Notas iniciais
Olá pessoas da interneta. Esta é a primeira história que, finalmente, eu tomo coragem para postar. Só para deixar claro, eu não classifico este capítulo como "começo" da história, por isso pus o título "Piloto". Eu só quero que vocês tenham uma ideia de como é o universo da fanfic. E, embora ela, de fato, comece só no próximo capítulo, este prólogo, por assim dizer, não deixa de ter sua importância. Enfim, vamos lá. Espero que gostem.

"[...] E se a noite estiver chegando em breve, eu andarei pela escuridão com você."

— Travis, Moving

PIPER

Papai prepara o café da manhã na cozinha quando desço as escadas. Encostado em uma bancada, ele abre um pote ervilhas sem nenhum esforço, a toalha de pratos no ombro lhe dá um ar doméstico apesar do físico bastante másculo. Seus olhos prendem os meus assim que apareço no cômodo, ele esboça um sorriso arqueando de leve as sobrancelhas. Basicamente, um sorriso forçado.

— Bom dia, querida — seu tom de voz soa sereno, porém consigo decifrar um misto de emoções contido ali. — Como está se sentindo? Dormiu bem?

Tento retribuir sua tentativa de sorriso, sem sucesso. Ando até a mesa de jantar e sento-me em uma cadeira. Comecei a manhã com uma leve tontura e uma forte de dor de cabeça. Tenho repetido mentalmente que preciso me acostumar com isso, e que as coisas só vão piorar daqui para frente.

— Sim, dormi — resmungo. Algo grita em meu cérebro, uma dor incômoda, agonizante. Tento acomodá-la o máximo possível. — E você? Animado para o começo das gravações?

Papai dá de ombros, caminha em minha direção com um copo de chá de canela e um prato repleto de frutas e cereais; minha nova refeição matinal diária, recomendações médicas. Ou seja, outra coisa de que preciso me acostumar, embora seja mais fácil do que dores constantes e desmaios inesperados.

— Não estou mais no filme — ele se apoia na parede à esquerda com uma xícara de café nas mãos. — Tristan McLean está indisponível por tempo indeterminado.

Fujo do seu olhar, movo a minha atenção para a comida à frente e forço-me a comer. Tempo indeterminado, analiso cada letra uma por uma. Ele se refere ao meu tempo indeterminado, meu tempo indeterminado de dias, horas ou minutos. Eu temia que isso fosse acontecer, só não achei que seria tão cedo. Tento ficar chateada, bolar algum argumento para fazê-lo voltar ao trabalho, mas não consigo. Acabo me sentindo a pessoa mais egoísta do mundo por isso, por querer ele ao meu lado o tempo todo, por aceitar que ele pare de fazer o que ama só por me amar.

— Pai... — busco as palavras certas. Sinto a garganta coçar de forma irritante. — Eu estou bem... Por agora, você sabe, só tenho que enfrentar os pequenos enjoos. Não precisa largar o trabalho por mim...

— Piper, chega — ele me encara abruptamente. Os olhos, que costumavam ser serenos e acolhedores, estavam cautelosos, tristes, com medo. — Não vê que isso é loucura? Eu não vou te deixar passar por isso sozinha, não tem sentido! Você é minha filha e eu estarei do seu lado até o fim. Já perdi a sua mãe... — sinto sua voz embargar. Os pelos da minha nuca se eriçam. — Não vou desperdiçar sequer um minuto ao seu lado, sabendo que este pode ser o último, eu nunca me perdoaria.

Meu rosto esquenta e algumas lágrimas caem sem permissão. Corro para me jogar nos braços do meu pai lutando ao máximo para ignorar a dor que o movimento causou. Sinto-me feliz por ter ele aqui, comigo. Amaldiçoou a mim mesma por, futuramente, partir seu coração e jogá-lo no fundo do poço. Sou a sua única filha, e ele me perderá para sempre.

Afogo o rosto em seu peito torcendo para livrar-me dos pensamentos. Sinto suas mãos roçando de leve o meu cabelo como ele sempre fazia quando eu era pequena. A lembrança dessa época que nunca se repetirá é o bastante para me arrancar um gemido.

— Está tudo bem, eu te amo — ele sussurra.

Eu também te amo, respondo apenas para mim. A culpa não me deixa falar mais alto que isso.

Separo-me dele. Enxugo os olhos e caminho de volta para a cadeira. De repente, uma onda de dor se espalha por todo o meu corpo, fazendo com que eu o contraia, dobrando-o no meio. Minhas pernas fraquejam, a tontura recomeça e a respiração se intensifica. Acaba se tornando quase impossível continuar de pé.

— Piper! — papai afasta seu copo para longe e me ajuda a equilibrar-me, sentando-me na cadeira mais próxima. Suas mãos se mantém firmes e duras, embora temem se apresentar trêmulas de vez em quando. — Você está bem? São as dores?

— Estou bem — tranquilizo-o. A dor incomoda, mas é suportável. — Foi apenas uma tontura. Coisas assim têm ocorrido com mais frequência ultimamente. Mas não é muito grave. Sabe, não é diferente do que já era de se esperar — Emendo as palavras para tentar arrancar a preocupação do seu rosto. Embora nem eu mesma tenha cem por cento de certeza.

— Sente-se capaz de ir à escola? Fique em casa, se preferir.

— Não, não precisa. Posso lidar com isso sozinha — desvio o olhar do seu, ele saberá que não estou totalmente confiante. — Além do mais, é o começo do segundo semestre. Não posso acumular mais faltas se eu quiser terminar a escola. A menos que seja preciso.

— Certo... não ignore me ligar caso haja qualquer coisa — aceno positivamente com a cabeça. — Tome o seu café, eu vou preparar o carro.

— Tudo bem — respondo e ele se vira em direção à porta da frente. Respiro bem fundo. O mal-estar quase evaporou; do mesmo jeito que veio, se foi.

Penso devastadoramente sobre o que está para acontecer: a minha degradação, o meu funeral, o fosso do meu pai, o luto dos meus amigos. Tento reprimir o ódio que acabo sentindo em relação a tudo, a vida, a existir... Por que não posso morrer sem ter que machucar todos à minha volta? Por que não posso simplesmente partir?

Nada vem. Nenhuma mera razão ou desculpa. Me sinto vazia, um completo nada, um parasita que espera sua iminente morte preso a uma teia de aranha. Por mais que tudo isso seja impossível de suportar, decido tentar agir do modo mais forte que conseguir, decido tentar aguentar tudo do melhor jeito disponível. Não por mim, mas pelos que me amam. Por meus amigos. Por meu pai. Por Jason.

Sim, por ele. Por ele eu suportarei tudo isso.

ANNABETH

Eu estava entrando nos arredores do colégio no momento em que me deparei com uma estranha sensação. Um inquietante peso no peito, suor sem explicação nas mãos, um arrepio dos pelos da nuca; um misto dos piores sintomas da ansiedade — algo que eu tenho sentindo com mais frequência nos últimos tempos.

Involuntariamente, me pego pensando em Luke. Luke, meu grande primo, melhor amigo e confidente, faz uma semana desde que nos falamos pela última vez, essa quantidade absurda de tempo acaba me deixando preocupada. De acordo com sua mais recente ligação, as coisas não estavam em um mar de rosas com a sua família, e eu duvidava que algo mudasse em breve; pelo menos não para melhor.

A escola, como de costume, não havia tido progresso em muita coisa, embora um novo ano tenha começado e, sendo o último semestre, e os alunos esperem novidades. O antigo prédio de três andares do Robert F. High School tinha, como única decoração, as paredes ladrilhadas em vermelho-pêssego. Havia um pequeno gramado onde a maioria dos alunos de reuniam, uma praça de alimentação ao ar livre, e um quadra de esportes ao fundo, também ao ar livre.

Thalia está sentada próxima a entrada principal, a cabeça pendendo para um lado e um olhar meio grogue. Caminho em sua direção. Sua aparência não é uma das melhores; o cabelo preto, e curto, está bagunçado, as roupas não estão muito limpas, inclusive, sua blusa possuí um notável rasgo na região do abdômen. Sinto um forte cheiro de álcool vindo do local onde ela se encontra.

— O que houve com você? — pergunto. Devo ter soado um tanto repreensiva, pois Thalia me lança um revirar de olhos.

— Bom dia, mãezinha — ela boceja. Se espreguiça e ajeita o corpo sobre o degrau de concreto. — Você poderia chegar um pouquinho para o lado? O sol está me incomodando.

— Haha, engraçadinha — faço o que me pede. — Melhorou agora?

— Agora está perfeito, obrigada — consigo captar seu olhar sonolento. — Que foi?

— Não é nada... Só estou me perguntando porque você parece ter vivido no mato por uma semana. Tipo, sem luz, sem banhos, sem espelhos.

Ela solta um risinho descontraído. Thalia prende uma grande mecha do cabelo atrás da orelha, quase imediatamente ela se solta e retorna à posição de origem. Seus olhos azuis, mais eletrizantes do que qualquer coisa que eu já vira, encaram o vazio.

— Qual é, Annie — há graça em sua voz. — Não seja careta. Mas, para acabar com a sua dúvida, não. Não passei uma semana no mato. Venho de uma festa, não sei de onde, e não dormi em casa.

Tento o meu melhor olhar do tipo irmã-mais-velha-te-dando-uma-bronca, Thalia apenas dá de ombros. Nos conhecemos desde os sete anos de idade, ela e Piper são minhas melhores amigas, e Thalia sempre fora a mais destemida entre nós. Tem seu estilo punk autodeclarado, uma personalidade bastante forte e uma rara qualidade: falar o que pensa. Em outras palavras, sua sinceridade não tem tamanho.

Desde que as brigas em sua casa se tornaram mais constantes, Thalia passa mais e mais noites fora de casa, começara a beber sem limite, e não duvido de que transe com qualquer cara que aparecer na sua frente. Isso deixa os meus nervos em combustão, sinto-me preocupada a cada vez em que fica sozinha, mas deixei com que me acostumasse um pouco.

— Tome cuidado — digo, apenas.

— Claro, mãezinha — ela sorri e se levanta. — Vem cá, ignore o meu futum e me dê um abraço.

Nos abraçamos. A simples distração, ao me preocupar com Thalia, se esvai num piscar de olhos. Luke assombra novamente os meus pensamentos. Desta vez, acompanhado de outro garoto, este tem olhos verde-mar encantadores. Percy.

Desde que vi Percy pela primeira vez, e, com o tempo, fomos nos aproximando, até chegarmos onde estamos agora, eu o mantive escondido de Luke. E vice-versa. Não entendia muito bem por qual motivo, só nunca me pareceu conveniente um saber da existência do outro.

Luke é meu primo preferido, e, outra vez, palavras me faltam para entender o porquê. Do mesmo modo que não sei como os meus sentimentos se comportam ao ouvir o seu nome. Comecei a achar, por um certo tempo, que gostava dele de verdade, porém decidi ignorar tal hipótese.

Seus pais são separados, o que tornou a relação dos três bastante complicada; em certas épocas do ano, na maioria das vezes quando se sente confuso, Luke passa um tempo com a minha família. Consequentemente, fomos nos apegando ao longo disso.

Luke voltara a São Francisco no começo do ano letivo, em agosto, apesar da escola, ele ainda nos visita com frequência. É estranho que, na primeira noite de sua mais recente passada, quatro meses atrás, ele me confessara que o motivo de ainda vir a Nova Iorque é por minha causa. O que eu admito que mexeu comigo. Eu só não sabia até que ponto isso me afetava.

— Olha só quem chegou.

Viro-me para onde Thalia, e vários grupos de outras garotas, estão olhando. Piper está descendo do carro e seu pai, Tristan McLean — o motivo dos risinhos e gritos das garotas ao nosso redor —, lhe planta um beijo na testa. Eles se despedem e Piper caminha em nossa direção. Olho de soslaio para Thalia, ela revira os olhos.

— Desculpa, mas não tô afim de aturar os mimos dessa patricinha — Thalia se apressa em sair para a rua antes que eu tivesse tempo para formular uma resposta. — Te vejo depois.

— Bom dia, meninas — Piper murmura quando Thalia passa por ela sem responder. Seu olhar cai para o chão e eu sinto um aperto no peito. Thalia podia estar sendo bem grossa, mas eu não podia tirar a sua razão. Ela estava certa em ignorar Piper; o ato tem sido recíproco por sua vez.

— Piper — respondo seca. Numa tentativa falha, tento retribuir o seu sorrio quando ela me encara. — Ignore ela. Você sabe como a Lia tem o pavio curto.

— Não tem problema — sua voz soa melancólica, triste. Mais uma vez, me pergunto o que tem acontecido durante os últimos meses. O quão difícil tem sido as coisas para Piper, e o quão grave é para fazer com que ela não se abra. Ela respira fundo, seu rosto se enche de um sorriso falso e os olhos tentam esconder a preocupação evidente que provavelmente lhe perturba durante o sono. Suas olheiras estão bem visíveis. — Está tudo bem.

— Ah, Piper... Você não me engana — corro para lhe prender em um abraço, o cheiro amendoado de seu shampoo invade as minhas narinas imediatamente. Seu corpo está leve, posso sentir suas costelas por cima do grosso casaco que usa. Ela emagreceu, isso é evidente. Porém muito mais que o ideal. Minha preocupação só aumenta. — Você vai acabar me matando se não nos contar logo o que está acontecendo.

— Não há nad...

— Não, Piper, eu não vou cair nessa. Tem algo acontecendo com você. E eu me sinto mal por você não confiar em mim o suficiente para contar. Lia está certa por ficar chateada.

Ela se desvencilha dos meus braços e afasta o olhar do meu. Sinto seu corpo estremecer por um milissegundo, seu peito arqueja e a cabeça para tombar para frente. O pavor toma conta das minhas pernas, mas Piper se recupera logo em seguida. Se ela notou que eu percebei, não comentou.

— Tudo bem — ela sussurra. — Tudo bem, eu irei contar. Mas não por agora, por favor, dê-me mais um tempo.

— Sim. Claro — algo como alívio toma conta do meu corpo. Eu sabia que o que quer que Piper fosse nos contar não seria nada agradável, mas eu estava preparada. Eu a apoiaria, sempre. — Temos aulas juntas agora, certo?

Ela confirmou com um aceno de cabeça. Nos preparamos para entrar no edifício quando meu celular vibra, sinalizando uma nova mensagem na caixa de entrada. Pego o aparelho no bolso da frente da calça e olho o nome que aparece no visor. Destravo a tela e solto um sorriso quando leio o sms.

Seu segundo período é vago, venha me encontrar na pequena loja de discos próxima ao bosque da rua 24. Meu voo sai às dez.

— Percy

Milhões de perguntas rondam meu cérebro neste momento. Como ele sabia sobre o meu horário? Ele não tinha viajado pela madrugada? Por que ele mentiu sobre a hora da viagem? Meus batimentos cardíacos aumentaram, eu não sabia o que poderia esperar, mas estava mais que feliz por vê-lo mais uma vez. Radiante, era a palavra. Passei toda a manhã achando que ele tinha partido, assim como Luke, e isso estava acabando comigo.

Eu e Piper entramos na sala. Mal podendo ficar um minuto sem olhar para o relógio, forcei-me a prestar atenção no quadro e no professor. Embora eu soubesse que Química, nem qualquer outra matéria, pudesse me tirar o êxtase da perspectiva de me encontrar com aqueles olhos cor de oceano mais uma vez.

***

“— Luke, temos mesmo que parar aqui? — suspirei em meio aquilo.

Não queria dar uma de irritadinha nem nada do tipo, mas também não estava afim de me espremer numa loja de velharias e desperdiçar os últimos minutos que ainda me restavam com o meu primo vendo coisas velhas ficarem mais velhas. De qualquer modo, ele estava indo embora e isso ainda era confuso para mim.

Thalia percebe a minha inquietude e resolve ajudar.

— Não esquenta, eu tiro ele de lá — ela segue o vulto de Luke entre o amontoado de pessoas e coisas.

Mordi o lábio inferior, indecisa no que eu deveria me permitir pensar ou não. Era apenas o meu primo voltando para a sua cidade natal, eu o veria novamente; não havia razão para me sentir como se parte de mim estivesse indo embora também. Sim, eu estava confusa. Tinha em mente que meus sentimentos eram fortes em relação a ele, eu só não sabia o quanto. Também não sabia no que eu poderia me agarrar para provar tamanha intensidade. Quero dizer, nós nunca ficamos ou algo assim...

A sala repleta de gente começava a me sufocar, acabei resolvendo esperar pelos dois do lado de fora. Paro de costas à loja onde Luke entrara — contra a minha vontade — e encaro portão de embarque.

O Aeroporto Internacional de Nova Iorque é realmente imenso, não é exagero. Seria extremamente fácil para um turista se perder mesmo antes de pôr os pés na cidade. E pelo fato do aeroporto ser tão grande, é justo em mim que um cara acabando esbarrando ao correr apressado; acabo quase indo parar no chão com o tombo.

— Cuidado! — ele grita inutilmente, porém a tempo se segurar meu braço. Um par de olhos verdes, grandes e alertas, me recebem quando viro o rosto na sua direção. — Vo-você está bem?

Movo-me para ficar de pé e puxo o meu braço de suas mãos. — Tirando o fato de quase ter dado com a cara no chão, eu estou ótimo. — Dou um grande sorriso sarcástico e o garoto à minha frente encolhe os ombros e cora ligeiramente. — Certo, desculpe. Eu também não estava ajudando parada bem no meio do saguão feito um poste.

— Não. Não foi sua culpa, eu estava passando distraído. Sinto muito — apesar do seu tom de voz retraído, percebo um fantasma de humor passar por seus lábios.

— O.k., vá em frente e se jogue de uma ponte... — ganho seu sorriso completo e mais um corar de bochechas. O cabelo preto, rente às orelhas, denunciava seu bronzeado. A pele parecia ser mais clara do que se mostrava no momento. — Está tudo bem, não se preocupe.

— Tudo bem. Uh, posso te pagar um refrigerante como consolo?

Uau. Garoto rápido, pensei. Fiquei intrigada se essa de esbarrar em mim não foi apenas uma jogada para um cantada. Isso, definitivamente, seria muito estúpido. — Não, eu estou legal. Aliás, não se deve sair por aí tomando refrigerantes com estranhos. Você pode ser muito bem o maníaco do machado — ele gargalha.

— Certo, certo, senhorita Sabidinha... Você é engraçada — minha vez de não conter um sorriso. Porém tendo em mente que o rumo da conversa estava totalmente confuso. — Posso saber ao menos o nome da garota que quase derrubei no chão?

Torci o nariz, ponderando sua pergunta. Luke me veio à mente, senti todo o corpo arrepiar em resposta. — Talvez eu tenha gostado de Sabidinha. Soa legal.

— O.k., Sabidinha. A gente se vê por aí — ele sorri uma última vez antes de seguir seu caminho para as escadas.”

JASON

— Ei, Jay. Acorda — Leo esfrega as mãos diante do meu rosto. Desperto do devaneio, do qual nem lembro mais do que se tratava, e o encaro. Ele sorri. Parece feliz, tem estado todo animado desde o início da manhã. — O que tá pegando?

— Sei lá, cara — respiro bem fundo. — Eu e Piper... as coisas estão estranhas.

Movo o meu olhar para a janela da sala de aula, há alguns estudantes no gramado, uns correm apressados, outros riem entre pequenos grupos. Observo um casal andarem de mãos dadas, a garota está sorrindo, ela beija o namorado em seguida.

— Qual o problema, afinal? — continua Leo. — Vocês parecem distantes um do outro.

Ele tem razão. Piper é minha namorada há mais tempo do que eu achava ser possível namorar alguém, ela é, simplesmente, demais. Corajosa, inteligente, intrigante... tirando o fato de ser a garota mais linda que eu já vi. Não só linda, mas gostosa. Sua pele morena, de longe, chama a atenção de todos os garotos por onde passa. Tem os olhos castanhos e cristalinos, seu cabelo é marrom-caramelado e tem um forte cheiro de amêndoa.

A possibilidade de estarmos nos distanciando me assusta mais do que finjo demonstrar. O tempo em que estamos juntos me fez perceber que eu a amo perdidamente, me fez esquecer do que eu era antes da sua chegada, me fez esquecer quais outras garotas eu já gostei. Ela assumiu a posição de pessoa mais importante da minha vida.

— Nem fale, isso tem me preocupado — afasto o olhar do casal e volto a fitar os livros abertos na mesa. Ajeito os óculos no rosto, mais como nova mania persistente do que por necessidade. — Ainda mais por eu não fazer ideia do que pode estar acontecendo.

— Que saco — Leo resmunga, embora seu tom continue gracioso. — Mas veja pelo lado bom: você não é o único a ser ignorado. Ela também parece um pouco longe de mim.

— Até com você? — fico surpreso com sua afirmação, Piper e Leo são amigos desde o primário. — Não era o "melhor amigo" dela?

— Com certeza tem algo acontecendo — ele dá de ombros. — Conversarei com ela depois.

Por algum tempo, eu cheguei a ter um certo ciúme da relação que os dois tinham. Leo sempre fora seguro quando se tratava de Piper, seguro em suas convicções, seus conselhos, suas broncas... Isso me causava inveja da posição que ele ocupa no coração da minha namorada. Talvez eu ainda o inveje, embora ele tenha se tornado um dos meus melhores amigos.

O sinal toca. Levanto-me e espero Leo ajeitar suas muletas. Ele se põe de pé não muito devagar e saímos para fora da sala. Sua expressão se manteve enérgica, quase radiante. Decido perguntar se ele vislumbrou um arco-íris duplo ou algo tipo.

— O que deu em você? — ele olha na minha direção. — Parece que vai começar a cantar e dançar a qualquer momento.

Leo sorri. O garoto tem cabelo preto enrolado e olhos escuros, sua pele é mestiça, característica de sua descendência hispânica. Ele é bastante magro e um tanto franzino, está sempre acompanhado por duas muletas pois não consegue se manter de pé sem elas.

— Ah, vamos lá, Jay! Por que eu não estaria feliz? — ele me encara com uma expressão brincalhona. — Eu estou vivo, oras. Tenho uma nova família, que me acolheu de braços abertos, tenho amigos maravilhosos, uma ótima vida acadêmica... posso andar!

Ele olha para as suas pernas. A esquerda, visualmente, parece normal, mas tem o pé torto e uma deformidade no joelho. Já a direita é menor em proporção ao seu corpo e precisa de uma bota ortopédica para se firmar no chão. Leo levanta o rosto para a frente.

— Bem, eu preciso dessas duas belezinhas de muletas aqui, mas... fora isso, posso andar perfeitamente.

— Então não existe nenhum motivo em especial para a sua inesperada nuvem de alegria?

— Não — ele pondera um pouco. — Sabe, cara, eu só acordei hoje cedo e percebi como a vida é incrível. Ficar nos cantos, se lamentando por coisas passageiras, por coisas vazias ou por ter nascido com pernas defeituosas, sei lá, é perda de tempo. Não concorda?

Paramos em frente à porta da minha próxima aula, álgebra. Respiro fundo, eu e Piper temos essa aula juntos. Esforço-me para pensar do mesmo modo que Leo. É impressionante como ele é forte se tratando de situações difíceis, passar por tudo pelo que passou e que ainda passa; a morte dos pais, morar em um abrigo para adolescentes órfãos, ser deficiente. E apesar de tudo, continuar sendo feliz.

Sinto vergonha de mim mesmo ao perceber que jamais chegarei a agir dessa forma. Admito minha covardia diante de situações difíceis, admito que tento sempre reparar os danos cometidos, ao invés de superá-los e seguir em frente. Penso em Piper, em como sinto que a estou perdendo, em como isso me desperta um tremendo desespero, como se eu estivesse à beira de um abismo. Imagino se sua reclusa tenha algo relacionado ao seu pai, o grande Tristan McLean, imagino se ele for viajar e se for preciso que Piper vá junto. Eu não aguentaria ficar longe dela. Eu não poderia sorrir, ou a menos fingir que estou bem; eu a amo demais para deixá-la ir. E me sinto um grande egoísta por isso.

— Você está certo, cara — respondo automaticamente. Leo acena repetidamente com a cabeça, confirmando algo entrelinhas. Depois se afasta. — Agora, boa sorte com a aula de educação física.

Ouço-o gargalhar ao me virar e entrar na sala. Procuro Piper entre os que já estão sentados, ela ainda não tinha chegado. Ando até uma cadeira próxima à janela. Tento me distrair, pensar em algo que não diga a respeito da namorada ausente ou do turbilhão de problemas que têm ocorrido em casa nos últimos dias.

Thalia, minha irmã mais velha, e papai estão discutindo por qualquer baboseira ultimamente, algo que se tornou irritante e sem sentido. Isso piora quando mamãe tenta intervir, papai acusa Thalia de provocar as brigas propositalmente para poder enlouquecer nossa mãe. Todas essas coisas têm me dado nos nervos; papai trabalha quase todo o período do dia, volta sempre estressado e carrancudo, Thalia tem passado noites fora de casa e cheira a álcool e mofo, mamãe toma vários comprimidos por dia e começara a ter alucinações.

Bem, Leo, eu realmente tento ver o lado bom de cada coisa..., mas é bem mais fácil me esconder debaixo das cobertas e esperar o bicho papão passar, com a esperança de que ele não bagunce muito o quarto. Abano a cabeça para me livrar da sensação de impotência. Minutos depois, vejo-a entrar na sala de aula com um ar sério.

Vou de encontro aos seus olhos e falho em conter um sorriso. Como ela pode ser tão linda? Ela caminha em minha direção e eu me conserto, não estava afim de parecer um babão, não depois de dois anos de namoro. Sua expressão se mantém dura e determinada, meu corpo gela e eu percebo que há coisas erradas. Novamente.

Quando ela me nega um beijo outra vez, eu decido aceitar essa condição. Algo começa a ferver em mim. Sinto uma súbita vontade de levantar e jogar todas as mesas e cadeiras pela janela.

— Piper, está tudo bem? — luto para não deixar transparecer o medo nesta simples pergunta.

— Sim — ela foge do meu olhar.

Lá vamos nós outra vez.

— O.k.

PERCY

Levantei o olhar para o som dos sinos da porta mais uma vez na interminável e agonizante espera por Annabeth. Duas garotas, uma loira sorridente e uma morena de rosto simpático, entraram na loja, suas vozes logo se misturando ao intenso burburinho do pequeno estabelecimento.

Franzi a testa. Pareceu uma eternidade desde que mandei aquela mensagem pedindo para que ela me encontrasse aqui e, até agora, nenhum sinal dela. Soltei o ar dos pulmões e voltei-me para a seção de discos de rock clássico. Procurava por um especial, The Smiths — Hatful of Hollow, eu já tenho todo o CD em meu iPod, mas ter o vinil em mãos é outra coisa.

Passei os dedos pela fileira de discos organizadas por letras de A-Z procurando pelo que eu desejava, tentando com grande esforço deixar o nervosismo de lado e me concentrar em representar estar o mais confiante possível. Não, eu precisava me sentir confiante. Nem ao menos míseras dúvidas haviam de que eu a amava. E este é o momento para deixar isso bem claro.

Apertei a velha cesta de piquenique ao redor pulso. O esforço de segurá-la fazia meu braço direito latejar, embora eu soubesse que não estava assim tão pesada, ainda com a corda do violão presa no mesmo ombro. Talvez fosse a ansiedade agindo em mim, tornando as sensações mais brutas, mais perceptíveis. O que é um saco.

Peguei-me lembrando dia em que a conheci, fiquei tão atordoado com o brilho cinza dos seus olhos, seu cabelo loiro volumoso, o leve torcer do nariz enquanto pensava em algo — o que lhe dava um certo ar de superioridade. Ah, aquela Sabidinha... Mal consegui formar uma silaba em pensamento quando esbarrei nela, quase a levando ao chão.

Ela empertigou-se e respondeu de modo sarcástico, o que me deu vontade de rir. Ela era engraçada, eu soube disso no momento em que ouvi sua voz pela primeira vez. Não perdi tempo e meio que a chamei para sair (sim, logo depois de tê-la atropelado), ela disse não, o que não foi tão ruim assim. Mas o que eu poderia fazer? Ela estava tão linda naquele suéter cor de creme, o cabelo caindo em ondas volumosas sobre os ombros, os olhos brilhando com o humor da situação.

Puxei o disco no momento em que o achei, numa fileira que indicava a letra "P", o sorriso nos meus lábios foi instantâneo. Juntar Annabeth e The Smiths soava como o paraíso. Senti uma mão tocar em minhas costas e meus olhos foram de encontro a duas pérolas cinza-opacas. Mantive certo controle para não derreter ali mesmo. Seus olhos eram uma mistura de alegria, perplexidade, confusão.

Me aproximei do seu rosto lentamente, ela permaneceu no lugar e eu recebi isso como um sinal de avance, toquei seus lábios com os meus leve e delicadamente. Sua boca abriu em resposta e minha língua passou a explorá-la com vontade e mais intensidade. Sorri em meio ao beijo. Cara, eu amava demais essa garota. Ela tem que saber disso. Afastei-me para a sua orelha e murmurei um "oi".

— Oi? — ela retruca, mas seu olhar ainda extasiado pelo beijo. — Eu estou completamente boiando... Percy, o que está acontecendo?

O.k, eu merecia. Dou de ombros e nos guio para o caixa, pago pelo disco e o guardo no case do violão. — Vem comigo, eu te explico tudo — Annabeth torceu o nariz de leve e eu segurei minha vontade de morde-la aqui e agora.

— Certo — relutante, ela move sua mão para minha.

Fomos para fora da loja e eu segui direto para o parque no centro do bosque, virando a esquina na próxima direita. O lugar não estava cheio por causa do horário. Além de alguns alimentadores de pássaros e de pessoas fazendo corrida, nossos únicos espectadores são uns poucos casais de cisnes que passeiam pela borda do pequeno lago.

Estendi o lençol e nos sentamos numa pequena sombra de um carvalho, agradeci mentalmente por não termos que ficar debaixo do escaldante sol de agosto, isso não contribuiria em nada no clima. Desempacotei os condimentos da cesta e a garrafa de suco de groselha. Abri uma vasilha com morangos e comi um, ciente do olhar de Annabeth me secando por completo. Peguei outro. Eu estava sendo um maldito cara de pau.

Sorri, meio morango ainda grudado nos lábios. — O quê? — perguntei.

— Estou decidindo se devo bater em você — levantei uma sobrancelha. — ou se devo usar os dentes para arrancar esse morango da sua boca.

Uau, eu adoraria que fizesse isso. — Eu acho que fico com a segunda opção — Annabeth sorriu e desferiu um soco em meu ombro. Soltei um gemido e ela riu mais ainda, em seguida me chamou de idiota. Uh, só para constar, ela bate forte.

Annabeth resolveu comer e esperar que eu começasse a falar. Passamos alguns minutos em silêncio, os quais eu aproveitei para observá-la. Ela usava uma blusa azul de alças finas e um short jeans azul-escuro, o cabelo estava preso em coque que mais parecia um rabo de cavalo; por mais simples que pudesse estar, ela continuava radiante. Meu coração acelerou drasticamente quando seus olhos pousaram nos meus, e neles, o anseio pelas respostas me devorava. Não sabia se eu iria precisar de um botão ativador ou algo do tipo, mas quando ela me olhou naquele momento, com uma fresta de raios de sol fazendo todo o seu corpo parecer emanar luz, eu tive a certeza de que não poderia passar mais um segundo sem que essa garota fosse minha.

Respirei fundo e repousei o copo de suco no espaço à minha esquerda. — Annabeth Chase, — uma fina camada de suor se formou em minha testa, senti minhas mãos formigarem e meu corpo perdeu toda a sua consistência. — Eu não sei nem como começar, estou um pouco nervoso... — ela sorriu, seus olhos me disseram para continuar. Eu peguei suas mãos e esfreguei meus polegares sobre a parte de cima, olhando fixamente em seus olhos eu botei tudo para fora.

— Eu te amo. Te amo como nunca amei ninguém antes. Te amo até mais do que a mim mesmo. Eu amo seu sorriso, amo a sua voz, amo quando me chama de idiota, amo como você torce o nariz quando pensa em algo. Eu nunca achei que fosse me sentir assim algum dia, nunca achei que poderia amar tanto alguém ao ponto de pensar nessa pessoa vinte e quatro horas ao dia. Eu estou perdidamente apaixonado por você, e eu precisava te dizer isso.

Enquanto eu falava, eu sabia que uma pequena parte da minha consciência registrava todos os movimentos e reações de Annabeth. O tremor que se iniciou em suas mãos, as lágrimas que ameaçaram as pontas dos seus olhos, o sorriso enorme que tomou conta do seu rosto; eu sabia que ela sentia o mesmo. Minha felicidade naquele momento não poderia ser maior.

"Seu idiota" ela disse ­— ou melhor, tentou dizer — no momento em que seus lábios foram de encontro ao meu, fazendo todo o meu sangue circular e meu corpo ascender resposta. Eu segurei seu rosto delicadamente, minha língua perambulava todo o interior da sua boca, seu gosto era indescritível o suficiente para me deixar até mesmo sem pensamentos. Mordi o seu lábio inferior quando ela afastou a boca para o meu ouvido e disse:

— Eu amo você, Percy Jackson.

A jorrada de emoções que me ocorreu deixou que um minuto de silêncio se fizesse. Eu simplesmente não conseguia parar de sorrir. Meu rosto estava quente e molhado como o de uma criança. Qualquer um que me visse agora me acharia idiota, mas eu não dava a mínima. Eu só quero ficar agarrado em Annabeth, senti seus lábios parte de mim, acariciar seu cabelo; fazê-la feliz.

Beijo-a novamente, minhas mãos passeiam por seus braços, ombros, costelas. Annabeth se retrai, afastando-se terríveis dez centímetros de mim. — O que... — tento perguntar, mas ela me interrompe.

— Percy, eu não entendo... — pretendo questionar mais uma vez, mas Annabeth continua. — Por que isso agora? — Meu corpo entra em modo iceberg, completamente congelado no lugar. Annabeth fita os seus olhos nublados em mim. — Daqui a, sei lá, duas horas você vai voando para longe de Nova Iorque. Por que está se declarando se você vai me deixar aqui sozinha?

Uma espécie de alívio traz a vida de volta aos meus músculos, e eu me permito sorrir — o que faz Annabeth me lançar um olhar de incredulidade. Tiro o violão do case e dedilho algumas notas aleatórias. O coração pulsando à toda força.

— Sabe quando eu te mandei aquela mensagem mais cedo? — ela acena uma confirmação. — Não ficou curiosa sobre como eu sei o seu horário?

— Sim... ér, fiquei. Mas o que isso...

— Digamos que eu sabia sobre essa aula pois eu a teria junto com você. Quero dizer, isso se o nosso professor não estivesse viajando ou se a escola tivesse encontrado um substituto a tempo.

Movo os olhos para descobrir Annabeth me encarando, o sorriso bobo tomando todo o seu rosto, as bochechas ganhado um tom rosado. Porém não me dou conta de seus movimentos até minhas costas sentirem a grama macia e meus lábios forem inundados o doce gosto da minha namorada. Sim, paraíso.

Imaginei ouvi-la dizer mentalmente: idiota, idiota, idiota. Respondi: sim, eu também te amo.

PIPER

O diagnóstico saiu há dois meses. Câncer terminal no cérebro, espalhando-se rapidamente para o resto do corpo, provavelmente me restando apenas cinco meses ou menos. Foi um susto para mim e para o meu pai. Mas devo admitir, principalmente para ele. Papai perdera a minha mãe quando eu tinha seis anos, e nunca mais se tornara o mesmo. Agora, eu não fazia ideia do que seria dele sem a sua única filha, sem a sua maior lembrança do grande amor que sentiu por sua falecida esposa. Talvez isso seja o seu fim.

Quanto a mim, a ideia de morrer em breve me assusta a ponto de me trancar no quarto e chorar como uma criança à espera do bicho papão. Mas não poderei fazer algo assim, eu prometi a mim mesma que seria forte. Eu precisava ser forte para o papai, ao menos enquanto eu estiver aqui. Eu serei o seu apoio, não o deixarei cair.

Meu nome é Piper McLean, filha de Tristan McLean, grande ator de cinema, conhecido mundialmente, famoso por vários sucessos de bilheteria e ganhador de dois Oscars. Estudo no Robert F. Cooper High School, Nova Iorque, tenho dezessete anos e um tumor maligno no cérebro que me matará futuramente. Um futuro muito mais próximo do que eu gostaria que fosse.

Respiro fundo enquanto repito o roteiro acima. O sinal toca para o próximo período, sinto meu coração gelar e meus músculos se tornam tão pesados quanto concreto. Jason terá a mesma aula agora.

— Piper — diz Annabeth. Tenho evitado encará-la por completo. Aqueles astutos olhos cinzentos têm a capacidade inexplicável de me desvendar em questão de segundos. — Você tem álgebra agora, certo? Eu preciso ir...

— Tudo bem — finjo arrumar algo na mochila. — Vejo você depois.

— Até mais — Annabeth se vira e caminha na mesma direção que um pequeno grupo de pessoas. Turma avançada, pensei. Permaneço alguns minutos ainda na sala. Queria não ter saído de casa esta manhã.

Revejo a cena em que eu prometo contar a verdade para Thalia e Annabeth. Como eu pude ter escondido isso delas? Minhas melhores amigas desde que cheguei neste colégio. Quando todos passavam por mim, ignorando-me completamente por ser filha de Tristan McLean, o grande artista, provavelmente chegando à conclusão de que eu não passava de uma garota mimada e fútil, outros se diziam amigos, apenas por acharem que eu me tornaria popular em questão de segundos, quando perceberam que eu não era exatamente assim, eles se afastavam sem ao menos uma satisfação. Mas elas não. Elas me conhecem de verdade, e não há dúvida de que fariam qualquer coisa por mim. Sinto-me um monstro por estar escondendo a verdade por tanto tempo.

Forço-me a levantar e seguir em direção a porta, atravesso o corredor o mais devagar que consigo, agradecendo por não estar sentindo algo no momento. Paro ao lado da entrada da sala. Respiro fundo, retomo as forças das quais não me lembro de ter tido alguma vez.

Jason e eu somos namorados há dois anos. Passamos por todas as coisas que um casal poderia passar: primeiro beijo, ciúmes, brigas, rompimentos, reconciliações, primeira vez. Eu o amo perdidamente, isso é inquestionável. É pelo fato de o amar como nunca amei nada antes que ainda não lhe contei sobre a doença. Pensei que esperar um pouco e juntar forças para falar a verdade fosse a melhor opção no momento, mas o mísero pingo de coragem que eu encontro se esvai assim que eu encaro seus olhos azuis. Eu tenho plena certeza de que não conseguirei me abrir, por mais que seja inevitável que ele descubra.

Por fim, entro na sala. Quase todos os alunos já estavam presentes, o professor de álgebra, Sr. Stood, faz um gesto para que eu me apresse em me sentar. Relutante, movo o olhar para carteira vazia ao lado de um garoto loiro, os óculos sobre encantadores olhos azuis. Ele abre um sorriso de orelha a orelha ao me ver. Caminho até ele, quase desmontando no processo.

— Oi, bom dia — ele diz quando me sento. Jason se aproxima no intuito de me beijar, desvio o rosto para baixo. Posso sentir a tensão em todos os seus ossos. — O que...

— Não é nada — corto sua pergunta. Sorrio fracamente e direciono minha atenção para o quadro.

— Piper... — O tom preocupado, um tanto magoado, da sua voz me faz querer contar tudo a ele. — Está tudo bem?

— Sim — respondo ainda sem olhá-lo. Ouço-o soltar a respiração lentamente. Droga, como eu posso aguentar isso?

— O.k. — diz ele após alguns segundos.

A aula prossegue por uma eternidade. Evito olhar para Jason durante todo o tempo, porém seus olhos pesam sobre mim da mesma forma que os meus não saem do professor. A culpa me corrói por dentro. Quero tocá-lo, estar em seus braços, sentir seus lábios; mas a imagem do seu olhar perdido, da sua tristeza, do seu luto tão próximo me persegue a cada segundo que tento fugir. E isso dói. Dói mais do que qualquer outra dor que meu cérebro seja capaz de simular.

Não vejo outra saída a não ser a verdade. Eu sei que não seria, nem por um remoto segundo, fácil para ele. Saber que sua namorada está prestes a morrer e ele não pode fazer nada para parar, ou até mesmo adiar o processo. Mas eu não posso continuar mentindo para sempre. Talvez seja pior caso ele descubra tarde demais, nem eu mesmo me perdoaria por esconder algo assim por tanto tempo.

Finalmente, o sinal toca mais uma vez. Sei que chegou a hora de conversar, pois nenhum de nós dois se levanta até todos terem ido. Eu devo uma resposta a ele. Uma razão pela minha frieza constante, minha distância nos últimos dias... minha recusa ao seu toque. É a hora de contar a verdade.

— Eu sei... — começo a falar. — Você vai me perguntar o que está acontecendo comigo.

Encaro-o. Sua expressão se mantém firme, mas seus olhos pedem socorro.

— Piper, eu estou com medo — engulo seco. — Não faço ideia do que esteja acontecendo, mas sei que você não está bem e sei que o que vai contar é difícil, posso ver isso em seus olhos.

— Você não imagina o quanto... — sufoco um chorinho infantil. Jason põe as mãos nos meus ombros. Ele afaga uma das tranças em que termina meu cabelo, desfazendo-a bem devagar.

— Seja lá o que for, não se preocupe, eu estarei aqui. Eu te amo. — seu rosto cora um pouco. — E vou estar sempre ao seu lado. Sabe que pode confiar em mim, certo?

Mais uma vez, Jason se prova o melhor garoto do mundo. Ele não podia ter escolhido palavras mais certas. Eu tive receio de que ele não aguentaria me apoiar, não conseguiria ser forte o suficiente, mas depois disso... não restavam dúvidas de que nosso amor poderia suportar tudo. Talvez até a morte.

Murmuro um "sim" em resposta, confirmando de leve com um aceno de cabeça.

— Pode me contar — ele diz. Sua voz sai firme e cheia de segurança. Entretanto, seus olhos fazem meu sangue parar de circular e o meu coração morrer gradativamente lento. Ele tem aquele olhar de quem está assustado, de quem mantém a tristeza contida, a dor coberta por uma máscara de passividade.

Isso foi o suficiente para me fazer mudar de ideia. Ele me lembrou do papai. Lembrou-me do seu olhar no consultório ao saber do diagnóstico, da expressão caída na volta para casa depois do funeral da mamãe, lembrou-me do quanto meu pai está sofrendo e vai sofrer. Isso trouxe os meus pés de volta ao chão e arrancou minha cabeça para longe das nuvens. Eu não podia deixar isso acontecer com mais alguém. Não com Jason. Não posso destruir alguém que tanto me ama, isso é desumano. É cruel.

— Isso não está dando certo — minhas mãos tremem e eu as recolho para o meu colo. O sangue corre em velocidade anormal. — Estou me sentindo sufocada...

Algo arranha em minha garganta, queima e tritura as cordas vocais. Jason me encara confuso, prendo a respiração para não correr o risco de chorar.

— O que quer dizer? Está falando de casa? O seu pai ainda tem estado distante...

— Não. Não é isso — preciso de alguns segundos para juntar força necessária para as seguintes palavras. — O que não está mais dando certo somos nós. Eu... eu acho que seria melhor nós terminarmos.

Sua expressão neste momento me faz querer adiantar a minha morte para agora. Minha cabeça volta a latejar e eu desejo que o chão se abra e me engula viva. Sinto algo gelado e pesado se espalhar em meu peito. Partir o coração dele é melhor que deixá-lo sofrer com o luto, mas isso ainda é o bastante para acabar comigo do mesmo jeito

Então as lágrimas escapam. Escondo o rosto entre as mãos.

— Terminando? — Jason repete a palavra num sussurro, como se tentasse desvendar o seu significado, trazê-la algum sentido. — Piper, me explica isso. Por que? O que aconteceu? — seu tom de voz muda para um rosnado, quase um grito esganiçado de surpresa e confusão.

Não consigo dizer algo em resposta. Continuo com o olhar baixo.

— Piper... fale comigo. Eu fiz algo de errado?

Aquele estranho frio que se iniciou em meu peito se intensifica. Percebo agora que esse tal frio é na verdade desespero. Ele me invade por completo e se infiltra em todos os cantos do meu corpo. Isso não pode ser real...

— Que merda está acontecendo? Por que disse isso? Responda-me.

Levanto o rosto, secando as últimas lágrimas e fugando como uma criancinha. Não sou capaz de fitá-lo nos olhos. Me pego observando sua cicatriz de infância; um pequeno risco no seu lábio superior por ter mordido um grampeador.

— Sinto muito... — faço o possível para impor controle na voz. — Só não consigo mais aguentar tudo isso. Eu... — levanto-me. — Eu preciso ir.

— Piper, para — Jason segura o meu braço. — Não faz isso comigo... Por que isso tudo? Nossa relação tem sido perfeita durante todo esse tempo, daí, de repente, você começa se afastar... E agora, agora você quer terminar? Não acha que me deve alguma explicação?

— Não dá para explicar! — grito. — Acabou. Me esquece.

— Você está de brincadeira? — ele sorri sarcástico. — Temos dois anos juntos! Nos conhecemos desde a quarta-série! Como eu posso te esquecer de uma hora para outra? — ele me encara, os olhos repletos de tristeza, espanto, raiva. — Isso é loucura, Pipes. Me fala o que você tem, nós podemos superar isso... Eu prometo melhorar...

Droga, Jason, por que você precisa complicar tanto as coisas? Reprimo a vontade que tenho de me jogar nos seus braços e selar nossos lábios, dizer que o amo e que a história de câncer terminal não passa de um mal-entendido. Mas isso nunca será verdade.

— Jason... Escute, — concentro todas as minhas forças em olhar nos seus olhos e não deixar que eles influenciem na minha decisão. — Eu não quero mais isso, já deu para mim, estou cansada da nossa relação ser descrita como "dois amigos tentando algo que não vai dar em nada." — cada palavra que pronuncio me atinge como um soco. Jason parece sentir o mesmo efeito. — Estamos perdendo tempo... E eu cansei, preciso te libertar.

Alguns segundos se passam, o ódio por mim mesma e a dor por vê-lo desmoronar em sua cadeira brincam de gangorra em meus pensamentos. Penso em sair correndo dali mas sei que não terei forças para tal ato. Jason passa as mãos pelo cabelo curto, sob a luz do sol ele parece quase branco.

— Eu te amo — ele diz em meio a um suspiro. Fito seus olhos uma última vez, seu rosto está caído, o olhar arrasado, porém com uma pontada de esperança. Sei que essa é a minha última chance de desistir de tudo, de pedir desculpas e fingir que as coisas vão melhorar. Mordo a parede da bochecha até sentir o gosto do sangue. — Fique comigo...

— Não... não posso — amaldiçoo-me por existir. — Eu não amo você. Na verdade, eu nunca te amei... Eu só... Desculpe, sinto muito.

Viro de costas e saio em direção à porta. O coração acelerado, o peito em chamas, a cabeça explodindo. Outra jorrada de lágrimas se seguem.

ANNABETH

“Luke se aproximou de mim e pôs as mãos em meus ombros. Sua boca foi de encontro à minha orelha, automaticamente meu corpo inteiro estremeceu, e eu o ouvi dizer: eu te amo. Não tive como responder aquilo. Nem mesmo entendi de imediato. Apenas o observei partir sem resposta.”

***

Percy e eu chegamos na escola no momento em que o sinal anuncia a próxima aula. Sua mão permanece segurando a minha, um sorriso ainda estampado no rosto, os olhos me encontrando furtivamente. Não consigo conter a alegria que sinto neste momento. Quero voltar para os seus braços, seus lábios, seu inconfundível cheiro de oceano, sua risada em meio ao beijo. Quero ouvi-lo repetir que me ama, quero repetir que aceito ser sua, quero nós dois à sós.

Paramos em frente à sala de história, Percy me beija outra vez; lenta e suavemente. Sinto seu corpo vibrar quando enrosco minhas mãos em sua nuca, ele estremece de leve solta um gemido. Mordo o lábio quando Percy me encara e abre um meio-sorriso.

— Tenho inglês, eu acho... Só nos vemos no intervalo agora — assinto com um movimento de cabeça. — Eu te amo.

Com isso ele me beija mais uma vez e eu entro na sala, extasiada, sem nem ao menos saber onde sentar, ou o que fazer.

Piper não aparece em nossa mesa de costume quando nos reunimos para comer. Minha preocupação evidente aumenta, porém, a raiva fala mais alto. Agora ela nem ao menos vai se sentar conosco? Isso não é certo. Somos melhores amigas, Piper sabe que pode contar conosco. Ainda assim, prefere se afastar.

— Alguém viu Jason e Piper? — Leo levanta a questão no momento em que Jason se senta ao seu lado. Ele não diz nenhuma palavra. Sua bandeja é preenchida por uma garrafa d’água intocada e seus olhos fitam o vazio.

Percy me cutuca de leve e pergunta algo que eu tinha acabado de deduzir: aconteceu algo entre os dois. Dou de ombros e peço para que ele não comente sobre o assunto. O.k., o clima estava péssimo. Thalia não ficara na escola, Jason e Piper estavam com problemas, Luke estava sumido havia dias. Não era a hora ideal para anunciar um novo namoro, não precisava ser um gênio para perceber isso.

Passeio meus olhos involuntariamente quando percebo alguém mover a cabeça em direção à nossa mesa. Charles Beckendorf. Seus olhos pairam em mim durante o segundo que ele leva para sentar-se com seu grupo. Corro a minha atenção para o sanduíche em meu prato. Merda. Merda, merda, merda — repito. Olho mais uma vez para vislumbrar um sorriso no canto de sua boca enquanto ele conversa com os amigos. Parecia notar meu olhar nele.

Ignoro ao máximo o enjoo que circula em meu corpo. Esqueça-o Annabeth, ele não pode te ferir, não mais. Digo a mim mesma quando me forço a comer. Percy aperta o seu braço ao redor da minha cintura, que está à vista de todos.

Me dou conta de que Charles provavelmente tenha visto, o que explica o seu olhar duro sobre mim. Será que... Não. Ele não tem mais o direito de saber nada sobre mim. Tento afastar os pensamentos sobre Charlie... Charles. Ele não faz mais parte da minha vida.

— Annie? Está tudo bem?

— Sim — forço um sorriso. Percy sela nossos lábios bem devagar.

Eu te amo, Percy Jackson. Charles Beckendorf não pode mudar isso.

DOIS DIAS DEPOIS

LUKE

As horas se passam tão lentamente que é como se precisassem dar a volta em torno do sol, apenas para me irritar. Olho no relógio mais uma vez, duas e trinta e cinco da madrugada. Respiro fundo. A distância entre São Francisco e Nova Iorque nunca pareceu tão grande como agora.

Eu mal podia esperar para que este maldito avião pousasse e eu finalmente pudesse estar perto dela outra vez. Não sei se consigo explicar, mas é como se a lembrança dela se esvaísse aos poucos enquanto estamos distantes um do outro. Sua voz inconfundível, seu cheiro, a sensação do seu toque, seu olhar penetrante... eu preciso vê-la urgentemente. Preciso matar a saudade que me consome lentamente.

Por mais que morar em São Francisco fosse bem legal, além de que passar um tempo meio que "perdido" como o meu velho me distraísse a maior parte do tempo, Annabeth era a única que existia em meus pensamentos; ficar longe dela não estava contribuindo em nada.

Isso tinha que mudar.

Eu a amo, e a quero para mim. Deixei muito tempo se passar, por isso tenho que correr atrás agora ou vou acabar perdendo-a de vez. Não posso continuar cometendo o mesmo erro. Essa é a minha chance; é agora ou nunca.

— O senhor sente-se bem? — uma aeromoça me acorda do devaneio. — Não consegue dormir? Precisa de algo?

— Ahn... — quero pedir-lhe para abrir as janelas da bosta do avião, dizer que este lugar completamente fechado está me dando dos nervos, me sufocando aos poucos. — Uma água... por favor.

Ela me entrega uma garrafa d'água e se despede com um sorriso. Bebo todo o conteúdo do recipiente num só gole, jogo a cabeça para trás e tento relaxar o máximo possível. Apenas mais algumas horas, Luke. Repito mentalmente. A imagem dela volta a brincar em minha mente. Sufoco um pequeno gemido.

— Só mais algumas horas, Annie — sussurro tão baixo que mal posso ouvir. Pego no sono em algum momento depois disso.

Notas finais
Então... é isso. Se algum dos que leram quiser comentar, fique à vontade. Isso é realmente motivador. Não sei quando postarei de novo, mas será em breve. Ainda esse mês. Até! :D