Dos Tons Pastel Ao Vermelho
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Finn disse a Rachel que iria até o terraço do edifício, a fim de tomar um pouco de ar, enquanto ela falava com o irmão ao telefone. Subiu o mais depressa que pode e quase não conseguiu chegar lá, antes de deixar as lágrimas que estava segurando escorrerem por seu rosto. Passado um primeiro momento de choque e de uma enxurrada de perguntas sendo formuladas por seu cérebro, ele sentira uma dor imensa atingi-lo com toda força, mas cobrara de si mesmo o máximo de equilíbrio, pois, somente se mantendo emocionalmente sóbrio, poderia tentar ajudar a mulher que amava tanto.
Ouvi-la perguntar se tudo estava bem entre eles machucara ainda mais, pois era duro saber que, além de tudo que estava passando, ela ainda sentia medo de perdê-lo, quando, nem por um segundo, correra tal risco. Era verdade que ela tinha escondido algo importante dele, mas também era certo que ele já sabia que acontecera algo grave no passado dela, que ela tentara esclarecer tudo, e que ele mesmo a impedira de fazê-lo.
Obviamente esconder a identidade era uma coisa muito séria, que ele não poderia ter previsto. Então simplesmente dizer que entendia que aquilo fora uma necessidade poderia parecer uma reação estranha, compreensiva demais. Porém ele não tinha tempo a perder com cobranças, quando seu coração e sua mente estavam cheios de preocupação com a segurança e o bem estar dela, cheio de tristeza por ninguém ter conseguido impedir que Rachel e sua família fossem tão machucados, e de ódio e asco pelos animais que tinham estragado a infância da garota, arrancando prematuramente seu olhar inocente diante do mundo.
Já estava no alto do edifício havia alguns minutos, tinha respirado fundo, várias vezes, e, finalmente, se acalmado, quando ouviu passos atrás de si e girou na direção de quem se aproximava. Rachel ostentava um sorriso tímido e tentava, em vão, manter os cabelos longe do rosto, enquanto o vento desarrumava os longos e brilhantes fios, deixando-a naturalmente sensual, ainda que não tivesse qualquer intenção seduzi-lo naquele momento.
"Acho que eu nunca vim aqui." Ela comentou, quando chegou bem perto dele.
"Eu já tinha vindo uma vez antes, com um colega fumante, que queria companhia." Falou, sorrindo ao vê-la desistir de brigar com o vento e dar um nó no cabelo, o que enfim disciplinou a maior parte dele.
"Falei com Blaine e ele ficou de chegar lá em casa umas nove horas. Aproveitei pra falar também com o Kurt e pedir pra ele preparar uma comidinha especial. Ele adorou a ideia de ir lá, cozinhar na hora! Disse que não aguenta mais deixar seus preciosos pratos por aí, pra serem requentados." Riu.
"A comida dele é ótima de qualquer jeito." Disse, acariciando com o polegar as costas das mãos dela, que tinha tomado nas suas enquanto ela falava sem tomar fôlego.
"Eu sei. Eu só liguei pra ele porque queria que ele fizesse um dos pratos favoritos do Blaine." Deu de ombros.
"Você tá muito feliz em reencontrar o seu irmão, não é?"
"Muito! Eu to tão feliz que tudo que eu queria era poder compartilhar essa felicidade... chamar todos os nossos amigos para jantarem com a gente, pra conhecerem o Blaine." Inspirou fundo e soltou o ar com força, se mostrando desanimada pela primeira vez. "Será que algum dia eu vou poder fazer isso, Finn?"
"Ninguém, além de mim, sabe?"
"Não. As meninas sabem que eu tinha um padrasto que maltratava minha mãe e sabem o que o filho dele tentou fazer comigo, mas não sabem como minha mãe morreu, nem que o meu nome não é Berry, ou que eu tenho um irmão." Baixou a cabeça, fitando seus pés, que brincavam de cutucar os dele. "Eu confio nelas, mas eu assumi uma nova vida, entende? Assumi inteiramente e tentei deixar tudo o que era da outra vida pra trás. Até o lance sobre o meu padrasto e o Brody acabou escapando... não foi uma coisa que eu planejei contar."
"Eu entendo e, se um dia elas souberem, eu tenho certeza que elas vão entender." Assegurou, levantando o queixo dela e acariciando seu rosto, o que a fez sorrir. "Você tem alguma reunião... algum compromisso inadiável hoje?"
"Não. Por quê?"
"Não acha melhor ir pra casa?" Questionou, preocupado.
"Não. O Blaine só vai chegar às nove." Ela se fingiu de desentendida.
"Ei!" Fez com que ela o encarasse. "Você não precisa agir como se estivesse tudo bem, meu amor."
"Mas TÁ tudo bem!" Garantiu. "Eu sofri muito, quando era menina, e é claro que eu continuei sofrendo ainda, por um bom tempo. Depois, eu achei que tinha superado, mas, na verdade, eu tava me escondendo, impingindo dor a outras pessoas pra descontar a que eu tinha sentido, achando que me manter sempre no controle era a solução. Deixar você me amar e assumir o meu amor por você foi o que mudou tudo e me fez ser feliz de verdade, pela primeira vez, depois de muitos anos, Finn! E é um alívio que agora você saiba de tudo, por isso tá, SIM, tudo bem." Sorriu, dando um beijo rápido nos lábios dele.
"Você teve que se lembrar daquelas coisas..."
"Isso sempre vai ser difícil, mas é por isso que eu to fazendo terapia... pra ficar cada vez menos doloroso. Na verdade, quando eu contei pra você, foi como se eu conseguisse dar mais um passo pra longe de tudo... pra deixar tudo no passado, onde tem que ficar. Eu juro, bebê!" Reiterou, vendo o semblante nada confiante dele. "Agora, se você quiser ir pra casa comigo, eu não me oponho." Falou, sugestivamente, e ele concordou, porque não ficou muito convencido do que ela disse e também porque ele próprio não estava em condições de manter uma rotina normal de trabalho.
Passaram boa parte do resto da tarde e o começo da noite no quarto dela, se amando, lentamente. Também conversaram bastante sobre coisas da infância e da adolescência dela, a respeito das quais Rachel agora podia falar, sem precisar omitir detalhes que denunciariam a identidade falsa e os problemas enfrentados por ela, Blaine e a mãe dos dois. Ele estava ainda mais carinhoso do que era normalmente e mimou a namorada de todos os jeitos que podia, preparando-lhe um banho com sais aromáticos e um lanchinho especial, e não deixando que ela movesse uma palha sequer, durante todo o tempo.
"Eu to me sentindo uma rainha e adoraria isso tudo, se não achasse que você tá agindo assim pra me consolar, sem necessidade." Ela disse, entrando no quarto, após o banho, enquanto secava o cabelo, ainda de roupão. "Eu não sou assim tão fraca, meu amor." Completou, ajoelhando-se na cama perto dele, que a abraçou pela cintura.
"Rachel, eu..." Ele sentiu um nó na garganta, mas não queria chorar novamente, então se controlou apertando-a ainda mais em seus braços, enquanto passava o nariz pelo pescoço dela, aspirando seu delicioso perfume, e sentia a morena retribuir o abraço e a carícia. "Eu não te acho fraca, Rach." Afirmou, afastando-se apenas um pouco, para mergulhar na intensidade de seus olhos. "Na verdade, eu não entendo como você consegue ser tão forte."
"Eu preciso ser... sempre precisei! Apesar de achar que ficou bem mais fácil com você do meu lado, já que antes eu parecia forte, mas, se qualquer coisinha mínima saísse do controle, eu simplesmente desmoronava." Deslizou os nós dos dedos pelo rosto dele, delicadamente.
"Eu não sei se sou eu quem te dá força, meu amor. A única coisa que eu sei é que eu não vou sair mais do seu lado." Segurou a mão dela que passeava por seu rosto e beijou seus pequenos dedos. "Eu não posso mudar o que aconteceu, mas eu vou fazer o que estiver ao meu alcance, pra você se sentir amada e segura. E, por isso, eu tomei uma decisão."
"Uma decisão?" Ela se ajeitou, puxando nervosamente o nó do roupão.
"Eu queria fazer tudo do jeito tradicional, e te pedir em casamento, durante um momento especial, pra, então, procurar uma casa nova, da qual nós dois gostássemos, e só ir morar lá depois de uma lua de mel perfeita. Agora, tudo isso parece menos importante, sabe? Eu não quero mais esperar pra ficar o mais perto possível de você... e cuidar de você e te amar! Então..." Fez um pouco de suspense. "...eu vou me mudar pra cá." Sorriu, sabendo que ela gostaria da notícia, e ela não decepcionou na reação positiva, dando gritinhos e pulinhos, como uma adolescente, e cobrindo o rosto dele inteiro com beijinhos estalados, enquanto ele gargalhava.
Mesmo com Blaine prestes a chegar, eles comemoraram na cama, do jeito preferido dos dois. Encontraram o rapaz muito à vontade, minutos depois, conversando com o chef de cozinha e a governanta, que acabaram ficando responsáveis por recebê-lo. Finn sentiu-se um pouco envergonhado por ser tão evidente o que ele estava fazendo com a irmã do outro jovem, enquanto este esperava por ela, mas o homem mais novo não pareceu se importar, quando cumprimentou os dois com abraços.
Os três logo foram deixados sozinhos por Kurt e Brittany, que tinham muito trabalho a fazer. Sentaram-se na sala de estar e ficaram conversando sobre tudo o que tinha acontecido na vida de um dos irmãos, sem que o outro pudesse acompanhar.
Rachel falou sobre a empresa e sobre como ela e Finn tinham se aproximado, sem fazer questão de omitir que fora uma dominadora, por anos. Hudson teria ficado absurdamente sem jeito diante das palavras dela, se Blaine não tivesse agido com uma naturalidade surpreendente em relação a tudo, inclusive ignorando o modo como tinha sido tratado naquela mesma tarde pelo ciumento cunhado.
"Anderson" contou sobre sua profissão de arquiteto, sobre o difícil momento em que se revelara homossexual para a família com a qual vivia, e sobre seu atual relacionamento com um colega de trabalho. Rachel quis convencer o irmão a visitar a Filadélfia com o namorado, da próxima vez, mas ele disse que sequer sabia se o relacionamento duraria. Não confiava em Richard como Rachel confiava em Finn e não sabia se poderia contar a ele que usava um falso sobrenome, e escondia uma irmã mais velha e um passado turbulento.
Foi inevitável que os Weston virassem assunto, depois disso, pois, ainda que as memórias fossem tristes, eram a única coisa que ligava um ao outro, além do laço de sangue. Já não tinham parentes, amigos ou um lar e, antes que novas memórias boas fossem construídas, aquelas ainda precisariam ser revisitadas e digeridas.
"Aquele porco já foi tarde!" Rachel não hesitou em declarar, quando o irmão falou que seu tutor tinha recebido um telefonema, no ano anterior, e sido informado de que Norton adoecera e morrera na cadeia.
"Rachel..." O caçula dos Gleizer repreendeu.
"Já sei! Você vai dizer que não devemos querer a morte de ninguém e que, se ele apodrecesse na cadeia, seria o suficiente, porque ele não poderia fazer mal a ninguém de novo." Ela respondeu, um pouco irritada. "Eu não consigo pensar assim! Eu gosto de saber que ele está morto e queria que o mesmo acontecesse ao filho dele... mas que ele sofresse bastante aqui, antes de ir pro inferno!"
"Não deve fazer bem pra você, ficar guardando esse ódio todo." Blaine franziu a testa.
"Mas que saco, B! Deixa de ser tão bonzinho, pelo amor de Deus!" Ela adotou um tom mais brincalhão, jogando uma almofada nele, que a jogou de volta, enquanto Finn observava a interação, contente por eles estarem tendo a oportunidade de se reconectar. "Você sempre foi o melhor de nós... o mais sensível." Continuou, mais séria.
"É um jeito bem legal de dizer gay." O rapaz implicou, fazendo com que ela voltasse a atingi-lo com a almofada.
Foi somente depois de comerem, e escolherem a sala de TV para tomar um licor e continuar o bate-papo, que o assunto voltou a ser a infância. Blaine aproveitou para tentar averiguar se algumas de suas memórias e sonhos eram mesmo lembranças ou criações de sua mente, uma vez que seu psicanalista havia explicado que, graças ao trauma, muita coisa poderia ter sido apagada do plano consciente e outras informações não tão corretas colocadas em seu lugar.
"Eu não entendo como ninguém percebeu o que estava acontecendo com vocês!" Finn se pronunciou, depois de muito tempo praticamente só observando. "Vocês tinham vizinhos! A Rachel me disse que foi um deles quem ouviu o tiro e..."
"Quando nos mudamos de Nova York para São Francisco, o Norton comprou uma casa com porão e nos mantinha lá, durante o dia. À noite, nós íamos para os nossos quartos, mas então as janelas ficavam trancadas." Foi Blaine quem começou a explicar.
"Quanto tudo acabou, os vizinhos disseram que achavam que ele era viúvo e vivia apenas com o filho. Os colegas de trabalho, se não me engano, pensavam que ele tinha uma mulher doente, mas disso eu não tenho realmente certeza." Rachel complementou. "Os poucos parentes e amigos da nossa mãe acreditaram que ele tinha virado a cabeça dela e conseguido convencê-la a se afastar de todos."
"E, depois, ninguém quis ficar com vocês?" Finn indagou, sentindo um mal estar muito grande ao pensar neles como duas crianças tão desamparadas.
"Um tio nosso até quis, mas a justiça achou que precisávamos sumir... ser apagados do sistema. Com qualquer parente, nós estaríamos muito expostos ao Brody." A morena explicou.
"Por falar em Brody, o que você pretende fazer, Rach?" Blaine voltou a expor a preocupação que motivara sua visita.
"A Quinn, minha secretária, ficou o dia todo pesquisando isso pra mim, hoje. Ela me ligou, no final do expediente, e disse que não tem nenhuma foto minha na Internet ou em qualquer outra revista, além da que você viu. Eles só falaram de mim por causa do Valentino lindíssimo que eu usei naquela festa."
"Ainda assim, seria bom tomar cuidado, amor." O namorado ecoou a apreensão demonstrada pelo irmão.
Rachel intimamente achava que eles estavam exagerando e que Brody nunca veria sua foto em uma revista, dentro de uma reportagem sobre moda. No entanto, para tranquilizá-los, prometeu pedir a Noah Puckerman que reforçasse a segurança, contratando mais um ou dois homens.
Em troca fez Blaine prometer que não iria embora sem jantar de novo com eles e conhecer o animado grupo de amigos com quem costumavam sair.
Eles passaram o resto da noite se divertindo, ao criar uma história convincente para o visitante, que não poderia ser apresentado como irmão de "Berry" e teria que continuar fingindo ser um autêntico Anderson, até segunda ordem.
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