Don't You Trust Me?
1 Don't you trust me?
Meus olhos giravam em torno da própria orbita, estava tudo tão surreal, fora de foco e confuso, que não conseguia entender o motivo de mais uma crise existencial, lá estava eu, sozinha, perambulando pela mata que remotamente chamava de lar, a grama úmida marcava meus passos, uma noite iluminada pelo luar asseava algo épico.
As longas caminhadas perdidas por algum abrigo cessaram, sentia uma repulsa enorme, que me atraia para os arredores de Iônia, algo acontecia ali e eu precisava saber o que ocorria, esse era o intuito, sempre quis fazer parte de algo maior do que ser apenas um simples animal que perambulava pelos boques, aquilo era pouco para alguém com tanto talento.
Corri na direção a qual meu extinto me levava, meu coração pulsava em uma velocidade crescente, o vento gelado parecia penetrar entre meu pelos, os obstáculos que surgiam não eram nada perante a minha agilidade e persistência, nunca tinha me sentido tão viva, mesmo indo em direção ao incerto.
Mesmo longe, conseguia tragar o cheiro de sangue que pairava no ar, gritos de dor e almas aflitas me aguardavam e eu estava próxima, quando cheguei ao local, me deparei com um campo de batalha, armas humanas, chamas e feitiçarias destruíam uns aos outros, restavam poucos e o fim deles estava próximo, almas corrompidas nunca tiveram um futuro.
Tinha feito à promessa de nunca mais me envolver com poderes arcanos, era algo muito humano e muito cruel, porém eles estavam perdidos, estaria fazendo um favor usando meus poderes para salva-los de tanto sofrimento, minhas patas formigavam, caminhei entre os mortos, suas essências me chamavam, e eu estava entregue a tentação de tê-las.
Os últimos guerreiros caíram mortos, mesmo em meio a tantas almas, não tinha encontrado o que realmente teria me atraído pra cá, porém algo ainda me queria ali, foi então que ouvi uma respiração fraca, um humano em seu leito de morte e com a alma mais encantadora que pude encontrar em meio às terras negras, a alma doada a bom grado selou meu destino.
Exausta e desnorteada, me deixei levar pelo cansaço, meus olhos se fecharam, achava que era o fim, pra quem se sentia tão viva pouco antes, a sensação de estar morrendo era horrível, intoxicada pela magia de alguém tão poderoso, desmaiei ali mesmo, no tronco do humano de armadura, que estava completamente vazio por dentro, por ter me cedido seu espírito.
Ao despertar fiquei surpresa de ainda respirar, me sentia diferente, não ao ponto de ser estranho, mas meu corpo era semelhante ao de um humano, algumas coisas de raposa ainda estavam em mim, porém o poder irradiava de dentro pra fora, tive a impressão que poderia fazer qualquer coisa, as almas dos mortos da batalha ainda me chamavam, tinha uma conexão sobre cada uma delas, e faria o melhor possível para resgata-las.
Cada alma coletada me deixava mais forte, e a ambição pelo poder poderia me levar a loucura, sabia que era inicio de uma nova vida, teria que me adaptar aos humanos e tentar trilhar um novo caminho para essa magia, me sentia culpada por ter tirado proveito de algo tão angustiante e cruel, pois no fundo eu sabia que a misericórdia era um luxo humano, que agora tinha se tornado minha responsabilidade.
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