Double face

27 Cap. 26: Impulso


Notas iniciais
"O homem para de lamentar. Acho que ele notou. Mas em vez de vir me ajudar… ele grita e sai correndo. Será que meu estado está tão ruim? Ou talvez ele visse outra coisa… As duas hipóteses são péssimas."

Helen

Que dor de cabeça. Um zumbido forte, latejos no cérebro, visão ofusca.

Tento me mexer, logo me arrependo. Além de sentir uma dor terrível nas pernas, não consigo mexê-las. Acho que estão quebradas. Tento gritar por socorro. Mas nada sai da minha boca, a não ser um eco engasgado. Sinto o gosto do sangue. Passo a língua pela boca. Percebo que meus dentes estão tortos e quebrados. Tento mais uma vez abrir os olhos… minha visão está embaçada e obscura. O que eu faço? Não consigo nem levantar as mãos.

Fico ali… com meu sofrimento… impossibilitada. Como não vi o inferno… acho que vou sobreviver. Talvez eu tenha entendido errado. Mas acho que temos a visão maldita quando no defrontamos com a morte.

Ouço barulhos. Será que é Rick? Tomara que esteja melhor que eu.

Gemidos… alguém ficou consciente como eu. Mas pelo visto… pode pedir ajuda.

− Al… Alguém… soc… corro… − Mesmo baixo, dava pra se ouvir. A pessoa não deve estar tão longe. Tento emitir um som, para consola-la. Mas é em vão. A pessoa clama novamente. Aí percebo que a voz é feminina.

A garota fica pedindo ajuda por um longo tempo… ao que pareceu… na verdade não tenho noção alguma. Ela acaba por desistir. Ao mesmo tempo em que sinto alivio – Ninguém aguenta gemidos implorantes – sinto pânico. Como irão nos achar se ninguém tiver uma noção?

Depois de uma eternidade de espera… mais alguém acorda. Dessa vez acho que é homem. Levanta com tossidas de engasgos. Pelo que ouço, ele consegue andar. Sinto-o se aproximando da outra garota. Depois de um breve instante de silencio… choro. Ele começa a chorar. Provavelmente a garota morreu.

A fixa começa a cair… fico assustada. E se o homem é Rick? E a garota morta for Luli? Solto um resmungo baixinho. Se for ele… irá vir me socorrer.

O homem para de lamentar. Acho que ele notou. Mas em vez de vir me ajudar… ele grita e sai correndo. Será que meu estado está tão ruim? Ou talvez ele visse outra coisa… As duas hipóteses são péssimas.

Ouço passos vindos do lado oposto. Pode ser um animal… Não faço ideia de onde estamos.

Ao longe, ouço mais vozes. Parece meu nome. Bingo!

Estão me achando… está cada vez mais claro… Consigo mexer a mão para que possam me achar… Levanto-a bem alto… que arrependimento. Uma contração na barriga devido ao esforço. Solto um gritinho de dor.

Alguém se ajoelha ao lado da minha cabeça. Como veio correndo está ofegante. Não sei quem é… ainda não consigo ver direito.

− Helen? Ou será Raquel? – É a voz de Lipe.

− Se for Raquel… vamos deixa-la aí pra morrer. Ela vai acabar nos matando se salvarmos ela. – Ouço Mandy. – Lipe, para de ofegar… você não é mais humano!

− Ah é. Eu tinha esquecido.

Rio por dentro… Lipe sempre foi meio lerdo. Mas logo um pânico me assombra. Se eles acharem que sou minha irmã… vão me deixar morrer. Será que eu permitiria isso?

Já não sei mais… Mas eles poderiam me reconhecer… Nosso cabelo é um pouco diferente… nossos olhos também… lembra Lipe… Nós já namoramos… Por favor, você me conhece!

− Elas são exatamente iguais? – Mandy pergunta. Começo a me animar. Queria dar um beijo nela.

− Não… Helen tem manchas douradas nos olhos… e é mais pálida e o cabelo é maior.

− Carraca… Mas a pele dela está tão imunda que não daria para perceber… Abra os olhos dela.

Sinto Lipe abrindo meu olho. Ele solta uma exclamação de surpresa.

− Impossível saber… seus olhos estão cheios de sangue!

Ah não! Será que machuquei o olho? Será que vou ficar cega… Mas pera… tem o outro olho. Lipe abra o outro olho!

− Acho que devemos salva-la – Diz Mandy – Ela não conseguirá matar ninguém por um bom tempo nesse estado. E se for Helen, vamos nos arrepender se deixarmo-la morrer. Ela é nossa amiga!

Fico até emocionada por ser salva por ser amiga e não namorada do Rick. Mas o que me intriga é por que não abriram meu outro olho. Será que maquinas são tão burras?

− Me ajude a tirar ela daqui. – Lipe pega me ajeita melhor.

− Ela está acordada! – Exclama Mandy – Quer mata-la de dor? De um sedativo.

− Não tenho sedativo nenhum aqui. Se der uma batida para ela ficar inconsciente talvez ela não volte.

− Helen ou Raquel… − Mandy fala comigo – Você prefere levar a pancada ou sentir dor? Se for sentir dor levanta o braço.

Penso um pouco… As duas alternativas são horríveis. Quero Rick. Mas como vou dizer isso pra eles?

− Viu! Ela quer ser sedada! – Diz Mandy para Lipe.

− E se ela não consegue levantar o braço? Ou talvez nem esteja ouvindo…

Tenho que tentar… se não vão acabar me matando.

− Rick… − Sussurro tão baixo que acho que eles não me ouviram.

− O que ela disse? – Mandy pergunta.

− Não intendi… Acho que foi só um gemido. Fala de novo.

− Rick! – Uso tanto esforço que acabo apagando… mas acho que entenderam dessa vez.

A dor se intensificou umas mil vezes. Acordo gritando. Pelo menos minha voz está saindo. Meus olhos estão enfaixados. Minhas pernas também. Só consigo mover uma mão sem sentir dor.

− Calma… calma... – Rick… só de ele tocar em mim e de ouvir sua voz, relaxo. A dor até sessou.

− Fica comigo. – Pego na sua mão e aperto.

− Não vou sair daqui. Tenta descansar.

− Você está bem? E os outros?

Ele fica em silêncio por um estante.

− Eu só sofri aranhões. Fomos separados na queda. Caí sobre um paraquedas preso na arvore… foi como uma espécie de rede. Já você não teve a mesma sorte… − Ele diminui a voz.

Acaricio a sua mão, confortando-o.

− Luli… − Ele continua – ainda não achemos. Lipe e Mandy estão fazendo buscas. Amanda foi encontrada morta. Nossa maior suspeita é de que Raquel tenha matado ela e depois fugiu.

Amanda está no inferno? Sinto pena por ela… mesmo depois de tudo que ela fez… Com esse pensamento fico pensando no caso de Lipe. Talvez ninguém tenha raciocinado...

− Rick… − Chamo-o.

− Sim? – Ele encosta minha mão em seu rosto.

− Se Lipe está vivo… no corpo de um robô… Ele não morre? Está fora da jogada?

Rick demora um tempo para pensar.

− Acho que… Ele tem o mesmo prazo de vida que nós temos. E pode morrer também. Mas pensando melhor no assunto… Não sei. Seria impossível a alma dele, estar no corpo de um robô.

− Mas seu pai disse…

− Eu sei… eu sei… Mas e se ele estiver enganado? Ele ficou muito tempo sozinho… talvez tenha inventado histórias… ou pode ser que seja só mais um joguinho da deusa.

− Isso não o deixa perturbado? – Pergunto me sentindo assim.

− Deixa… desejo sempre que isso não passe de um pesadelo e logo volte ao normal. Não sabemos mais em quem confiar... não temos a verdade… só fragmentos. É tão confuso…

− Rick! Rick! – Ouço alguém vindo correndo… entrando no recinto… pera… estamos numa casa? Estou completamente boiando. – A sua irmã… − Lipe se recupera (esqueceu de novo).

− Ela está morta? – Rick levanta bruscamente.

− Não… digo, sim… não exatamente. – Lipe se atrapalha um pouco. – Achamos Raquel morta… − Solto um soluço e me contraio… − E, o mais maluco, é que ela foi morta por alguém, acreditamos ser Luli.

− Por que ela faria isso? – Rick pergunta espantado.

− Talvez ela tenha pirado…

− Não pode ser… espero que não… − Rick começa a ficar desesperado.

− Acho que você deveria se agarrar a ideia de que ela endoidou… Seria melhor.

− Por quê? – Rick pergunta furioso.

− Se ela não está matando essas pessoas… Outro alguém está. E pode querer ela morta também… isso se já não matou.

− Rick não responde mais nada. Senta do meu lado em silencio.

− Rick? – chamo-o

− hmm? – Pelo visto ele não que conversar. Mas preciso saber… mesmo que a verdade doa.

− Onde estamos?

− Num chalé. Na Itália… a alguns quilômetros de distancia do aeroporto que iriamos pousar. Atravessando a cidade… chegaremos ao lugar em que minha mãe se encontra. – Ele responde com voz mecânica… obviamente está abalado.

− E… Eu vou ficar com algum efeito colateral?

− Isso só o tempo nos dirá… provavelmente você tem 50% de chances de ficar sem andar.

− é muito alto… − resmungo abalada… − E… tem alguma chance de eu ficar cega?

− Não… Por que acha isso? – Ele volta ao normal com a pergunta que o pegou se surpresa.

− Rick… como eu fui encontrada?

− Não sei… Eles me acharam depois de tu. Mas por que você acha que vai ficar cega?

− Por que meus olhos estão enfaixados… Não?

− Seus olhos estão enfaixados para você não ver.

− Não ver o que? – Me assusto… realmente achava que ficaria cega. Talvez ele esteja só me tranquilizando, brincando… sei lá. Mas isso não diminui o pânico.

− Depois você verá. – Ele pega na minha mão e a beija.

− Por que não posso ver agora? – começo a gritar. Ele realmente não está ajudando.

− Precisa estar preparada psicologicamente para isso. – Ele responde como se fosse obvio, mas junto com o tom brincalhão… pude sentir a tristeza… ou será desespero? Não sei.

Acho que ele não quer que eu a tire para não descobrir que estou cega… ou talvez ele tenha se machucado e mentiu! Num impulso de fúria e curiosidade tiro a minha mão das suas e tiro a venda.

Notas finais
Próximo cap.:"Fiquemos um tempo no tão conhecido silencio constrangedor. Mas depois de um tempo… Helen age de uma maneira estranha. Ela parece desconfortável. − Algum problema? – Pergunto apreensivo. − Eu preciso ir ao banheiro… Meu Deus! Como vou dizer pra ela que aqui não tem banheiro?"