Dr34mSc4p3 Café
1 Único - Dreamscape Café
Notas iniciais
I
Ela olhou para o Calendário do outro lado do Balcão do bar. A vídeo-imagem de uma streamer famosa em roupas de banho tentava se esconder atrás de um grande número 24, que tremeu. Não era a primeira véspera que passava ali, servindo a rala clientela noturna do Dr34mSc4p3.
No pequeno monitor acima da rack de bebidas, um âncora de um canal de notícias gerado aleatoriamente por uma IA, falava com pausas grandes e lentamente sobre o clima de tensão militar no Leste da Eurásia, antes de ser modificado, em uma transição de tela bem amadora, por uma versão andrógina do que parecia ser uma idealização da IA em um Top Model, para poder falar sobre a Grande Árvore instalada no pátio central da Grande Cidade, com direito a uma visão panorâmica da árvore holográfica que se estendia em cores aberrantes até sumir entre diversos hologramas da Avenida Central.
— Ei, Marin! — Disse uma figura encapuzada, ao abrir a porta do Café. A figura joga seu capuz para trás, lançando a neve artificial acumulada em seu moletom para o alto, e balança seus cabelos loiros com mechas em tons azuis-claros emaranhados, fazendo o corte de cabelo médio balançar para os lados como um cachorro.
— Ei, Emma! — Respondeu a bartender, pegando um copo atrás do balcão, já limpo e esfregando o pano em seu interior. Como ela sempre dizia, limpar uma vez é relaxo, duas é suficiente, mas três é o ponto perfeito. — Vai o de sempre?
— Nah... — Respondeu a mulher, aproximando-se do balcão. — Cara, eu realmente odeio essa época do ano, o pessoal taca esses “flocos de neve” — Emma enfatiza o termo levantando os dois dedos de cada mão perto do rosto e flexionando-os devagar —, artificiais na porra da cidade inteira. Aí, você fica com as ruas sujas, porque essa merda não derrete rápido, a temperatura cai uns vinte graus, o chão fica escorregadio para porra…
— Você caiu na escadaria novamente, né? — Perguntou Marin, sem olhar no rosto da mulher à sua frente. Sua face era impassível de qualquer expressão. Emma grunhiu, cruzou os braços à sua frente e ficou quieta, levantando um beicinho numa expressão de mágoa extremamente infantilizada.
Marin era uma mulher que estava no auge dos seus trinta anos, mas sua aparência era de uma adolescente ainda. Detalhe este que ainda a fazia esporadicamente ter que comprovar sua identidade quando ia aos shows, ou quando era pega bebendo uma cerveja Gabbe, coisa que sempre adorava. Seus cabelos lisos num tom negro arroxeado presos num penteado formal com uma presilha prateada, a pele pálida, o nariz arrebitado e o olhar cauteloso, somados à maquiagem retrô-gótica em um roxo suave ao redor dos olhos e um batom da mesma cor, davam-lhe um aspecto etéreo e infantil, ao mesmo tempo, sério e adulto. E trabalhar num lugar como o Dr34mSc4p3 era aguentar todos os dias pessoas fazendo a mesma piada sobre sua aparência jovial.
“Cadê a gerente? Tem uma criança no balcão. Você não é nova demais para ficar tomando álcool? Menor de idade não pode trabalhar em um lugar como esse... Rá rá rá. Palmas. Assobios mecanizados e sons programados de fichas de crédito sendo oferecidos pela platéia no chat. Flores virtuais arremessadas no palanque de metal. Descem as cortinas digitais. Entram-se os comerciais. Comprem nossos novos STIMs legalizados e tenham mais do que sonhos molhados com sua atriz favorita. Desligam-se o Streaming.”
Um contraste completo de Emma, cuja aparência exalava a rebeldia punk da juventude atual. A tatuagem com o desenho de um Dragão, que pulsava em cores de néon cromado, começando em seu ombro e descia serpenteando, cobrindo o braço direito inteiro e terminando nos dedos. A linha em tinta preta em que atravessava a face, começando da maçã do rosto, passava pela ponte do nariz, terminando no outro lado da face, e os inúmeros piercings que perfuravam as orelhas. A pele num ébano claro, sempre reluzente, como se estivesse com uma camada de óleo corporal. E os cabelos sempre bagunçados e entrelaçados em cores aberrantes e distintas, como se gritasse numa mistura de “preste atenção em mim” com a busca de uma identidade própria.
— Ohhh...kay… — Marin se abaixou atrás do balcão e pegou uma latinha de ChrolixCola. Jogou-a para o alto, apanhando-a com sua mão esquerda, enquanto a mão direita deslizava por trás do balcão, pegando uma garrafa de Thermaldeído e derramando sorrateiramente num copo cheio com gelo. Os olhos de Emma foram, como esperado, levados a seguir a mão esquerda automaticamente. Marin fez seu famoso truque dos dedos mágicos, no qual fazia a latinha dançar por entre os dedos, quase como uma ilusionista fazia o movimento estático de uma esfera, enquanto os dedos percorriam sua superfície.
Enquanto a atenção de Emma estava centrada em sua mão esquerda, ela desceu, e levou a frente de seu rosto. Sua mão direita, agora colocava alguns mililitros de Blement, um líquido azulado que escorria viscoso e lentamente como um xarope para tosse. Deu uma piscada para Emma, que enrubesceu na hora e olhou para o lado, desviando o olhar. Marin deu um leve sorriso de canto de olho, enquanto abria a latinha, que espirrou seu conteúdo como um vulcão, para dentro do copo recém-batizado por ela, e colocou-o sobre a mesa, batendo-o com um pequeno estalo do vidro contra a madeira-faux do balcão.
— Esse é por conta da casa — disse Marin, voltando à sua inexpressividade de sempre.
— Olha, olha! — Disse Emma, apontando para seu rosto. — Eu vi! Eu vi um sorrisinho aparecendo nessa cara de parede de concreto! A Marin possui sentimentos.
— Cala a boca e toma logo seu refri — respondeu Marine, rindo. Em seguida, olhou para a parede. O relógio do estilo clássico que imitava um contador Geiger, trocava os minutos resetando os números e exibindo vinte e duas horas em ponto.
— Maaaaaaaaaaaaariiiiiin! — Uma voz abafada soou da porta atrás do Bar. Abafada, porém grave como a de um locutor de um Podcast da IntraSource.
Um som de caixas caindo misturado ao de metais batendo ecoou com um “Ohhh Shieeeeeeeeeet” típico inglês-creole. Não demorou muito para a porta se abrir, e um homem negro com cabelos rastafari longos e cheios, port-jacks de conexão a IntraSource em sua têmpora esquerda e lentes negras saindo de implantes na lateral ocular.
— Segu-inte m’nha querid’ — seu português era misturado com raro inglês-creole de imigrante, o que dava um sotaque engraçado e único para o dono do Dr34mSc4p3. — Ah! Olá, Em' — ele ergueu uma das mãos de trás da porta em direção a Emma que por sua vez retribuiu o gesto levantando uma das mãos, enquanto a outra segurava o copo de drink na boca. — Uma graça? Grací? Gracíous? Bom te vê porr' aqu' — e voltou a olhar para Marin, que limpava mais um de seus copos. Sua sobrancelha direita levemente arqueada para cima. — Pod' irr pro casa, mon Cherie. Eu cuidar diss' aqu'.
Marin olhou para o Café naquele momento. Poucas pessoas sentavam-se afastadas em cada cadeira e poltrona. Aliás, em qualquer horário eram poucas as pessoas que frequentavam aquele lugar. Somente aqueles que realmente queriam tomar os drinques de uma bartender que era pupila direta de Donovan String iam parar naquele lugar. Ou os que queriam sossego. Ou os dois.
"Ou parar para deixar a poeira baixar, porque a Polícia Ribossômica do Edifício Branco está atrás dele." Pensou Marin, logo afastando a ideia com um leve chacoalhar da cabeça.
— Ok, chefe. Você quem manda. Obrigada — respondeu Marin, já retirando o avental e colocando no cabide ao lado da portinhola que levava a cozinha. Foi até o outro lado do balcão e colocou a mão no ombro de Emma. — Vamos? — perguntou.
— Calma ae, deixa eu terminar issaqui — respondeu Emma, virando o copo agora com mais intensidade e tendo dificuldades de engolir o líquido, que agora descia mais denso por causa do Blement.
— Eu disse: vamos — respondeu Marin entre os dentes, em um sussurro de urgência, dando um pequeno puxão no braço de Emma.
— Tá, tá — respondeu Emma, levantando-se do banquinho e indo em direção à porta, com uma expressão emburrada. — Rin, pega meu casaco ali no cabide, por favor? — Emma aponta para o cabide perto de Marin, e enquanto a outra se vira, dá uma corridinha até o balcão e termina de virar o copo de bebida.
— Emma! Por Giga-Jehovah, vamos logo! — Suplica Marin, revirando os olhos e dando um tchauzinho para seu chefe. — Tchau Lecba, um feliz natal — Emma segue logo atrás, dizendo a mesmas coisas, enquanto Lecba sorri e acena para as duas antes de voltar para dentro da dispensa e arrumar as dúzias de latas de cerveja que havia derrubado.
II
Emma abraçou Marin do lado de fora do Café, seu hálito era uma mistura do forte cítrico do Thermaldeído, com o doce açúcar do ChrolixCola. E sua face já exibia um rubor digno do forte álcool do Blement.
— Então, o que vamos fazer? Porquê a pressa? — perguntou Emma, olhando diretamente nos olhos de Marin. Os olhos verde esmeralda da jovem punk encarando as profundezas do âmbar escurecido da Bartender.
— Você não conhece o Lecba, se ele te manda fazer uma coisa, você faz. Simplesmente assim. Você não titubeia, não pergunta e nao contradiz. Apenas faz — ela dá uma breve pausa. — Acredite, se eu ficasse mais um minuto, era capaz dele falar: "Pensand' bein, mon Cheriè, tenho alguns coisas a fazerr, pod' ficarr aqu' e fechar o bar?" — Marin se esforça imitando o tom de voz grave e o sotaque de Lecba. O que faz Emma rir de dobrar o peito e levar a mão à barriga.
Marin olha para Emma e ri também, se apoiando no degrau coberto de neve artificial. Escorrega e quase cai, apoiando-se desesperada no corrimão de aço-negro corroído, também escorregadio. Emma levanta a cabeça, olhando para a mulher a sua frente, agarrada no corrimão com uma expressão desesperada estampada em sua face, seus olhos arregalados mostram uma fragilidade que aquela mulher raramente demonstra. Um tufo de cabelo se desprende de sua presilha e cai em sua face. Marin o afasta com um sopro, somente para fazer Emma cair na gargalhada novamente.
— Eu disse que era escorregadia pra porra, Rin. Eu disse.
As duas saíram do beco claustrofóbico que levava ao Café Dr34mSc4p3. Emma passou a mão pela parede, parecia imersa em algum tipo de pensamento. Rin abriu a boca para falar, quando Emma se adiantou.
— Sabe, essa data é bem foda pra mim. Na real, creio que você é minha única amiga nesta cidade inteira — seus dedos passavam pelo que restava de uma antiga pixação descolorida entre as paredes de aço velho. — Meus colegas todos já não estão mais por aqui. Uns se foram, recondicionados pela Polícia Ribossômica. Outros saíram da Arka para tentar a sorte em outro lugar. O restante, ou morreram de overdose de Caldo, ou ainda encontram-se por aí, definhando na rua por causa do seu vício em STIMs ilegais, e preferindo passar o dia inteiro batendo uma até sangrar, do que tirar a porra do Capacete Virtual da cabeça.
Rin não diz nada, apenas a abraça pelo que parece ser uma eternidade, mas dura só um minuto. Ela entende muito bem o que Emma está dizendo, já que ela mesma largara seus pais na Eurozona e viera tentar a sorte na Arka Sampa-rio. Isso fazia uns bons anos em meados de 2064, antes mesmo do atentado do grupo Bio-Terrorista Braços da Liberdade em 2067, atentado que levou grande parte do pessoal que ela conhecia embora. De perdas ela conhecia muito bem. "Been there. Done there."
— Vamos. Está tarde. Não é legal andar por esses becos este horário. É perigoso, vamos para casa, lá podemos conversar e tomar uma cerveja, e assistir a queima digital de fogos pela Source — respondeu Marin, dando dois tapinhas nas costas de Emma e dando-lhe um sorriso.
— Não se preocupe Rin. Ninguém vai querer mexer comigo — Emma dá uma breve pausa. — Conosco — reafirmou.
As duas mulheres caminharam por meio das ruas paralelas, evitando ao máximo passar pelas ruas principais, apinhadas de gente, alvo fácil para grupos de estelionatários e garotos de rua que eram hábeis em punga. Como dizia Emma, em um momento você tinha seus documentos e sua carteira, e outro momento se puderem arrancar sua calcinha, eles levam sem você nem desconfiar, só vai perceber quando seus pentelhos estiverem gelando ao ar livre.
Subiram uma grande passarela que atravessava de um setor comercial para o setor residencial, passaram por um dos climatizadores gigantes, que disparavam neve artificial para o alto. Marin ficou observando aquela monstruosidade com uma certa admiração. Por um momento ficou sentindo aquela vibração intensa, de um rugido de uma fera, fazendo o quarteirão e as passarelas que ali entrelaçaram-se, balançarem como numa dança frenética, que Marin deixou-se levar por um repentino transe que a lembrou da sensação que teve quando descia pela primeira vez de um Vhuzon Alado, após viajar durante horas dentro dos sacos bulbônicos, enquanto atravessava o Oceano. Era uma sensação que misturava náusea com uma pitada de adrenalina, visto que os Vhuzons eram por si, um animal e não um modelo antigo de avião, como seu avô costumava dizer que usavam em seu tempo.
Emma tocou em seu ombro, e gritou alguma coisa, tirando-a de seu transe. Não entendeu absolutamente nada do que a menina lhe gritava, mas sua expressão era de dor. E saíram dali correndo. Só depois que chegaram no outro lado da passarela, onde o chacoalhar da Máquina virava apenas uma breve vibração, como o ronronar de um gato, que Marin pode entender do que se tratava a urgência, Emma lhe disse então, com um certo alívio em seu tom de voz, que o zunido era tão alto que faziam as próteses, principalmente o chip de cidadã da Arka, implantada na cabeça de Emma, reverberar de tal forma que chegava a doer.
Chip que depois do evento de 67, fora decretado que todos os cidadãos da Arka tivessem implantados seu crânio para facilitar seu monitoramento dos reconhecimentos de padrão e monitoria da segurança por meio de Pontuação Social, conexão com a IntraSource e o Grande Servidor e facilitar a alimentação das redes neuronais das IAs das grandes empresas para o marketing direto e personalizado. Todo cidadão era declarado pessoa existente e legal perante a constituição com esse chip.
Rin balançou a cabeça e apenas disse que entendia. E as duas desceram os lances de escada quietas.
Ela não tinha próteses.
III
A entrada do prédio onde Marin morava era escondida entre duas lojas pequenas, sendo uma portinhola de aço inoxidável pintada de preto fosco. Boa parte da luz que iluminava a passagem vinha da loja da direita, de uma projeção 3D de um mascote bizarro, que era a mistura um relógio-cuco com um urso panda bootleg, segurando uma plaqueta com os dizeres: “Recuperação de dados de dispositivos analógicos”, seja lá o que isso significasse na real para Marin, e apontando para o interior da loja, um emaranhado de fios e peças de metal jogadas entre gavetas abertas.
As duas mulheres ficaram um tempo na frente da porta, enquanto Marin procurava em sua pequena bolsa o cartão de entrada do apartamento, quando uma chuva repentina começou a cair. Gritos femininos ecoaram da rua, pegas desprevenidas e donos de estabelecimentos, como o do restaurante do outro lado da rua, corriam para tirar as mesinhas da rua para mais perto dos toldos. Ao puxar Emma para mais perto de si para tirá-la da chuva, Marin sentiu o cheiro doce do óleo corporal e o cheiro do tecido da roupa da garota. Ela deu um pequeno sorriso para Emma, que retribuiu com seu sorriso enorme e branco, achando graça na cena das duas engalfinhadas numa pequena passagem para evitar a chuva.
Virando a cabeça para o lado, Marin apertou o botão do interfone duas vezes. Na primeira vez, o segurou por alguns segundos, ouvindo o som eletrônico do toque soar em meio ao caos que se instalava na rua, à medida que a chuva aumentava de intensidade. Na segunda vez, uma voz meio arrastada soou por meio do velho alto-falante.
— Oi… ahn… oi? Riney? É você? — Marin se vira para olhar para a pequena câmera acima do interfone e mostra a língua, voltando a encarar a câmera com sua inexpressividade de sempre. — Esqueceu de novo seu cartão? — a voz feminina era abafada pelo ruído do próprio interfone.
— É. Esqueci. Olha está chovendo muito, a não ser que você queira que eu fique doente, por favor, abre a porta, vai! — Respondeu Marin, sem muita paciência, puxando o corpo de Emma contra o seu para tirá-la da chuva, que agora mudava de ângulo.
Em poucos segundos, o estalido da tranca do portão ecoa e as duas mulheres que estavam encostadas contra a porta caem para dentro do saguão. Emma caindo em cima de Marin. As duas se encaram fixamente olhos nos olhos, gotas da chuva escorrendo pelos cabelos desgrenhados e colados à testa de Emma, e caindo sobre o rosto de Rin, borrando sua maquiagem gótica. A expiração funda de Emma fazendo pequenas nuvens de vapor. O cheiro de chocolate vindo do batom de Marin. A pele branca de seu rosto.
— Vão ficar aí no chão mesmo? Ou querem que eu estenda um tapete pras senhoritas rolarem? — Perguntou uma voz feminina vinda do andar de cima.
Emma disfarçou e jogou o corpo pro lado caindo de costas no chão empoeirado. Marine pigarreou enquanto olhava para cima em direção a escadaria. Uma mulher trans estava encostada na guia da escadaria que levava ao primeiro andar. Ela tinha sua maquiagem pesada e cartunesca aplicada ao rosto, a barba por fazer complementava sua aparência, assim como os cabelos loiros enrolados em uma toalha rosa, pendendo como um ninho de vespas em um ângulo desconfortável.
— Oi, Val. Estamos subindo. Desculpe a cena. Esqueci novamente o meu cartão de entrada, ou na real, ele deve estar em algum lugar da minha bolsa — Rine levanta a pequena bolsa que pendia solta ao lado do corpo. — Mas começou a chover e não queria me molhar mais…
— Já ouvi essa história antes, mas nunca teve uma entrada tão clichê — Valentina riu alto, lembrando da cena das duas mulheres caindo no meio do saguão. Sua risada saia engasgada como uma gralha velha, após fumar durante anos pelo menos dois maços da mesma marca de cigarros Palm Street. A velha inquilina do Apartamento 103 sumiu por um instante, e reapareceu com um cigarro aceso em sua boca. — Espero que esteja tudo bem com você. Conseguiu sair mais cedo do trabalho hoje? O que foi? O negão gostoso estava de bom humor para deixar as pombinhas saírem? — Valentina fez um gesto apontando para as duas mulheres no andar de baixo.
Emma já estava em pé, analisando o estrago da chuva em sua roupa de jeans sintético, e ao ouvir o que a velha disse, repetiu em uníssono junto à Marin, que já começava a subir as escadas, que eram apenas amigas. Ao terminar a frase, as duas mulheres se entreolharam e riram como se fosse uma piada interna. Valentina no andar de cima, dava dois tapinhas no corrimão e se despedia com um aceno.
— Oh, entendi — respondeu ela com um sorriso no rosto. — Bem, minhas formosuras, a noite é jovem, mas a Val aqui não. Vou voltar às minhas VídeoNovelas antigas e aos meus Discos de Valsa. Ciao, minhas queridas. Um beijo e um Feliz Natal para vocês.
Subindo até o primeiro andar, Emma conseguiu dar uma espiada no apartamento de Val antes desta fechar a porta. O apartamento pequeno era uma mesclagem de cores vivas de tapeçarias antigas com a fumaça de incensos acesos em um pequeno altar em uma mesinha a uma entidade diferente de Giga-Jehovah. Uma poltrona coberta por um crochê bem detalhado ficava contra a parede, de frente com uma tela de projeção líquida antiga, no qual um programa gravado pausava numa cena em um raro preto e branco (ou talvez era a velhice do equipamento, Emma não sabia discernir), onde uma mulher gritava com a expressão em um "Oh".
As duas mulheres caminharam para o fim do corredor, e pararam na frente do apartamento 108, onde Rin colocando a mão sobre o dispositivo de tranças, escaneou sua palma da mão, tremeu por um tempo, e soltando uma espécie de gás pneumático, respondeu com um bem vindo, no monitor pequeno logo abaixo da placa que atravessava de um lado a outro a porta. Com um tranco e um empurrão nos ombros de Marin, a porta se abria e Cole, seu gato preto gordo, miava alto e vinha cumprimentar sua tutora e pedir mais ração.
— O zelador daqui é meio fissurado em segurança, diz ele que é pelo bem de todos. Mas né, nunca se sabe. Entre, Emma — disse Marin procurando o interruptor para ligar a luz do pequeno apartamento, e abaixando-se para fazer carinho em Cole, que ronronava e deitava de barriga para cima.
— Não imaginava você como uma mulher dos gatos, Rin — disse Emma, enquanto olhava ao redor no pequeno apartamento. A minúscula sala 3x3, com uma mesinha de futon e um pequeno colchão enrolado na lateral de um dos cantos da saleta, davam um ar de solidez e era marca registrada que só havia uma pessoa ali. O papel de parede era de um papel de parede digital da marca SanSolite, que poderia ser modificado a qualquer hora, naquele momento estava imitando uma papel de parede infantilizado com coelhinhos e cenourinhas, em um fundo rosa com linhas brancas. A cozinha era apenas uma pia sobre uma pequena máquina de lavar roupa, e um fogão de indução sobre uma pequena prateleira de faux-mármore. O frigobar ficava do lado da mesinha, e apoiava um pequeno monitor digital que mostrava linhas de programação estáticas, e fios ligados a um capacete de Augmentação Virtual conectados a um display port, preso a parede davam a entender que Rine programava alguma coisa para ser exibido através de AR. Na outra extremidade da parede, havia uma porta de vidro que levava a uma sacada pequena e curta, munida por um corrimão de aço negro, e uma tela de proteção aplicada para evitar uma possível fuga de Cole.
Emma deixou escapar um espirro e Marin logo levantou-se e apontou para a porta no pequeno corredor à esquerda.
— Ali fica o banheiro, vá tomar um banho quente que eu cuido de suas roupas molhadas, só as deixe no cesto lá dentro. Não se preocupe, tem uma gaveta lá dentro, pode pegar uma roupa que achar que sirva em você — Marin aponta para o lado de fora para a sacada, onde flocos de neve artificial se misturavam com a água que caía das chuvas, formando massas que entupiam os bueiros e as calhas dos apartamentos. — Creio que você vai ter que passar a noite aqui, se não for um problema.
— Não — disse Emma, quase que de imediato. — Não, não é um problema —, e apontou para o banheiro —, eu estou indo tomar um banho, então. Obrigada.
— Sem problemas, Emma. Espere um pouco antes de entrar no chuveiro. A fiação desse prédio é um tanto velha, então a indução do calor do chuveiro é demorada. Recomendo você já ir abrindo o registro antes de qualquer coisa — disse Marin, com um sorriso no rosto, enquanto abria o frigobar e tirava um sachê de comida para Cole.
Emma acenou com a cabeça e foi direto para o banheiro, enquanto Marin ficou olhando seu quadril balançando suavemente, enquanto caminhava. Quando essa abriu a porta e adentrou ao banheiro, olhou para Marin, e deu um sorriso tímido, e quando a mesma retribuiu com um sorriso. Emma fechou a porta rapidamente. Do outro lado, Marin retirava toda a sua roupa, jogando-as na lavadora de roupas, colocava uma camiseta branca sem estampa, ficando somente de calcinha. E fazia um chá. Quando o mesmo estava pronto, colocou num copo de cerâmica. Estendeu o futon sobre o chão, e enfiou as pernas debaixo da mesinha climatizada e esperou por Emma, enquanto bebericava e assistia o noticiário mostrando o pandemônio que havia se instaurado na Avenida Central.
IV
Emma tirou sua roupa grudada ao corpo. E enquanto esperava o chuveiro aquecer, olhou seu corpo no espelho digitalizado fixo na parede.
O corpo da jovem era coberto por cicatrizes, equimoses e tatuagens. Cada uma delas sendo uma parte de sua vida: Uma grande esfera com olhos um expressivo neon vermelho enrolada por uma serpente branca marfim, representava a sua já extinta gangue. A sequência de números hexadecimais tatuados ao redor de sua coxa, representava o livro de Noah. Uma das inúmeras representações do Livro de Giga-Jehovah, que nascera sob influência quando mais nova. Antes mesmo de ser vendida pela família aos 13 anos, por causa de dívidas com a Máfia.
Os desenhos abstratos e sinuosos, tatuadas na pele sintética de suas próteses que subiam suas pernas, passavam por suas nádegas largas e terminavam em asas em sua lombar em uma cor neon azul-claro, representava que havia começado no abismo, mas ainda estava em busca de redenção. A tatuagem que dividia o peitoral, em uma mandala psicodélica que circulava os seios pontudos e firmes. Esta tatuagem em si, junto a de seu braço e rosto, já não possuíam mais significados, apenas eram mais uma entre tantas no seu corpo de canvas.
Virou-se para olhar a pia pequena construída às pressas, onde o papel de parede digital desligava-se em um glitch, exibindo no que parecia ser concreto liso atrás, e notou que haviam diversos vasilhames de remédio. Estradiol. Progesterona. Espironolactona. Emma deixou um suspiro passar por entre os dentes. “Tantos remédios. Ela nunca me falou disso”, pensou, sem fazer ideia do que os remédios tratavam, e foi tomar seu banho, assim que viu as primeiras nuvens de vapor saírem por entre as frestas do box.
Ao sair do banho, abriu a gaveta de roupas de Marin, e escolheu uma camisa curta preta de uma banda underground que servia como um cropped, e o maior shorts que ela tinha, visto que as calcinhas dela eram boxer e não serviam muito bem nela pois não lhe passavam no quadril. Quando saiu do banheiro, encontrou a Bartender verificando o feed de seu dispositivo móvel.
— Oi. Espero não ter demorado muito. O banho estava muito relaxante — disse Emma, sentando-se ao lado de Marin e pegando a latinha de cerveja que a mulher havia deixado em cima da mesinha.
— Não demorou, não — respondeu Marin, olhando para Emma. Seu cabelo molhado deixava de ter aquele aspecto caótico para um mais simples, mostrando um lado feminino que não costumava ver em Emma. A mistura de azul com loiro simplesmente fazia todo o sentido para ela. E vendo o corpo tatuado da mulher, entendia muito bem o porquê. E deixou-se levar pela beleza estranha e única de Emma, quando esta perguntou o que estava fazendo.
Desviou o olhar rapidamente para a estampa da camisa curta que ela usava. “Morbid Retards”, em letras que mais pareciam um gorfo de um mendigo em verde berrante.
— Sabe, fazia tempo que não via essa camiseta — uma mentira feia, ela via essa camiseta todos os dias. — Sabe, eu participei dessa banda quando mais nova. Eu tocava baixo.
— Não diga. Marin. Participando de uma banda tocando contra-baixo? Que mentira… Não creio.
Marin sorriu e olhou para a tela do monitor, faltavam vinte minutos para a meia-noite. E ponderou sobre contar uma história, ou deixar morrer por ali. Tomou mais um gole de seu chá e continuou.
— Quando eu tinha meus 17, 18 anos — Giga-Jehovah, já fazia assim tanto tempo?! — Antes mesmo de eu sair da Eurozona, eu tocava nesse bar underground onde o público Queer costumava frequentar. Eu gostava do ambiente, sabe? Era aconchegante, era um lugar onde podíamos ser que quiséssemos ser, sem a repressão do governo ou de retardados preconceituosos. E eu conheci o vocalista dessa banda, antes dele morrer de overdose, lógico. Eu peguei gosto pela coisa e quando vi, já estava no palco sendo eu mesma. Era Rin, baixista dos Morbid Retards — ela soltou uma risada leve e deu uma bebericada no seu chá. — E eu aproveitei cada segundo disso, sabe?
Emma, encostou a cabeça em seu ombro e diminuiu a intensidade das luzes na sala, o papel de parede mudou automaticamente daquele rosa com coelhinhos para uma galáxia e a infinidade negra do espaço.
— Quando as leis ficaram mais intensas na Eurozona, e gente começou a ser perseguida pela chamada “realocação de pessoas”, instituída por aquele filha da puta do Chanceler, que não era mais que uma “limpeza étnica e racial”. Peguei um Vhuzon para a primeira cidade que eu pude achar fora da Eurozona, antes que eles travassem os aeroportos. E vim parar aqui nesta Arka. Sem um puto no bolso, ilegal, sem meus remédios. Sem saber um caralho da língua nativa — A mulher suspirou e sentiu os braços de Emma enrolando nos seus e o calor de sua mão apertando a sua.
— Tive muita sorte — continuou. — O que me salvou de um destino de prostituição, foi justamente ter encontrado as Y@gs. E a Madame Valentina, que era líder da gangue na época, me acolheu, conseguiu, por meios de seus contatos, os meus remédios. E me colocou em contato com Donovan Strings, meu mentor que na época precisava de alguém para aprender o ofício de bartender — deu uma pequena risada lembrando das falhas dela na época, dos esporros e do sorriso de satisfação quando Donovan aceitava algo que ela fazia. — Sabe, o que eu faço hoje não é diferente do que um ilusionista faz. Eu manipulo a atenção das pessoas para verem o que eu quero que ela vejam. Entretenho. Brinco. Enquanto, por trás, existe todo um cálculo específico para acertar no drink que a pessoa quer.
— Na realidade — Marin olhou para cima, encostando o rosto sobre a cabeça de Emma, sentindo o cheiro de seu xampu exalando como um perfume de criança —, eu sinto que é isso que eu vejo ultimamente. Uma falta de conexão. Dia após dia pessoas chegam no Café, e expõem suas vidas, suas frustrações, suas opressões diárias. Para alguns o alcoolismo é como um bicho-papão que devem enfrentar todos os dias. Para outros é a Betty do Almoxarifado. Para outros é a pressão dos milhares de streamers que exigem que você fique 24h online. Todos eles, por si só, são isolados neste mundo. Presos a apenas enxergar o outro através de mínimas janelas da cozinha, como a minha. Destituídos de atenção. De carinho. De alguém que possa ouvir. Este é o nosso presente, infelizmente, e...
Emma vira o rosto e beija Marin, não deixando-a continuar. Não precisava ouvir mais nada. Aquelas palavras eram suficientes.
No monitor, uma IA em forma de urso preto com bochechas vermelhas dançava ao redor da árvore de natal, enquanto o céu era pintado de cores neon, em explosões de fogos de artifício digitais. Os dizeres “Feliz Natal”, eram escritos na tela em diversos idiomas e exprimindo o desenho de todo mundo, que pelo menos o Natal celebre o momento que Jehovah morreu e ressurgiu dentro do Grande Servidor espalhando sua palavra por toda a IntraServer.
Um feliz Natal.
—–- Maxine, 2019
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