Sobre a mesa estava o antigo 38 da família. Sentado frente à arma, Elle pôs ao lado do revolver uma bala que guardara no bolso. Olhando para os objetos postos, relembrava o passado que não mais voltaria.

Eram apenas Elle e Ella e mais ninguém. Dois amigos, dois irmãos, dois amantes. Juntos venceram seus medos, compartilharam do afeto e do amor mútuo para seguirem em frente. Prometeram um ao outro que para sempre juntos estariam.

Lágrimas escorriam de seus olhos ao recordar das promessas não cumpridas, dos sonhos não realizados. Das frases de amor que diziam, dos cálidos beijos que compartilhavam. Da tranquilidade que seus abraços proporcionavam, do afeto que os enchia de sonhos e esperanças.

Lamentava-se por nunca tê-la ajudado como Ella o ajudou. Quanto mais o tempo passava, mais egoísta Elle se tornava. Ainda assim Ella permanecia ao seu lado, tentando dá-lhe amizade e amor, mesmo que o amor por Elle tinha se acabado. Porém, a um ponto chegou que Ella não suportava mais, e Elle ela deixou para que por conta encontrasse o seu valor.

Elle não suportou estar sozinho sem o seu amor. Por muito tempo tentou superar o que se passara. Foi então que percebeu o quanto valia a sua presença, e que agora sozinho estava, sem ninguém mais ao lado. Sofria pelo amor que se acabou, pela amizade que se findou, e ainda mais por não ter dado o devido valor àquela que muito por ele se aplicou.

A um limite Elle chegou que seu coração não mais suportava. Sabia que nunca mais a teria de volta, e mesmo se esforçando para seguir em frente, empacou no caminho sem volta. Única era Ella, pensou, e que nunca mais encontraria outra igual.

A dor que não passava tinha que acabar. Não suportava mais viver assim. Sempre aos prantos, as lembranças o atormentando e o arrependimento o torturando. Um fim a isso Elle precisava dar, e a psicólogos e livros recorreu. No começo positivos eram os resultados. Entretanto, ao se dar conta da solidão em que estava, caía novamente no mesmo patamar.

“Um fim a isso terei de dar”, disse Elle com os olhos determinados e marejados. Pegou o revolver e bateu no tambor para que saísse. A única bala com os dedos levou para um dos buracos do tambor. Como uma roleta girou o tambor e rapidamente bateu-o para que voltasse a seu lugar original. Mas antes do último ato, retirou do bolso esquerdo de sua calça uma pequena carta que escreveu. Na carta estava escrito: “Julieta abandonou o seu Romeu. Romeu muito tentou, mas nunca se esqueceu”.

Deixou a carta na mesa, e o cano do revolver apontou abaixo de seu maxilar. No momento ninguém estava na casa. Durante muito tempo tentou tomar coragem para apertar o gatilho. Precisava ser rápido antes que sua consciência pesasse. Por fim engatilhou o revolver e apertou o gatilho.

Porém, o revolver não disparou. A bala não estava naquele buraco do tambor. Elle pôs-se de bruços e desatou a chorar. Lembrou-se de seus pais, de seus irmãos, dos colegas que tinha na faculdade e até mesmo do chefe de seu trabalho. Após se sentir mais calmo, levantou-se da cadeira e pegou a carta. Amassou-a e jogou no lixo. Não era o dia para Elle morrer.

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