Dons: Carbúnculo

17 A verdade por trás de tudo


Magno voltou para a Casa Grande com mais raiva do que quando saíra dela. Aquela situação o enervava de tal maneira, que seria possível que, caso encontrasse seus primos, os espancaria até a morte por toda dor de cabeça causada.

Christophe já estava na sala quando Magno entrou. Os irmãos estavam angustiados e ficaram ainda mais quando viram o homem entrar desacompanhado. Christophe fechou os olhos e balançou a cabeça de um lado para o outro, desacreditado.

— Já chega, eu vou ligar para a polícia — Adela falou e pegou o telefone. Mal havia discado o número, Cássio apareceu ofegante na sala, chamando a atenção de todos.

— Gente, ouvi no rádio que algo aconteceu na floresta, lá no bairro de Acádia. Falaram em explosões. Acho que podem ser eles.

Os Raimann se entreolharam e ligaram o rádio. A notícia vinha de uma rádio que recebera a ligação de moradores de Acádia que afirmavam ter ouvido explosões vindas de alguma parte da floresta. Uma mulher falou ter visto algo no céu, como uma mulher trajando um vestido de gala.

— Uma mulher? — Kurt estranhou. — Minha nossa, será que eles estão em perigo?

— Vamos para lá! — Christophe falou já correndo em direção ao seu carro. Porém, antes que colocasse a chave na ignição, Adriano veio correndo do portão gritando e gesticulando.

— Eles estão vindo! Eles estão vindo!

Fábio, Branca, Preta e Heitor apareceram. Dos quatro, apenas Heitor parecia bem, com as roupas intactas, embora um pouco empoeiradas. Fábio e as gêmeas tinham escoriações no rosto, as roupas em frangalhos, e pareciam muito cansados. Os Raimann também viram Anjo descer dos ares calmamente, pois viera acompanhando os primos de longe, embora eles mesmos não soubesse disso.

Ao ver o filho, Kurt correu em sua direção e o abraçou fortemente, acariciando seus cabelos enquanto o apertava contra o peito. Fábio retribuiu o abraço do pai, descansando sua cabeça no peito dele. Por um momento se permitiu ser criança e sentiu um enorme alívio por estar ao lado do pai em segurança.

Elric, que também se engasgava em nervosismo, abraçou as duas filhas, e não sabia se brigava com elas ou simplesmente agradecia por tê-las de volta sãs e salvas. Junto a ele, Christophe também parecia muito aliviado. Preta abraçou o irmão com grande carinho e satisfação.

Heitor mesmo se dirigiu ao pai, que permanecera sentado no sofá e, embora tentasse não demonstrar, sentira um peso sair de suas costas quando viu o filho chegar. Heitor se sentou ao lado do pai e deitou sua cabeça no colo dele. Não demorou muito, já dormia como um bebe. Loui apenas sorriu e ficou a afagar os cabelos do filho.

— Onde vocês estavam? — Kurt perguntou assim que conseguiu soltar o filho.

— Nós saímos um pouco — Fábio falou com voz inocente — e acabamos por... ter uns probleminhas na volta pra casa.

— O que houve em Acádia? — Magno perguntou assim que todos entraram na sala.

— Três malucos nos atacaram — Branca falou com uma animação de quem acaba de assistir um filme de ação empolgante. — Foi muito de repente. BAM! Uma mulher e dois homens.

— Uma mulher com traje de gala, eu suponho! — Magno cruzou os braços.

— Sim. Como você sabe?

— Porque ouvimos no rádio e porque o nome dessa mulher é Kaliah. Ela é parte dos Óligos.

Ao falar aquilo, todos olharam com espanto para Carlos Magno que se manteve sério a encarar Fábio. Este pareceu muito surpreso e, por um minuto, ficou confuso e atordoado com a situação. Percebeu que todos ali se voltavam para ele e para seus três primos, e soube que entrara numa encrenca.

O grande problema de Fábio fora não ter pensado no que faria depois que encontrasse a pedra. Inicialmente, não havia problema algum, mas depois que Marcos surgiu, as coisas se complicaram.

— Então — Carlos Magno voltou a dizer —, o que houve lá? Por que eles atacaram vocês?

— Não sabemos! — Fábio falou da forma mais inocente que pode.

— Eu sei por que. Por causa disso. — Magno mostrou o livro. Fábio olhou embasbacado para o primo, mas logo a confusão deu lugar à ira e a fisionomia do garoto se alterou. Ele fechou os punhos com tanta força que foi possível ver com mais nitidez suas veias.

— Quem te deu autorização para mexer nas minhas coisas?

—A situação, Fábio. Tem ideia do perigo em que se meteu? Pensou nas consequências de suas ações? Não foi só isso, encontrei as cartas da nossa família também.

— O quê? — Elric se surpreendeu. Olhou para o garoto com incredulidade e irritação misturadas. — Como você conseguiu isso?

— Foi a Alessandra, não foi, Fábio? — Magno falou.

Fábio mordeu o lábio inferior ao perceber que Magno já sabia de tudo. Não havia mais saída, nem mesmo poderia negar coisa alguma. Olhou para seu pai que estava chocado e o encarava com decepção. Aquele olhar pesou nele como um fardo impossível de se carregar.

— Eu entendi! — Magno se sentou num sofá e começou a falar. — A pedra que você procurava trata-se do lendário carbúnculo de Teju Jagua, uma lenda muito antiga que tem ligação com a nossa família. Marcos está procurando também, então ele voltou para pegar o livro e descobrir pistas que o levariam a pedra. Mas você, por acaso, chegou antes dele.

— Parabéns, senhor detetive! — Fábio foi sarcástico. — Agora você sabe de tudo. Quer uma medalha por isso?

— Fábio! — Kurt o censurou. — Você sabe que o que vocês fizeram foi perigoso? Poderiam ter morrido!

— Vocês deveriam estar felizes — Branca falou com irritação —, afinal, o tão amedrontador Marcos não vai ficar com a pedra.

— Isso não os inibe da sua culpa! — Elric se interpôs. — Vocês pediram que uma ladra roubasse um banco e não só isso, conseguiram colocá-la em perigo fazendo-a trair o Marcos. E, no final, ela escapou, não é?

— Mas ela vai ter uma chance de se ajeitar. Isso não conta como boa ação? — Preta sorriu, mas seu sorriso murchou ao ver que todos a olharam com censura. — É, acho que não.

—E agora? — Christophe olhou para Magno. — Marcos ainda está à solta. Ele ainda tentará pegar o livro.

— E chegamos a grande questão. — Magno se voltou para os garotos novamente. — Onde está a pedra?

As gêmeas olharam para Fábio que permaneceu imóvel. Estava decidido a não abrir mão do que tanto se esforçara por conseguir. Sabia que, se pegasse a pedra, Carlos Magno provavelmente a levaria para a princesa de Áquila. Não, certamente que ele faria aquilo!

— Fábio, não complique as coisas — Kurt suplicou ao filho.

Fábio se levantou do sofá, olhou com altivez para Carlos Magno, desafiando-o. Só com aquele olhar mostrou que não estava disposto a entregar o carbúnculo. Magno, por sua vez, fechou os punhos e ameaçou tentar pegar a pedra ele mesmo.

— Não me desafie! — Magno falou pausadamente, porém Fábio permaneceu inflexível.

— Gente, vamos com calma. — Christophe se colocou entre os primos. — Não devemos brigar. A situação já está complicada o suficiente. Precisamos pensar no que faremos caso Marcos venha.

— Caso não, ele certamente virá — Adela falou com gravidade. — Precisamos sair. Se os Óligos já estão aqui, não demorará até nos encontrarem. Não podemos entrar numa luta aqui. Pense nas pessoas que moram ao redor.

— Concordo com Adela — Elric falou, já se levantando. — Vamos para o palacete. Ao menos fica distante de tudo. Mesmo que nos ataquem, ninguém mais vai se machucar.

Christophe olhou para Magno com um olhar de súplica. A última coisa de que eles precisavam era de uma guerra entre eles mesmos. Então Magno cerrou o olhar e se afastou.

Fábio observou enquanto ele se afastava em direção a saída. Estava a salvo, por enquanto.

***

Christophe fechou o porta-malas do carro. Tinha tudo o que precisava, e todos os outros estavam prontos.

Os moradores da Casa Grande iriam para o palacete junto com os Raimann. Magno já havia levado Victória para um hotel longe dali, para sua segurança.

A tensão era quase palpável no meio deles. Além do perigo eminente, havia divisão entre eles mesmos. Fábio e Magno se evitavam, e também todos souberam do desentendimento entre Michele e Alícia por causa de Victória. A situação estava mais complicada do que antes.

— Tudo isso é culpa daquele miserável do Marcos — Fábio resmungou para Preta. — Se ele não aparecesse tudo estaria bem!

— Não adianta reclamar — Preta replicou. — Precisamos pensar em como sairemos dessa situação.

— Eu sei! Embora eu não goste disso, precisaremos dar um fim nessa pedra.

— Preta, vamos! — Christophe chamou. — Fábio, você vai no carro do tio Loui.

Fábio assentiu e correu para o carro onde Loui e Heitor já o esperavam. Alícia dirigia o carro que já saíra, onde estava Amélia. Kurt dirigia uma combe onde estavam os moradores da Casa Grande. No carro de Elric estava Christophe, Michael, e as gêmeas. Logo atrás vinha o carro de Magno com seu irmão e sua mãe.

Levou algum tempo até que eles chegassem ao palacete, e felizmente nada ocorreu durante o trajeto.

***

Alessandra entrou no prédio e subiu rapidamente as escadas. Logo aquele lugar seria demolido, mas já não se preocupava com isso. Agora, o problema era de quem ainda dependia de lugares como aqueles para sobreviver. Ela já contornara aquele problema e se via livre.

Mesmo liberta, Alessandra voltou àquele lugar. Entrou na sala onde havia diversas armas de todos os tipos possíveis.

— Nossa, Neil... Você ia faturar muito com isso — Alessandra falou em voz alta. — Agora é hora de eu ir. Já não preciso mais dessas coisas.

Alessandra carregava uma mala de viagem que encheu de pistolas, revolveres e munição. Embora não precisasse mais daquilo, ainda não estava fora da cidade, e o perigo ainda a cercava. Precisava se garantir.

— Não quero ninguém na minha cola. Sem credores, sem clientes. Que todos se explodam!

Quando pegou tudo o que pode, a garota olhou para o relógio. Era hora de ir embora. Ela desceu rapidamente as escadas e saiu. Viu alguns homens mal-encarados saírem do prédio ao lado e sorriu. Era o fim do contrabando naquela área. Em menos de duas horas, uma empresa demolidora estaria ali, se preparando para pôr fim aqueles edifícios velhos.

Alessandra ouviu falar que aquele lugar seria usado pela prefeitura para ser um novo centro de lazer e esportes. Achou que aquilo era uma ideia interessante e ficou feliz. Encontrariam aquela quantidade de armas lá e dariam um fim a elas. Era o epílogo.

— Pra mim, um começo. Vida nova, aqui vou eu! — Ela deu um salto de alegria.

Notas finais
Obrigada por ler!