Dracaeon - O Purgatório dos Dragões Combatentes
4 O Chamado Indesejado (pt.2)
Notas iniciais
A revelação culminou na criança alienada como o urro de um Treze, horripilante, alarmante, sufocante.
— Eu sei que só tem treze... quatorze anos, mas talvez, se eu não tivesse sido tão bondosa com meus filhos, tudo isso não teria acontecido. O fato de você se dar bem com Doze é só mais um sinal! – o oráculo vira o corpo da menina, que estava em choque. – Há algo para você no futuro, Ilídia. Cabe escolher apenas se vai segui-lo ou não. Dou-lhe a dádiva da visão, de poder mudar inúmeras realidades por ai... se realmente quiser. Eu vejo o potencial em seus olhos, o que não havia em nenhum outro Hor. A semente que habita sua alma ainda é pura. Pode ajudar o seu irmão a escapar um dia dessa...
— Eu não posso! – puxa com força seus braços da mão do espectro, ofegante. -... Tenho que ir embora.
— Ilídia, me escute. – o oráculo coloca as mãos no rosto dela, olhando fixamente. – Nunca deixe que os outros a definam. Estude, planeje, decida e arque com as consequências de ser quem é. Se der errado, aprenda e comece de novo. Mas... entenda que é responsável por suas ações e o desenrolar delas. Sua escolha, seus princípios, sua posição. Agora... esta é a encruzilhada de sua vida, não há como não ter partido. Estou lhe chamando para essa missão e preciso da sua resposta. Tem que me dizer se vai ser mais uma Hor cega e sedenta por poder ou se ajudará a trazer os bons tempos de volta. Se... acredita que a nossa família não é má, fuja e descubra o que os aprisiona. Salve-os da danação, meu amor.
— Olha o meu tamanho? Nem que eu quisesse...
— Querer é o primeiro passo, Ilídia. Além disso, você não está e jamais ficará sozinha. Eu sinto isso. Esse chamado não está vindo só para você, mas o tecido só se formará se decidir logo fazer o primeiro movimento nessa trama.
— Por que não o meu irmão no lugar?
— Não é o Destino dele seguir esse caminho... não agora.
Um barulho estremece o chão da caverna.
— ... o que é isso?
A criança pisca algumas vezes.
— Meu... casamento está marcado para daqui alguns dias. Se não me engano, tem uma festa hoje à noite. – cada Hor era estimulado a casar-se entre si. Seus pais explicavam que tinham medo da magia Aeon dissolver se o sangue fosse misturado com a de uma pessoa comum. Contudo, se a oráculo estiver certa, é a armadilha a qual arruinará sua vida. Como acreditar nisso?
— Já é noite. – o oráculo começa a empurrar Ilídia para fora da caverna e Doze as segue. – Aqui o tempo passa em outra velocidade.
— Mas e agora? O que eu faço? Como vou encarar meus pais?
— Isso você resolve sozinha, tenho certeza. – ela ri. – Mande Doze para sua manada logo e vá para casa. Amanhã é um grande dia. Se decidir cumprir minha missão, encontre-o ao nascer do sol na fronteira de Hor Murum.
— Mas por quê? Pra que?!
— Ora essa, que pergunta! Só vá. E não deixe ninguém desconfiar.
Pondo os pés firmes no chão, diz:
— E se tudo der errado?
Então, está de volta a floresta.
A caverna parece estar muito longe dali, estranhamente silenciosa e sombria. Doze vai embora, deixando-a para trás como seus próprios pensamentos turbulentos e seu porto seguro destruído.
Pelo que viu nas visões do oráculo, para cada acontecimento, várias verdades foram definidas – a dos ganhadores, as dos perdedores, as dos revoltosos... Um mesmo objeto com vários olhares diferentes, logo, resultados diferentes. No que deveríamos realmente confiar? Desde o mundo a sabedoria, são resultados de ações de seres humanos. E as pessoas são volúveis, complexas, relativas dependendo da situação em que se encontra. Não seria, tudo que entendemos como verdade, também relativo? O ganhador e o perdedor são faces da mesma moeda, confiando piamente no que falam, fieis e leais a crença de que o outro está errado.
O que realmente é mentira?
É preciso deveras duvidar quanto mais nos extremos das opiniões você está. Com quem, de fato, estaria morando?
Enfim, essa discussão serve como gancho para entendermos melhor Karma e Callun. Há alguns bons quilômetros dali, o rei Pers Khan WoBegon conversa com recém-promovido soldado Jev R, guarda-costa real e subgeneral de defesa karman.
— Jev, junte um grupo da sua confiança que já esteve naquela Ilha, e volte para lá. Dê um jeito. Não gosto de não saber o que acontece lá dentro. Nada entra ou sai sem a supervisão daqueles arruaceiros. Quero que fiquem por um tempo e me mandem notícias assim que puder.
— Senhor, mas e a barreira de eletricidade? As interferências em corpos aptos a atividade mágica está cada vez maior.
— Isso é problema de vocês. Os Hor ainda estão estudando alternativas, mas não há nada concreto para que possamos finalmente conquistar aquele lugar... não depois de terem destruído nossas bases de pesquisa.
— Até o fim do mês organizo tudo e partiremos.
O rei WoBegon, em seu elegantíssimo traje dourado, marrom e preto, bate sua mão em punho no braço do trono.
— Agora, Jev. – o barulho coou pelo salão do trono. – Se possível, me traga a cabeça de alguns desses traidores. – rosna, cuspindo algumas gotas de saliva.
Jev acena com a cabeça, curva-se e sai.
Ele ainda não entende como Callun tinha saído do controle desse jeito. Na verdade, mal sabe como exatamente começou a guerra de todos contra todos. Demandou apenas um piscar de olhos e todos atacavam uns aos outros, apontado dedos, inutilmente derramando sangue.
Quem realmente detêm a verdade?
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