Dos Tons Pastel Ao Vermelho
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Durante os meses seguintes ao baile, Finn e Rachel viveram como qualquer casal normal, fazendo planos que já incluíam até mesmo o antes tão temido casamento e bebês. O pedido oficial ainda não tinha acontecido, mas era só uma questão de tempo e de criar o clima certo, e o rapaz já tinha até encomendado o anel de noivado. A paz e a harmonia entre eles só tinha sido perturbada, por um momento, quando Finn tentara ser um pouco mais dominador na cama e ela reagira como uma criança assustada.
"Não questiona, bebê! Só faz!" Ele não fizera nada além de falar duas ou três frases como esta, de forma um pouco mais ríspida que de hábito, durante uma tarde de domingo que estavam passando no quarto secreto. O efeito, no entanto, fora bombástico.
"Me larga! Me larga!" Ela gritara, de repente, se desvencilhado dele e correndo para fora dali.
Finn ficara extremamente assustado com a reação dela, e mais ainda quando encontrara o quarto dela trancado e precisara passar minutos batendo na porta, implorando e pedindo desculpas, para conseguir que ela abrisse. A jovem que ele viu, quando finalmente adentrou o cômodo, era uma sombra da mulher poderosa que ele conhecia. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto encharcado de lágrimas.
"Rach, me perdoa! Eu falei de brincadeira. Eu não queria, de verdade, mandar em você."
"Sou eu quem tem que te pedir desculpas, Finn. Eu sei que você não fez por mal." Ela respondera, encolhida na cama, abraçada a um travesseiro.
"Você quer conversar?" Ele perguntara, sentando-se na cama, mas mantendo alguma distância. "Se você não quiser falar nada agora, eu entendo, mas você me deixou muito preocupado." Comentara e ela o encarara, culpada.
"Tem muitas coisas que eu quero e vou te contar, Finn. As suas palavras e o seu jeito me lembraram algo muito doloroso que aconteceu comigo e..." A garganta dela se fechara e ela não conseguira continuar, começando a chorar muito de novo. "Desculpa... me desculpa." Repetiu aos soluços.
"Shhhhhh... calma. Meu amor, calma." Ele finalmente se aproximara, puxando-a para seu colo. Ela se agarrara a ele com força, chorando ainda por um tempo.
"Obrigada, amor." Secara as lágrimas, ao conseguir se acalmar. "Você me faz tão bem! Eu surtei porque eu..."
"Rach, espera." Pedira, segurando as mãos dela e olhando no fundo de seus olhos. "Eu não quero que você me conte nada agora, Rach. Eu quero que você esqueça isso, por ora. O importante agora é que você descanse." Afirmara, beijando a testa dela.
"Você tem certeza?" Indagara, sem jeito. "Você tem o direito de saber, Finn."
"É claro que eu quero saber, meu amor. Mas eu quero também que você procure ajuda, Rach. Como você mesma disse, você... você surtou! A sua reação foi..." Havia hesitado um pouco em falar. "A sua necessidade de controle sempre me intrigou um pouco, mas, como você acabou cedendo bastante, nos últimos tempos, eu não me preocupei tanto." Tinha dado de ombros. "Só que o seu semblante hoje me mostrou que você tem um... problema. O que quer que tenha acontecido, te deixou com traumas, Rach, e você precisa de ajuda."
"Você não é a primeira pessoa que me aconselha a procurar um profissional, mas eu nunca me senti confortável, nas vezes em que eu tentei. Eu não sei."
"Tenta mais uma vez? Por mim?" Pedira e ela assentira, abraçando-o de novo.
Outro problema era o fato de ter Rachel continuar adiando o momento de relatar sua história verdadeira para o namorado. Fora aquela única tarde, estavam sempre tão felizes em encontros com amigos, festas, viagens, em momentos doces ou sensuais a dois, que ela se recusava a estragar tudo trazendo à baila um assunto que me causava tanta dor. Para a própria terapeuta, com que ela realmente começara a se consultar pouco depois do episódio, não tinham conseguido dizer tudo com detalhes ainda, tamanha era a dor que as recordações traziam.
O problema é que, quando não tomamos as rédeas de nosso destino, é a vida quem fica no controle. O passado acabou chegando na forma de um jovem rapaz, que resolveu visitar o escritório de Rachel na empresa, exatamente durante uma tarde em que Finn estava buscando a namorada para almoçarem juntos. O casal estava abraçado, conversando, quando Quinn entrou na sala, aflita e envergonhada pela interrupção que estava sendo obrigada a fazer.
"Rachel, me perdoa, mas tem um rapaz lá fora, querendo te ver, e ele só não invadiu sua sala ele mesmo, porque eu me coloquei na frente e prometi te falar que ele tem urgência em conversar com você." Disse sem tomar fôlego.
"É um funcionário nosso?" Ela franziu a testa, surpresa.
"Não. Eu não o conheço. Ele me disse que o nome dele é Blaine Anderson."
"O que?" Questionou com um fio de voz. "O Blaine?" Finn sentir o corpo dela tremer, antes que ela, de repente, se afastasse, e não gostou nada daquilo.
"Eu mando ele entrar?" A secretária quis saber, e ela apenas assentiu, vendo logo depois o garoto aparecer.
"Blaine! Ah, Blaine!" Exclamou, colocando a mão no peito, emocionada. Seus olhos e o do garoto se encheram de lágrimas, antes de os dois se envolverem em um abraço apertado. "Você tá lindo!" A morena comentou, quando se separaram, secando o rosto dele com os polegares.
"E você está ainda mais maravilhosa do que nas fotos que eu tenho escondidas." Assegurou. "Mas eu to muito preocupado, Rachel! Eu preciso falar com você." Pediu, sério, olhando para Finn, que estava irritadíssimo por estar sendo ignorado.
"Blaine, esse é o Finn, meu namorado." Apresentou, e o rapaz sorriu, oferecendo a mão, que Hudson não ignorou apenas por educação. "Finn, esse é o Blaine e eu preciso conversar com ele. Pra ele ter vindo até aqui, eu tenho certeza que é importante. Eu te explico depois, ok?" Foram as palavras dela, que, junto com um olhar suplicante, significavam uma solicitação para ser deixada sozinha com o garoto que ele não conhecia.
Finn assentiu, mas sem disfarçar no semblante que estava indo embora bastante contrariado. Pediu a Quinn que lhe avisasse imediatamente quando Rachel ficasse sozinha de novo, e passou os próximos quarenta minutos em seu escritório, andando de um lado para o outro, esfregando o rosto, tentando convencer a si mesmo de que o tal Blaine não era um ex submisso de Rachel ou até um ex-namorado, que ela escondia. Os dois tinham se olhado com amor! Ou era só o ciúme dele falando?
"Que palhaçada foi essa, hein?" Disse, adentrando a sala dela, sem introduções. "Chega um cara aqui, de quem eu nunca ouvi falar, e você me manda sair pra conversar com ele? Um tal de 'você tá lindo' pra lá, 'você tá maravilhosa' pra cá! Me ignorou completamente! Quem é ele? Você ainda sente alguma coisa por esse cara... não sente?" Ele falava, bem mais alto do que estava acostumado e sem parar.
"Finn? Finn!" Ela tentou duas, três vezes, aumentando também seu tom, tentando capturar a atenção dele, que apenas continuava, fora de si. "FINN!" Gritou, finalmente, fazendo com que ele se calasse. "Finn, o Blaine é meu irmão."
"Hã?" Ele arregalou os olhos, não tendo jamais esperado resposta sequer parecida.
"É isso mesmo, amor. Ele é meu irmão." Reafirmou, se aproximando dele. Será que a gente pode sentar e conversar?" Indagou, com ar cansado.
"Não! Você nunca me disse que tinha um irmão. Você mentiu pra mim! Me disse que sua única família eram os seus tios." Irritou-se.
"Eles são a única família da Rachel Berry, Finn. Eu não te contei sobre ter um irmão, porque teria que te contar muito mais do que isso e, de início, eu não podia! Aí, depois... simplesmente ficou muito difícil!" Respirou fundo. "O Blaine é a única família da Rachel Gleizer, Finn. Rachel Gleizer é o meu verdadeiro nome, e eu e o meu irmão estamos no programa de proteção a testemunhas."
"Rachel Gleizer?" Perguntou e ela assentiu.
"Será que agora você pode sentar e escutar a minha história, por favor?" Suplicou e ele se jogou no sofá, como quem está sofrendo um grande impacto.
Rachel ocupou o lugar ao lado dele e começou a dar suas explicações. Blaine e ela não se viam havia mais de dez anos e nem sabiam nada um sobre o outro, até a manhã do dia anterior, quando ele abrira uma revista e vira uma foto da irmã. A fotografia trazia uma legenda, dizendo que a bela morena era Rachel Berry e a reportagem falava que a Srta. Berry era a presidente da grande rede de joias Red Rave Jewelry Ltda. Como estavam no programa de proteção a testemunhas, aquele tipo de divulgação podia ser perigoso e por isso ele a procurara de imediato.
Então Rachel narrou absolutamente toda a sua vida para o namorado. Ela e Blaine tinham nascido em Nova York, filhos de um ourives judeu, que mantivera, com seu ofício, toda uma tradição de família, até falecer, com menos de quarenta anos, vítima de um câncer no fígado. Ele deixara a menina com apenas dez anos e o garoto com oito, e a mãe dos dois, que sempre fora dependente dele em todos os sentidos, logo sentira necessidade de colocar um outro homem dentro de casa, para ser o chefe de família.
Frequentador da sinagoga à qual a família ia e também viúvo, Norton Weston parecera a salvação da Sra. Gleizer, até mostrar sua verdadeira face. Dois meses após o casamento, tornara a esposa e os filhos dela prisioneiros na própria casa e passara a administrar toda a herança que o falecido Gleizer deixara, pela qual a esposa era a responsável legal. Só colocava dentro de casa o mínimo para a subsistência da mulher e dos filhos dela, enquanto gastava bastante com ele e com o próprio filho, Brody, três anos mais velho que Rachel.
Quando os parentes dela começaram a fazer perguntas, a família se mudou para o outro lado do país, e, então, os três foram mantidos em cárcere privado por vários anos. As crianças só estudaram porque a mãe se virava para fazer tudo na casa, e ainda conseguir dar um pouco de educação formal a eles, no período em que o marido e o enteado estavam fora, trabalhando e estudando. Ele a tratava como sua escrava, tanto no que dizia respeito às tarefas próprias do lar, quanto no sentido sexual, e a surrava constantemente, inclusive na frente dos pequenos.
O pesadelo só piorara, ao longo dos anos, na medida em que Rachel e Blaine cresciam. Sua mãe foi ficando doente e Norton não parecia se importar nem um pouco, contanto que o trabalho da casa fosse feito e suas necessidades satisfeitas na cama. Muitas vezes, para que a mãe tivesse um mínimo de descanso, foram as crianças que limparam a casa e fizeram a comida. E foi nesse período que Brody começou demonstrar intenção de seguir os passos do pai.
Vendo Rachel assumir algumas das funções da mãe, o rapaz começou a assediar a menina, quando ela tinha quatorze anos e quase conseguiu tocá-la quando fez quinze. Só não o fez porque Blaine defendeu a irmã diversas vezes, tendo levado, em uma delas, uma facada no braço e outra na barriga. O semblante de Brody, rindo debochadamente, e a voz de Norton, dizendo que era 'bem feito' jamais tinha deixado a cabeça de Rachel, assim como as ordens de todo tipo que ele dava à sua mãe.
Não me questione, Esther. Apenas faça!
Eu to mandando, cadela.
Quem manda aqui sou eu.
Se vira, mulher, porque é assim que eu quero.
Fora exatamente no dia em que Blaine se feriu que acontecera a tragédia maior de suas vidas, pois, pela primeira vez, a Sra. Gleizer Weston resolvera reagir. Precisava levar o filho a um hospital e, por isso, tentou sair de casa, sendo impedida na base de socos, tapas e pontapés pelo marido, até que Brody, mais inexperiente e afoito, pegara uma arma que o pai guardava na cristaleira da sala, e acabara atingindo fatalmente a madrasta.
Fora com essa imagem de homens que Rachel crescera e ela prometera a si mesma, com tanta força, que não deixaria ninguém subjugá-la, se conseguisse escapar dali um dia, que a gana de controlar os outros, ela mesma, se tornara parte de seu ser. Mesmo depois de ir morar com os Berry e ver a relação de amor que havia entre Shelby e Hiram, ela não mudara sua visão, achando sempre que, entre quatro paredes, ele não era carinhoso como parecia. Depois de tanta violência e maldade gratuitas, Rachel não conseguira acreditar no amor, até conhecer Finn e, finalmente, se render.
"Os Berry, então, não são nada seus?" Finn perguntou, depois de uma narrativa sem interrupções, durante a qual Rachel, surpreendentemente, conseguira se manter firme, como se contasse uma história que não era a sua. Provavelmente porque, no fundo, estava aliviada em tirar aquilo tudo de dentro dela.
"Não. Eles não são nada meus. Ele virou meu tutor, quando vim pra Filadélfia, enviada pelo programa de proteção a testemunhas." Esclareceu. "Mas eu tinha só quinze anos, então eu me apeguei muito a eles. É como se eles fossem minha família, sim, e foi por isso que eu quis te apresentar a eles."
"Não prenderam os dois até hoje?"
"Quando os vizinhos escutaram o tiro, eles chamaram a polícia, e como o Norton não era burro e sabia que o barulho tinha chamado atenção, eles tentaram fugir. Só que ele não era jovem, então não foi muito longe. Já o safado do Brody sumiu no mundo! O lance é que antes ele ainda teve tempo de ameaçar a mim e ao Blaine, por cartas, gravações na secretária eletrônica... ele queria que a gente desistisse de testemunhar sobre o cárcere privado, as surras, a tentativa de estupro, o homicídio da minha mãe. Então, a gente teve que mudar de identidade e se separar... por todos esses anos! A polícia não sabe se ele tem uma identidade falsa e ainda vive nos Estados Unidos ou se foi embora, de algum modo, então a justiça não acha seguro a gente voltar a ser os Gleizer."
"Alguma coisa da sua história é verdadeira?" Finn suspirou, tenso com tudo aquilo.
"Eu realmente estudei desenho industrial em Edinboro, pra trabalhar com design de joias, porque eu queria usar o dinheiro que o meu pai tinha deixado e que eu recebi, quando fiz dezoito, pra fundar uma empresa que tivesse a ver com a tradição da família. Eu realmente nunca namorei ou amei ninguém. O meu pai realmente morreu de câncer e a minha mãe teve problemas no coração, só que no sentido metafórico, e não no sentido médico, como eu deixei você pensar." Ela pegou as mãos dele, com cuidado. "Eu sinto muito por ter mentido, Finn! Eu juro! Eu sinto muito mesmo!"
"Eu gostaria de conhecer o seu irmão, Rach. Eu acho que não fui muito simpático com ele." Riu.
"Tá tudo bem entre a gente?" Perguntou, surpresa com a atitude dele.
"Eu não posso te culpar por não ter falado sobre isso antes, Rach. Eu mesmo não deixei você me contar nada, quando vi o quanto seu passado te deixava transtornada. Além disso, a sua vida tá em risco constante e a sua identidade nova é importante pra te proteger. Aliás, depois desse negócio da revista, você não acha melhor ir à polícia?" Indagou.
"Eu tenho um contato e vou falar com ele." Afirmou. "Mas antes, vou ligar pro número que o Blaine deixou comigo e marcar um jantar." Completou, levantando-se. Ela estava tão aliviada que o que ela mais queria naquele momento era uma comemoração.
Ninguém ouvira falar de Brody Weston em anos, então os cuidados com sua segurança não lhe pareciam tão importantes assim.
Fale com o autor