Dos Tons Pastel Ao Vermelho
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Brody já tinha passado quase quarenta e oito horas em frente ao edifício no qual Blaine fora visto entrando, mas o rapaz em questão não tinha aparecido nenhuma vez, e muito menos tinha havido qualquer sinal de Rachel. No entanto, sua obcessão sem medidas fazia com que ele continuasse pagando uma pequena fortuna a dois membros da organização que atuavam na Filadélfia, para que fizessem vigília constante, junto com ele, somente deixando o carro para comprar lanches ou utilizar o banheiro de um café que ficava a um quarteirão do prédio.
Eram mais ou menos cinco da tarde quando um de seus comparsas viu, finalmente, Blaine aparecer na calçada, ocupando imediatamente a traseira de uma BMW preta, com vidros escuros, que não permitiam ver mais ninguém dentro dele. Não teve dúvidas em seguir o automóvel, sentindo o frisson que sempre o invadia quando via renovadas as suas esperanças de que o irmão de Rachel poderia levá-lo até ela.
E, dessa vez, ele estava certo! A apenas alguns quarteirões de distância, o veículo negro e brilhante parou em frente a um edifício comercial, que combinava extremamente com ele em termos de sofisticação, e a garota que, apesar de mais velha, Brody tinha certeza de que reconheceria em qualquer circunstância, surgiu de dentro dele. Weston observou, como se fosse a melhor das cenas de cinema em câmera lenta, um rapaz vestido com uniforme de motorista sair do carro e abrir a porta do mesmo, para que ela entrasse, depois de agradecer, sorridente.
Mandou que seu comparsa continuasse seguindo o luxuoso carro, enquanto antecipava mentalmente as coisas que faria com Rachel, quando finalmente pusesse as mãos nela, o que agora pensava ser apenas questão de tempo. Em sua cabeça doentia, ele imaginava a menina de quinze anos e não a mulher que ela se tornara, mas a idade não seria um empecilho e, para conseguir chegar o mais próximo possível de realizar a fantasia alimentada por tantos anos, ele já tinha planos de livrá-la da maquiagem e das roupas caras, vesti-la com uniforme escolar e obrigá-la a prender os cabelos em duas tranças laterais, como as que ela costumava usar.
Por um momento, perdido em seus devaneios, ele se distraiu e não percebeu que seu companheiro de criminalidade havia se aproximado demais do outro carro. Foi uma aproximação muito rápida, mas suficiente para ser percebida por Noah e Jake Puckerman, que tinham experiência suficiente como guarda costas para identificar quando estavam sendo seguidos. A família estava no ramo da segurança havia anos, depois de o pai dos dois ter decidido se afastar da polícia federal, à qual servira por décadas.
Os irmãos trocaram apenas um olhar, tentando não preocupar os demais ocupantes do automóvel, e deram início à tentativa de despistar quem os seguia, mas, infelizmente, estavam lidando com pessoas também experientes. Noah pisou no acelerador, na expectativa de que a velocidade pudesse afastá-los de seus perseguidores, mas eles continuaram no seu encalço. Brody tinha decidido que não valia a pena tentar ocultar sua presença, se isso pudesse representar o risco de uma fuga bem sucedida. Tinha esperado por aquele momento, por anos, e não sabia se Rachel poderia voltar a ser encontrada no lugar onde embarcara no veículo, e muito menos no imóvel onde Blaine passara os últimos dias.
Para sorte de Puck, sua chefe estava distraída demais, conversando com o irmão sobre o vestido que estava indo experimentar, e não percebeu que ele mudou o caminho, em mais uma tentativa vã de usar o velocímetro a seu favor. Apenas quando ele foi obrigado a fazer uma curva e os pneus "cantaram", ao mesmo tempo em que o ar se enchia de um cheiro forte de borracha queimada que podia ser sentido mesmo de dentro do carro todo fechado, ela percebeu que havia algo de errado.
"Que isso, Noah? Por que você tá correndo assim? Tá maluco?" Quase gritou, aproximando o rosto do banco dianteiro.
"Srta. Berry, eu sinto muito, mas... nós estamos sendo seguidos, há algum tempo." Foi Jake Puckerman quem respondeu.
Automaticamente, Rachel e Blaine olharam para trás e, apesar de não poderem ser vistos, graças à película escura aplicada em todos os vidros, podiam ver claramente quem os seguia e reconhecer um dos homens. Sentiram ambos um arrepio na espinha, ao ver os olhos predadores de Brody Weston, como reação física de um sentimento que apenas a palavra pânico chega minimamente perto de descrever. Blaine ficou enjoado e tonto, suava frio e não conseguia dizer uma palavra sequer. Rachel começou a chorar e gritar, implorando para que Noah se livrasse daquele monstro, ainda que ele já estivesse fazendo tudo o que estava a seu alcance.
A perseguição continuou por mais alguns minutos e o pavor era crescente. Os bandidos se mostravam dispostos a tudo e já tinham inclusive dado algumas batidas na traseira da BMW, a fim de mexer com o emocional do motorista, na esperança de conseguirem ultrapassá-lo, como já tinham tentado fazer algumas vezes, sem êxito, para enfim fazê-lo parar. Puck tinha a frieza necessária nessas situações e não se deixou abater, dirigindo com concentração total e ganhando tempo, enquanto Jake tentava entrar em contato com a polícia e com Sam e Azímio.
O problema foi que, passado mais algum tempo, ele não teve alternativa, a não ser voltar a entrar em ruas onde o trânsito era mais movimentado e diminuir a velocidade. Foi nesse momento que o parceiro de Brody conseguiu fechar o carro de Rachel, e Noah não teve como dar ré e sair de onde estava, porque havia vários veículos atrás do deles. Em questão de segundos, os três bandidos estavam tentando abrir as portas da BMW e apontando armas de fogo para as janelas escuras.
O carro pertencente à Red Rave era blindado, então os seguranças decidiram permanecer dentro dele e se preparar para sair dali, tão logo fosse possível. A blindagem não era suficiente para acalmar Blaine e Rachel, que se abraçavam e choravam, apavorados, vivendo a materialização do pesadelo que, um dia, os assombrara. Igualmente não detinha Brody, que socava a lataria e batia nos vidros com o revólver, depois de dar dois tiros contra o vidro da frente e descobrir a proteção.
Mesmo com seus contratados tentando convencê-lo de que ninguém jamais saltaria do carro, e com os outros carros fugindo da rua e começando a abrir um espaço por onde Puck poderia sair, ele continuava ameaçando e xingando. Sua última medida desesperada para não falhar na tentativa de levar Rachel com ele foi atirar nos pneus do automóvel negro, mas logo em seguida ele foi surpreendido pela chegada de outra BMW, de onde dois rapazes começaram a atirar contra ele e os comparsas, atingindo um dos dois no abdômen.
Weston teria continuado lá, trocando tiros com Sam e Azímio, até acabar com os dois ou até todas as balas de suas três armas acabarem. Estava completamente cego pelo seu desejo insano de se vingar dos Gleizer e de possuir Rachel à força, e não se importava, nem um pouco, com ninguém, muito menos com os garotos que o estavam acompanhando! Acabou, entretanto, aceitando a derrota momentaneamente e fugindo dali, após perceber que estava sem cobertura também do outro menino, que não tinha sido baleado, mas que estava socorrendo o amigo, e ouvir o barulho inconfundível da sirene de um carro de polícia, que se tornava cada vez mais próximo.
Sam e Azímio correram até Puck e Jake, que finalmente saíram do carro. Certificaram-se de que Rachel e Blaine estavam fisicamente bem, ao mesmo tempo em que dois carros de polícia encostavam ao lado deles, e cinco agentes surgiam de dentro deles, pedindo esclarecimentos sobre o que havia acontecido no local. Os primeiros relatos foram feitos pelos seguranças, mas, depois de se acalmar, foi Blaine quem informou a um detetive que ele e Rachel conheciam um dos homens que os seguiram, e foi a própria irmã, também já mais controlada, quem pediu para ser levada à unidade de trabalho do agente Mike Chang.
Mike era um dos agentes integrantes do Programa Federal de Proteção a Testemunhas na Filadélfia, e responsável pelo caso de Rachel. Os dois só tinham se visto em duas ocasiões, logo que ela chegara à cidade e fora morar com seu tutor, Hiram Berry, e haviam se falado pelo telefone, também apenas duas vezes, quando ela se mudara para fazer faculdade e quando retornara.
Ela mantinha o programa informado sobre seus endereços e atividades principais, mas não fora necessário qualquer novo contato, porque nada de diferente tinha acontecido em sua vida, durante os últimos anos. Agora, ela e o irmão estavam em perigo e precisavam informar a ele que tinham sido encontrados pela pessoa de quem o programa a escondia. Somente eles saberiam que providências tomar para evitar o pior.
Mike apareceu menos de uma hora depois, na delegacia para onde Rachel e Blaine foram levados e, na presença apenas de sua parceira Santana Lopez, iniciou uma longa conversa com os irmãos, durante a qual fez uma série de anotações, e depois da qual os deixou esperando por um tempo, enquanto fazia alguns contatos importantes e tomava decisões cruciais. Parecia até que eles eram os bandidos e não as vítimas, pois foram impedidos de fazer qualquer contato com outras pessoas, mesmo que Rachel tivesse feito de tudo para tentar convencer Santana de que seu noivo precisava saber que ela estava bem.
"Vocês vão ser colocados em um avião do programa, nas próximas duas horas." Falou Mike, voltando à sala em que os deixará com Santana.
"E pra onde nós vamos?" Rachel questionou.
"Pro Texas. Pra uma fazenda no Texas... uma grande fazenda. Vocês tem que ficar o mais escondidos possível, até receberem suas novas identidades." Comentou o agente, como se falasse de uma simples mudança de roupa. Para ele, as trocas de nome e de vida eram mesmo rotina, afinal.
"Eu não acredito que vou passar por tudo isso de novo." Blaine falou, passando as mãos pelo rosto, com ar cansado.
"Isso é impossível! Eu vou me casar no sábado!" Rachel reagiu de forma mais intensa.
"Isso não vai ser possível, Rachel. A situação mudou! Você voltou a correr risco de vida e sua proteção voltou a ser prioridade." Mike informou.
"E o meu noivo? O Finn... ele não poderia ir com a gente?"
"Não é de praxe... mas eu até poderia tentar incluí-lo no programa. A gente poderia alegar que ele corre risco, mesmo sem saber se o Brody sabe da existência dele." Afirmou, sério. "O problema é que a decisão tem que ser sua, Rachel. Se ele for contatado, ele vai estar automaticamente no programa e não vai poder ficar, porque vai saber demais e passar a representar um risco pra vocês. E, Rachel... você deve pensar bem, antes de decidir! Ele não teria só que sair da Filadélfia, mas também teria que mudar de identidade e não poderia fazer contato algum com qualquer familiar ou amigo. Vocês sabem, melhor que ninguém, como funciona."
O choro de Rachel começou silencioso. Enquanto Blaine olhava a irmã com piedade, segurando as mãos dela nas suas, e Mike e Santana trocavam olhares entediados, já não mais tão capazes de se solidarizar, depois de tanto tempo vivendo cenas como aquela, as lágrimas dela escorriam pelo rosto. Quando o irmão resolveu abraça-la, o cômodo se encheu do som de seus soluços e gemidos que expressavam a mais profunda dor. Deixar Finn para trás, ainda que fosse para não impor algo tão drástico a ele, era a coisa mais difícil que ela precisaria fazer.
"Pra que fugir?" Ela perguntou, enfim, olhando nos olhos de Blaine, quando conseguiu falar. "Pra que ir embora e sobreviver, se ele é a minha vida? Pra que continuar nessa droga de mundo, se eu vou voltar a ser vazia... oca, como eu era antes?"
"Nunca mais repete isso, ok?" O irmão pediu, nervoso. "Eu preciso de você, Rachel. Preciso de você viva, mesmo que longe de mim, de novo! O Finn também ia querer você viva, eu tenho certeza, e..." Fechou os olhos e engoliu seco. "Eu tenho quase certeza de que o Brody não quer simplesmente matar você, e o meu estômago fica embrulhado quando eu penso nas coisas nojentas que ele poderia fazer, se te pegasse." Completou, não controlando o próprio choro ao expor seus temores mais íntimos.
"Nem nós da polícia, nem os seus guarda costas, poderíamos garantir a sua segurança..." Mike reforçou.
"Além do mais, se você ignorasse a presença desse tal Brody, ficasse aqui e se casasse, o seu querido noivo, com quem você tá tão preocupada, também correria um risco de vida, que até então nós não temos motivo pra achar que ele corre." Santana comentou, sem se preocupar em ser agradável.
"Santana!" O parceiro tentou repreendê-la.
"Eu só to falando a verdade!" Deu de ombros, sentando-se em uma cadeira, pegando o celular, e se distraindo com ele, para não dar mais palpites que não pareciam bem vindos.
"Meu Deus!" Rachel ficou ainda mais tensa. "Se eu for embora e o Brody descobrir sobre o Finn, ele vai estar correndo risco de verdade, Mike!" A garota se levantou e começou a andar de um lado para o outro, repensando, em voz alta, sua decisão. "Talvez ele não goste de mudar de identidade, de ficar sem ver os avós e o primo, de se enfiar em uma fazenda no Texas, mas que escolha eu tenho? Eu não suportaria, se alguma coisa acontecesse com ele, por minha causa. Eu não suportaria!"
"Rachel, calma. Senta aqui." O policial pediu, colocando uma cadeira em frente à dela e sentando-se também, em uma posição não convencional, com o encosto colado ao peito. "A gente pensou na possibilidade de o Brody usar o Finn para atrair você, mas também já pensamos em como evitar isso."
"E como seria?"
"Eu soube que, quando tudo aconteceu, há anos atrás, os jornais e a TV fizeram uma grande cobertura do caso, e alguém deixou vazar que vocês estavam no programa de proteção."
"Só não mostraram a cara daquele monstro do Brody, o que era o mais importante." Blaine o interrompeu.
"Eu não sabia disso e é uma boa ideia providenciarmos para que mostrem dessa vez, se der. Mas esse não é o ponto. O lance é que, agora, isso não só não vai acontecer, como nós vamos plantar uma notícia falsa e..." Hesitou um pouco, sabendo que esta era a parte que costumava assustar mais. "E vocês vão ser dados como mortos."
"Mortos?" Os irmãos Gleizer indagaram, juntos.
"Sim, a gente tem adotado essa estratégia." Santana explicou.
"Nós vamos montar um acidente de carro falso e dizer que vocês saíram aqui, escoltados por dois policiais, e os quatro morreram na hora. Como vamos explodir o carro, os falsos velórios serão feitos com caixões fechados. Somente nós quatro, aqui nessa sala, o casal de fazendeiros que vai receber vocês, e mais duas pessoas, responsáveis pela fraude, vamos saber que vocês não morreram de verdade. O piloto do avião não vai ter qualquer contato com a gente, e eu e Santana já estamos acostumados a fazer as vezes de comissários de bordo."
"Nem nossos tutores vão saber?" Blaine perguntou.
"Nem eles." Confirmou Mike. "E eu sei que é duro saber que parentes e amigos vão sofrer, mas vocês precisam entender que, sendo caçados como vocês foram hoje, pela pessoa que ameaçava vocês no passado, não existe alternativa."
Rachel não falou coisa alguma, pois não havia mais nada que ela quisesse ou precisasse saber. Pensou nos Berry, que foram uma verdadeira família para ela, nos últimos anos, em Harmony e Kitty, que eram praticamente suas irmãs, e até em seus empregados, de casa e da empresa, que ela sabia terem um carinho verdadeiro por ela. Porém o que realmente doía, o que era quase insuportável, era pensar em Finn e na dor pela qual ia fazê-lo passar, tirando dele a mulher que amava, na semana em que os dois iriam se casar.
"Eu quero que me prometa que vai contar a verdade pro Finn." Pediu, depois de solicitar um minuto a sós com o responsável pela sua segurança, quando ele acabou de explicar detalhes burocráticos ao irmão dela.
"Eu não posso fazer isso, Rachel. Seria muito arriscado! Ele pode, mesmo sem querer, contar pra alguém..."
"Eu acho que eu tenho direito, pelo menos, a essa decisão! É como se fosse o último pedido de uma pessoa em seu leito de morte, ok? Você precisa me prometer!" Implorou. "Eu confio no Finn com a minha vida, Mike! Eu só estou indo embora pra proteger a dele e porque eu tenho uma esperança, aqui, no fundo do meu peito, de que a gente vá ter uma segunda chance, um dia. Se eu não puder confiar nele, no amor dele... que o Brody me pegue e me destrua, de uma vez!"
Diante de tais palavras, Mike prometeu que faria o que ela estava pedindo. Explicou, entretanto, que não teria como evitar o sofrimento de Finn, pois só poderia dizer algo depois de algum tempo, quando o plano tivesse sido todo colocado em prática, e ela e Blaine estivessem em total segurança, bem longe da Filadélfia.
Ninguém conseguia acalmar Rachel e seu choro quase histérico, quando ela deixou o local, disfarçada, dentro de um carro bem escuro. Ela foi soluçando durante todo o caminho da delegacia até o aeroporto, entrou no avião chorando ainda mais, e tendo que ser amparada por Blaine, e continuou choramingando, mesmo que de forma mais contida, na primeira metade da viagem, até ser derrubada por um forte ansiolítico. Chorava como se estivesse em um funeral, porque realmente era como se enterrasse alguém.
Rachel Berry estava morrendo e quem quer que fosse ocupar o lugar dela, já nasceria sem vida.
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