Dormindo Com O Inimigo
5 A Tentativa
Notas iniciais
Por que?
A pergunta dela era válida. Uma questão pertinente que não havia resposta, ou ele não estava muito interessado em busca-la. Karin estava há alguns metros à frente, provavelmente tinha esperado que ele saísse da cela. Sua fisionomia mudou, se tornou relaxada, parecia que ela não esperava que sua aparição acontecesse logo.
Karin também tinha suas dúvidas com relação a ele, mas não verbalizou nenhuma delas, pois temia mais do que a morte o que ouviria. Ele precisava, desesperadamente, pôr um fim nessa situação. Não dava para conviver com Haruno Sakura.
A Tentativa
Acordou com o cheiro forte de cebola no ar. Ao se virar tinha uma bandeja ao lado dela com uma garrafa de água, uma tigela e um pão. Puxou a bandeja e com os dedos trêmulos agarrou a cambucá tomando a sopa de uma vez só, engasgando com alguns nacos. Lembrava-se vagamente de Sasuke tê-la alimentado ontem, depois de limpa-la e pedir que a sua parceira curasse ela. Tudo muito estranho, tudo disfuncional.
Mas ainda estava fraca demais para pensar nessas coisas. Comeu seu pão, tomou a água e voltou a dormir em seu canto de palha. Ouviu quando a porta foi destrancada e se deparou com a mesma garota de ontem. Ela pegou a bandeja sem dizer uma palavra, sem direcionar a atenção a Sakura. Chegava a parecer que ela era invisível.
Os dias foram passando, ser alimentada e hidratada duas vezes ao dia fez uma diferença. Já se sentia bem melhor e revigorada, a vontade de passar os dias apagada no chão era inexistente. Sasuke não voltou a sua cela, nem o mascarado, era apenas ela e a ruiva, a quem Sasuke tinha chamado de Karin. O olhar dela era bem incisivo, bem obvio. Alguém a detestava ali e Sakura não se sentiu muito animada por essa pessoa ser logo quem a alimentava.
A solidão de seu cárcere trazia a reflexão, as perguntava voltavam a rondar sua cabeça. Por que era mantida ali? Por que precisavam de uma prisioneira? Durante as informações sobre a morte de Orochimaru ninguém falou de Kabuto. Ele estava vivo? Deu segmento as criações de Orochimaru? Ela seria uma cobaia? Tinha cogitado um interrogatório, mas era uma ideia vazia. Já estava ali há um bom tempo e nenhuma pergunta foi feita, nem mesmo no primeiro dia desperta. Aquele homem falou muito, mas não perguntou nada em si.
E não fazia sentido. Eles eram da Akatsuki e Pain fez aquela invasão, eles tinham conhecimento sobre as defesas da Vila. Não precisavam dela, mas a mantinham viva. Nos últimos dias as palavras do mascarado martelaram em sua cabeça com muita frequência.
"Você? O que te faz pensar que quero algo com você?”
“Não tinha interesse em prende-la. Apesar de agora me parecer apropriado tê-la aqui”
Naruto. A Akatsuki vinha há tempos prendendo todos os jinchuurikis. Não duvidava que aquela tinha sido uma emboscada para ele. Aquelas coisas que a agarravam não eram fortes, mas pareciam drenas chakra por isso ela se sentiu tão fraca após conseguir sair daquele inferno gosmento. Talvez fosse isso, esperavam por ele, para drenar o chakra dele e o pegarem.
Sentia-se tensa e temerosa com a possibilidade dela estar ali por conta disso. Um chamariz para pegar Naruto, para traze-lo sozinho e sem reforços para outro armadilha. Doía ainda mais pensar que Sasuke tinha colaborado esse tempo todo para o sucesso desse plano infame.
(...)
Karin mantinha seu olhar focado em Sasuke. Sentado a cabeceira da mesa onde Tobi falava e ela não dava a mínima. Ele parecia igual, nenhuma mudança em sua postura, em sua fisionomia, mas ela ainda o sentia diferente. Não tinha como afirmar com cem por cento de certeza o que se passava na cabeça dele, Sasuke sabia muito bem esconder o que sentia e pensava e ela tentava ser assim. Tinha êxito em alguns pontos, mas isso não ocorria sempre e não estava ocorrendo com a nova inquilina.
— Ainda não temos um parecer sobre o Naruto, tem algo de nebuloso ocorrendo e as informações sobre ele estão vindo desconexas, mas não vamos mudar nossos planos por isso. Karin — ela foi tirada de seu torpor, corando e fitando Tobi —, quero que hoje você comece a injetar a droga de inibição de chakra em Sakura. Não quero nenhuma gracinha quando começarmos a locomoção dela — a primeira variação no dia surgiu. Subitamente Sasuke se moveu em seu acento, assumindo uma posição mais estoica.
— Vamos, move-la?
— Sim, mas não por agora. Vamos leva-la para perto de Konoha, para perto do garoto e deixar pequenas pistas para que ele venha até ela. — Sasuke franziu o lábio ou foi só impressão dela? Pela distância não dava para saber, mas não importava de qualquer forma. Foi o único e breve momento de Sasuke.
Karin fitou o remédio em suas mãos. Ela tinha pego no antigo laboratório e agora se encaminhava para as celas. Por que a forçavam a isso? Por que a forçavam a ficar perto dela?
O barulho dos passos deixou Sakura alerta. Ela já tinha entrado na rotina de sua prisão e sabia quando aconteciam as rondas, quando traziam a comida e dificilmente alguém perambulava por ali fora desses dois padrões. Ficou encolhida à espreita, o som parou abruptamente.
— O que faz aqui? — era a voz de Karin, mas não fazia ideia de com quem ela falava e parecia que não saberia de qualquer maneira, os passos voltaram a ecoar e a porta de sua cela foi aberta com violência. Karin a fitou com a animosidade de sempre e antes de entrar na cela, se virou de costas.
Quando se voltou para Sakura, tinha uma pequena seringa em mãos. Sakura se sobressaltou, mas presa como estava não tinha muito o que fazer, relutou, tentou empurra-la, afasta-la, mas Karin conseguiu injetar seja o que fosse na nuca dela.
— O que é isso? O que você injetou? O que fez comigo? — mas não houve resposta. Karin simplesmente saiu sem dar a mínima.
Aquela foi uma noite insone. Primeiro pensou que pudesse ser algum sedativo, mas se fosse não tinha surtido efeito, pois não tinha se sentido mais calma ou sonolenta. Passou o que seria a madrugada naquele lugar acordada, Karin trouxe sua refeição matinal e não houve nenhuma mudança. Nada, se sentia exatamente como antes.
Sakura passou o dia inteiro ansiosa, nervosa, temerosa e isso só piorou quando Karin voltou no final do dia para fazer a mesma coisa. Aplicou o medicamento e foi embora. Isso foi acontecendo durante vários dias e por mais que berrasse, esperneasse, implorasse para que ela dissesse o que era não recebia nenhuma palavra sequer de sua carcereira.
Estava sentada com a cabeça escorada nos joelhos, passando a mão na nuca, quando Sasuke entrou uma tarde. Ela o fitou de esguelha, sem se aprumar. Tinha preocupações maiores do que uma visita dele. Não se esgueirou, nem encolheu, quando ele se aproximou dela. Sem dizer uma palavra ele mudou suas correntes, uma a uma.
— Já que estão aplicando inibidores, não tem porque continuar com correntes de contensão. — disse ele, enquanto prendia seu punho esquerdo. Subitamente Sakura entendeu, franziu o cenho. Não queria ter que falar com ele, não queria parecer interessada.
— É temporário? — amaldiçoou-se por sua voz ter fraquejado ao questiona-lo. Sasuke a fitou e então se afastou.
— Sim. É temporário. — ele partiu. Deixando-a só, com suas próprias conjecturações.
A droga a limitava, isso é obvio, mas abria novas oportunidades. Se ela fingisse um desmaio, passar mal, qualquer coisa do tipo, eles a soltariam, mesmo que fosse por pouco tempo. Pois acreditavam que ela não tinha chakra. Que mal uma menina desmaiada poderia fazer? Nenhum. Com certeza conseguiria executar um taijutsu que fosse e escaparia daquele lugar.
Quando Karin apareceu mais tarde, ela resistiu apenas para não transparecer que já sabia o que estava acontecendo, mas não se incomodou de fato. Por agora ela precisava avaliar muito bem seus inimigos, não tinha como saber as habilidades daqueles que a cercavam naquele lugar. Porém isso não a desestimulava era apenas uma razão a mais, uma questão a mais que alimentava a vontade dela de sair daquela prisão. Sairia pelas próprias pernas, por conta de todo seu esforço. Um ninja não era feito só de jutsus, ela provaria isso quando escapasse, sem se importar com o esforço e o custo.
Deixou passar alguns dias da visita de Sasuke antes de fazer qualquer coisa, analisou bem a situação e um dia ela ficou permaneceu deitada sem mover músculo algum. Manteve sua respiração baixa controlada, sem se mexer. Karin apareceu largou a bandeja e foi embora, Sakura não moveu um centímetro sequer e quando a outra voltou, notou isso. Sentiu o pé de Karin bater bem acima do seu quadril, ela bateu duas vezes antes de se inclinar. Afastou os cabelos de Sakura fitando a nuca dela e depois checando a temperatura. Dois tapinhas foram desferidos no rosto dela, sem resposta.
— Merda.
Karin praguejou baixo. Largou a bandeja outra vez e se afastou. Quando retornou não estava sozinha e isso não era bom, não era isso que ela planejava, não era isso que tinha em mente. Não podia lidar com duas pessoas. Foi solta como imaginava e eles nem se preocuparam em colocar uma corrente sobressalente. Karin ia atrás e Sakura mantinha os olhos semiabertos. Assim que eles entraram em um corredor muito estreito ela viu sua chance, bateu com punho no queixo dele. Fazendo com que o cara a derrubasse. Não perdeu a chance e correu o mais depressa que pode.
Aquele lugar parecia um ninho de minhocas, cheio de tuneis e bifurcações uma igual a outra. Estava perdida antes mesmo de despista-los de vez. Mas ainda tentou, ainda se esforçou, precisava arranjar uma saída. Se esperavam que ela aceitaria ficar pacificamente trancada naquela cela, estavam muito enganados. Corria o mais depressa possível até sentir algo que se desmanchou em água colidir contra o seu corpo, escorregou desnorteada e logo seu corpo estava sendo erguido por alguém que era bem mais alto que ela.
— Não vão gostar nada, nada de saber que você voltou a aprontar. — disse Suigetsu voltando a sua forma normal. — Mas um avanço e tanto entre bater em uns caras em uma cela e fugir dela — Sakura se debatia sobre os braços de Juugo.
— Me soltem, por favor...se me deixarem ir, ninguém vai saber — Suigetsu riu, mostrando seus dentes serrados.
— Ficou louca? Até parece que ele não saberia. Vamos, Juugo, vamos devolver a fera a sua cela — ele riu de seu próprio trocadilho.
— Suigetsu, você não acha melhor segurá-la? Estou com medo de me descontrolar. — Suigetsu olhou de um para o outro, não queria segura Sakura. Ela podia acabar escapando e ele não queria ter que aguentar ninguém, mas realmente era melhor leva-la do que ter um Juugo descontrolado atrás de si.
— Eu levo e é bom você ficar quietinha — mas mal ele a agarrou e Karin apareceu no corredor, espumando de ódio. — Onde estava para deixa-la fugir?
— Ela armou para que eu a soltasse — ia pular em cima de Sakura, mas Suigetsu interviu.
— Não é uma boa ideia e você sabe bem disso. — ela fuzilou a Haruno com o olhar e passou direto. Suigetsu continuou a arrastar Sakura com Juugo acompanhando os dois um pouco mais atrás.
Eles não se deram ao trabalho de acorrenta-la e Sakura não sabia se isso era uma coisa boa ou ruim. Foi largada dentro da sala, a porta trancada. Antes de se afastarem o mais alto que a agarrou primeiro colocou o rosto na janela da porta.
— Sinto muito pelo que houve no riacho. — Disse Juugo abaixando a cabeça e segundo junto a Suigetsu. Sakura ficou perplexa ao ouvir aquilo até entender que era ele, o bicho que a atacou na floresta.
— Hey, espera ai, volta aqui... — se ele tivesse um pingo de consciência e culpa ela poderia usar isso. Mas Juugo não retornou, ninguém mais apareceu por todo aquele dia.
Fale com o autor