Double face
8 Cap. 8: Mundo congelado
Notas iniciais
AMANDA
Pousamos numa pista particular e isolada. Quando desci do avião olhei em volta: ao redor da pista havia mata, a não ser por um edifício. Ele estava bem distante. Um lugar bonito. Uma construção parecida com um palácio.
O lugar era todo feito de vidro trabalhado. no cento tem um domo, que lembra um pouco uma capela; a não ser pelo fato de não ter nada religioso aqui. Ao invés de ter coisas bonitas desenhadas nos vidros, tinha coisas horrorosas: pessoas sofrendo, fogo, demônios... como se fosse imagens do inferno. Só percebi isso depois que cheguei mais perto. Porque aquilo não tem nada de bonito.
Um grupo de pessoas vinha me acompanhando. Decidi não fugir... pois... fugir pra onde? Pra mata? não eu iria morrer na primeira hora... isso se não me encontrarem.
Na porta do edifício inferno − foi o nome que eu lhe dei − encontrava se uma mulher... ela parece a Bruxela do filme 101 dálmatas. Seus cabelos são metade brancos metade pretos. Esta usando um vestido horrendo azul marinho com mangas e gola pretas.
− Amanda... − a voz dela é tão doce e amistosa... bem diferente da aparência.
− e você é? − eu sei que pareço arrogante mas... estou aqui contra minha vontade.
− Me chame de Madame Aldegunda.
Se eu não tivesse apavorada iria rir. Aldegunda? Fala sério... se me dessem esse nome eu me mataria antes mesmo do batizado.
− queira me acompanhar Amanda...
− você não fala inglês? Achei que estávamos no Estados Unidos...
− ah... querida estamos no Estados unidos... mas falamos português também...
− em que parte dos estados unidos estamos? E porque está calor? Achei que o clima dos estados unidos fosse contrario do nosso.
− ah... aqui faz muito frio... é só no nosso lugarzinho especial que faz calor.
Ela me levou para uma sala no segundo andar... não reparei muito na decoração anterior que nós passamos... mas essa é impossível de não notar. Fica bem no centro pois não tem janelas. As paredes são vermelho vivo, há uma lareira acesa no fim do cômodo. Tem uma cama enorme com vários cobertores sobrepostos, um mais escandaloso que o outro. O chão é coberto por alguma coisa que emana calor, muito calor. E a coisa mais bizarra ainda é a cabeça de um animal muito esquisito empalhada na parede em frente a cama.
− que bicho é esse?
− ah... é uma espécie de macaco... narigudo é como chamam.
− nunca vi.
− Amanda... ele não é original daqui. Vem da Ásia.
Nem um minuto aqui dentro e comecei a suar feito um porco.
− descanse um pouco Amanda... precisa de mais alguma coisa?
− sim... de um ar condicionado. Por que diabos querem esquentar esse quarto? Vão me cozinhar?
− ah... Não. Não... é só pra você não se esquecer do que é o calor.
− por que eu iria esquecer? _ pergunto com ar de desafio.
− você verá. Em breve.
Dizendo isso ela saiu me deixando sozinha. Rapidamente apaguei a lareira, cobri o narigudo com uma coberta não muito diferente do bicho, arranquei um pedaço do carpete e deitei ali... naquele piso gélido.
Fiquei, nas próximas três horas, imaginando minha fuga. Dezenove ideias, quinze inúteis, duas impossíveis, uma ridícula e a outra, a ultima que tive, me pareceu boa. Seria tacar fogo no quarto... mas tinha um único defeito. Eu apaguei a única chance de fazer isso. Literalmente.
Nesse instante a porta, anteriormente trancada, se abre. Dela surgem dois carinha morenos, pálidos e magricelas. Eles fazem um gesto para que eu lhes acompanhe. Cansada de ficar aqui e não tendo outra opção, me levanto e me encaminho até eles.
Quando chego perto suficiente para toca-los, um deles me estende um embrulho amarelado. Abro-o, dentro tem um vestido simples de seda branco. Olho para minha roupa de festa que ainda estou usando, ele já está encharcado de suor.
− é pra mim vestir isso?
Um deles faz que sim com a cabeça. O outro aponta para uma porta um meu quarto que eu não tinha reparado. Me encaminho até ela e a abro. Um banheiro, pelo menos nada escandaloso.
− é pra mim me lavar e vestir isso?
Os dois acenam com a cabeça afirmando. Bom, um banho não faria nada mal né? Errado. Só há uma temperatura pra água, escaldante. Eles vão acabar me cozinhando.
Depois de ter tomado o banho tortura, visto o vestido branco e me olho no espelho. Se alguém tivesse me dado uma facada no coração seria a mesma coisa. Minha aparência. Cabelos levemente caindo sobre meus ombros, meu rosto neutro de maquiagem, pé descalço e vestido branco. Como em meu sonho. A única diferença é que no sonho eu estava fria, e aqui estou quase queimada de tanto calor. Mas se bem que quando a pessoa morre ela fica gelada. Mas no sonho Lipe não estava assim. Lipe. Outra facada no coração. Mas Lipe não pode estar morto. Ele está em segurança na prisão. Digo isso a mim mesma.
Pego uma fita verde e a amaro na cintura, de alguma forma isso me deixa mais segura. Como se tivesse enganando a morte.
Saio do quarto com os dois rapazes. Aqui fora também está um forno. Mas me lembro do que Madame Aldegunda me disse “é só pra você não se esquecer do que é o calor”.
Eles me levam para o lugar mais baixo. Quando entro na sala que eles me encaminharam vejo Madame Aldegunda ali me esperando. Quero pedir uma explicação mas ela fala antes de mim.
− seu pai me pagou muito bem para eu fazer isso com você...
− ele não é meu pai! − escapou de minha boca.
− não me interrompa. − continuou a Aldegunda − como eu ia dizendo. Seu PAI me pagou muito bem para fazer isso com você. Não pude negar. É um experimento e tanto... talvez de certo. E... se der certo até mais breve... se não adeus. Já vai tarde.
Quando abri a boca para protesta ela já havia saído. Eu poderia fugir. Na sala branca e gélida só tinha eu e um garoto apenas alguns anos mais velhos que eu. Ele é magro e fraquinho... duvido que consiga me pegar... mas se eu fugir, pra onde irei? Na floresta não dá. Poderia pedir ajuda, mas a quem?
−Tire a fita.
Me sobressaltei. Tinha me esquecido que as pessoas falavam.
− como é?
− tire a fita verde.
Não queria tirar a fita de jeito nenhum. Ela me deixa segura. Como se uma mudasse o destino. Me afastei mais um pouco do cara pálido.
− escuta aqui loirinho − obviamente o cara é loiro − eu não sei quem você é e nem o que você faz, mas não confio em você a ponto de tirar a fita.
Ele virou os olhos e deu uma risada fraca.
− é só uma fita... e aproposito meu nome é Leonardo... mas me chame de Leo. Eu estou aqui por que meus pais me mandaram... bem eles me abandonaram...
− ei! Eu também. Quer dizer ele não é meu pai... é meu padrasto mais... − mexi os ombros como sinal de indiferença. − mas... você podia me ajudar a fugir... ou talvez, fugir junto!
Ele ri novamente.
− que ingenuidade. Aqui tem grampos e câmeras... Agora tire a fita e deixe de ser fresca.
Tirei a fita. Mas não como alguém que está se rendendo pra morte... só fiz isso porque se eu morrer vou encontra-lo. E ficaremos juntos no paraíso... pro resto da eternidade. Só Lipe e eu.
Leo me pegou pelo braço e me dirigiu a uma segunda porta onde parecia ser um freezer gigante.
O chão exalava uma fumaça esbranquiçada, não tinha fonte de luz a não ser por umas luzes fluorescentes azuis que vinha de umas caixas finas e enormes... como se fossem varias geladeiras arredondadas com luzinhas azuis na borda. Acho que essas espécies de geladeiras eram de vidro, apesar de todas estarem embaçadas com o frio.
− o que tem ai dentro? − pergunto a Leo. Mas sem esperar respostas ponho meu braço contra o vidro e o desembaço a fim de olhar.
Finalmente, a realidade cai sobre mim como um banho de agua fria. Ali, dentro das geladeiras redondas jaziam corpos de pessoas. Aqui é um laboratório de criogenia. E as luzinhas azuis não só vinham da borda... mas sim dos túmulos gelados para pessoas vivas _ foi a melhor coisa que consegui pensa para nomear isso.
− não... − um sussurro escapa de meus lábios. Ali dentro via-se uma criança... de mais ou menos uns nove anos de idade. Cabelos loiros, vestido branco, olhos fechados e pele fria.
Leo se aproxima de mim.
− ela está morta? − deixo escapar mais como uma confirmação que como uma pergunta.
− sei lá... ainda não tentemos tirar ninguém. − Leo disse isso como se achasse graça. − vem. Eu vou mostrar o seu.
O segui, apesar de saber que ia ser congelada... mas e Lipe? Como ele iria morrer? Certamente não iria sofrer... bom, tomara que não.
Ele me levou a uma cabine vazia no fundo da sala/freezer.
− até alguns anos... se eu ainda estiver vivo, né.
− vocês são uns monstros.
− ah querida... nada disso é culpa minha. Eu só estou dançando conforme a música, e lembre-se, se trocar de música troca os passos também.
Ele me deu uma piscada e me colocou na cabine.
− até algum dia talvez.
− nunca vou querer ver sua cara novamente − respondo com rispidez.
Ele fecha a porta e sai.
Eu sinto um frio me envolvendo. Mas nada disso parece tão ruim, pois só penso em uma coisa... vou ver Lipe novamente e ninguém no céu ou na terra vai impedir de ficarmos juntos.
E enquanto meu corpo ficar aqui no mundo, congelado. Minha alma ira para um lugar melhor... praia ali vou eu.
Fecho os olhos e sinto ser arrancada do chão. Estou subindo. Estou abandonando meu corpo. Estou morta. Estou feliz.
Ouço gaivotas, ondas se quebrando, sinto o vento gelado batendo em mim.
Abro os olhos e fico de pé. Estou numa praia. A cinco metros de mim vejo o mar indo e vindo. Mais ao longe um penhasco onde ondas mais fortes se quebram. Não há sinal de ninguém, os únicos seres por aqui são as gaivotas que voam por cima do mar. O sol está se pondo, deixando o mar brilhoso e a paisagem ainda mais bela.
Não me lembro de como cheguei aqui. Olho para minhas roupas, um vestido branco e molhado. Meu cabelo também está pingando. Acho que fui arrastada pelo mar.
Mas quem sou eu afinal? Não sei nem meu próprio nome. Desejo um espelho. Algo que eu possa ver quem sou. No mesmo estante aparece um espelho enorme com aborda feita de ouro e esmeraldas.
Fico em frente a ele. Desejo estar seca. Na mesma hora isso acontece.
Olho para minha imagem: uma garota de pele pálida, olhos de um verde tão intenso, mas tão lindo ao mesmo tempo; dentes perfeitos, cabelos dourados, vestido branco, e pele coberta de algum pó branco. Tento tira-lo, mas não sai. Olho para a borda do espelho. Parece um conjunto de meus cabelos com meus olhos.
Mas alguma coisa falta. Em meu pescoço agora percebo, há um colar com um pingente brilhoso com formato de coração.
Em minha mão há um anel feito do mesmo material que a borda do espelho. Tiro o anel. Tem um nome escrito ai dentro. AMANDA. Deve ser meu nome. Mas há algo que não se encaixa. Falta alguma coisa. Falta alguém. Um nome vem em meu pensamento. Agora sei o que vim fazer aqui. Vim procura-lo. Mas não sei como ele é. Só sei seu nome. Ou, o que é mais provável, seu apelido. LIPE. É ele quem eu devo achar.
Mas algo que tenho quase certeza só de olhar para meus olhos no espelho. Seus olhos são verdes... assim como os meus. Verde como esmeraldas.
E quando eu o ver tudo ficara claro.
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