A SAGA DOS DEUSES

O teletransporte cessou, deixando Atena e seus cavaleiros no pátio externo do Palácio Valhalla. O contraste foi brutal: saíram do calor mediterrâneo da Grécia para serem imediatamente açoitados pela nevasca eterna do Norte. Mas, ao entrarem no grande salão, perceberam que o frio lá fora era acolhedor se comparado à atmosfera pesada que pairava sobre o trono de Odin.

Hilda de Polaris não estava sentada; ela caminhava de um lado para o outro, seus passos ecoando no piso de pedra gelada. Ao ver Saori, ela parou, mas não houve o abraço caloroso de velhas aliadas.

— Eu senti, Atena — disse Hilda, a voz trêmula, abraçando o próprio corpo como se a temperatura tivesse caído bruscamente apenas para ela.

— Aquele cosmo... úmido, vasto, sufocante.

Ao seu lado, Freiya segurava o braço da irmã com força, os olhos arregalados de pavor.

— É ele, não é? — sussurrou a jovem. — O Imperador dos Mares.

Hilda levou a mão instintivamente ao dedo onde, outrora, o Anel de Nibelungo estivera amaldiçoado. Seus olhos se encheram de lágrimas, não de tristeza, mas de um pânico visceral.

— A memória daquele controle maldito queima minha mente mais do que fogo — desabafou Hilda, virando-se para a estátua de Odin, incapaz de encarar Saori. — Eu ouço a voz dele novamente... a voz de Julian Solo, ordenando que eu sacrifique meu povo. Eu não posso passar por isso de novo. Eu não vou!

— Hilda, por favor! — Hyoga deu um passo à frente, sua armadura tinindo suavemente. — Nós entendemos sua dor, mas a Terra inteira está em risco. Sem a sua ajuda, o Santuário cairá, e Asgard será a próxima.

— Exatamente por isso! — gritou Hilda, girando-se bruscamente, com o rosto transtornado. — Se eu enviar meus Guerreiros Deuses para a Grécia, Asgard ficará indefesa. E se Poseidon vier aqui? Se ele me escravizar novamente e me obrigar a matar Freiya ou meus súditos? Eu não tenho o direito de arriscar a alma do meu povo em uma guerra que já perdemos!

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo uivo do vento lá fora quando uma sombra imponente se moveu.

Siegfried de Dubhe, o líder e mais forte dos Guerreiros Deuses, caminhou até o centro do salão. Sua presença era sólida como uma montanha. A armadura em forma de dragão de duas cabeças reluzia sob a luz trêmula das tochas. Ele olhou para sua senhora com compaixão, mas depois fixou seu olhar severo em Atena.

— Minha senhora Hilda tem razão em temer — a voz de Siegfried era grave, ressoando com autoridade. — Nossas defesas mal se recuperaram das batalhas passadas. Enviar o exército de Asgard para o Sul seria suicídio para o Norte.

Saori abaixou a cabeça, segurando o báculo com força. A esperança parecia escorrer por entre seus dedos. Mas Siegfried não havia terminado.

— Porém... Atena não pode lutar sozinha contra dois dos Três Grandes Deuses.

O Guerreiro Deus ergueu a mão, apontando para um antigo afresco no teto do salão, que retratava a árvore Yggdrasil conectando mundos.

— Existe uma lenda antiga em Asgard, anterior até mesmo à chegada de Odin a estas terras. Textos proibidos que poucos ousam ler.

Todos os olhares se voltaram para ele.

— A lenda fala de seres que estão acima das divindades terrestres e olímpicas. Entidades que não governam povos, mas a própria estrutura da existência. Os guardiões do equilíbrio universal. — Siegfried olhou diretamente nos olhos de Saori. — O Supremo Senhor Kaiohshin.

— Kaiohshin? — repetiu Shiryu, franzindo o cenho. — Nunca ouvi falar desse nome, nem mesmo nos textos da China antiga.

— Porque eles operam além da nossa compreensão — explicou Siegfried. — Dizem que o universo é dividido em quadrantes, e o Supremo Senhor Kaioh do Leste vigia esta galáxia. A ressurreição dos mortos através de magia profana, a quebra do ciclo natural das almas... isso é uma violação grave.

Siegfried deu um passo em direção a Atena, sua expressão solene.

— Se as leis da morte foram quebradas por Hades e Poseidon usando artefatos desconhecidos, isso é uma afronta à jurisdição dele, não apenas à de Atena. Busque-o. Ele é a única esperança de conter tal anomalia cósmica.

— Mas como chegaremos até ele? — perguntou Hyoga. — Asgard mal tem contato com o Olimpo, quem dirá com esse ser.

— O Caminho da Serpente é uma lenda para os mortos — disse Siegfried —, mas a energia de vocês, Cavaleiros, combinada com o Cosmo de Atena, pode ser capaz de enviar um chamado. Se o equilíbrio do universo estiver realmente em perigo, o Supremo Senhor Kaioh ouvirá. É a única chance que nos resta.

No grande salão de Valhalla, Saori fechou os olhos. Não havia tempo para dúvidas. Seguindo a orientação de Siegfried, ela não elevou seu cosmo para a batalha, mas para a prece. Uma aura dourada e gentil, porém imensamente vasta, começou a emanar de seu corpo, aquecendo o ar gélido ao redor e fazendo Hilda e os Cavaleiros de Bronze recuarem um passo.

— Que a minha voz atravesse as dimensões — sussurrou Atena. — Que o guardião do equilíbrio me escute.

Muito acima do universo físico, no sagrado e intocável Planeta Supremo, a tranquilidade eterna foi quebrada.

Kibito, que estava de braços cruzados observando o horizonte rosado, subitamente se virou.

— Kaioshin-sama! O senhor sentiu isso? — exclamou o assistente, surpreso. — Uma oração? Não... é uma projeção mental direta. Vem da Terra, mas não é de Dende e nem do Kaioh do Norte.

O Supremo Senhor Kaioh do Leste (Shin), jovem e sempre alerta, correu até a borda do penhasco sagrado.

— Sinto sim, Kibito. É uma energia divina incrivelmente pura, cheia de amor e sacrifício, mas... há um tom de urgência desesperadora.

Sentado em uma rocha próxima, folheando uma revista questionável e bebendo chá, o Antigo Kaioshin resmungou, ajeitando seu bigode.

— Vocês jovens se espantam com tudo. Deixem-me ver o que está acontecendo. — O velho deus estalou os dedos e a grande bola de cristal flutuou até o centro do grupo. — Mostre-me a origem desse chamado.

A névoa dentro do cristal se dissipou, revelando a imagem nítida de Saori Kido em Asgard. Seus cabelos lilás flutuavam com a emanação de seu cosmo, e seu rosto, banhado em luz e lágrimas contidas, transmitia uma beleza etérea e soberana.

Shin arregalou os olhos.

— É Atena! A divindade que rege a superfície da Terra naquelas mitologias locais. Dizem que ela reencarna em humanos para proteger o planeta quando o mal surge a cada dois séculos. Se ela está tentando nos contatar, a situação deve ser crítica.

O Antigo Kaioshin, no entanto, inclinou-se perigosamente para perto da bola de cristal, seus olhos velhos brilhando com um interesse nada sagrado. Um sorriso malicioso curvou seus lábios enrugados.

— Ohoho! Mas veja só... — O velho assobiou, ajeitando a postura. — Que "situação crítica" mais encantadora! Olha a elegância... olha esse porte de deusa... e que vestido bonito, hein?

Kibito franziu a testa, reprovando a atitude.

— Antepassado, por favor! Ela está clamando por ajuda celestial!

— Silêncio, seu quadrado! Estou analisando o "potencial" dela! — retrucou o Antigo Kaioshin, dando uma risadinha safada enquanto limpava uma babinha no canto da boca. — Escuta aqui, Shin... se essa tal de Atena quiser vir aqui pessoalmente pedir ajuda, eu não me iria me opor. Posso até fazer aquele meu ritual de desbloqueio de poder nela. Vinte horas de dança, pertinho dela... hehehe. Muito melhor do que ficar olhando para aqueles Saiyajins suados e brutos o dia todo.

Shin suspirou, colocando a mão na testa, envergonhado, mas logo recuperou a seriedade ao ver a imagem na bola de cristal tremer.

— Antepassado, foque no que está atrás dela. — Shin apontou para a aura escura que Atena tentava descrever mentalmente. — Ela não está apenas nos chamando. Ela está nos avisando. O equilíbrio entre a vida e a morte na Terra foi estilhaçado.


No Templo

Piccolo abriu os olhos, e a severidade em seu semblante se aprofundou, tornando-se quase sombria. Ele virou-se bruscamente para Goku, sua capa chicoteando com o movimento.

— Goku, escute com atenção — a voz do Namekuseijin cortou o vento uivante, baixa e urgente. — Mantenha o foco no Ki do Vegeta. Não vá atrás dele agora enquanto ele voa desorientado. Espere. Assim que ele parar, quero que você se teletransporte para lá imediatamente.

Goku hesitou, olhando para o horizonte escuro onde a energia divina e maligna parecia se acumular como uma tempestade prestes a desabar sobre o Santuário.

— Mas, Piccolo... eu não posso sair daqui agora. Essa energia... seja lá o que for, está prestes a atacar. Se eu for embora, quem vai proteger a Terra? O Gohan e vocês são fortes, mas isso aqui é...

— Você não está entendendo, Goku! — interrompeu Piccolo, agarrando o ombro do amigo com firmeza. — Eu tentei sentir o Ki da Bulma. Não há nada. Ela desapareceu completamente...

- Eu... Eu também não sinto o ki de Bulma... – Diz Yamcha, com clara preocupação no olhar.

O silêncio toma conta do ambiente novamente.

Goku arregalou os olhos, a compreensão do horror da situação finalmente o atingindo.

Piccolo continuou, implacável:

— Se o pior aconteceu, alguém precisa contê-lo. Se ele perder o controle naquele estado, ele se tornará uma ameaça tão grande quanto esse novo inimigo.

O Namekuseijin olhou nos olhos do Saiyajin, transmitindo uma responsabilidade pesada.

— Gohan e eu tentaremos ganhar tempo aqui e descobrir o que são essas presenças. Mas se o Vegeta surtar, nenhum de nós tem poder para segurá-lo sem matar ou morrer. Você é o único capaz de conter o poder dele, Goku. Você precisa ir.

Goku olhou para Gohan, que assentiu silenciosamente, confiando no julgamento de seu mentor. O Saiyajin criado na Terra cerrou os punhos, respirou fundo e voltou seu olhar para Piccolo. A hesitação desapareceu, substituída por uma determinação férrea.

— Entendido — disse Goku. — Eu vou trazê-lo de volta, custe o que custar.

- É possível que outra pessoa tenha um radar do dragão e tenha localizado as esferas antes de Bulma? – Pensou Mestre Kame, em voz alta.

- É a única explicação possível. – Comenta Tenshinhan. – Alguém deve ter localizado as esferas do dragão antes dela, invocado Shenlong e trazido essas forças malignas para cá.

- Ou... – pensou Mestre Kame, em voz alta.

Os outros concluem por si só o raciocínio dele. Goku fica ainda mais sério. Tenta telepatia com Vegeta, mas ele está muito alterado.

- Vamos, Vegeta... O que é que está acontecendo?

No Submundo

Nas profundezas do Inferno, onde o tempo não passa e a esperança não ousa entrar, o silêncio de séculos foi rompido. O Castelo de Hades não era mais uma ruína esquecida; as chamas azuis das tochas reacenderam-se sozinhas, e a energia opressiva da morte preencheu cada corredor.

No salão principal da Giudecca, sentado em seu trono de ébano, Hades abriu os olhos. Seus orbes, profundos como o abismo, brilharam com um contentamento frio. A seu lado, Pandora ajoelhou-se, a testa tocando o piso frio, exausta pela viagem interdimensional, mas vibrando de êxtase.

— Levante-se, Pandora — a voz de Hades era suave, mas ecoava com a autoridade absoluta de quem governa o fim de todas as coisas. — Você serviu ao seu mestre com uma excelência que transcende a lealdade esperada. Graças à sua astúcia em roubar os artefatos daquele dragão oriental, a morte, que deveria ser meu descanso, tornou-se apenas um breve intervalo.

Pandora ergueu o rosto, lágrimas de devoção nos olhos.

— Minha vida pertence ao senhor, Imperador Hades. Vê-lo novamente neste trono é tudo o que meu coração desejava.

Hades fez um gesto com a mão pálida. Das sombras atrás dos pilares, três figuras imponentes surgiram, vestindo as Sobrepelizes mais poderosas do exército das 108 Estrelas Malignas. Os Três Juízes do Inferno: Radamanthys de Wyvern, Minos de Griffon e Aiacos de Garuda. Eles caminharam em uníssono e ajoelharam-se perante o deus.

— A elite do meu exército respira novamente — declarou Hades, olhando para seus generais. — Mas desta vez, a guerra não será decidida pelo acaso.

Radamanthys, sempre o mais impetuoso, ergueu o olhar.

— Senhor Hades, meus espectros já estão se organizando. Dê a ordem, e nós varreremos o Santuário. Sem a barreira de Atena totalmente erguida, será um massacre.

— Paciência, Wyvern — interveio Hades, um sorriso cruel curvando seus lábios. — A vitória já está desenhada. A situação tática mudou drasticamente a nosso favor.

Hades levantou-se e caminhou até um mapa estelar projetado em cosmo no centro do salão.

— Atena está vulnerável como nunca esteve em milênios. Os Doze Cavaleiros de Ouro, a muralha dourada que sempre protegeu o Santuário e dizimou minhas tropas no passado, não existem mais. Eles morreram para derrubar o Muro das Lamentações, e suas armaduras repousam vazias nas Doze Casas.

Minos soltou uma risada baixa e sádica.

— O Santuário é um corpo sem ossos. Apenas cavaleiros de Prata e Bronze restaram... crianças brincando de heróis.

— E há algo ainda mais doce — continuou Hades, sua expressão endurecendo ao se lembrar de seu antigo algoz. — O Pégaso... aquele maldito matador de deuses que sempre se levanta... ele está quebrado. A minha espada ainda perfura a alma dele. Ele é um inválido, uma casca vazia presa a uma cadeira de rodas. Sem a elite dourada e sem o milagre do Pégaso, Atena está sozinha.

Aiacos cruzou os braços, confiante.

— E com Poseidon ao nosso lado, atacaremos por terra e mar. Não haverá para onde fugirem.

Hades voltou ao trono, sentando-se com majestade.

— Exatamente. Pandora, instrua os espectros. Não quero um ataque desordenado. Quero que cerquem o Santuário e sufoquem qualquer esperança antes do golpe final. Esta Guerra Santa do século XXI será a mais curta da história. E desta vez, a Terra será coberta pela escuridão eterna.