Dons: Carbúnculo
15 Descobertas
Notas iniciais
Victória Montserrat estava hospedada na Casa Grande, num quarto no segundo andar. Depois do que ocorrera em sua propriedade na noite anterior, ela ficara assustada demais para ficar sozinha. Os Raimann, então, se ofereceram para acolhê-la até terem certeza de que tudo ficaria bem com ela.
Depois do desjejum, os irmãos Raimann estavam reunidos na sala da casa de Elric. Kurt estava sentado no sofá, entre Elric e Loui, todos pensativos. Christophe e Alícia também estavam ali, próximos a Adela e Magno.
— Onde estão Fábio e as gêmeas? — perguntou Alícia, quebrando o silêncio que imperou entre eles durante um tempo.
— Os três estão na casa de Loui, com o Heitor — Kurt respondeu.
— E o que houve lá, Magno? — Ela se voltou para o primo.
— Marcos estava nos seguindo, não sei o porquê — respondeu o homem, apoiando seu queixo nas mãos. — Não sei o que houve entre ele e os três lá na ponte. Sei apenas que ele fugiu, graças a Preta, segundo o Fábio e a Branca.
— Algum motivo o Marcos tinha — disse Adela, dando um soco na palma de sua mão esquerda. — Precisamos descobrir o que era. Magno, você tem que saber. Vamos, pense!
— Sinto muito. Eu cometi um erro. Devia ter deixado Jason de lado e corrido até o Marcos.
— Bem... — Kurt começou a falar, mas se deteve. Ainda não tinha todas as peças do quebra-cabeça, e ficava cada vez mais preocupado, pois a situação ficara perigosa demais. Agora a vida das crianças também estava em perigo, e ele não sabia como elas tinham se envolvido em tudo aquilo.
Kurt pensou que Victória não era o alvo de seu irmão, mas sim seu filho e seus sobrinhos. Também imaginou que, se Jason estava lá e só agiu depois que Magno estava separado dos demais, sua missão era mantê-lo ocupado enquanto Marcos atacava as crianças, e era isso que não fazia sentido.
— Tem que ter alguma relação com o Fábio — Magno falou depois de pensar um pouco. Sua expressão mudou de seriedade para surpresa, como se ele subitamente encontrasse mais uma peça de um quebra-cabeça.
— Não vejo como — Adela falou, meditativa.
— Mas tem que ter — repetiu o homem, franzindo a sobrancelha e massageando o queixo. — Marcos foi atrás dele, enquanto Jason foi apenas uma distração para mim.
— Mas o que poderia ser? — Adela gesticulou. — Marcos não teve contato com ele.
— Teve apenas no dia que veio nos ver — falou Alícia ao se recordar da primeira visita de Marcos. — Fábio estava lendo na sala quando ele chegou. Ele fez algumas perguntas sobre a escola e coisas do tipo.
— Ele falou algo que te chamou a atenção? — Elric perguntou.
— Não, nada demais. Só perguntou sobre a escola, e sobre o livro que o Fábio estava lendo. Alguma coisa sobre lenda indígena brasileira.
— Lenda indígena? — Magno se levantou e começou a andar de um lado para o outro com as mãos na cintura e o olhar no teto.
— Sim — Alícia confirmou, com a testa franzida, sem entender a reação do primo. — Era um livro de capa preta. Marcos até pediu o livro emprestado, mas o Fábio disse que não era dele.
— Ah, acho que sei. Esse livro ele pegou lá em Acádia.— Loui falou em tom de recordação. — Foi no dia em que fomos visitar o palacete. Ficamos um bom tempo na biblioteca, mas ele não conseguiu terminar de lê-lo, então sugeri que ele trouxesse para casa e devolvesse depois.
— Você sabe de qual lenda se tratava? — Magno perguntou a Alícia.
— Não. Ele não falou mais nada depois disso.
— Você acha que isso tudo tem relação? — Kurt perguntou, um tanto desacreditado.
— Sim. Eu não contei para vocês ainda, mas se lembram daquela garota que caiu na nossa mesa? Seu nome é Alessandra e ela é uma ladra e vendedora de armas. Tinha parceria com Neil, um contrabandista internacional, cujo forte era as armas pesadas. No dia em que ela roubou o carro onde estávamos, lá no teatro, eu soube que Fábio a conhecia.
— Ela não havia tentado roubar um livro? — Loui perguntou, recordando-se do ocorrido.
— Um livro de capa preta — completou Christophe, começando a se lembrar de vê-la saltar da janela com o livro em mãos.
— Descobri que foi Marcos quem encomendou o roubo — Magno falou. —Fábio não quis falar sobre o assunto. Outra coincidência é que, no dia da explosão do prédio, uma das vítimas foi justamente o Neil. Descobri isso depois de conversar com um dos investigadores do caso.
— Então o Fábio descobriu que o Marcos queria o livro e resolveu não entrega-lo — Elric falou, começando a compreender a história. — Mas por quê? — Ele olhou para Magno. — Por que Marcos quer tanto esse livro? E por que Fábio não entregou?
— Alessandra disse que Fábio não sabia de nada, mas eu não acredito. Tem algo de muito importante nesse livro, ou Marcos não iria se expor por algo tão sem importância. — Magno parou diante da janela e ficou a olhar para o quintal. — De alguma forma ele soube que estaríamos em Overtoun, se aproveitou do momento em que estávamos sozinhos para tentar roubá-lo, mas Fábio não estava com o livro, então Marcos fugiu.
Por um momento, todos permaneceram em silêncio. Aos poucos, as coisas começaram a fazer sentido para os presentes, e um por um, os olhos foram se arregalando nas faces.
— No teatro, Marcos perseguia a tal da Alessandra, não? — Christophe perguntou. — Terá sido por ela não ter entregado o pedido?
— Exato. — Magno se virou e apontou para o primo. — Ela mesma confessou isso. Talvez fosse esse o motivo de Marcos ter matado Neil. Ele foi cobrar o serviço e não obteve resposta satisfatória. Foi um momento em que ele agiu pela emoção.
— Mas, se a essa altura ela já havia se encontrado com Fábio, algo a convenceu a mudar de lado. O quê?
Magno ficou pensativo. Aquela era uma boa pergunta. Por que Alessandra correria o risco de ser morta se ela teve uma nova chance de pegar o livro? Certamente Fábio a convencera, mas como? O que poderia ser tão valioso que a faria correr aquele risco?
— E se esse livro tiver relação com a pedra que Marcos procura? — Alícia falou por fim. Aquela era a possibilidade que passara pelos pensamentos de todos e era a única explicação plausível no momento. Magno voltou a andar de um lado para o outro.
— Lenda indígena... Pedras preciosas e itens mágicos são muito recorrentes em lendas — Loui falou. — De repente o livro fala sobre a lenda, dê pistas sobre sua localização ou coisas do gênero.
— O Fábio deve ter acreditado na história para não entregar o livro. Ele soube o que trouxe Marcos de volta? — Adela perguntou.
— Eu não falei de nada sobre isso com ele — Kurt falou e Alícia disse o mesmo.
— Há mais um detalhe — Elric falou depois de outra longa pausa. — Há alguns dias, a Branca, a Preta e o Fábio vieram pedir que eu lhes mostrasse documentos da família com pretexto de estarem numa caça ao tesouro.
— Sim, elas me perguntaram sobre isso também — Kurt falou como se aquilo não tivesse importância. — Mencionaram algumas... Cartas antigas da nossa família, não sei bem.
— Cartas? — Magno perguntou mais para si mesmo.
— Eu não aguento mais — Adela falou e se levantou, batendo as mãos nas pernas. — A situação ficou muito perigosa. Teremos que tirar toda essa história a limpo com o Fábio, a Preta e a Branca, já que elas parecem estar envolvidas também.
— Magno, há mais alguma coisa? Algo que ainda não se encaixa? — Loui perguntou, mais calmo que a irmã.
— Só mais um detalhe — disse Magno. — Pouco antes de sairmos de Overtoun, percebi algo errado na parede da ponte. Não havia reparado quando chegamos, mas parecia que as pedras haviam sido removidas e encaixadas novamente, pois estavam estranhas, como se tivessem sido esmigalhadas. Não sei por que, mas me chamou a atenção.
— Bem... Tia Adela tem razão — Alícia falou num suspiro. — Precisamos saber o que houve de fato. Vamos falar com o Fábio.
Todos concordaram e se levantaram. Alícia ficou incumbida de ir até a casa de Loui, buscar Fábio e as gêmeas e trazê-los para a casa de Elric, para uma conversa. Ninguém ali queria ir para a Casa Grande, para não correr o risco de os demais ouvirem a conversa. Antes, precisavam saber de toda a história.
Kurt estava muito surpreso com toda a situação. Sabia que Fábio era um garoto muito inteligente, mas não imaginava que o filho pudesse chegar tão longe. Teria ele achado que aquilo era brincadeira? Ignorava, por certo, o temperamento do tio, e o subestimara, se metendo em grande perigo.
Kurt se culpou por tudo aquilo. Devia ter conversado com os filhos sobre Marcos. Talvez Fábio não fizesse nada daquilo. Por outro lado, Marcos também não conseguiu o livro, consequentemente não conseguiria a pedra, o que era um ponto positivo.
Apesar de tudo, Kurt lhe daria uma bronca por se envolver com uma ladra e contrabandista de armas, mesmo que ela não parecesse muito mais velha que ele.
***
Alícia chegou à casa de Loui. A porta estava trancada, mas ela possuía uma chave. Ao entrar, notou que o lugar estava muito silencioso.
Por morar apenas com o filho, Loui não se preocupara em comprar uma casa muito grande, sendo assim, ela era térrea e possuía apenas cinco cômodos sendo eles cozinha, sala de estar e jantar, e três quartos dos quais um era um escritório.
Alícia bateu na porta do quarto de Heitor, mas não obteve resposta. Bateu novamente e, irritada, abriu a porta bruscamente. Não havia ninguém no quarto. Então a mulher olhou os outros cômodos e constatou que não havia ninguém na casa. Pensou consigo para onde os quatro poderiam ter ido e resolveu voltar rapidamente para a casa de Elric.
Ao saber que os garotos desapareceram, todos ficaram preocupados. Magno, na tentativa de acalmar Loui, Kurt e Elric, sugeriu que eles poderiam estar na Casa Grande. Então todos correram até lá e o pânico aumentou ao perceberem que eles não estavam lá também.
Adela ligou para seu filho Leandro e perguntou se Fábio estava em sua casa, ao que o garoto negou. Estava sozinho e sequer vira os primos naquela manhã. Amélia, que estava na Casa Grande, disse que não vira o irmão, nem as primas, nem Heitor.
— Minha nossa, para onde eles terão ido? — Adela se sobressaltou.
— Agora essa! — exclamou Elric, gesticulando num misto de raiva e preocupação.
— Tentei ligar para os celulares deles, mas ninguém atende — disse Alícia, enquanto olhava para o aparelho e tentava realizar a ligação, sem sucesso.
Christophe, que estava muito preocupado com as irmãs, resolveu pegar seu carro e procurar por eles. Certamente estariam no parque ou no bosque, se não numa cafeteria ou biblioteca, que eram os lugares que eles mais frequentavam. Os pais resolveram ficar em casa esperando por notícias ou que eles voltassem.
***
Alessandra apertou a mão de Fábio com vivacidade e um largo sorriso no rosto. Ele e as primas olhavam para o carbúnculo com curiosidade e admiração, enquanto Alessandra contabilizava mentalmente o quanto ganharia com o tesouro.
Inicialmente, Alessandra pensou se tratar de um tesouro maior, como pedras preciosas e ouro abundantemente. Mas já estava muito feliz com o que conseguira. O tesouro consistia em uma bolsa com um par de rubis, uma esmeralda e outras pedras polidas. Para sua felicidade, tudo coube na mochila que carregava na noite anterior. Depois de tudo, Preta recolocara as pedras da ponte no lugar usando seu poder, e Alessandra fugiu antes que a polícia chegasse.
— Bem, bem. Fico feliz por vocês — Alessandra proferiu para os quatro primos que olhavam para a pedra com curiosidade infantil. — Mas agora meu trabalho terminou. Foi um prazer fazer negócio com vocês.
— Tudo bem, mas cuidado — Heitor murmurou, sonolento —, o Marcos ainda está por aí.
— Sem problemas, eu vou sair da cidade — disse com um sorriso maroto. — Tô afim de torrar parte dessa grana que eu ganhei. Sabem, as pedras, apesar de não ser a quantidade que eu imaginei, valem uma fortuna. Já dá pra eu me estabelecer.
— E o que pensa em fazer? — Branca perguntou, aproximando-se da garota.
— Eu... Sei lá! — Alessandra colocou a mochila nas costas, e sua expressão era reflexiva. — To pensando mesmo em dar um tempo, sabe? Parar de roubar. Não to afim de acabar na cadeia. Vou pra outra cidade, compro uma casa, ainda tenho muito tempo pra aproveitar. Vou fazer uma faculdade... É isso aí. — Ela balançou a cabeça, sorrindo e olhando para o céu, satisfeita com a vida.
— Faculdade? — Fábio olhou surpreso para a garota. — Você tem estudo, é?
— Que é isso? — Alessandra pareceu ofendida. — Só por que eu sou pobre e falo gíria eu sou iletrada, é? Não, senhor. Logo eu completo dezoito. Já terminei o colegial, sabe, só que não tinha grana pra fazer a facul. Agora tenho como. — Ela bateu com a mão na mochila e soltou uma gargalhada gostosa que contagiou os primos, até mesmo Heitor.
— E que curso pretende fazer?
— Sei lá. Melhor fazer um teste de vocação antes, né? — Alessandra ponderou. — Pra falar a verdade, to pensando em tentar ingressar na aeronáutica. Quero ficar na parte que mexe com as armas, sabe? Ainda tenho uma queda por isso.
Fábio sorriu para Alessandra e concordou com a cabeça. Aquela seria a melhor decisão que a garota tomaria na vida. Ele, por sua vez, ainda tinha um longo caminho a percorrer em sua vida acadêmica.
— Pois bem... — Alessandra falou num suspiro. — Boa sorte pra vocês.
— Pra você também — os quatro falaram ao mesmo tempo. Alessandra então seguiu seu caminho.
Quando a garota desapareceu de vista, os quatro primos se entreolharam, perguntando-se com olhares o que fariam a seguir.
— Então, Fábio, você sabe como usar essa pedra? — Heitor quebrou o silêncio, se encostando a uma árvore.
Os quatro estavam no terreno da catedral de Tera Pax, que ficava depois do centro de Kendrich, pouco depois da entrada do bairro Tera, que recebeu este nome devido a ela.
A catedral Tera Pax tinha uma arquitetura gótica tremendamente majestosa. Sua fachada possuía uma grande rosácea e três portais com arcos ogivais, suas paredes eram finas e a catedral imensa, extremamente vertical, com várias pontas como lança a apontar para os céus, exibindo sua grandiosidade. As paredes possuíam varias rosáceas pequenas e vitrais coloridos.
O terreno ao redor era imenso, com uma deliciosa praça a cercar a catedral. À direita, um pouco distante da estrutura, havia um grande lago muito bem conservado. Do outro lado desse lago, em meio às árvores, é que estavam Fábio, Branca, Preta e Heitor.
— Bem... — Fábio falou sem jeito, ainda a olhar para a joia. — Eu meio que... não sei.
— O livro não diz nada sobre como usar esse treco? — Branca perguntou.
— Não! — Fábio respondeu com certa tristeza. — Precisaremos descobrir por nós mesmos.
— Aponte-a para algo e se concentre em... Sei lá, explodir.
— Ótima ideia, por que não pensei nisso antes? Ah, é mesmo, por que estamos numa praça! — Fábio ironizou.
A praça estava sempre movimentada, já que a catedral era um ponto turístico da cidade. Naquele dia em especial, ocorria um evento de música do outro lado da catedral.
— Bom, nesse caso precisamos ir para um lugar mais tranquilo, mas para onde?
— Lá pra Acádia que tem floresta — Preta sugeriu.
— Como chegaremos lá? — Branca protestou. — Estamos sem carro. E o Heitor não parece muito disposto a pegar transporte público novamente.
— Não reclamem — Fábio falou, — o transporte público do nosso país é um dos melhores do mundo.
— Concordo, mas não gosto de pegar metrô — Heitor retrucou depois de um bocejo.
— Nesse caso... Preta, você não se sente diferente com essa pedra?
— Eu a sinto pulsar de vez em quando. Mas não sei se posso usá-la.
Preta pegou a pedra e olhou para ela sem pestanejar ou no mínimo desviar o olhar alguma vez. Notou ela cintilar e se maravilhou mais uma vez com sua beleza, no entanto, não sentiu nada de diferente e isso a frustrou.
— Ok! — Branca exclamou. — Então o que faremos agora? Você irá guardar bem o carbúnculo, Fábio?
— Vou sim. Mas não vou descansar até aprender a usar essa coisa. — O garoto parecia decidido.
Os quatro se levantaram e se puseram a caminhar pela beira do lago, enquanto discutiam as possibilidades de descobrir o que o carbúnculo podia fazer. Heitor sugeriu que fossem até a biblioteca pesquisar mais sobre o mito da pedra para tentar encontrar alguma pista, já que no livro não havia nenhuma.
— Há alguma biblioteca por aqui? — inquiriu Branca, olhando em volta. — Não estou afim de ir até o centro.
— Vamos descobrir — Fábio proferiu e os quatro pararam diante de um sorveteiro.
Depois de comprar sorvetes, os garotos perguntaram ao homem se havia ali alguma biblioteca, a qual ele respondeu haver uma, mas um pouco distante. Recomendou que eles pegassem um bonde que pararia em frente à Biblioteca Tesla Quantana em menos de sete minutos.
Sem perder tempo, os primos pegaram o primeiro bonde e, durante cinco minutos, viram várias paisagens, como as casas mais antigas da história de todo o estado. Passados esses cinco minutos, eles desceram do bonde. Do outro lado da rua estava a entrada para a biblioteca Tesla Quantana.
A biblioteca não era muito grande, mas os garotos esperavam que servisse para encontrar o que eles buscavam. Entre as quinze estantes que havia ali, apenas três prateleiras eram dedicadas à literatura brasileira, e havia poucos exemplares da história indígena.
Heitor pegou um livro e se sentou. Os primos o imitaram e cada um pegou um livro diferente. Eles passaram um bom tempo a ler e pesquisar, e encontraram algumas histórias acerca do carbúnculo. Havia várias versões sobre a mesma lenda, mas, em todas essas versões, a pedra estava na testa de alguma criatura mágica, ou o carbúnculo era a própria criatura.
Na maioria das vezes, a pedra ou o animal era guardião de várias riquezas, emitia raios de luz que cegavam as pessoas ou transformava o animal que a tinha encravada na testa em um ser humano, no caso de uma das lendas, numa linda mulher. Em nenhuma daquelas lendas era mencionado outro poder ou como usá-lo.
— Então é isso! — falou Branca, fechando o livro com força e frustração. — A pedra brilha e transforma animais em humanos. Não pode ser!
— Isso é o que as lendas dizem — disse Heitor, fechando seu livro também. — Mas sabemos que não é apenas isso. Preta pode sentir essa pedra, ela tem algo de mais especial.
Fábio ficou pensativo por um momento. Pegou o carbúnculo de seu bolso e o observou novamente. Não havia nada de diferente. Por fim, os garotos deixaram a biblioteca e tomaram um bonde de volta para a catedral. Chegando lá, eles chamaram um táxi e foram até Acádia.
Assim que o veículo saiu, os garotos começaram a caminhar em direção a uma trilha que levava floresta adentro. Queriam encontrar um lugar distante para testar o poder da pedra. Após andar por alguns minutos, eles julgaram estar distante o suficiente de qualquer habitação.
— Então... — Branca falou e se sentou numa rocha. — O que pretende?
Fábio pegou o carbúnculo e fechou os olhos. Apontou a pedra na direção de uma rocha, a atenção presa naquele alvo, e soltou o ar que segurava. Um feixe de luz vermelha como um laser saiu da pedra e acertou a rocha, destruindo-a.
Surpresos, todos riram. Fábio, que estava abismado, riu também. Aquilo havia sido divertido. Ele tentou novamente e destruiu outra rocha, desta vez maior.
— Nossa, funciona! — Branca falou com os punhos fechados. Sorria como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo novo e divertido.
— Faz de novo — Heitor pediu, sentindo algo como animação nascer dentro dele.
Fábio destruiu uma árvore. Dessa vez, o feixe de luz havia sido mais grosso, e causou maior estrago. Com a explosão, as folhas da árvore caiam sobre eles como se nevasse.
— Woohoo! — Branca saltou de alegria. Abriu os braços e admirou aquelas folhas a cair sobre ela.
— Como você fez? — Preta perguntou.
— Só me concentrei e... Não sei, acho que pedi para que a pedra funcionasse.
— Você se comunicou com ela? Que legal!
Cada um deles, então, fez uma tentativa. Branca explodiu duas árvores para fazer cair mais folhas. Preta explodiu algumas rochas e Heitor a imitou. Passaram um longo tempo naquela brincadeira, destruindo tudo ao seu redor e abrindo uma clareira ali.
De repente, Preta parou de sorrir e ficou séria. Branca notou a mudança na irmã e perguntou o que ocorrera. Então ela olhou para o céu que estava ficando escuro e, subitamente, um homem caiu diante deles com tamanha brutalidade que abriu um buraco no chão. Com o impacto, os quatro foram arremessados para trás.
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