Drácula-Untold
2 Sonhos atormentados
Notas iniciais

A chuva bateu em meu rosto fazendo meu cabelo encharcar e eu sorrir com a sensação da água gelada em minha pele. As pessoas na rua correm de um lado para o outro tentando não se molhar, mas eu realmente não ligo para isso, aquela era a melhor sensação que eu estava tendo durante esse mês. A chuva sempre me trazia paz e calma, tudo o que eu mais precisava no momento. Para mim, um banho de chuva era a melhor coisa que existia para se lavar a alma e a mente, e a minha cabeça estava precisando urgentemente ser clareada. Os pesadelos se repetiam haviam voltado e eu me sentia cada vez mais estranha com eles, de alguma forma eles pareciam mais reais nas ultimas semanas.
Olhei para o enorme relógio e comecei a correr em direção à cafeteria. Eu estava atrasada, de novo. Entrei no lugar quente e vazio e olhei ao meu redor, Rosalie era a única ali, estava sentada na última mesa com duas xicaras de café na mesa e um livro nas mãos. Andei até ela e me sentei forçando um sorriso. Quão brava ela estaria com meu pequeno atraso? Ela revirou os olhos e fechou o livro empurrando a xícara de café para mim.
—Beba ou vai acabar doente. –ela disse com um tom de reprovação enquanto me analisava. Rose sempre era protetora, como uma verdadeira mãe. Alice e eu costumávamos brincar dizendo que ela era a matriarca do grupo. –Quanto tempo ficou de baixo da chuva?
—Alguns minutos. –eu respondi bebendo o café. A bebida quente queimou minha língua, mas era bom beber algo quente. –Eu acabei me distraindo com o horário, desculpe.
—Tudo bem, apenas termine isso e vamos para casa, você precisa de um banho e trocar essas roupas. Tenho certeza que vai pegar um resfriado.
Eu assenti e Rosalie se levantou andando até a bancada. Eu não me preocupei em olhar o que ela fazia, apenas terminei de beber meu café e andei até ela em silencio. Ela pegou uma grande sacola com a atendente e guardou seu livro na bolsa pegando um guarda chuva e a chave do carro. Nós saímos de lá em silencio e andamos até a Mercedes, que ela tanto amava exibir, que estava estacionada do outro lado da rua. Entrei e ela me entregou a sacola. Dentro havia quatro cupcakes vermelhos. Rose dirigiu em silencio até nossa casa, que não era longe, apenas cinco quarteirões dali. Ela estacionou o carro na garagem e fechou o portão pegando sua bolsa.
Observei minha amiga com cuidado, seu cabelo loiro estava preso em um coque no alto de sua cabeça, havia olheiras discretas em baixo de seus olhos acinzentados. Ela parecia cansada e irritada. Eu não disse nada, apenas entrei em casa atrás dela e coloquei minha mochila no canto da sala. Rose colocou a sacola na cozinha e começou a fazer um pouco de chá, que eu julguei ser para mim, já que ela odiava chá.
Andei até meu quarto tirando o casaco com um pouco de dificuldade e abri a cortina do quarto, ligando a luz em seguida. Já estava quase anoitecendo, as nuvens estavam escuras e pesadas e a chuva parecia estar ficando cada vez mais forte. Fechei a porta do quarto e respirei fundo indo até o banheiro tirando o resto da roupa e jogando-o no cesto que ficava em baixo da pia de mármore branco.
Peguei a toalha jogando-a em cima do Box do banheiro, liguei o chuveiro quente e entrei em baixo da água deixando a água morna molhar meu cabelo e tirar o gelado da minha pele. Lavei meu cabelo sentindo o doce cheiro de morangos que exalava do meu shampoo e após o banho escovei os dentes. Enrolei-me na toalha e sai do Box indo até a pia. Sorri para o espelho embaçado e coloquei minha mão sobre ele e deslizei para a esquerda olhando para o meu reflexo, as maçãs do meu rosto estavam um pouco avermelhadas devido ao vapor. Olhei para trás de mim encontrando um par de olhos verdes e me virei com pressa sentindo meu coração acelerar. Não havia ninguém ali além de mim. Olhei novamente para o espelho e então ao meu redor, eu estava sozinha. Meu coração ainda estava acelerado, não por medo, por surpresa.
Abaixei o olhar para o chão e fitei a pequena flor no chão, me agachei pegando-a e a analisei, era minúscula e branca, provavelmente estava presa em meu cabelo antes do banho. Eu ri baixo.
—Vamos lá Bella, largue de loucuras. –eu sussurrei para mim mesma pensando nos olhos verdes do espelho.
Tirei a toalha enxugando o corpo e o meu cabelo, coloquei a lingerie e me preocupei em passar o hidratante que Alice havia me dado no meu último aniversário, o cheiro de morangos era bom e parecido com o do meu shampoo, apenas um pouco mais suave. Assim que terminei eu peguei o secador e me ocupei com meu cabelo, o barulho do secador impedia minha cabeça de pensar no ocorrido e dava tempo para meu coração se acalmar. Voltei para o quarto assim que terminei e vesti minha regata preta e a blusa de moletom fazendo um coque no cabelo em seguida enquanto vestia o short e minhas meias que iam até metade da coxa, assim Rose não iria implicar de eu ficar sem sapatos.
Sentei-me na cama e olhei para a janela, ainda chovia muito lá fora e era difícil enxergar a rua, os postes iluminavam levemente à estrada, do outro lado da rua havia um banco de madeira e nele eu conseguia ver uma figura sentada ali. Era um homem. Eu não conseguia ver seu rosto, pois a chuva forte e o capuz que ele usava dificultavam muito, mas sua forma era familiar, como seu eu já o tivesse visto antes. Ele levantou o rosto e eu pude notar um estranho brilho esverdeado dos seus olhos, assim como o do reflexo no meu espelho.
—Bella! –chamou Rosalie me assustando.
Eu olhei para a porta encontrando minha amiga segurando uma caneca nas mãos e então para o homem novamente, mas ele havia sumido. Fechei as persianas com pressa e andei até a porta com o coração acelerado, Rosalie sorriu me entregando a bebida e então, após me analisar por alguns segundos, sua expressão mudou para preocupação.
—Você está pálida. Está tudo bem? –ela perguntou.
—Estou bem. Apenas me assustei. –eu menti forçando um sorriso. –Alice já chegou?
—Ainda não, ela ligou da estrada, disse que só vai poder chegar amanhã cedo. A chuva fez algumas árvores caírem na estrada, então ela vai passar a noite na casa do irmão dela e volta amanhã cedo. –ela respondeu ainda me analisando. -Você tem certeza de que está bem?
—Sim. –eu menti novamente olhando para a janela. Eu me sentia estranha. Talvez um pouco frustrada?
—Bella, você é uma péssima mentirosa. –ela disse revirando os olhos e saindo do quarto.
Ele segurou meu rosto entre suas mãos. Suas mãos frias não me incomodavam, ele percebeu isso e sorriu. Eu gostava de vê-lo sorrir, era raro e quando ele olhava para mim daquele jeito eu sentia como se todos os problemas no mundo pudessem desaparecer. Ao contrário do que muitos aconselhavam, quando ele estava comigo eu não tinha medo, eu me sentia protegida, amada como nunca senti antes e leve. Seus olhos verdes me observavam, parecia que podiam ver através de minha alma e pareceu preocupado com o que viu.
—Meu amor o que lhe aflige? –ele perguntou novamente, sua voz era calma, mas eu podia ver a preocupação por trás de suas palavras.
—Não é nada, eu estou bem. Não precisa se preocupar. –eu o acalmei sorrindo.
Tirei suas mãos do meu rosto e o abracei sentindo seu cheiro, a mistura de canela e maçãs frescas me acalmava.
—Você é uma péssima mentirosa. –ele disse rindo baixo.
Balancei a cabeça confusa, esses malditos sonhos precisavam parar. Estavam se repetindo várias e várias vezes na minha cabeça, até mesmo quando eu estava acordada.
Respirei fundo e andei até minha mesa abrindo o caderno e começando a fazer os exercícios que eu precisava para quando as aulas voltassem. Minha cabeça se voltou para Rose e como ela parecia preocupada comigo. Eu não queria contar a ela sobre essas imagens que apareciam em minha mente, pois eu não fazia ideia do que eram. Aquilo me assustava um pouco, talvez ela pensasse que eu finalmente fiquei louca. Alice era melhor em entender essas coisas, eu estava ansiosa para que ela voltasse logo de sua viagem, eu sentia falta dela mais do que eu conseguia expressar.
Alice e eu estudamos juntas em um internato na Suíça por quatro anos, onde conseguimos uma bolsa para estudar em Brasov. Nós aceitamos sem pensar duas vezes e nos mudamos juntas para cá, foi onde eu conheci Rosalie, ela e Alice se conheciam há muitos anos. Nós nos demos bem de cara e Rose ofereceu dividir sua casa conosco. Hoje fazia dois anos desde que nós nos mudamos para cá e cinco desde que meus pais faleceram. Uma parte da minha cabeça se lembrou dos rostos deles, mas reprimi as lembranças o mais rápido possível. Não queria pensar neles agora.
Ainda chovia lá fora e as lembranças estavam me impedindo de me concentrar no que estava lendo. Estava bem óbvio que eu não conseguiria fazer nada de útil por enquanto. Fechei o caderno e os livros e respirei fundo. Bebi o chá quente e olhei para a janela observando o banco de madeira onde eu havia visto o homem. Para onde ele havia ido tão rápido? Eu não poderia ter imaginado ele. Poderia?
O barulho dos saltos da bota de Rosalie se fizeram presentes quando ela entrou no meu quarto novamente, ela andou até minha cama e sentou me observando. Ela realmente parecia cansada.
—O que aconteceu com você? –eu finalmente perguntei. –Parece cansada.
Ela deu de ombros e abaixou o olhar para suas mãos.
—Não dormi bem essa noite. –ela disse baixo. –Mas e você? Também parece cansada.
—São apenas pesadelos. –eu admiti olhando para minhas mãos. Por algum motivo que eu desconhecia, me sentia estranha falando sobre os sonhos. A verdade é que eles não pareciam apenas pesadelos, eu me sentia dentro deles, como se estivessem se repetindo. -Eu não tenho dormido bem ultimamente e eles não saem da minha cabeça. –eu tentei resumir.
Ela voltou a olhar para mim mais atenta.
—Pesadelos? Que tipo de pesadelos?
Olhei para ela e pensei no que poderia dizer. Não havia nada que eu pudesse explicar para ela, porque eu não entendia o que se passava em meus sonhos. Eles eram sempre diferentes, mas de alguma forma pareciam iguais, sempre cheios de gritos, vozes me chamando, sangue, barulhos metalizados como espadas indo de encontro á outras, rosnados altos e selvagens e também havia o par de olhos vermelhos que me fitava. Mas, incrivelmente, eu não conseguia sentir medo dos olhos vermelhos, eu sentia pena e tristeza. Tristeza porque a dor neles era maior do que a que eu sentia no sonho.
—Não me lembro deles. –eu menti novamente.
Ela bufou.
—Bella, por que você sempre guarda essas coisas para você? Sabe que pode me dizer qualquer coisa, sou sua amiga. Quero apenas te ajudar.
Rosalie me observou parecendo realmente preocupada e até um pouco magoada, eu confiava nela, muito, mas algo me deixava insegura sobre os sonhos. Eu respirei fundo e larguei a caneta olhando para minha amiga com mais atenção. Eu realmente precisava falar com alguém sobre aquilo, ou ficaria louca.
—Não são coisas conexas e algumas não fazem sentido algum, como se faltassem partes. –eu tentei explicar. -Eu sonho com um castelo, um lugar muito bonito e familiar. Tudo começa bem, com uma música calma e comigo me sentindo feliz, eu estou dançando com alguém, mas é ai que tudo fica confuso. As próximas coisas que eu me lembro, é de estar deitada em um chão frio, tem sangue por todo lado e eu escuto gritos, escuto pessoas chamando o meu nome, escuto alguém chorar e ai ele aparece...
Minha voz sumiu na garganta e eu abaixei o olhar. Percebi que meus olhos estavam cheios de lágrimas.
—Ele quem? –ela perguntou com a voz baixa, quase como um sussurro.
—Eu não sei o nome dele. –eu disse respirando fundo. Sequei a lágrima que escorreu pelo meu rosto. –Eu só sei que no sonho ele está sofrendo muito e aquilo dói muito mais do que qualquer ferimento que eu já tive. Eu te disse, eu não entendo nada eu apenas... Apenas dói ver ele com tanto sofrimento nos olhos.
Ela andou até mim e me abraçou forte, tentando me reconfortar.
—Bella...
—Eu vou me deitar, minha cabeça está doendo muito. Diga para Alice que amanhã a gente conversa. –eu pedi a interrompendo e beijando o alto de sua cabeça.
Ela assentiu e então saiu do meu quarto fechando a porta. Eu respirei fundo me acalmando tranquei a porta tirando os shorts e abrindo uma das persianas abertas, peguei meu celular colocando uma música calma para tocar e me deitei na cama fechando os olhos.
Olhei para as flores em minhas mãos. Elas eram tão lindas minúsculas e brancas, tão delicadas quanto uma pluma. Elas espalhavam um delicioso cheiro doce pelo ar.
—Que flores são essas?
Virei-me para Edward e entreguei os galhos, ele observou as flores com cuidado, pareciam ainda mais delicadas em suas mãos. Ele quebrou um dos galhos com flores brancas e colocou-o atrás de minha orelha. Eu sorri e fiquei na ponta dos pés o beijando.
—Eu achei-as nascendo ao redor do castelo e as peguei. São tão lindas, aqui deveria ter mais flores. –eu disse segurando suas mãos.
—Se é o que deseja, mandarei plantarem um jardim inteiro para você.
Abri meus olhos fitando o teto, eu sentia que alguém me observava, a luz da lua iluminava um pouco do quarto, eu me sentei e olhei ao redor, eu estava sozinha. A casa estava silenciosa, apenas o barulho da chuva ecoava pelo quarto.
A pequena lágrima apareceu novamente em meu rosto, mas dessa vez o sentimento não foi de medo ou angustia, mas sim de saudade e aquilo pareceu doer mais do que o medo. Deitei-me virando para o outro lado jogando a coberta sobre o meu corpo e encarei a parede. Eu precisava de uma noite sem sonhos, apenas uma. O rosto do homem do meu sonho voltou e eu senti um aperto no meu peito.
Fechei os olhos e ouvi a voz de sempre sussurrar meu nome, uma pequena lágrima escorreu nos meus olhos enquanto eu respondia e voltava para a escuridão dos pesadelos.
—Edward.
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