Donzela Guerreira
7 Os Cavaleiros da Ordem
Notas iniciais
Capítulo 7

Os Cavaleiros da Ordem
— Deveria me agradecer — rosnou ela zangada o empurrando para frente — Irá me agradecer quando os lobos vierem e tiver este refúgio.
Ele revisou as plantas trepadeiras e as manchas de mofo que cobriam as paredes e se perguntou se realmente haviam paredes debaixo da folhagem.
— Duvido que algum lobo venha a esta choça — murmurou.
— Já poderiam estar aqui — ela disse e em seguida fez algo extraordinariamente heroico, algo que o tomou de surpresa. Ficou entre ele e a entrada e usou a adaga para empurrar a porta. Se houvesse um animal selvagem dentro da choça, atacaria primeiro a ela. Isso o perturbou.
— Espera — disse ele — Me deixe ir primeiro.
— Não — a loira sacudiu a cabeça — Não planejo perder a meu refém.
— E eu não planejava perder minhas esporas por falta de cavalheirismo — insistiu o Black — Além disso, quanta experiência tem em se defender de animais selvagens?
Um lado da boca dela se curvou em um sorriso malicioso.
— Isso incluiu você?
Sob qualquer outra circunstância, ele teria achado esse sorriso convidativo.
O fato que ela o tivesse chamado animal não lhe preocupava o mínimo. As Mulheres o tinham chamado de muitas maneiras: canalha, tenente, besta, sempre com afeto. Mas este não era o momento nem o lugar para jogos amorosos. Perigosas criaturas podiam estar atrás da porta e ele não estava disposto a usar a uma dama como um escudo contra elas.
— Corte minhas amarras e me dê a faca. Eu posso...
Sem advertência, completamente ignorando as palavras dele, ela deu um empurrão à porta. E esta se golpeou contra a parede levantando um montão de pó. A mandíbula de Sirius caiu. Se houvesse um animal selvagem dentro, os atacaria depois de semelhante ruído .
Felizmente, tudo o que se ouviu foram pequenas criaturas escapando da luz. E além de um par de aranhas que freneticamente subiam pelas teias que cobriam a entrada, nenhuma besta emergiu das sombras. Mas quando Marlene se deu volta para se assegurar que tudo estava seguro, ele estava simultaneamente tão horrorizado e tão lívido que não pôde falar.
— Os normandos não tem medo de ratos, verdade? — desdenhou ela de forma sarcástica.
Sirius estava muito perplexo para responder. Enquanto Marlene o empurrava para dentro a cabana, ele tinha um único pensamento. Essa mulher era um problema. Ela era muito selvagem e temerária para seu próprio bem. Esse tipo de impulsividade ia terminar matando-a. E provavelmente também a ele.
— Não é o tipo de lugar que os Normandos estão acostumados, com seus perfumados travesseiros e lençóis de seda — disse ela com desgosto pouco velado enquanto ele estudava o interior — Mas será suficiente.
Travesseiros perfumados? Lençóis de seda? Sirius não tinha nem ideia do que ela estava dizendo. Sua cama tinha lençóis comuns de linho, a menos que estivesse em batalha, e então se considerava afortunado de poder deitar-se em um pedaço de terra plano com sua capa em um colchão de folhas. De onde tirava a moça suas ideias sobre os Normandos, ele não sabia.
O interior da cabana estava surpreendentemente limpo. Embora uma fina capa de pó cobria tudo e os escassos móveis no quarto pareciam mais toscos que a própria choça.
A lareira estava cheia de madeira cortada, e três panelas estavam penduradas de uma barra suspensa sobre o fogo. Ao lado do fogo havia uma pá, uma corda e uma fonte cheia de colheres de vários tamanhos. Um banco de três pés estava ao lado de um pequeno arco de madeira, e uma lamparina de azeite vazio estava pendurada de um gancho na parede. Contra uma parede havia uma cama razoavelmente limpa. O exterior da choça podia ser frondoso, mas alguém tinha usado o interior recentemente.
— Traz para cá seus reféns? — perguntou a ela.
Marlene sorriu travessamente, e em seguida assinalou a cama.
— Te deite na cama.
— Se insiste — ele a lançou um olhar luxurioso.
Enquanto ele se deitava torpemente com seus braços atados, ela procurou a corda e a cortou em tiras. Agarrou um de seus tornozelos e começou a atá-lo ao pé da cama. Sirius compreendia o desejo dela de mantê-lo preso, mas não gostava da ideia de ser deixado indefeso.
— Minha lady, é isto absolutamente necessário?
— Não posso deixar que meu refém escape.
— Mas e se houver um incêndio? E se os lobos vierem? E se...
— Disse-lhe antes — disse ela, assegurando o nó — Não permitirei que nada te aconteça.
Ele apertou seus dentes enquanto ela começava a segurar sua outra perna. Ele tinha sido criado para ser independente. Era suficientemente difícil para ele depender de seus companheiros cavalheiros. Mas pôr sua confiança em uma mulher, e em uma tão impetuosa como essa...
— E se eu te dou minha palavra de que não escaparei? — ela o encarou desdenhosa.
— Sua palavra? A palavra de um Normando?
— Mantive minha palavra de vir voluntariamente.
— Manteve sua palavra porque eu te apontava com a adaga.
Ela tinha razão pela metade, uma vez que ele fazia uma promessa, jamais consideraria tentar escapar, embora provavelmente tivesse uma dúzia de oportunidades de fazê-lo. Ele era, depois de tudo, um homem de honra.
O moreno se retorceu na cama, tratando de aliviar o adormecimento de suas mãos, presas abaixo de suas costas. Lhe arrancou a atadura de seus pulsos, liberando seus braços. Mas ela foi cuidadosa de levar sua arma a sua garganta.
— Os braços para cima — exigiu.
— Espero que estejas certa — murmurou ele, levantando seu braço sem queixar-se — Que sua irmã venha antes que ladrões.
— Deixe que me ocupo dos ladrões — Marlene atou o braço direito dele na beira da cama.
Enquanto ela se inclinava sobre ele para tomar posse de seu pulso esquerdo, ele esteve tentado a fazer uma tentativa final de escapar. Um que implicava golpeá-la com seu punho e provavelmente deixá-la inconsciente.
Duas coisas o detiveram.
O primeiro: o cavalheirismo. Sirius sempre tratava às mulheres gentilmente. Nunca tinha golpeado a uma mulher. De fato, ocasionalmente levantava a voz a uma dama. A ideia de ferir intencionalmente a uma mulher era inconcebível.
A segunda coisa que o deteve foi o fato de que enquanto Marlene se cruzava em cima de seu corpo, ela perdeu o equilíbrio e tropeçou para frente golpeando contra seu peito. Ele se esticou, seguro que havia sentido a adaga em sua garganta.
Felizmente, os instintos dela foram rápidos. Ela correu a adaga antes que pudesse danificá-lo. Mas por um instante enquanto ela jazia ali, esmagando suas costelas, seus olhos captaram a mútua vulnerabilidade pelo que ocorria entre eles. Ela poderia cravar-lhe a adaga. Ele podia desarmá-la. Em troca, ambos ficaram paralisando em uma pausa muito curiosa. E nesse momento, enquanto ele a olhava com atônitos olhos azuis, incapaz de mover-se, incapaz de respirar, ele vislumbrou debaixo da atitude selvagem dela, um coração gentil.
No momento seguinte, essa sensação se foi. Ela lhe fechou seus olhos e sua alma e saiu de cima de seu peito com um grunhido desdenhoso. Em seguida atou sua outra mão. Sirius lutou contra seu crescente desconforto. Não era a primeira vez que tinha sido preso a uma cama por uma mulher, mas Marlene era primeira em fazer nós impossíveis de desatar. Se algo acontecesse, não poderia defender-se nem a si mesmo nem a ela.
Marlene, com sua tarefa completada, assentiu com satisfação. Deu uns passados para trás e se sentou no banco de três pés. Ainda estava nervosa porque quase havia cravado a adaga em seu refém. Ao menos tentou convencer-se que essa era a origem de sua inquietação. O fato de que o olhar de Sirius tivesse perdido por um momento sua característica zombadora e a tivesse olhado com admiração nada tinha haver com o modo em que seu coração se acelerava.
— Minha lady, isto é uma loucura e...
— Sh! — não queria escutar seus argumentos. Agora que seu cativo estava amarrado, ela podia descansar sabendo que não haveria mais excitação nesse dia.
Sirius obedeceu sua ordem e parecia estar absorto em seus pensamentos enquanto jazia olhando fixamente o teto decrépito da cabana. Agora ela só se sentaria e esperaria.
E esperaria.
E esperaria.
Seu estômago grunhiu sonoramente, e ela olhou brevemente para ver se Sirius tinha ouvido o som. Tinha-o escutado. Embora seus olhos não deixassem de olhar o teto, os ângulos de sua boca se curvaram divertidos. Ela grunhiu.
— Talvez se não me tivesse encerrado em um porão sem comida...
— Me desculpe — ele disse.
Ela mordeu o lábio inferior. Deus, estava faminta. Havia quem se burlava de seu voraz apetite, mas não se davam conta quanta energia uma guerreira requeria.
— Lily deveria enviar uma resposta antes do entardecer — murmurou ela.
— E se não mandar?
Marlene não queria pensar nisso. Em sua impulsividade, ela não havia trazido provisões. Se fossem forçados a permanecer de noite, pela manhã ela teria que reconsiderar seus planos seriamente. Ela continuou esperando, tão ansiosa como uma fera enjaulada, caminhando no pequeno quarto, em seguida sentando-se pesadamente no banco, para depois ir para a janela espiar através das portinhas, só para ver que as sombras cresciam.
Na décima viagem à janela, ela pôde ver a vaga silhueta das árvores contra o céu do entardecer. O ar estava pesado com a neblina da tarde, e ela se estremeceu com o ar fresco. Ninguém viria. Embora Marlene não temesse nada a respeito do bosque, a precavida Lily nunca andaria pelo bosque na escuridão.
Ela suspirou, afastando-se da janela. Supôs que eles teriam que passar a noite na cabana.
Procurou entre os conteúdos da arca. Havia uma manta de lã com buracos causados pelas traças, e a pôs em cima de Sirius. Ela tirou as outras duas mantas, e usou uma como colchão para ela sobre o chão ao lado da cama.
Era injusto, ela pensou, dormir sobre o chão duro enquanto seu refém usava a cama. Estirando-se com seus pés em direção à cabeça de Sirius, tapou-se com a outra manta e observou o ambiente da cabana lentamente voltar-se cinza claro, em seguida cinza escuro, e logo preto.
— Esta acordada? — murmurou Sirius justo quando ela estava para dormir.
Era tentador não lhe responder. Ela não queria ouvi-lo dizer que ele tinha razão, que ninguém tinha respondido sua nota. Mas ela estava acordada, faminta e aborrecida. Uma conversa seria bem-vinda embora fosse com o Normando.
— O que quer? — rosnou.
— Me diga, Diabinha, tem medo de algo? — ele pode ouvir uma risada de deboche dela.
— Além de estar isolada em uma cabana com um Normando charlatão?
— Sim, além disso — disse ele dando uma breve risada.
— O medo é perda de tempo!
— Mas certamente teme algo.
— O que tenho que temer? — questionou a loira dando de ombros.
— Bestas selvagens à escuridão — o moreno sorriu de canto — Talvez a fome.
— Não se preocupe Normando, não deixarei que morramos de fome — ela sorriu travessamente na escuridão enquanto por dentro continha a vontade que a dava de comer só em falar na palavra “fome” — Embora a você não viria mal perder algumas gordurinhas na cintura.
— Gordurinhas? — questionou abruptamente — Sou todo músculo, moça malvada, e sabe.
— Então, como é que consegui te superar no porão?
A risada de Sirius pareceu esquentar o quarto.
— Foi um plano inteligente, pequena zorra — Marlene franziu o cenho, querendo parecer irritada, mas estava agradada pela adulação dele — Onde aprendeu esses truques?
— Tratando com homens tarados — disse ela secamente.
— Ah.
Logo que ela disse as palavras, as lamentou, porque sua resposta brusca silenciou Sirius. E tanto como ela proclamava desprezar a esse homem, conversar com ele não era desagradável. Era um homem de certa inteligência, embora a maior parte dessa inteligência fosse desperdiçada em adulações sedutoras. Durante o jantar, lhe pareceu uma pessoa educada e de algum jeito interessante. E em uma noite fria e solitária como essa, uma conversa estimulante era bem-vinda.
Então logo depois de um prolongado silêncio, deu a ele uma resposta mais gentil.
— Minha irmã e eu sempre combatemos com homens de maior tamanho e força. Aprendemos a confiar em nossas mentes e habilidades.
Quando ele não respondeu ao princípio, o primeiro que ela suspeitou foi que poderia haver adormecido, mas não demorou para ouvir a voz do Normando novamente.
— Se suas habilidades são capazes da metade de sua mente, minha lady, deve ser uma perigosa inimiga.
Ela estava agradecida pela escuridão, porque seu elogio a fez ruborizar. Certamente só era outra das adulações falsas do Normando. Avermelhada, ela sentiu que o silêncio se fazia denso novamente, e ela procurou palavras para preenchê-lo.
— Esse truque com seu ombro... foi... foi... foi engenhoso também.
A risada dele aliviou a tensão.
— Isso foi uma inspiração nascida do desespero, a queda foi acidental.
Ela sorriu. O pobre tolo provavelmente havia se machucado.
O silêncio desceu novamente, e ela esteve segura de que desta vez seu cativo havia adormecido. Enquanto a noite fazia notar sua presença, e lentamente apareciam as estrelas, os pensamentos de Marlene começaram a viajar para Hogwarts. Lily teria recebido a nota a tempo? Serviria para retardar a consumação? Ou Dorcas agora estaria sofrendo na cama matrimonial?
— Está inquieta — murmurou Sirius, assustando-a.
— Possivelmente porque alguém contínua me despertando.
— O que te preocupa?
Como tinha adivinhado que ela estava preocupada e por que ela devia revelar seus mais secretos pensamentos a seu inimigo, não podia compreendê-lo. Mas a verdade pareceu deslizar-se de sua língua tão facilmente como a manteiga sobre uma faca quente.
— Se ele a machucar.... Se ele a danificar... de maneira nenhuma...
— James? Por Deus! Ele não é um violador de mulheres, sim, ele tem uma reputação temível como guerreiro, mas todas as mulheres asseguram que é o mais gentil dos amantes.
— Todas as mulheres? — a boca dela se abriu — Minha irmã se casou com um sátiro?
— Não — replicou ele rapidamente — Longe disso. Por Deus! James não teve a metade das mulheres que eu tive.
Marlene fechou seus olhos.
— Ah. Então você é o sátiro.
— Não! Só quis dizer...
— E quantas mulheres tiveste? Tens a conta?
— Maldição! Não se trata de mim, mas sim de James — suspirou exasperado enquanto tentava sair da armadilha em que ele mesmo tinha entrado — Ele é um bom homem, é melhor homem do que eu sou e é um homem de palavra.
Marlene desejou poder acreditar nisso.
— Juro-o pela honra de cavalheiro — ele adicionou — Ela não será forçada a fazer nada.
Com essa frase, Marlene rodou sobre um lado e se tapou com a manta até os ombros. Mas não era o temor por Dorcas que a mantinha acordada. Era a imagem de Sirius contando as mulheres com as quais havia deitado e o ultrajante fato de que a ela não deveria se importar.
Finalmente, enquanto as criaturas da noite lentamente emergiram, os ratos correram pela cabana, as corujas gritando para fora dos portinhas, um solitário lobo uivando na distância, ela pôs a adaga ao lado de sua cabeça, dormindo com uma mão sobre a mesma.
[...]
Lily comeu o último pedaço de carne. Toda essa gente a seu ao redor eram estranhos comendo e rindo-se, estavam infiltrando as filas de Hogwarts, como raposas em um galinheiro.
— Lily — sussurrou Dorcas ao lado da irmã.
— O que? — replicou ela de forma grosseira, praguejando-se quando a face da morena se entristeceu, instantaneamente se arrependeu de sua brutalidade — Perdão.
— Os armazéns de vinho estão esgotando — sussurrou Dorcas e Lily trincou os dentes.
— Então faremos os Normandos beberem água!
Dorcas se aproximou ainda mais da irmã, tomando cuidado para que James, que estava ao lado de Lily, não escutasse.
— Oh Lily, deveria me haver deixado casar com ele, então não se sentiria tão mal.
— Não, não — a ruiva agarrou a mão de sua irmã e forçou um falso sorriso de alegria dando um tapinha na mão de Dorcas — Nem sequer o pense, é somente que estou afligida.
Dorcas sorriu desculpando-se.
— E eu vim a preocupar com o vinho, mandarei um moço ao monastério por mais, enquanto isso... — pensativamente Dorcas se arranhou o queixo — Procurarei o estoque da cela.
— O que?
Dorcas só lhe piscou o olho e se foi levar a cabo um pequeno milagre.
Lily não pôde evitar sorrir. Dorcas era brilhante e criativa quando era questão de racionalizar as provisões e economizar uma moeda. Mas apesar de que ela teria solucionado o tema do vinho, a ruiva se lamentou pelo pobre cozinheiro, quem enfrentava a tarefa impossível de estirar uma só jiboia assada em uma comida para mas de cem pessoas.
Segundo os números de Lily, a companhia consistia em não menos que duas dúzias de cavalheiros montados, um número considerável. Tanto como odiava admiti-lo ela estava impressionada. O rei não a tinha casado com um aventureiro empobrecido depois de tudo. James era o capitão de uma força de combate bastante importante. Mas acompanhando a esses cavalheiros estavam as esposas e os meninos, assim como também um bom número de escudeiros, serventes, e cães de caça.
E agora o salão e as mesas de Hogwarts estavam repletos.
— Não se preocupe — murmurou James ao lado dela, como lhe tivesse lido os pensamentos — Os armazéns de Hogwarts serão voltados a completar, mandarei meus homens a caçar amanhã, e os mais velhos podem pescar no lago.
— Estarão muito bêbados para manter-se de pé — murmurou Lily.
Maldição de Normando intrometido. Hogwarts era responsabilidade dela. O que sabia ele das colheitas ou da terra ou do lago? Provavelmente nunca tinha passado um inverno na Escócia.
Ela olhou o prato que se supunha que devia compartilhar com seu novo marido. Ele quase não havia tocado na comida, e sua taça ainda estava cheia. Aparentemente James estava fazendo sua parte para não esvaziar as provisões de Hogwarts.
O mesmo não podia dizer-se de seus cavalheiros. Um deles, Sir Caradoc Dearborn, obviamente bêbado, ficou de pé e levantou sua taça.
— Ao prêmio do Lorde — ele arrastou as palavras — A mais bela noiva da Escócia.
Gritos e felicitações se ouviram ao redor dela, mas Lily suspirou ante esse galanteio tão superficial. Por todos os Santos! O que importava a beleza? Além disso, era uma tolice. Ela não era tão bonita, com feições angelicais como Dorcas e Marlene era muito mais voluptuosa.
Marlene.
Ela franziu o cenho. Onde estava Marlene? E onde estava Sirius? Ele tinha ido procurá-la horas atrás. A ruiva começou a levantar do banco, mas James apanhou seu braço, uma pergunta silenciosa em seu olhar.
— Onde esta minha irmã? — questionou entre dentes.
— Dorcas?
— Marlene!
— Ela esta bem — respondeu ele a soltando — Sente-se.
Algo de culpa em seus olhos fez que seu coração se apertasse com desconfiança.
— O que aconteceu? Onde está ela?
— Está com Sirius. Sente-se.
— E onde está Sirius?! — demandou Lily em voz mais alta, assombrando aos cavaleiros ao lado dela.
— Ah, sim, Sirius — alguém ecoou de suas palavras — Onde está Sirius?
— Por Deus! Onde esse Dom Juan?
Todos os cavalheiros de James estavam perguntando por Sirius.
— Sirius? — James sorriu — Ah! Sirius foi a procurar mais cerveja.
Os cavalheiros brindaram e beberam, com mais entusiasmo ainda. Lily se irritou. James não era melhor que ela mentindo. Ela apertou os punhos e seus dentes, finalmente tomou assento.
— Maldição, onde está ela?
— A último vez que a vi, foi algo depois da meia-noite — murmurou o Potter — Ela estava tão bebida, quase não podia caminhar.
Lily sentiu que sua face ardia de culpa. Notando sua face vermelha, James se inclinou.
— O que é isto, esposa? Seu rubor te trai — os dedos dele se esticaram no braço dela — Sabe algo da conduta de Marlene ontem à noite?
Lily se negou a olhá-lo. Conduta? Meu Deus! O que tinha feito sua impulsiva irmã? James amaldiçoou brandamente, sua respiração ofegante contra a bochecha dela.
— Maldição, você mandou isso?
Os pensamentos de Lily se aceleraram muito para responder.
— Você mandou ela para me matar?
Ela pestanejou. Matá-lo? Pelo Jesus Cristo! Os dedos de James se cravaram penosamente em seu braço puxando-a para mais perto.
— Você mandou isso? — questionou em sussurro contra o cabelo dela, qualquer um que os olhasse pensaria que lhe sussurrava promessas de amor no ouvido — Víbora! Pensei que tivesse mais honra.
Isso a sacudiu de seus devaneios mentais. Ela o enfrentou diretamente.
— Juro-o! Não a enviei, mas me diga, não a feriste, verdade? — seus olhos se estreitaram, com medo e com uma ameaça implícita. — Feriste-a?
Ele parecia insultado pela pergunta, embora a soltou abruptamente, como se subitamente fosse consciente de sua própria força.
— Não, não é típico de um cavalheiro atacar às criaturas mais fracas criadas por Deus.
Criaturas mais fracas? Agora ele a tinha insultado, mas ela estava muito aliviada para discutir com ele.
— O que tem feito com ela?
— Ela está segura no momento.
— Não a machuque, eu mesma me ocuparei de castigá-la.
— Sim? E que castigo administraria a sua irmã por assassinato e traição? Vai dar um tapinha na mão dessa menina travessa?
Lily se ruborizou. Estava começando a odiar a língua aguda de James. Principalmente porque, nesta instância, era merecida. O Potter levantou sua taça e sorveu o vinho.
— Farei um trato com você — disse a ruiva — Esta é a verdade da questão. Foi minha culpa. Suspeitava que Marlene faria algo impulsivo para deter o casamento. Então a fiz beber muito, esperava mantê-la bêbada para evitar justamente este tipo de episódios.
Ele lhe lançou um sorriso irônico. Aparentemente, considerava o ataque da Marlene como algo muito mais sério que um “episódio”. Lily se endireitou e o olhou aos olhos.
— Me castigue, me castigue em vez dela.
Isso seria o melhor. Ela era mais forte que Marlene. E podia tolerar a dor sem emitir uma só palavra. A loira ganharia um castigo mais severo se lançasse a James os insultos que usualmente usava.
— Pagaria pelos pecados dela? — perguntou ele brandamente.
— Ela é minha irmã, mesmos sendo a mais velha e impulsiva, sabes que sua intenção não era te trair. Ela só pensou em salvar Dorcas de…
— De casar-se comigo — a voz dele era neutra — Mas você conseguiu salvá-la finalmente — havia um tom sardônico em suas palavras enquanto levantava a taça — Aplaudo seu nobre sacrifício — completou, e soltou um suspiro — Sabe, em minha casa, as moças belas costumavam competir por meus favores, chego a Hogwarts, e todos me consideram um demônio — ele sacudiu a cabeça — O que passa? Me cresceram chifres e não me dei conta?
Lily odiava admiti-lo, mas ainda com chifres, ele seria o homem mais bonito que alguma vez tenha visto.
— O que passa é que é Normando — explicou vendo-o erguer uma sobrancelha.
— Sabe que os Normandos são aliados dos escoceses contra os Ingleses, sabe?
— Não estamos em guerra com a Inglaterra.
— Não ainda, mas agora não tem nada que temer, os cavalheiros que vê aqui — disse ele fazendo um gesto que abrangia aos homens ao redor — São os melhores guerreiros na Terra, logo que eles treinarem seus homens nos aspectos mas sutis da arte da guerra…
— Treinar a meus homens? — questionou Lily, sentindo-se insultada — Meus homens não necessitam treinamento de vocês... de vocês...
— Lorde James! — alguém gritou — Que promessas lhe sussurra ao ouvido de sua esposa para fazê-la ruborizar tanto?
— Sem dúvida ele deve estar contando sobre o comprimento de sua espada!
— Para que te gastar em palavras, meu lorde? — outro provocou.
— Ah, mostre à moça de que parece sua espada!
Subitamente o grande salão se encheu com o clamor das taças golpeando-se nas mesas.
— James! James! James!
Lily se sentiu subitamente a bordo do desmaio. Por Deus! Ate mesmo seu pai se uniu aos gritos luxuriosos e obscenos! Outra vez teve que afogar o desejo de tirar sua espada em resposta a essa cena barbaria. Mas James, talvez sentindo seu desconforto, parou-se, levantando uma mão para aquietar a seus homens.
— Basta, vão assustar a minha esposa — disse ele — Deixem que as mulheres a levem acima e que a preparem. Eu ficarei com vocês bebendo outra taça.
Antes que Lily pudesse protestar, uma dúzia de donzelas Normandas e de Hogwarts a rodearam com uma série de risinhos tolos, levantaram-na sobre seus ombros para levá-la a sua habitação.
É uma estupidez, pensou enquanto elas a despiam, pulverizavam pétalas de rosas nos lençóis da cama, punham gotas de azeite de lavanda em seu pescoço e seu peito e acendiam as velas que alguém tinha posto por toda a habitação. Era um gasto estúpido de dinheiro e energia. James lhe havia dito que as belas moças estavam acostumadas a lhe rogar por seus favores. Que sentido tinha tratar de embelezar a uma moça guerreira como Lily?
Entretanto seu pulso se acelerou absurdamente enquanto deixava que as mulheres a levassem a cama, quase como em antecipação. Puseram-na dentro da cama, desfizeram sua trança e arrumaram o cabelo ruivo ondulado sobre seu peito, mas ela se negou a deixar lhe tirar o martelo de Thor que pendurava de seu pescoço.
Os sons de homens bêbados aproximando-se, fez que as donzelas rissem nervosamente, e sua excitação lhe fez ter um calafrio na espinha dorsal. Um súbito golpe na porta a sobressaltou, e franziu o cenho com sua própria falta de coragem. Era ridículo! Ela não era uma pessoa débil que tremia de terror. Com uma sacudida desafiante de sua cabeça, Lily correu a manta e se sentou orgulhosamente para enfrentar à horda invasora.
Estava preparada para uma série de brincadeiras obscenas. Estava preparada para ver gestos grosseiros e gargalhadas infames, quando a porta se abriu. Mas ela não estava preparada para o súbito silencio que se instalou no lugar.
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