Drabbles Aleatórias

4 A Voz da Experiência


“Ah claro... Desejos”, disse ele com sarcasmo. Então dispensou o pó que o giz deixara em suas mãos, batendo-as suavemente. “Poxa, já reprimi tantos desejos nessa vida. Pra que por tudo a perder agora?”

Havia ironia e graça na maneira como ele jogou as coisas ao vento, hipoteticamente, com as mãos. Sorriu, expulsou o pó das lapelas de seu casaco e apontou para a porta do corredor com um aceno frouxo.

“Essas garotas... Posso ser o pai de uma delas”, continuou, arrancando um esboço de riso dos lábios da menina. “Meninas de quinze anos, que nem das fraldas saíram, e acham que sabem da vida...”.

O silêncio e a resignação tomaram-no por um instante.

“Eu sei muito mais da vida que estas aí”. Havia um tom de ansiedade em toda aquela experiência. “Nem graça elas me dão”, confessou.

Ela sorriu com sinceridade. Aquela conversa divertiu-a. Talvez porque, grande parte, era verdade. Ela sabia que ele, de fato, sabe muito mais da vida do que ela.

Ainda de pé, o homem sorriu e enquanto enrolava sua echarpe no pescoço pálido, escondendo-o, disse:

“Mas o que mais me entristece nisso tudo é a pessoa mentir para si mesma. Iludir-se”, terminou pensativo.

Notas finais
Breve desabafo de um ex-professor, um cara que era bom com as palavras. Concordam?