Don't Forget the Moonlight
2 O vizinho e o corredor.
Notas iniciais
Estava tudo preto, o chão parecia se movimentar. Abri os olhos relutantemente, estava de fato confortável estar ali. Meio tonta, olhei em volta. Muitas outras crianças como eu estavam espalhadas pelo local, soluçando.
O chão estava mesmo se movimentando, no fim das contas. Estávamos em um veículo, aparentemente um caminhão, não fazia ideia de onde ele nos levaria.
Me sentei, tinha feno espalhado por todo o lado. Reparei que as crianças que aqui estavam, eram as mesmas quais estavam implorando aos seus pais para voltarem para casa, onde era quente e seguro. Me senti mal por elas, agora, estavam longe de casa, assim como eu.
Mas eu nunca estive realmente perto de minha casa, disso eu tenho certeza.
Logo, o chão parou de se movimentar. Havíamos chegado onde todos estavam remoendo-se, curiosos e assustados para ver onde iriam parar com todo esse alvoroço.
As portas do caminhão onde estávamos se abriu, a luz forte que vinha de lá nos fez recuar, muitos adultos estavam ali fora, correndo apressadamente, adentrando uma grande e elegante casa. Um orfanato. Sem poder dizer qualquer coisa, nos empurraram para dentro da casa. Me pergunto o que essas crianças estão fazendo aqui, lembro-me de vê-las com seus pais, não são de fato órfãs.
O primeiro cômodo da enorme mansão era uma grande sala de estar, qual tinha um sofá aparentemente confortável, com livros educativos e muitos bichinhos de pelúcia em cima do mesmo. Só de me imaginar sentada em um desses, cercada de brinquedos como esses e sem me preocupar com o frio, me acalmo um tanto.
Todos nós fomo levados até uma sala fria e escura, cuja na mesma possuía muitos pôsteres sobre paz, e no meio de tudo, uma grande mesa cheia de papéis, tendo atrás dela uma mulher com cabelos extremamente vermelhos, seus olhos tinham a mesma cor. Tudo que ela usava, como roupas, brincos e sapatos, possuíam esse tom avermelhado. Era uma mulher jovem e saudável, apesar da pele pálida ao máximo. Seu olhar severo me dava medo, me assustei mais ainda quando ela sorriu, um sorriso obviamente falso.
–Olá.- Falou ela, quebrando o silêncio. Sua voz soou tão autoconfiante, que muitas das crianças que a encaravam, assim como eu, trataram de desviar o olhar. – Sou Hazel Birtky, dona desse orfanato.- Ela fez uma pequena pausa. – O lugar onde vocês permanecerão até encontrar alguém para serem seus...pais. – Ela pronunciou essa palavra ‘’pais’’ com certo desgosto.
– Eu...eu quero a minha mãe. – Uma garota com cabelos presos em dois rabos de cavalo falou, temendo a resposta que teria.
– É uma pena, sua mãe está morta.- Hazel cuspiu.- Assim como os pais de todos vocês, é por isso que estão aqui.- Revirou os olhos.
Todos entraram em pânico em ouvir isso, alguns se abraçaram, inconformados, chorando e berrando pela morte de seus tão amados pais.
Hazel colocou as mãos sobre os ouvidos, bufando pelos gritos.
Isso foi rápido demais. Uma simples manifestação poderia acabar em algo assim tão grave?
– Sinto muito, pessoal. — Se levantou da cadeira, vindo até nós com passos lentos.- Agora, quem quer conhecer o quarto?. -Ela abriu um sorriso, um sorriso que até me dava medo.
Silêncio.
–Muito bem. — Concluiu ela. — Sigam-me, é por aqui. — Ela seguiu em frente pelos corredores frios e quietos daquele enorme local, parecia interminável. Até que chegamos na primeira e última porta que entraríamos por agora. Abriu a porta, revelando um quarto gigantesco cheio de beliches e colchões amontoados.
O local fedia. O beco que eu dormia ainda era mais confortável e limpo que tal.
Seria difícil dormir ali nas primeiras noites para mim. E para as outras crianças, mais ainda. Estavam acostumadas com uma cama quente e macia que seus pais haviam dado duro para conseguir.
Mesmo assim, elas adentraram rapidamente, olhando em volta, escolhendo suas camas.
Eu estava certa que dormiria na parte de cima de qualquer beliche. Desde que fosse em cima.
Suspirei, subindo em um dos que não haviam escolhido ainda. Eu havia conseguido bem no lugar que queria. Dei pequenos pulos no colchão, que mesmo fedendo, era macio.
–Ai, ai, ai!- Gritou um garoto na parte de baixo do beliche.- Pare de pular! Estou com sono!
Parei, sem jeito. A cama ainda não era definitivamente minha, havia esquecido de checar se alguém escolhera a de baixo.
–Desculpe. –Me pendurei na parte de madeira, ficando de ponta-cabeça, apenas para ver quem seria o meu ‘’vizinho’’ de baixo.
Um garoto aparentemente 4 anos mais velho que eu, tinha cabelo brancos e olhos vermelhos, o tom era tão vermelho quanto os cabelos de Hazel, e por algum motivo, sua face lembrava-me de mim mesma.
Credo.
–Que isso não se repita, por favor. – Puxou as cobertas, emburrado.
–Ei, você é velho?- Não pude evitar de perguntar.
–Por quê?- Arqueou a sobrancelha, confuso.
–Seu cabelo é branco.- Concluí.
–Não. –Bufou ele.- Eu nasci assim!
– Você nasceu velho?
–NÃO.
–Não grita, se não eu pulo mais. – Revirei os olhos.- E qual é o seu nome?
–White. –Respondeu ele, desinteressado.
–Que original. – Falei, irônica.
–Ora, vai me deixar em paz ou não? –Abriu sua mochila, pegando um livro de dentro.
Não respondi, apenas voltei a deitar na minha cama.
Percebi que não havia trazido minhas coisas na minha ‘’mochila’’.
Aliás, ninguém trouxe nada, por que ele sim?
Estranho. Por outro lado, aparentava ser exigente. Resolvi não ficar puxando assunto.
Já estava anoitecendo, fiquei encarando o teto por tanto tempo, que mal percebi que havia se passado alguns minutos. Estava faminta, e, geralmente, quando isso acontecia lá na vila, ficava encarando o céu, à espera da Lua chegar. E, quando chegava, a fome e o frio passava. Eu logo me sentia melhor. Mas, agora é só um teto de madeira podre.
Abriram a porta, era novamente Hazel, chamando á todos com seu falso sorriso, para a janta.
Fechei os olhos, criando coragem para levantar-me da cama-que-era-parte-de-cima-do-beliche.
–É melhor você vir.-White falou, levantando-se e deixando o livro de lado.
–Calma, eu já vou. –Bufei, pulando no chão. Me sentia o máximo fazendo isso. Mesmo que eu tenha perdido o equilíbrio e quase caído. Disfarcei, correndo até a porta rapidamente.
Para chegarmos á sala de jantar, teríamos de passar pelo grande e assustador corredor, mas, por sorte, eu não estava sozinha. Todas as crianças andavam lentamente logo atrás. Duvido muito que conseguiriam comer boa parte da comida, afinal, haviam todos perdidos seus familiares pela manhã.
Seria uma pena se eles não comessem, parece que alguém faminto teria de dar conta disso.
Euzinha.
Estava prestes a adentrar a sala, quando alguém me puxou pelo braço. Virei-me.
– Olá. – Aquele sorriso falso ainda estava estampado em seu rosto.
– O que foi? – suspirei.
–Olha...querida, sabemos que está com fome, mas, preciso falar com você, é algo...importante.- Ela olhou para os lados, certificando que ninguém além dos pequenos estaria ouvindo.
– Espere, você é a Hazel, certo? –Perguntei, eu já sabia que sim, mas me senti na necessidade de perguntar.
– Sou, a propósito, é um prazer enorme te ver novamente. Agora, vamos. –Ela foi andando para outro lado do corredor sombrio, a sua sala, o primeiro lugar que visitamos.
–Novamente...?
Ao entrar na sala, não se preocupou em fechar a porta. Apenas sentou-se em sua cadeira gigante e aparentemente confortável, apoiando-se na mesa. O falso sorriso desfazendo-se, fazendo-a ficar séria, que era mais assustadora do que sorrindo.
–Temos assuntos a tratar, senhorita Tsuki Moon.
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