada. Hades e Poseidon uniram forças para quê? Para fazer um piquenique?

Milo de Escorpião andava de um lado para o outro na borda do templo, suas botas douradas fazendo um som rítmico no piso de ladrilhos brancos. Ele parou bruscamente, apoiando as mãos na amurada e olhando para o vazio abaixo, onde a Terra parecia minúscula.

Ele se virou para os outros, com a expressão tensa.

— Eles estão tramando algo sujo. Eu sinto isso na minha unha. Essa inatividade é uma armadilha.

Sentados nos degraus do templo, com uma postura muito mais relaxada, estavam Máscara da Morte de Câncer e Afrodite de Peixes. Os dois trocaram um olhar cúmplice. Eles, melhor do que ninguém ali, conheciam a frieza do Submundo, pois já haviam vestido as Sobrepelizes da traição.

— Você é muito afobado, Milo — disse Máscara da Morte, girando um pedaço de grama entre os dedos. — Você acha que Hades pensa como um guerreiro que quer apenas esmagar o inimigo e ir para casa jantar? Não.

Afrodite ajeitou uma mecha de seu cabelo azul, olhando para o Escorpião com um sorriso cínico.

— Hades é paciente, Milo. Ele é um estrategista meticuloso e sádico. Ele não quer apenas uma vitória militar simples sobre Atena.

O Cavaleiro de Peixes de levantou, sua capa branca esvoaçando com o vento da altitude.

— O que Hades deseja é a desmoralização total. Ele quer que Atena e seus protetores suem frio, que a ansiedade os devore, que eles gastem energia imaginando o pior. Ele quer quebrar o espírito dela antes de quebrar o corpo. Esse silêncio? É a tortura favorita dele.

Milo cerrou os dentes, odiando admitir que aquilo fazia sentido.

— Então estamos aqui, cegos e surdos, esperando a boa vontade deles?

Dendê, que observava a conversa respeitosamente encostado em uma das palmeiras do jardim, decidiu intervir. Ele caminhou até o gigante dourado.

— Vocês não precisam ficar no escuro, Senhor Milo — disse Dendê, com sua voz suave. — Se a angústia é tanta, por que não pergunta diretamente a quem está lá embaixo?

Milo olhou para o ser verde.

— Eu sei usar meu cosmo para me comunicar, garoto, mas não sinto a presença dos meus companheiros de bronze lá embaixo. E aquele sujeito, o Piccolo... a energia dele é diferente, difícil de rastrear.

— Eu posso guiá-lo — ofereceu Dendê, estendendo a mão. — Piccolo e eu somos da mesma raça. A mente dele é aberta para mim. Eu posso servir como uma ponte para você sintonizar a frequência dele.

Milo ergueu uma sobrancelha, curioso e desafiado.

— Uma ponte telepática entre espécies? Interessante.

— Feche os olhos — instruiu Dendê. — Não procure por um Cosmo brilhante como o de Atena. Procure por uma mente silenciosa, severa e vasta. Eu vou lhe dar o caminho.

Milo obedeceu, fechando os olhos. Dendê tocou a armadura dourada na altura do braço, e Milo sentiu um pulso mental, como se um mapa se abrisse em sua cabeça. De repente, o ruído do mundo sumiu e ele sentiu uma presença solitária e poderosa na Grécia.

— Achei — sussurrou Milo, sorrindo de canto. — "Ei, Namekuseijin ranzinza... está me ouvindo?"

Lá embaixo, na entrada do Templo do Mestre, Piccolo abriu os olhos abruptamente, desfazendo sua postura de braços cruzados. A voz em sua mente não era um sussurro, mas uma ferroada nítida e invasiva.

Hã?! Quem é que está falando?! — rosnou Piccolo, sua voz mental ecoando com uma agressividade defensiva.

Instantaneamente, o Namekuseijin ergueu uma barreira psíquica, empurrando a intrusão de volta com força bruta. Milo, na Plataforma Celeste, cambaleou para trás, sentindo como se tivesse levado um soco invisível na testa.

Máscara da Morte, que ainda girava o pedaço de grama entre os dedos, parou o movimento assim que viu Milo cambalear. Ele soltou uma risada curta e seca, um som que ecoou de forma quase profana no silêncio sagrado da Plataforma Celeste.

— Olha só para isso, Afrodite — debochou Máscara da Morte, sem se dar ao trabalho de levantar dos degraus. — O nosso grande Escorpião está perdendo uma briga contra o vento.

Milo soltou um rosnado abafado, os dentes cerrados. Sua mão direita tremeu levemente, e o dedo indicador, onde a Agulha Escarlate costumava brilhar, contraiu-se por puro reflexo de combate. A pressão que Piccolo exercia de volta era como tentar empurrar uma montanha de granito com a ponta de um alfinete.

Máscara da Morte inclinou a cabeça para trás, observando o teto abobadado do Templo de Kami-Sama.

— Que desperdício de energia — resmungou o Cavaleiro de Câncer, voltando a mastigar a ponta da grama. — Se o ogro verde é tão teimoso assim, eu já teria mandado a alma dele para passear no Sekishiki. Milo é persistente demais para o próprio bem. Ele quer entender o que está acontecendo lá embaixo, mas está prestes a ganhar uma enxaqueca digna de um deus.

Calma lá, ogro verde! — retrucou Milo mentalmente, forçando sua entrada de volta com uma persistência afiada, como se sua vontade fosse o próprio ferrão de uma agulha. — Você tem uma mente pesada. Eu sou Milo de Escorpião. Dendê abriu a porta, então não tente fechá-la na minha cara.

Escorpião... — A hostilidade de Piccolo diminuiu, substituída por um pragmatismo frio. — Vocês estão ansiosos aí em cima. O ar no Santuário está parado demais, e isso está mexendo com o seu juízo.

Afrodite deu um passo à frente, aproximando-se da borda do Templo. Ele sentiu o "cheiro" da hostilidade de Piccolo diminuindo através da ponte de Dendê, sendo substituída pelo pragmatismo que o Namekuseijin exibia.

— A persistência é a maior virtude de um Escorpião, e também sua maior maldição — observou Afrodite, com um brilho de curiosidade no olhar. — Mas veja... a barreira está cedendo. Ele aceitou a intrusão.

Máscara da Morte finalmente se levantou, limpando a poeira da calça da Armadura de Ouro com um tapa desdenhoso.

— Ótimo. Agora que eles terminaram de se medir, talvez o Milo pare de tremer e nos diga se vamos finalmente lutar ou se vamos continuar aqui em cima colhendo flores com você, Afrodite.

O silêncio de Hades está nos dando nos nervos — a voz mental de Milo ecoou, agora sem a agressividade inicial. — Qual é a situação real aí embaixo?

A mesma que a de vocês: espera — respondeu Piccolo, mantendo sua mente como um lago imóvel. — Montamos uma vigília no perímetro. Shiryu e os outros estão em alerta máximo, mas o inimigo não mordeu a isca. Estão tentando nos vencer pelo cansaço antes do primeiro golpe.

E a defesa das Doze Casas? Estão completas?

Quase — informou Piccolo, enviando uma imagem mental rápida da disposição das tropas. — Kanon de Gêmeos já se apresentou e assumiu seu posto. Shiryu também já traja o ouro de Libra. Porém... ainda temos lacunas perigosas. Goku e o garoto Uub ainda não chegaram. E Vegeta... bem, Vegeta continua sendo uma incógnita.

Entendido. Mantenha os sentidos alertas, verdão. — Milo pausou por um milissegundo, o tom arrogante sendo substituído por uma gravidade solene. — Não morra antes de termos a chance de descer e lutar ao seu lado.

Cuide da sua própria vida, Cavaleiro — encerrou Piccolo.

A conexão foi cortada com um estalo mental seco e definitivo, deixando Milo novamente com o silêncio absoluto das nuvens.

Na Plataforma Celeste, Milo abriu os olhos e soltou um longo suspiro, passando a mão na testa suada.

— E então? — perguntou Máscara da Morte.

Milo virou-se para os companheiros, a expressão mais tranquila, mas ainda séria.

— O verdão é durão, a mente dele é uma fortaleza — comentou Milo, recuperando a compostura. — As notícias são mistas. O Santuário continua em silêncio, é um jogo de paciência. A boa notícia é que Kanon á se juntou à defesa, e Shiryu é oficialmente o novo Cavaleiro de Libra.

Afrodite sorriu de leve.

— E o resto?

— É a parte ruim — completou Milo. — As Casas ainda não estão 100% guarnecidas. Goku, o tal discípulo dele e o Vegeta ainda não apareceram. Se Hades atacar nos próximos minutos, eles estarão desfalcados das suas principais peças de ataque.

— Nem todas — corrigiu Afrodite, sua voz soando melodiosa enquanto ele desviava o olhar do horizonte e se virava para a estrutura central do Palácio de Kami-Sama. — Duas das peças mais valiosas do nosso tabuleiro acabaram de ficar prontas.

Antes que Milo pudesse questionar, o som pesado e inconfundível da porta da Sala do Tempo sendo destrancada ecoou pelo pátio. Uma lufada de ar quente e denso escapou da fresta, dissipando-se rapidamente no ar rarefeito da plataforma.

Da escuridão do corredor, dois brilhos dourados emergiram.

Mú de Áries foi o primeiro a emergir. Sua expressão era de uma serenidade absoluta, mas seus olhos, antes gentis, agora pareciam analisar a estrutura dos átomos ao seu redor. Sua Armadura de Ouro não apenas brilhava; ela pulsava em uma frequência que fazia o ar da plataforma vibrar em harmonia.

Logo atrás, Shaka de Virgem caminhava com uma leveza sobrenatural. Ele não parecia mais estar "em vigília", mas sim ser a própria vigília. A aura de Virgem era tão densa que a poeira cósmica do Templo de Kami-Sama era repelida antes mesmo de tocar suas vestes, como se ele estivesse envolto em uma dobra espacial permanente.

Máscara da Morte assobiou baixo, um som carregado de um respeito que ele raramente demonstrava.

— Olha só para eles... Kanon e o garoto saíram de lá parecendo que tinham sido mastigados por um titã. Esses dois passaram um ano no isolamento e parecem que acabaram de sair de uma meditação no Jardim das Salas Gêmeas.

Milo semicerrou os olhos, sentindo a pressão atmosférica tornar-se pesada, quase sólida. Não era apenas Ki; era uma distorção fina na realidade provocada pela presença dos dois.

— O Cosmo deles... está contido, mas é denso — murmurou Milo, os braços cruzados sobre o peito dourado. — É como estar diante de um oceano calmo que esconde um maremoto pronto para varrer o continente.

Mú parou diante do grupo e fez uma reverência solene a Dendê.

— O treinamento foi concluído com êxito. Agradecemos pela hospitalidade e pelo solo sagrado, Kami-Sama.

— Como foi lá dentro? — perguntou Milo, a impaciência dando lugar a uma curiosidade genuína.

Shaka abriu um sorriso quase imperceptível, uma expressão de quem viu o nascimento e a morte de galáxias no vácuo daquela sala. — Foi... esclarecedor. Pudemos testar os limites do infinito sem o temor de ferir o mundo. Digamos que agora estamos prontos para enfrentar qualquer divindade que ouse desafiar a vontade de Atena.

Mú olhou para o céu, onde o sol anunciava a proximidade do meio dia.

— Tudo está calmo demais — observou o Ariano, a voz carregada de uma intuição sombria. — E é justamente essa paz que me assusta.

O som de passos firmes e autoritários ecoou pelo átrio. Saga de Gêmeos surgiu das sombras do corredor, acompanhado por Máscara da Morte. A presença de Saga, mesmo sem o elmo, impunha uma ordem imediata ao caos de incertezas que pairava sobre o grupo.