Dracologia
13 P.O.V Jaden
Pular das sacadas e janelas vêm refrescado a minha mente, mas surtido fofocas, o que me fez me sentir forçado a usar as portas e me sentir normal, sem querer chamar atenção. Parar de fumar tem sido uma tarefa impossível e quando me olho no espelho, no dia seguinte, meus lábios têm crostas marrons de sangue seco, partes roxas e outras rachadas com sangue fresco. Meus dedos têm cutículas abertas e igualmente sangrentas, minha cicatriz está mais branca e venho arrancando pedaços do meu cabelo. A parte de trás, para que ninguém perceba, mas foi tarde demais quando estava sentado debaixo de uma árvore sozinho, entre os 15 minutos entre uma aula e outra, e ouvi uma pessoa se aproximando por trás. Eu a reconhecera da expulsão na aula do Dr. Tales e aqueles olhos azuis eram inconfundíveis. Trina parecia uma moleca de 15 anos que nada se parecia com as curvas das jovens adultas da faculdade, o que fazia meus olhos focarem mais nos seus olhos, sorriso e cabelo. Tinha uma simpatia fora do normal, mas ao mesmo tempo compensava sua aparência com maturidade e eloquência.
–Sabe, notei que não é muito bom de se entrosar. — ela sentou na grama, um pouco afastada, e isso me fez sentir-me confortável. De fato ela era inteligente e nunca fica muito perto de mim.
–Não sou o único. Os coloridos são bem piores. — e fechei os olhos inclinando a cabeça no tronco da árvore, me concentrando na voz dela, e o cheiro que a brisa estava trazendo, junto com as nuvens negras.
–Isso é charme deles, Felicia só anda preocupada com a família, mas logo vai ser tão extrovertida quanto é comigo. E Wild é só rebeldia, mas ele também está mais tranquilo.
–Há quanto tempo estamos aqui? — eu abri os olhos.
–Duas semanas, Jaden. — ela me olhou e eu me senti observado por uma médica, ou decifradora. Só me senti desconfortável, e ela parece ter notado, pois logo fitou o horizonte e eu relaxei novamente.
–Difícil largar o vício? — olhei-a rapidamente e vi que ela também tinha algumas coisas pra esconder. Só escondia melhor que eu. Não sei porque diabos gosto que ela me procure e pergunte coisas sobre mim. Eu não tenho nenhuma intenção de abrir suas pernas, mas gosto da companhia alerta dela. Como nota detalhes e nunca é invasiva demais. — Não vai me responder?
–Não preciso. — e olhei-a sabendo que ela observava diretamente minha boca nojenta e sangrenta. A reação dela foi a mesma de todas as pessoas que vi pelos corredores, quando desisti de vez usar as escadas e portas, e subi pela varanda. Foi a mesma reação de Harris, ela quase tentou desviar o olhar. Era estranho conhecê-la por duas semanas e parecer dois dias. Dois longos e infinitos dias.
Ela me convenceu a levar pra enfermaria, e a enfermeira lavou, secou e passou uma pomada, e disse para em hipótese nenhuma morder a boca de novo, disse que poderia pegar uma infecção e piorar bastante. Trina abriu a boca sobre o cigarro e admitiu que também tinha dificuldades para largar o vício de beber, sua religião utilizava a bebidas para incorporar entes de aconselhamento, mas ela acabou acostumando e agora não conseguia largar. Fomos encaminhados a uma psicóloga e a fazer testes de saúde. Quando saímos, Trina me explicou sobre a bruxaria e sobre o vício, e me disse que tinha visto uma vez que para começar uma nova fase, era preciso um símbolo. Foi quando ela me puxou para dentro de seu Peugeot 2005 e saímos do Campus, matando aula, e fomos studio de tattoo.
–Acreditamos que novas fases precisam de uma marca! — ela estava empolgada mexendo nos portfólios e tagarelando sobre como aquilo era emocionante e daria certo.
Eu não tenho nenhuma tatuagem. Agulhas me dão medo desde que tenho 6 anos e vi meu pai enfiar uma agulha no próprio pulso e ter convulsões violentas. Enquanto Trina falava, eu fui amadurecendo a ideia e decidi que uma tatuagem significaria isso mesmo. Uma nova fase. Notei como tudo resultava em uma nova fase, uma oportunidade que essa faculdade me deu em mudar a minha vida, as novas pessoas, tudo. Tudo pareceu fazer sentido em menos de 10 minutos e eu queria enfrentar o medo de agulhas, sem dizer nada para ninguém e aquilo foi o meu maior impulso.
A tatuagem que escolhi foi para homenagear o curso, e o meu passado, que ficaria morto no passado, como a carcaça que ardeu como o inferno para ser gravada no meu peito, agora pra sempre. Agora sinto sobre o que Trina estava falando e não sei o que fazer, se faço outra ou se espero um motivo tão bom quanto esse, uma ideia tão boa quanto essa, que talvez nunca surja outra vez. Não é desejo meu ser um cara tatuado, com piercings ou alargadores, nunca tive nada disso. Mas agora parecia bem legal, e Trina estava saltitante com a sua arte. Ela escolheu escrever "Ohana" no pulso, ela disse que seus pais e irmãs são do mundo mortal e que "Ohana" significa família, e isso significa nunca esquecer, como os filmes da Disney que ela via com a família reunida, antes da mãe ir para o manicômio. Eu me senti um falso omitindo a minha vida, do jeito que Trina estava se abrindo sem esconder detalhes, ela era muito bem resolvida. Ela disse que pagaria e eu disse que ficaria devendo, mas ela me ignorou.
Depois do devaneio adolescente, voltamos para as aulas, e tivemos Habitat & Alimentação, como no primeiro dia, e estava chato como sempre.
–Alguém pode me dizer de que forma o ambiente onde os dragões vivem está diretamente ligado a sua alimentação, o que implica de maneira geral, no estilo de vida desses seres?
O cara ruivo que implicou com Harris no primeiro dia sempre levanta a mão, e tenho certeza que isso irrita não só a mim. Falcon realmente parecia inteligente e culto. E, para minha felicidade, podre de rico. Mas também é exibido e isso com certeza vai custar caro. Harris senta mais perto dele do que eu, que procuro o fundo da sala, e ele sempre volta no fim do dia reclamando sobre a mão do ruivo atrapalhando suas anotações e a voz dele atrapalhando seus raciocínios.
–Sim, Sr. La Venice. — o professor também não parecia muito fã do aluno mais aplicado da sala, e eu entendia-o perfeitamente. Não estávamos mais na oitava série para ficar com essas manias de ser o melhor em tudo, e causar emputecer os amiguinhos. Mas se Falcon gostava desse falso posto da sua cabeça, que ele viva em paz.
–O Habitat onde residem esses animais está diretamente ligado a sua alimentação por causa dos recursos disponíveis, Senhor.
–Relacione a alimentação e o habitat onde vive um Draco Ignis... — Falcon começou a falar, quando o professor apontou para uma pessoa ao meu lado: — Senhor Wild.
Wild gaguejou, se precipitou e por fim respondeu que eles comiam carcaças abandonadas perto de grandes fontes de calor, onde depois são comidas pelos dragões.
–E por que o dragão deixa a carcaça perto dessa fonte de calor? — o professor continuou sua enquete.
–Porque esses dragões do fogo têm uma inteligência aguçada e descobriram a propriedade do fogo de assar os alimentos, e eles não fazem isso por si próprios por saberem que não precisam realizar esse esforço por causa do habitat onde vivem. — então ouvimos o cara respirar fundo e imaginei que estivesse tremendo de constrangimento.
–Muito bem, Sr. Melnikov. — o professor deu uma olhada básica na lista de chamada. — Lê muito sobre os Draco Ignis?
Wild estava suando.
–Profundamente interessado, Senhor.
O professor deixou de importuná-lo e começou a lançar perguntas aleatórias a todos os alunos da classe inclusive eu:
–Sabemos que os Dragões Marinhos se alimentam de peixes e animais marinhos, como baleias e focas, mas e os Dragões que têm como habitat natural, o deserto, Senhor... Smith. — ele apontou pra mim, baixando os óculos.
–Os woestyn comem qualquer coisa que se mexa na areia,eles gostam das víboras do deserto.
–Woestyn... Isso é o africâner de deserto, não é mesmo? O Africâner é uma das línguas oficiais da África do Sul, local onde ocorre o maior fluxo de contrabando de dragões. E de lá que surgem os nomes "populares" dos dragões. — o professor tirou os óculos e olhou bem para mim, lembrando-se dos meus comentários da aula passada, e se antes tudo eram teorias, elas haviam se concretizado sobre mim e os alunos não se atreveram a virar-se para olhar pro suspeito: eu.
–O maior fluxo de contrabando não é na África do Sul, Senhor, é no Egito. A maior demanda de dragões para o tráfico é para a Europa e Ásia, e os dragões não podem ser exportados da África do Sul, pois é muito tempo de viagem para os animais, e mais risco de perdas de mercadoria. E no Egito, o nome dos dragões do deserto são chamados de Dragões Oasis.
Quem teria dito aquilo? A pessoa mais inusitada da classe, a grisalha. Os alunos respiraram e o professor ficou vermelho de frustração.
–São chamados de Oasis pois são lá que são capturados. Algumas pessoas acham que os Dragões do deserto são gigantescas serpentes debaixo da areia, mas vivem com água abundante nos oásis e têm asas. Se alimentam de escorpiões e víboras, como Jaden o disse.
–Sim, obrigada Srta. Velmont. — o professor quase a interrompeu. — Mas da próxima vez deixe que seus companheiros de sala também tenham seus momentos de estrelismo.
Ela ficou perplexa, e eu também não fiquei nada satisfeito. Falcon era o único que falava, e quando outro aluno se solicitava, era tratado como "estrelinha". Eu fiquei decepcionado com o mestre, mas continuei afundado na cadeira esperanto longos 40 minutos até que o sinal batesse e os alunos continuassem o debate sobre a relação dos dragões com seus habitats e seu estilo de vida.
–Dragões da terra são herbívoros? — o grandão do Harris projetou uma sombra, enquanto eu estava sentado na mesma árvore de sempre.
–Não, Harris. Eles precisam de proteína. — eu dei uma golada no café preto e sem açúcar que eu nunca pedia, mas ele não se importava de pagar. Eu não gosto que paguem as coisas pra mim, preciso roubar por mim mesmo, mas a tatuagem queimava no peito toda hora que me pegava encarando os livros caros de Harris, ou a carteira de Falcon na sua mochila de crocodilo, ou quando mirava em uma mulher da sala.
–Mas os dinossauros eram herbívoros. — o grandalhão sentou-se na grama, e logo começaria a reclamar que sentia a bunda pinicar.
–Nem todos. — o copo acabou tirando a pomada dos meus lábios, e agora o líquido quente e preto começava a fazer arder minha boca, mas minha garganta inflamada agradecia o café.
–Você está com uns machucados bem sérios na boca... — ele apontou para os próprios lábios e fez uma cara de "está meio nojento na verdade". Eu estava preocupado com isso também. Não queria roubar nada da enfermaria, mas precisava e eu não tinha muito dinheiro guardado na mochila, estava tentando economizar ao máximo, servia para rachar o aluguel com Harris, praticamente. Mas eu fiz os cálculos e vi que não seria o suficiente, e teria que me virar de qualquer jeito.
–Harris, eu posso pegar o carro emprestado?
Pedir emprestado era melhor do que roubar, e acredite, seria fácil e ele nem notaria.
–Posso te levar até onde queira ir, meu carro é um xodó meu, eu confio em você, mas...
Eu queria poder abrir o jogo com Harris, e tinha de fazê-lo se quisesse continuar na faculdade por mais um período já que o aluguel era mensal. Eu pensei muito, e se Harris não havia percebido os sinais na aula do professor Charliston, melhor que eu explicasse logo tudo de uma vez, mas a ardência no peito me refez pensar no que eu estava pensando. Em pegar o carro de Harris, dirigir por 3 horas até Dublin e voltar no fim do dia com mais de seis mil euros, o suficiente para o próximo período. E então, eu perguntei a mim mesmo, por que não um emprego normal? Trabalhar na cafeteria não parecia ser tão ruim assim, certo? Eles estavam precisando de pessoal mesmo, tinha um papel bem grande na porta, eu teria dinheiro para até comprar umas roupas e café.
Eu fiquei namorando a ideia por longos minutos:
–E então — Harris tinha a boca cheia — vai precisar do carro ou não? Eu sou nota 10 em chofer!
–Não, Harris, obrigado. — e sorri. Harris pareceu supreso, mas não sorriu de volta e apenas me ofereceu um pedaço do sanduíche, mas eu neguei. Disse que voltaria logo e corri para a cafeteria, tirando a jaqueta e colocando o cabelo para trás, para que parecesse menos encrenqueiro e estranho.
Fico feliz em dizer que funcionou e como eu estudo na faculdade, vou trabalhar 4 horas por dia, e apenas 2 horas em semana de provas, mas nada de folga em projetos e testes. O salário é bom, e certo, e tem seguro dental, saúde e de vida. Começaria amanhã, e acordaria 5:00 para estar no trabalho 5:15 da manhã, para servir os cafés para os clientes, que em sua esmagadora maioria, era de professores e alunos viciados e dependentes de café e rosquinhas. E devo admitir que não fiquei nada mal de avental e cabelo penteado. E sem sangue na testa, isso é muito importante. Mas a mulher que me entrevistou disse que só fui contratado pelo desespero, e que minha boca estava um nojo e seria bom se eu não espantasse os clientes. Eu sou o único homem que trabalha na cafeteria e uma das meninas disse que seria difícil eu espantar alguma cliente, e a mulher mais velha que me entrevistou (provavelmente a gerente) riu e depois disse que estava falando sério. Eu caí na real que teria de lavar minhas roupas com mais frequência.
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Cinco horas da manhã, e lá estava eu de pé como um zumbi e vi que meu horário de saída batia direitinho com o horário da minha primeira aula, de 8:00 da manhã e teria de correr para não levar bronca dos professores, principalmente do professor de Morfologia, o Sr. Tales. E durante minha correria para chegar no trabalho mais cedo, para ser liberado 3 a 4 minutos antes, para ter tempo de correr pra aula, e me sinto um cara normal, indo para uma escola normal, tendo um emprego normal, tirando o fato de que estudo dragões e tudo tem magia. Bem normal.
–Ei, Jaden! — eu era atendente e havia duas meninas na cozinha, uma fazendo muffins e a outra preparando os capuccinos enquanto a gerente abria a caixa registradora e dava ordens futuras de passar pano no chão.
–Fala Kalista. — ela era tagarela e sempre perguntava coisas sobre mim, as vezes me deixando envergonhado com a intimidade que na verdade, nunca dei a ela. Tem cabelos azuis e usa lentes coloridas diferentes em cada olho, sempre cheia de anéis, estudava Astrologia junto com a colega de trabalho, uma ghoul. Eu ainda não entendi o que é um ghoul, mas eu acho que é tipo um zumbi, e Gagam pode ser definitivamente classificada como zumbi. Ela me dá calafrios quando nossos dedos se tocam quando pego o café dela e entrego pro cliente. A verdade é que as vezes finjo lavar umas colheres para não ter que encostar naquelas mãos mortas e geladas. Me sinto um nojo quando faço isso para evitá-la, provavelmente faziam o mesmo comigo quando saía da corrida, meu pai nem me tocava de tão sujo e de tanto sangue.
–Preciso de mais panos limpos!
Eu queria dar os panos limpos para Kalista, mas acabei absorto em flashbacks contínuos sobre as corridas e como eu sentia falta de estar a mais de 200 km/h em cima de um animal vivo, cortando montanhas e caindo de vez em quando. As lembranças de meu pai me treinando para conseguir dominar um animal tão grande, as dicas, os castigos.
–Jaden!
Ela finalmente recebeu os panos limpos e o tempo passou voando, quando vi que já estava na hora da aula de Física aplicada aos Dragões, com uma professora nova.
Eu sentei na sala de aula, quando me dei conta que nem havia tirado o avental e estava sem a jaqueta, e o cabelo penteado, apenas arranquei o avental e respirava fundo tentando manter a respiração desacelerada apesar da maratona que tinha acabado de fazer, escalando a parede e entrando de mansinho pela janela e depois de correr 5km da cafeteria até aqui.
–Senhor Smith?
Eu olhei para cima e tive o maior surto da minha vida, pulei da cadeira e saquei um ridículo canivete do coturno, me perguntando como uma gárgula enorme tinha entrado na faculdade, e estava dependurada como um morcego bem em cima da minha carteira. Eu estava preparado, mas a coisa não atacou e vi que todos os outros alunos estavam presentes e reagiam de forma normal.
–Eu sou a Sra. La Gargouille, professora de Física nesse período. — e então, ela se arrastou parecendo um demônio pelas paredes e parou na frente da classe, com as mãos unidas e uma cara de paciência. Era uma figura horrível, uma mistura de escamas, dentes salientes e chifres, e tinha asas. Tinha garras negras e olhos vermelhos, e não lembrava nem de longe uma fêmea, parecia apenas uma criatura fugida do inferno. — Sente-se por favor.
Eu me sentei, mas continuei com o canivete na mão, mas logo me acalmei quando Trina deu um risinho e decidi guardar logo de volta no coturno.
–Certo. — o demônio sorriu — Apesar da minha cara feia, eu serei muito legal, prometo! Eu sei que nos seus guias nossas aulas seriam nessa sala pequena e nada interativa, sinto-lhes dizer que comigo, aprendemos na prática. — e abriu um sorriso irônico. — Vamos descer pelas escadas — ela me mirou com suas íris sólidas e vermelhas — e ver um amigo meu, e poderão entender a Física dos Dragões.
A turma desceu pelas escadas de mármore bege e chegamos até os jardins da frente da faculdade, onde havia uma fonte de um dragão marinho, e a professora nos guiou pelo caminho, uma trilha em um bosque que daria em uma clareira. Eu não conseguia me concentrar em mais nada se não no jeito que aquele monstro não conseguia andar como um humano, parecia um servo de Lúcifer com suas patas de dragão e a coluna corcunda, com asas de morcego e seus ossos aparecendo pela pele. Mancava como se tivesse sido machucada recentemente.
–Aqui está. — ela disse, voando até um galho de árvore e tomando a posição de uma gárgula, como se guardasse um templo. — Esse é Leviathan. Muito de vocês devem conhecê-lo de outros livros... — ela riu. — Os cristãos.
–Leviathan não é um monstro marinho? — o ruivo disse, um pouco desconfiado.
–Leviathan tem asas, como pode ver. E uma cauda longa que serve de leme — uma menina loura interrompeu — pode viver aonde bem quiser e ainda é um dos príncipes do submundo. — os olhos verdes dela diziam que estava com medo, mas parecia com raiva também. Eu podia sentir os feromônios de terror que lhe exalavam pela pele branca e fina. Só de vê-la eu podia sentir um gosto doce na boca.
–Parecem que sabem bastante sobre esse dragão, falem mais, por favor. — eu realmente nunca gostaria daquela coisa nem se usasse batom e óculos de velhinha.
–Aparece no livro de Jó — o ruivo continuou — é adorado pelos satanistas, mas as origens dele são desconhecidas e talvez inspiradas em mitos hebraicos, é o demônio da inveja e reina os mares.
O monstro ocupava bem mais que a clareira inteira e eu não conseguia ver o final de sua longa cauda, que se perdia derrubando árvores e destruindo tudo em seu caminho. As garras apenas apoiadas sobre a terra faziam crateras de 5 metros ou mais, e nos mantínhamos a uma distância de 1km ou mais. Todos podiam sentir o poder daquela aberração bíblica e também a aura maligna que exalava como um perfume francês vagabundo.
–Jaden... — Trina ficou atrás de mim e eu me senti protetor, e temi que aquilo não estava sob controle. Nada parecia certo e meu canivete pousava no bolso.
–Vamos entender como eles voam. — a gárgula continuou. — Mas Leviathan provavelmente faria um grande estrago por aqui, eu o invoquei para que pudessem ver algo tão majestoso de perto e sentir o poder desses animais e o quão antigos são. Vamos até os aposentos dos animais e ter um menor, para que não afunde nosso mundo em trevas!
Eu queria saber como aquela monstruosidade gigantesca iria sair dali, mas a professora insistia para não olharmos para trás sob hipótese alguma. No caminho, ela falava sem parar sobre a dinâmica das asas dos dragões, do que eram revestidas e os ossos e músculos que faziam parte do complexo sistema de voo.
Quando chegamos a um corredor no subsolo feito de pedra, ouvimos rugidos e sentimos um ar quente digno de uma caldeira ou forno industrial. O monstro claudicante falou com o segurança e então ouvimos um barulho acima de nós. Quando fomos para a Arena, um Draco Ignis do tamanho de um ônibus de dois andares estava rebelde entre correntes grossas:
–Não se preocupem, ele não cospe mais fogo devido a um acidente. — ela disse tentando acalmar todos. — Mas que diabos, vocês parecem ratinhos assustados, vão lidar com eles pro resto das suas vidas! Cheguem perto!
O dragão de debatia nas correntes e forçava a garganta frustrado, quando a gárgula deu um puxão nas correntes e grudou a cabeça dele no chão, fazendo as asas se armarem:
–Não se preocupem com o puxão, ele não está sentindo dor — mas eu duvidava — como podem ver, as asas também atuam na parte de equilíbrio desse animal. Ele está muito arisco hoje... Que tal o grandão me ajudar?
O grandão era o Harris e ele demorou tanto para aceitar a tarefa que ela acabou chamando meu nome:
–Você! Com cara de Elvis!
Eu enrolei as correntes nas mãos, dos dois lados da mandíbula, e o montei, quando vi que aquilo era inaceitável naquela faculdade, montar dragões tornara-se um tabu e agora penso que todos têm certeza do que sou, ou fiz, não sei mais se isso faz parte de mim ou não. A tinta em cima do coração diz que sim, mas a carência de aventura no coração em si não havia se curado.
–Você é bom nisso! — a monstra comemorou batendo as unhas no chão. — Demonstre-o em posição inicial de voo!
Eu puxei as correntes bem rentes, enquanto forçava meu corpo para o mais próximo do torso do animal e ele correspondeu. As asas estavam prontas para decolar e alinhadas como se estivesse empalhado. A professora fez seu longo discurso sobre as asas dele.
–As asas dos Dragões têm muito a ver com as mãos dos humanos, mas em proporções diferentes. A principal diferença é a proporção. Nos dragões, as falanges são finas e compridas, quase do tamanho do corpo. Os dedos são unidos por uma membrana elástica, que também é ligada às pernas. Para voar, basta afastar os dedos e mover os braços para cima e para baixo. Mas a operação não é simples. De fato, ela requer muita energia. Para contornar esse problema, o dragão normalmente alça voo a partir de um ponto mais alto, cai alguns centímetros e, após ganhar velocidade, retoma a altitude. A membrana lisa e contínua que forma suas asas impede a passagem de ar, ao contrário do que ocorre com as penas das aves, que são aerodinâmicas. Isso, aliado à enorme flexibilidade das asas articuladas, permite manobras radicais. Um leve ajuste nos dedos é capaz de gerar ângulos variáveis, fazendo com que o voo do dragão seja muito mais dinâmico que o de qualquer ave. Algumas espécies atingem velocidades superiores a 300km/h. Não têm ossos ocos, os famosos ossos pneumáticos e por isso necessitam de toda a energia disponível. Por isso comem iguais a uns desgraçados e afundam terrenos. É uma força descomunal para erguer uma criatura de uma tonelada do chão!
E então ela olhou pra mim, e eu entendi que era hora de voar e mostrar o resto dos processos, e quando voltei, pousando no mesmo lugar, a professor retomou suas explicações aproveitando as manobras. Depois falou algo sobre cálculos de massa e energia, e depois me agradeceu, e pediu que eu devolvesse o dragão ao segurança. Eu me separei da turma e com uma só mão conseguia controlar o dragão, que já estava cansado e manso, bem diferente do início da aula. Quando voltei a me unir a turma, Harris estava com um sorriso enorme:
–Aquilo foi impressionante! — e percebi que estava comendo de novo. — Mas... Você é um, certo? Sobre as aulas do Charliston, e agora essa...
–Não sei do que está falando, Harris. Até parece que sou o único que lida com dragões.
Eu suspeitava de Wild, ia começar a ditar minhas teorias quando Harris ficou sério, e notei que tinha algo de errado:
–O que você fez..? — eu perguntei e ele relaxou, sinal que fiz a pergunta errada. Apenas fingi que essa conversa nunca existiu e continuei — Viu a Sra. Gargouille?
Ele ficou mais sério e tentou despistar com umas risadas. Fiquei desconfiado, mas guardei minhas teorias para mim mesmo.
–Acha mesmo que foi uma acidente? — Harris ficou triste como um menino. — Aquele Draco Ignis não mais... Cuspir fogo?
–Óbvio que não, Harris. — e não pude evitar de rir da ingenuidade dele de achar que realmente havia sido uma acidente. As pessoas são hipócritas.
Hipócritas e sonsas.
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