Dracologia
17 P.O.V Dagda
Todo fim de semana tem sido a mesma coisa:
-Como está indo a faculdade, amor?
-Ótima! Ei, tenho que desligar, mais tarde eu te ligo, pode ser?
-Cla-
-...
As semanas passam rápido, são tantos trabalhos, revisões, que eu mal consigo assistir minhas séries pelo notebook mais. A Branca trocou de quarto com a minha antiga colega de quarto, a Felicia, que eu conheci depois e me dá muito medo. Os fins de semana passam devagar, eu faço dever de casa, e tento acompanhar todos os episódio de Grimm e Law&Order, mas nunca consigo. House eu já desisti. Meu celular também é parado. Não tem mais "bom dia" do Sean, minha mãe não manda mais fotos das receitas dela, papai nem tem celular. O grupo no whatsapp das primas é completamente morto, e o grupo da minha antiga escola, saem juntos, menos eu que estou a milhas de distância, agora eles têm piadas internas que eu desconheço, e isso me dá vontade de chorar. Eu não entendo gracinhas como "gancho" e quando eles citam frases de vídeo que eles nem se lembram de me mostrar também. O grupo do time de vôlei acabou, ninguém mais falava há meses. Eu penso que a culpa é minha, eu que digo que estou ocupada e respondo depois, mas mudei isso e tudo continua na mesma. O que eu não esperava que mudasse, mudou. Sean mudou.
-Eii!! Ah não! Você não vai ficar mais um fim de semana enfiada nesse Campus! Eu proíbo!
-Branca, valeu, mas eu não quero. Sério amiga. Nem tenta me arrastar pra lugar nenhum.... Eu não quero. — e me encolhi, sentada debaixo das cobertas.
-Da... É o Sean, não é?
Eu não consegui responder, eu só abaixei a cabeça e respirei fundo. Ele já estava assim há um tempo, foi uma mudança radical, ele nem tentou parecer que estava sentindo, não disse uma só vez que estava com saudades, e toda vez que isso vem na minha cabeça, eu choro.
-Tem alguma coisa de errado!
E eu sinto ela me abraçar, e foi aí que eu chorei mesmo. Poxa, não era possível, ele tinha prometido!
-Eu trouxe uma coisa pra te alegrar, tive uma ideia. Eu quero ficar com você, ok? Você não está sozinha, eu sou sua mais nova prima! Que tal? Você já tem uma penca, mais uma pode? — eu ri, não tinha outra coisa a se fazer. — Vamos assistir as séries que você ama, Grimm e aquele outro horrível cheio de casos de assassinatos, e vamos comer trufas! Que tal?
-Não... Obrigada... Eu sei que o Daisuke e você vão sair pra fazer compras pra ir pra uma rave mais tarde, no castelo Kylemore. E eu não vou segurar vela!
-Tô ligando pro mô. Fica aí.
Eu quis impedi-la. Eu realmente quis. Eu sabia que os dois iam acabar se engolindo ou me atrapalhando tagarelando durante a série, mas tudo bem. Talvez não ficar sozinha seja realmente a solução já que foi a única coisa que eu fiz até agora. Que que custa ter umas risadas?
20 minutos depois, tínhamos posto o meu colchão e o de Branca no chão, e tinha 3 cobertores, ligamos o ar condicionado no máximo (e já estava frio) e abrimos uma caixa de bombons trufados de licor de cereja, e eles eram tão bons, tão bons, que quando vi, tinha comido quase tudo sozinha:
-Vocês querem me deixar bêbada?
-Claro que não, amiga! Mas o Daisuke-san trouxe algumas cervejas long necks muito boas! São artesanais, vamos provar comendo pipoca!
Fizemos isso. Depois bebemos mais um pouco, e ela me convenceu em aumentar o som, depois ela expulsou o namorado e ela começou a colocar saias em mim, e eu ria de tudo o que ela dizia. Quando vi, estava dentro do carro dela pronta para ir até a rave no castelo, foi um plano muito bom. Mas a noite foi melhor ainda.
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O castelo estava lindo, as pessoas eram lindas, as luzes eram tão coloridas e eu estava tão corajosa com uma bebida na mão, me sentia tão linda com o batom na boca (mesmo sem saber a cor dele), que eu nem liguei quando me deparei sozinha. Branca e o noivo provavelmente estavam se roçando em algum lugar, e eu não podia fazer nada além de pegar outra cerveja:
–Qual seu nome?
–O que? — eu respondi.
–Qual seu NOME? NO — ME! — era um cara alto, moreno, com uns olhos incrivelmente fluorescentes que eu achei que se tratava de algum alienígena. Cabelo rente e curto, e muito forte.
–É Dagda! E o seu?
–Brad!
–Quer mais uma cerveja Dagda?
–Sim! — disse um pouco mais alegre do que o normal. Brad parecia um cara legal, diferente e com certeza com cara de bad boy. Quem consegue resistir a um bad boy quando ele é um homem bom? Eu ainda lembrava de Sean e sentia muita saudade dele. Principalmente dos áudios com risadas. Mas Brad tinha um sorriso lindo e já era de noite.
Eu me lembro das músicas que nunca tinham voz, eram sempre instrumentais e muito altas, lembro de luzes verdes, jovens estranhos e bebidas esquisitas, eu vi um menino com orelhas, outro com chifres, várias meninas com longas caudas, outra com asas, eu vi meninos que com certeza não eram meninos, eu senti o chão tremer, eu vi as paredes ficarem quentes, eu nunca sentia meus pés chegarem no chão, eu sentia calor, muito calor e felicidade. Eu vi tantos sorrisos... Brad tinha mãos tão firmes que me colocaram em cima de seus ombros e eu pude ver tudo de cima, até quando ele me desceu e nos beijamos, depois eu só lembro de amargura e um blackout.
Quando acordei, um cara familiar estava me oferecendo água e tinha uma cara brava:
–Você está bem? — e checou o celular. Eu não sabia por que e como tinha ido parar ali, naquele estado.
–Sim! — eu quis parecer simpática, podia estar bêbada mas não estava tão mal — Por que você é sempre tão sério? Sério e sexy?
Ele riu, mordeu a boca, desviou o olhar e se afastou, enquanto ainda olhava pro celular.
–Você precisa comer alguma coisa, tome. — ele me ofereceu uma barrinha de cereal, e eu aceitei achando que era chocolate.
–Estou estragando a sua festa? — e dei uma esticada de olho no celular dele.
–Não... São meus amigos me procurando. Estávamos nos divertindo bastante até eu ver uns caras arrastando você para um banheiro. Resolvi ajudar.
–O quê? — eu fiquei chocada, e depois virei para o lado vomitando, e fiquei muito mal. Comigo mesma.
–É... Fiquei... Nossa, precisa de ajuda com o cabelo? — ele fez um rabo de cavalo e depois sentou na grama, um pouco afastado. — Você sempre pareceu tão quieta... É a última pessoa que eu pensaria achar por aqui.
–E eu tinha certeza que ia te achar aqui.
–Estava me procurando? Duvido que lembre do meu nome.
–Jaden. Jaden Smith. — e eu apaguei de novo.
Quando acordei novamente, estava no meu dormitório e um cara estava saindo pela janela e eu não protestei. Só agradeci aos Deuses por nada ruim ter acontecido. E depois caí no sono.
Quando levantei, estava com uma enxaqueca monstruosa e a minha cara estava um horror, cansaço, frustração e indignação. Era a primeira vez que ficava tão bêbada, e tinha que ser em uma festa onde o pessoal da faculdade foi. E eu tive que fazer a estupidez de beijar um cara que provavelmente iria me estuprar bêbada. E agora, eu tinha que sentar e tentar lembrar de mais coisas, e decidir o que fazer.
Sabe, eu meio que esperava isso de mim mesma. Por quanto tempo eu seria a menina pacata e estudiosa de Montana? Por quanto tempo eu ainda usaria sapatilhas e acreditaria nos romances de Austen? Por quanto tempo eu tentaria entender Jaguadarte? Por quanto tempo ficaria tristes pelos outros? Quando faria algo por mim? Quando seria eu? Quando diria a verdade ao Sean?
Eu abaixei a cabeça, nesse exato momento as lágrimas correram e a dor de cabeça piorou, e tive que ligar o chuveiro e tentar descobrir entre a sujeira preta que saía do meu rosto inchado, quem era Dagda Falls. E como eu gostaria que a minha vida fosse. E como eu gostaria de ter coragem o suficiente pra dizer tudo o que eu nunca disse. O que eu nunca disse sobre o tédio da minha vida, o que eu nunca disse sobre o meu pai inválido por vontade própria, minha mãe submissa, minha família cega, meus primos fúteis, minha escola hipócrita, meu namorado agressivo. Álcool não era a saída, drogas não era a saída, a minha voz era, mas eu não tinha alguma estirada sobre os azulejos do box. Não tinha voz, coragem, nem dignidade. Parecia um ser indefeso, fraco e igualmente inválido, fútil e hipócrita. Qual foi a última vez que lidei com meus pensamentos desse jeito? Ah é, aquela vez que entrei em um avião e fugi.
Qual foi a última vez que liguei para dar parabéns a alguém? A última vez que adormeci nos braços de alguém? A última vez que disse desculpas? Ah, Deuses, nem eu mesma me lembro bem. O colorido lá fora só está servindo para criar um contraste com esse meu dilema cinza, quase monocromático. Eu sinto vontade de chorar, mas parece que nem para isso há motivo.
Testa encostada no vidro bem acima da pia do banheiro. Cabelo sem flores e sem brilho. Olheiras. Nariz vermelho. Ossos despontando da pele. Eu não consigo. Meu celular está atrás da porta, na cabeceira provavelmente. Eu tenho que conseguir:
–Alô? Dagda? Posso te ligar daqui a pouco?
–Não.
–Olha, am
–Você não vai precisar, acabou.
E eu desliguei. O celular não tocou nem uma só vez. Não houve nenhuma nova mensagem. Nada. Eu só consegui chorar, agora com motivo. Com vontade. E eu nem tinha contado tudo, mas tudo bem, ele não queria saber. Depois de colocar a roupa, pedir comida e não conseguir engolir nem o suco de laranja, eu juntei todas as minhas poesias, minhas sapatilhas e desenhos. Coloquei tudo em um saco, junto com alguns livros. Aluguei um carro, joguei tudo na mala, e dirigi até uma rodovia e queimei tudo. Sim, eu estava sendo dramática, radical e muito emotiva, mas parecia o certo a se fazer. Pelo menos eu ainda odiava preto.
No meu guarda roupa, agora só jeans, e camisetas, moletons. Eu ainda teria os vestidos, assim que me reencontrasse. No momento, eu estava me perdendo. Péssimo momento, as provas começariam logo, mas o meu eu interior ainda era mais importante.
E então eu fiz algo que eu sei que não deveria ter feito, mas eu fiz. Eu peguei um dos colares de Branca. Ela fez faculdade de Metamorfose e prendeu algumas formas em alguns amuletos, um tipo de atalho. Eu sei que nunca deveria ter pego, mas eu fiz. Peguei o pingente da Ursa.
Se aquele era o próximo passo para os piercings e idas a delegacia? Eu não sabia, mas a liberdade de uma fera parda correndo pelas planícies da Irlanda era algo que valia qualquer pena. Eu não queria estar na companhia de ninguém, e logo, estava deitada embaixo do Sol. E então, vi o que tenho certeza que não deveria ter visto: um homem, criar asas e escamas. E, se não me engano, usava um gorro verde.
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