Dona de mim mesma
1 Capítulo 1 - Frio como pedra
Notas iniciais
Eu sempre achei a necessidade dos humanos de dormir algo incompreensível. Eles simplesmente apagam, ficam expostos a qualquer ataque, para no próximo dia fazerem as mesmas coisas novamente. Até entendo, eles precisam repor suas energias de alguma forma.
Mas o que mais me incomoda nos sonos, são os sonhos. É fascinante que mesmo com os humanos dormindo, o cérebro está sempre trabalhando, criando realidades que eles desejam ou que os assustem. E essa segunda parte é o principal motivo de eu não gostar de dormir...
Ir para um lugar que me assuste. Eu já estive em um lugar assim, há 5500 anos atrás. O horror da guerra, nossas companheiras derrotadas, nosso fardo. Mas nenhuma dor se compara com a de ter te perdido... Pink. Ou devo chama-la de Rose Quartz?
Todo dia pensamentos fúnebres como esses pairam pela minha cabeça. Toda vez que olho sua pedra no corpo do Steven, sinto como se uma parte minha tivesse sido arrancada de mim. Ainda não entendo sua escolha, mas a respeitei. Formei amizade com Greg e me apeguei ao Steven como se fosse você mesma... Mas eu sei que não é. Mas nossa, Pink. Se você o estiver vendo pela sua gem, como a personalidade dele é idêntica. E isso me deixa feliz, pois você não foi completamente embora. Eu sei que não.
— Terra para Pérola! Está dormindo?
Repus minha consciência no lugar. Pensamentos devaneios como esses tornaram-se constantes em minha mente, como sou boba. Conversando comigo mesma.
Levantei-me da cadeira de madeira e a coloquei para dentro da casa, em seu devido lugar.
Logo me deparo com o pequeno humano que possui um coração enorme nunca antes visto. Talvez, até maior que o seu, se tivéssemos algum coração.
— O que aconteceu Steven? — Perguntei querendo me evadir de qualquer pergunta naquele momento.
Steven, alegre e sorridente como sempre, segurava uma mochila nas mãos. E como eu já o conhecia perfeitamente, aquilo só poderia significar duas coisas: Ou ele iria viajar, ou nós iriamos para uma missão.
— Você não soube? Garnet estava nos chamando para a base da lua! — Ele respondeu animado
— Na base da lua? Aconteceu alguma coisa lá?
— Não sabemos. Mas o Ronaldo disse que viu pelo telescópio movimentos suspeitos de algo por lá, então estamos indo investigar.
Suspirei então. O Ronaldo nunca foi uma fonte confiável de algo “suspeito”. Normalmente, tudo o que ele acha e vem nos comunicar trata-se de algum resquício de nossas batalhas passadas.
— Steven, você tem certeza disso? O Ronaldo já nos falou inúmeras vezes que algo de estranho estava acontecendo, e no final não era nada de demais. — Falei desejando que Steven mudasse de ideia.
Ele apenas deu de ombros e pediu para eu acelerar. E eu o obedeci. As vezes me sinto na obrigação de aceitar tudo o que o Steven faz... Pois, querendo ou não, ele ainda é uma parte de você... E você, é tudo pra mim. Logo, ele também é tudo pra mim.
Garnet e Ametista estavam ao lado do transportador. Garnet como sempre com sua postura exemplar e semblante sem demonstrações, e a irritante da Ametista sempre gritando por nada. Por mais que o tempo passe, ela não amadurece. Mas não posso julgá-la, talvez seja bom ser como ela, ela não viveu o mesmo que nós. Não teve que passar por tanto sofrimento, e o mais importante: Ela parece ser verdadeiramente feliz do jeito que é.
Ah, antes que esqueça de mencionar, Peridot e Lapis Lazuli também estavam lá. É estranho partirmos em missão todas juntas, digo, Peridot foi uma de nossas maiores inimigas por um tempo. E Lapis... Bom, ela tentou nos matar. Mas claro, que ele com esse poder que não consigo entender, conseguiu nos unir.
— Todos prontos? — Perguntou Garnet.
— Precisamos de tanta gente assim? — Perguntei.
Já é um incomodo ter que tomar conta da Ametista, e ter que ficar a postos com o Steven. Cuidar da Peridot e ter que aguentar os ataques de nervosismo dela iria me desgastar muito.
— Sim! A Peridot e a Lapis querem fazer parte da missão também, e eu também quero. Quanto mais gente, melhor! — Ele disse com aquele sorriso de sempre.
— Eu não poderia deixar vocês, tontas, sozinhas. O que seriam de vocês sem mim? — Peridot sempre com essa ilusão.
— É melhor todas nós irmos juntas. Vamos logo. — Apressou Garnet já entrando no transportador.
Todas nós nos encaixamos – apertadamente – no transportador, e Steven como sempre deu a iniciativa. As luzes nos cobriram e lá estávamos: viajando pelo feixe de luz do transportador, todos brincando, enquanto que em mim subiu um calafrio por todo o meu corpo, até mesmo minha pedra havia sentido isso. Estava com um mau pressentimento, como se o que estávamos prestes a descobrir não iria acabar bem.
Eu estava com medo.
A luz então se dissipou e nos encontrávamos na base lunar. Aparentemente ela estava normal, toda a construção, como as pinturas das diamantes na parede continuava da mesma forma. E ao passar o olho pela sua pintura... Que saudades que deu de você, minha diamante.
Mais uma vez, a voz de Steven havia me tirado de meus devaneios.
— Parece estar tudo normal por aqui. Será que foi mais um alarme falso do Ronaldo? — Steven suspirou desapontado.
Eu sabia, não era nada. Apenas mais uma das mentiras do amigo do Steven. Mas... Porque será que esse mau pressentimento não saiu de mim?
A todo o momento sinto minha pedra, minha consciência e toda a luz presente no meu corpo mandando que eu vá embora neste momento. E eu conheço bem esse sentimento... Esse medo, eu já o senti algumas vezes. E sempre foram situações traumáticas.
— Acho bom irmos logo embora, pessoal. — Falei, tentando levar todos.
— Ainda não! Temos que ver do lado de fora da base. — Contestou Steven.
... Como eu amo e odeio esse menino.
— Ta bom. Irei mostrar que não tem nada de estranho aqui para podermos voltar logo pra casa. — Mesmo com todas as forças do meu corpo mandando eu não ir, respirei fundo e apertei o botão para abrir a comporta.
O vácuo do espaço imediatamente começou a puxar Steven para sua imensidade, ainda bem que ele agora consegue controlar seus poderes. Materializou o seu escudo e permaneceu preso no chão junto com as outras.
A lua aparentava estar normal, somente amontoados de rochas, a imensidão negra infinita junto de suas constelações, tudo como sempre esteve.
— Estão vendo? Não tem nada de diferente. Porque ainda ouvimos o que o Ronaldo fala? — Eu não tinha percebido ainda quão estressada eu estava.
Após o silêncio que se formou, um estrondo atingiu a nossa base. Todas nós fomos ao chão, as paredes da base lunar sucumbiam e estavam prestes a nos esmagar, claro, se não fosse pelo nosso herói, Steven.
O garoto conseguiu fazer uma bolha que cobrisse todas nós, mais uma vez salvando nossa pele. Isto se tivéssemos uma pele.
— Está todo mundo bem?! — Gritou Garnet
— O que foi isso?! — Ametista complementou o grito.
Eu levantei-me dos restos dos escombros e ao olhar para o mural das diamantes, eu senti um aperto no meu peito. Talvez sejam isso o que os humanos chamam de “dor”?
O mural outrora que mostrava a magnificência das diamantes, inclusive ela, agora havia se tornado um compilado de pedras quebradas no chão. As imagens da minha diamante, quebrada e jogada ao chão... Mais uma vez. Quem quer que tenha feito isso, iria pagar...
A porta agora estava completamente aberta, além de inúmeros buracos que agora haviam se formado. Steven sobrevivia enquanto pudesse manter sua bolha.
Aos poucos uma garra metálica surgiu e arrancou o resto do pouco teto que tínhamos sobre nós. A retirada do teto da base lunar nos deu uma visão clara do nosso inimigo. E mais do que nunca... Do meu inimigo.
A nave era enorme. Diversas turbinas mostravam que possuía uma potência de alta patente. Era toda feita em cores leves de um verde-musgo e um azul tão límpido como o céu.
E eu conhecia a proprietária daquela nave.
Agora todas as minhas anseias, todo o meu medo fazia sentido. A nave pousou e sua comporta havia aberto.
Mesmo no espaço, eu conseguia ouvir aqueles passos pesados e reconhece-los de qualquer lugar no mundo...
Da fria escuridão da nave surgiu, aquela que tanto me fez sofrer no passado. Aquela que me tormentou por anos, que me transformou em lixo, que me fez querer ser estilhaçada a cada momento...
...Azurita. A renegada de Homeworld.
A cada balançar de seus longos cabelos azulados minha pedra ressonava para mim. Alertava a todo o momento do perigo. Mas já era tarde demais... Eu estava aflita, a deriva do pânico. Tudo o que passei com ela me marcou por todos esses milênios que vivi.
— Então aqui está você... Faceta 1F3X da corte... Nenhuma. — Ela disse com aquela voz autoritária e ao mesmo tempo sedutora.
Ela pôs sua mão direita em sua pedra, localizada no centro de seu peito. Me tremi por inteira, já tinha visto essa cena por muitas vezes.
Da sua pedra, saiu uma esfera azulada, esta que flutuava nas mãos de Azurita. Sua arma, e uma das mais poderosas que já vi em toda a minha vida.
— Quem é essa, Pérola? — Steven perguntou.
— Steven, vá para casa! Você não vai aguentar ficar com esta bolha pra sempre. — Garnet ordenou
Como sempre, Steven não obedeceu e permaneceu onde estava.
— Não pode ser... Mas essa é a lendária Azurita?! — Comemorou Peridot, revelando ainda o prazer que ela tinha pela matança em Homeworld
— Azurita? De onde ela veio, e o que ela quer com a gente? — Perguntou Ametista.
Eu tentava a todo instante falar, mas meus lábios simplesmente não se mexiam. Eu engolia o seco e sentia que poderia desabar a qualquer momento, minhas pernas estavam fracas... E mais uma vez, EU estava fraca.
— Essa é a Ex-Coronel Azurita! Ela era uma das melhores no comando! Conquistou planetas e venceu inúmeras guerras para Homeworld. Mas... Alguns anos antes da chegada da mãe do Steven na Terra, foi descoberto que Azurita possuía um hobby quando não estava de serviço. — Explicou Peridot.
— Um hobby? Como cantar ou tocar algum instrumento? — Brincou Steven.
— Ela estilhaçava as gems de Homeworld Steven. — Falei finalmente. Só eu pude sentir o quão difícil foi falar isso. Steven de imediato percebeu que ali não era momento para fazer brincadeiras. Todos estavam sérios.
Azurita havia se tornado uma lenda urbana em Homeworld, Peridot ainda não havia sido criada na época em que esta assassina estava em seu auge. Mas sua história foi contada por diversas gerações de gems. Há quem a venere pela coragem de se rebelar contra o sistema das diamantes, e há quem teme pela sua vida.
— Ora, parece que Homeworld contou minha história para as crianças. — Ela disse descendo da rampa da nave. — Mas você, Pérola. Nunca contou de mim para suas amigas? Magoou.
Ela fez uma cara de tristeza, mas logo seguiu com um sorriso malicioso... Aquela sínica.
— Porque não conta de nossos anos juntas? O quanto nos divertíamos? Hm?
— Só v-você se divertia, Azurita. — Balbuciei.
— Desculpe, não ouvi. — Ela disse erguendo sua cabeça e colocando sua orbe a frente dela.
Aquela visão era horrenda pra mim. Nenhuma outra palavra subia pela minha garganta, por mais que eu quisesse. Nada sairia, nem eu imaginava que o trauma tivesse sido tão forte. Ao vê-la naquela posição, com sua autoridade contra mim, não encontrei outras palavras senão:
— M-Me desculpe, Coronel Azurita.
Fechei meus olhos e as lágrimas já haviam começado a surgir. A visão do sofrimento, daquele cemitério e daquelas gems passaram de imediato pela minha cabeça. A risada maligna e masoquista de Azurita atormentava minha cabeça.
Todos estavam de boca aberta, incrédulos com minha obediência a uma completa estranha, para elas.
Garnet não pensou duas vezes e materializou suas manoplas. Ela partiu pra cima de Azurita tão rápido quanto um raio... Eu deveria ter avisado a elas sobre o poder dessa miserável... Um dos poderes mais perigosos e convenientes já visto na história de Homeworld.
— Você, pro chão. — Ela ordenou.
Azurita pôs sua esfera na frente de seu corpo e com um movimento com sua mão livre, o objeto passou-se a brilhar intensamente. Garnet de imediato parou sua ação e ajoelhou-se no chão. Seu semblante transformou-se em surpresa.
— Garnet, o que houve?! — Steven perguntou correndo em sua bolha até nós.
— S-Steven, não chegue perto! — Gritou Garnet, ela já havia percebido o terror que aquela gem poderia nos causar. — Ela pode... Controlar nossas ações.
Esse era o poder dela. Um poder psíquico capaz de controlar qualquer gem que esteja abaixo dela, a única vez que vi seu poder falhar foi quando ela tentou usá-lo contra Pink... E depois disso e a descoberta de seu cemitério de gems ela foi banida de Homeworld. Essa é Azurita... A gem que pode vencer um batalhão sozinha.
Ametista, Peridot e Lapis prepararam-se para lutar.
Idiotas, não viram o que acabou de acontecer com a Garnet! A mais forte dentre nós.
Azurita bocejou e colocou sua esfera à sua frente novamente.
— Para o chão. Todas vocês. — Com um movimento de mão, as três foram puxadas para o chão.
Ela andou calmamente entre nós, todas sendo puxadas fortemente contra o chão. Exceto eu e Steven. Eu estava sendo tomada pelo medo, o sufoco que passei não me deixava raciocinar ou agir.
Steven estava seguro com sua bolha, por enquanto.
A sínica continuou a andar vagarosamente entre nós, parecia estar nos avaliando. E eu sei o que ela queria com isso, estava avaliando quem ela poderia colocar em sua coleção de cacos. Ela parou na frente do Steven, sua cara estava confusa quando viu o humano entre nós.
— Que espécie de Gem é essa? Nunca vi uma forma como essa... Seria uma espécie rara? — Sorriu Azurita.
Ao ver o perigo que isso estava tomando, juntei toda a força que me restava e coloquei em minha garganta. Minha voz estava seca, a cada palavra parecia estar me arranhando internamente.
— Ele é só um humano, General Azurita... Por favor, o poupe. — Implorei.
— E quem você pensa que é para me dar ordens, Faceta 1F3X?
— Q- Que tal fazermos um acordo, General? — Perguntei como um ultimo recurso. Com um raciocínio rápido, eu sabia que eu tinha algo que ela desejava esconder de todos e faria o de tudo para me calar.
— Um acordo, hm? Estou ouvindo...
— S- Se você poupar essas gems e o humano... Eu vou com você de novo. Sem reclamar, e sem tentar fugir de novo. — Eu fechei os olhos e mais lágrimas surgiram de meu rosto — Serei só sua
O rosto de Azurita alegrou-se ao ouvir isso. Com um sorriso malicioso ela pôs sua mão no queixo para pensar.
Durante poucos segundos olhei para trás, vi Steven aterrorizado. Todas as outras lutando contra a própria gravidade em vão. E ao fundo, pude vê-la uma ultima vez...
Os escombros da sua pintura... Pink.
— P- Pérola, não faça isso! — Disse Garnet.
— Por favor Pérola, nós vamos lutar todos juntos e superar isso. — Sugeriu Steven.
Azurita virou-se para mim, com aquele seu sorriso de predador.
— Você venceu, 1F3X. Aceito seu acordo.
Suspirei então. Se o meu destino for sofrer, que pelo menos quem eu ame não esteja presente para ver isso. E que eles estejam sempre seguros.
Levantei-me enquanto todos gritavam pelo meu nome. A cada passo que eu dava para dentro daquela nave, memórias passadas atormentavam minha cabeça. A escravidão que tive, os amigos que vi serem destruídos. A sensação de preferir morrer... A estar com esta gem.
— Vamos voltar para o seu lugar de direito, Pérola. — Ela disse agarrando meu braço fortemente. — O meu mais novo cemitério de gems.
A comporta da nave fechou-se e as turbinas aqueceram de imediato. O poder de Azurita contra minhas companheiras já haviam perdido o efeito, todas agora tentavam desesperadamente abrir a nave. Mas já era tarde demais. Alçamos voo. Indo novamente para o lugar onde a esperança não existe... E o que será de mim agora, sem você para me salvar de novo, Pink.
Esta sou eu... Pérola, a gem que sempre precisa de alguém...
Esta sou eu... Pérola... A escrava.
Notas finais
Espero que tenham gostado pessoal, Comentários e Reviews são sempre bem vindos. Até a próxima!
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