Notas iniciais
Eu sei que demorou um século a atualização, mas espero que gostem dela e valha a pena ter esperado...

Obrigada pelos comentários do capítulo anterior! =))

Bjs!

Segundos depois de sentir os lábios quentes e macios de Finn tocarem os seus, Rachel o afastou, delicadamente, e ficou olhando para ele, com os olhos arregalados e a respiração ofegante. A surpresa com a atitude inesperada dele a deixou muda, paralisada e boquiaberta, e as reações que ela provocou, como as pernas trêmulas, o coração acelerado, as mãos frias, e o corpo todo clamando por mais, a deixavam assustada e em pânico. Era por isso que deviam ser evitados gestos de carinho e intimidade, como beijar na boca e pegar no sono na mesma cama. Eles podiam enfraquecer o dominador, fazê-lo esquecer de sua posição e perder o controle.

"Rachel?" Finn chamou a garota, tirando-a da espécie de transe em que ficara.

"O que?" Ela tentou parecer indiferente ao que tinha acontecido.

"Fa-fala alguma coisa... FAZ alguma coisa! Grita comigo, me xinga... me dá um tapa na cara, qualquer coisa... mas tem alguma reação, pelo amor de Deus!" Pediu, nervoso e irritado com tanta frieza.

"É claro que eu vou fazer." Respondeu, séria. "Você pode ter certeza que vai receber um bom castigo por isso, Finn! Você sabe muito bem que quebrou uma das regras mais importantes pra mim e... eu não posso simplesmente te castigar como eu castigo quando você fala meu nome ou chega atrasado aos nossos encontros. Até porque já ficou claro que você faz muitas vezes de propósito, porque gosta daquele tipo de castigo, e eu tenho que te desencorajar totalmente em relação..."

"Não, você não vai." Ele a interrompeu, decidido.

"O que?" Ela perguntou, confusa.

"Me castigar. Você não vai." Esclareceu. "Eu a-agora sei muito bem que, pra o dominador castigar o submisso, ele tem que aceitar o castigo... tem que concordar que merece ser castigado. E, honestamente, Rachel, eu não concordo! Eu não acho que tenha sido errado te beijar, quando era uma das coisas que eu mais queria, desde que eu conheci você."

"Mas é uma das minhas regras!" Foi a vez dela de interromper o raciocínio dele, exaltada.

"Eu sei." Ele disse, suspirando, cansado. "E é por isso também que você não vai me castigar... porque eu não tenho mais regra nenhuma a cumprir... eu não sou mais seu submisso." Informou.

"Como assim, Finn?" Questionou, rindo nervosamente. "Você não pode..."

"É claro que eu posso! Você mesma disse! Você me disse que eu poderia desistir a qualquer momento... e é isso que eu to fazendo... desistindo."

"Finn... bebê, por favor." Pediu, passando a mão no braço dele, que se esquivou, evitando o olhar dela. "Olha pra mim, Finn." Ele acabou por fazê-lo, por puro hábito de obedecer. "Tá tudo bem se você não quer o castigo dessa vez. A gente esquece isso! Você tem razão... se você não aceita o castigo, ele não faz parte do jogo."

"Não se trata só desse castigo, Rachel. São... muitas coisas. Eu não quero mais ser seu submisso... na verdade, eu nunca quis." Declarou, abandonando de vez a formalidade de chamá-la pelo sobrenome.

"Mas você aceitou!" Praticamente gritou.

"Eu aceitei. É claro que eu aceitei... você não me deu muita escolha! Era isso ou nada... e eu queria você. Se era o único jeito de ficar com você, eu precisava fazer isso e ver o que ia acontecer... e talvez..."

"Você tem planejado isso, não é? Deixar de ser meu sub? Foi por isso que você mudou... que você largou os óculos, as roupas antiquadas... foi fazer fono pra deixar de ser gago, terapia pra acabar com a timidez."

"Eu mudei, em primeiro lugar, porque você me fez mudar, mesmo não percebendo e muito menos querendo isso. Foi você quem me deu a autoestima, a autoconfiança que me faltava. Foi você quem me fez entrar em contato com um lado meu que eu não conhecia e a terapia só complementou isso." Ele assegurou. "E as mudanças externas... tirar os óculos, usar umas roupas mais legais, um corte de cabelo mais condizente com a minha idade, fazer questão de tratar a gagueira... isso tudo foi consequência de ter muda-"

"Isso não é verdade... você tava pensando em tudo." Acusou.

"Eu não vou e nem ia negar... eu também queria mostrar pra você!" Concordou. "Eu tinha a esperança ridícula de que, sem as características que você mesma listou, você deixasse de me ver como submisso e... me visse como um homem."

"Eu te vejo como um homem..."

"Um homem?" Ele riu, sarcástico.

"Eu não entendo, Finn." Ela afirmou, sincera. "Por mais que eu visse as suas mudanças, eu... não tinha medo que você me deixasse, porque você parecia gostar... e gostar muito!"

"Eu gosto do que a gente faz no quarto secreto... ou no seu escritório, quando você não aguenta esperar e me chama no meio da tarde. Eu gosto do sexo... das fantasias, dos jogos... de nós dois indo até os nossos limites, aguçando os sentidos um do outro, provocando... e..." Ele respirou profundamente. "...eu go-gosto porque é com você. Você! E eu sempre quis você de uma maneira..." Passou as mãos pelo rosto, respirando fundo de novo. "Mas eu não gosto de ser como uma marionete."

"Você sabia que iria ser assim, Finn! O que você queria de mim?" Disse, sentindo uma impotência muito grande, por perceber que ele estava falando sério sobre deixar de ser seu sub.

"Eu já disse. Eu sabia, mas eu tinha esperanças de que, aos poucos, convivendo comigo, vendo as minhas mudanças, você me visse de um outro jeito... você sentisse alguma coisa por mim. Eu queria ter um relacionamento com você, de verdade... te chamar pelo seu nome, te beijar, te abraçar, te fazer carinho. Eu queria fazer amor com você, de vez em quando, e não só sexo... e não só dentro do quarto secreto, mas em qualquer lugar onde a gente tivesse vontade. Queria dormir na mesma cama que você... depois de ficar com você deitada no meu peito, enquanto a gente conversasse sobre como tinha sido o nosso dia."

"Finn... eu não po-" Ela tentou falar, mas ele não queria ouvir.

"Mas eu já vi que eu me iludi e que isso não vai acontecer. Você não ter reagido ao meu beijo nem com... sei lá, alguma raiva... mostrou que você continua no controle, como sempre, então... só me resta ir embora."

"E pra onde você vai?" Perguntou, demonstrando preocupação genuína.

"Pro meu apartamento."

"Você não entregou o apartamento?"

"O apartamento não era alugado... ele é meu. É o mesmo apartamento em que eu morava com meus pais, e você saberia disso, se não se recusasse a ouvir qualquer coisa sobre a minha vida." Respondeu, sendo mais ríspido do que pretendia, mas não se arrependeu, afinal ele não estava falando nada que não fosse a verdade nua e crua.

"Eu queria muito que você ficasse, Finn. Eu go-gosto muito de v-... de ter você aqui." Ela não conseguiu dizer que gostava dele, era uma coisa realmente difícil para ela. "Eu tenho razões... motivos... pra não querer me envolver com ninguém, pra não abrir mão do controle e... não é pessoal! Você precisa saber disso... entender."

"Eu acredito em você, Rachel." Assegurou, dando um sorriso que não se refletia no semblante. "Eu entendo que é um estilo de vida em que você se apoia... e que gostar de alguém não faz parte dele e pode até atrapalhar. Só que não é o meu estilo, entende? Eu quero alguém que eu possa amar e que possa me amar. Eu era seu... eu SOU seu... e talvez nem seja tão fácil assim eu deixar de ser, aqui dentro." Falou, colocando a mão sobre o peito esquerdo. "Mas, se você nunca vai poder ser minha também, eu preciso me afastar de uma vez, porque só fazer sexo com você é muito pouco pra mim."

Ela não sabia o que dizer, então ficou em silêncio, enquanto ele foi até o quarto que tinha sido seu nos últimos meses, para pegar alguns itens pessoais indispensáveis, como a carteira e as chaves do apartamento. Quando ele voltou, a encontrou sentada no sofá, abraçada às próprias pernas, e sentiu que ela estava verdadeiramente chateada, apesar de não entender por que, uma vez que ela não estava fazendo nada de concreto para fazê-lo mudar de ideia, quando tinha todas as condições para tanto. Ficou tentado a abraçá-la e consolá-la, mas logo se lembrou de que a pessoa apaixonada e não correspondida da história era ele, então ele era quem precisava de carinho e colo, e não ela.

"Eu vou pedir ajuda ao Noah e ao Sam, durante a semana, pra gente deixar o quarto de hóspedes como ele era... e você poder receber seu próximo submisso." Cuspiu a segunda parte, sentindo a garganta arder. O estômago ficava embrulhado quando ele pensava nas implicações do que estava fazendo, em outro homem a observando rebolar em volta do poste de pole dance e vestir as fantasias que ele adorava, nas mãos do outro no corpo dela, na língua da morena passando gelo no abdômen de alguém que não fosse ele.

Ela agradeceu aos céus por estar em um ambiente pouco iluminado, porque sentiu lágrimas nos olhos, e chorar na frente dele era algo impensável. Acenou com a cabeça, concordando com o que ele dissera, mas, na verdade, não se imaginava trazendo um novo submisso ao apartamento tão cedo. Não achava que conseguiria transar com outro cara na jaula onde prendera, horas antes, a sua fera, que parecia então quase totalmente domada, e na qual se juntara a ela, para ser devorada do melhor jeito possível. Não pensava em estrear a cadeira que tinha acabado de adquirir com outro que não fosse o seu bebê de quase dois metros de gostosura.

Assim que ele fechou a porta, ela começou a chorar descontroladamente, como não fazia, e prometera nunca mais fazer, havia anos. Desde a morte da mãe, ela não sentia uma dor e um vazio tão grandes quanto estava sentindo naquele momento, e não conseguiu parar as lágrimas e os soluços nem com o copo de água com açúcar que pegou na cozinha, nem com o programa de TV que tentou ver para se distrair, nem com o colo e o chá de camomila oferecidos por Brittany, meia hora depois.

Brittany era uma boa pessoa e trabalhava com ela havia alguns anos, mas não era uma amiga a quem ela pudesse contar o que estava acontecendo de fato. Ela sabia, por óbvio, que Rachel havia mantido um relacionamento com Finn nos últimos meses, e sabia que eles dormiam em quartos separados e transavam em um quarto bem diferente dos convencionais, com aparatos e fantasias, mas não conhecia os detalhes, as regras que Rachel impunha aos rapazes que iam viver com ela. Para todos os efeitos, eles eram pessoas com quem Rachel tinha algo como uma amizade colorida.

Rachel tentou ligar para as duas melhores amigas, que, além disso, também faziam parte do clube, mas não conseguiu falar com nenhuma delas, que provavelmente estavam se divertindo, como ela mesma estaria agora, se não tivesse saído do quarto irritada, e acabado provocando uma reação em Finn. Então decidiu ir dormir, mas já sentia uma saudade muito grande do homem que tinha acabado de deixar sua casa e sua vida, e só conseguiu adormecer quando optou por se envolver nos lençóis que ainda estavam impregnados pelo cheiro dele, bem forte.

Ainda era bem cedo para seus padrões, quando acordou, pela primeira vez na vida e, por isso mesmo, bastante confusa, na cama redonda do quarto secreto. Verificando que havia bastante tempo ainda, antes da hora de sair de casa para ir para a empresa, preparou um banho de banheira e ficou imersa nele, tentando relaxar. No entanto, este era um objetivo impossível porque seu pensamento estava repleto de Finn e da constatação de que, por causa dela, de seus medos, inseguranças e necessidades, das limitações que ela impunha para tentar controlar a própria vida, ela o havia perdido.

Seguiu, então, com a rotina da manhã, vestindo um terno feminino preto, sobre uma camisa branca, prendendo os cabelos em um rabo de cavalo, e passando maquiagem suficiente apenas para disfarçar as olheiras e o inchaço provocado pelo choro. Não estava sentindo qualquer vontade de ficar bonita naquela manhã, um pouco porque não havia ninguém por quem ela desejasse ser notada, um pouco por estar querendo, talvez pela primeira vez, parecer tão terrível quanto estava por dentro, por saber que merecia estar assim e querer se punir de alguma forma, como se já não fosse punição suficiente a própria perda.

A última coisa que fez, antes de finalmente entrar no carro com Noah e ir para a Red Rave, foi tomar café da manhã, ingerindo junto algumas vitaminas que costumava tomar, assim como a pílula anticoncepcional da qual tinha começado a fazer uso poucos meses antes, depois de ela e Finn terem feito os exames correspondentes ao pré-nupcial, para que eles pudessem ficar mais livres, não tendo que se preocupar com preservativos. Provavelmente nem iria mais precisar dos pequenos comprimidos, mas preferiu não pensar sobre isso e apenas engoliu um deles, se despedindo de imediato de Britt, antes que, permanecendo mais tempo no apartamento, começasse a chorar de novo.

No entanto, seu dia não ficou nem um pouco mais fácil quando ela chegou ao escritório. Entre as muitas reuniões para as quais ir, os inúmeros telefonemas para atender, as várias mensagens para responder e as incontáveis ordens para dar a seus subordinados, uma preocupação ganhou destaque, quando um dos diretores chegou à sua sala, informando-lhe de que o departamento de recursos humanos havia recebido uma certa de demissão do chefe da contabilidade.

"O rapaz está aqui há pouco tempo, mas ele é excelente funcionário! Veio com várias recomendações e tem feito um trabalho notável. O RH foi instruído pra sempre informar a mim ou à Dafne quando houver pedido de demissão de qualquer pessoa com cargo de chefia, justamente porque a gente tenta negociar, mas eu estive com ele e ele está irredutível, apesar de não apresentar uma razão específica pra estar nos deixando."

"O que ele disse?" Ela perguntou, fingindo curiosidade, pois conhecia muito bem os motivos dele e, ao mesmo tempo, sabia que ele não falaria a verdade a ninguém.

"Disse que são motivos pessoais apenas e... Rachel, não me leve a mal, mas a Dafne me disse que alguns funcionários comentam que ele e você são próximos... que ele vem muito à sua sala. Mas, se vocês são amigos, seria mais um motivo para ele ficar..."

"Nós somos próximos." Ela achou melhor não negar, pois levantaria mais suspeitas do que dizer que eles tinham se tornado amigos. "E ele está mesmo com problemas pessoais, mas eu tinha esperanças de que ele não saísse da empresa por causa deles e... ainda tenho. Você pode pedir que tragam a carta pra mim?"

"É claro!" O diretor disse, já se levantando. "Nos vemos mais tarde, na reunião com a Marion e o Gerard."

Rachel não parou de pensar em uma maneira de convencer Finn a ficar pelo menos na empresa, durante todo o dia, e de ler e reler a carta dele, apesar de esta não dizer realmente nada interessante, uma vez que ela chegou à sua sala. Porém, arranjando um tempo no meio da tarde e conseguindo falar, finalmente, com as melhores amigas, marcou um encontro com elas à noite no clube e decidiu só conversar com Finn no dia seguinte.

Somente Kitty e Harmony seriam capazes de entender o que ela estava passando e, compreendendo, talvez elas pudessem jogar uma luz não muito longe dentro do túnel.