Dolorosa realidade.
2 Se eu pudesse voltar atras...
Notas iniciais
Faz bem pouco tempo que estou aqui, é um lugar quentinho, escuro... Não há muito o que fazer aqui, o meu corpo se desenvolve cada vez mais, cada dia que passa alguma coisa fica diferente. Antes de vir, Papai do céu, me falou que ficar nesse escuro quentinho era onde eu me formaria para poder sair daqui, e serei grande e forte como o papai e a mamãe que me geraram. No meu 18 dia aqui, meu cérebro já existia. Em 15 semanas, o meu sistema nervoso já está formado, é claro que tem mais coisas para acontecer... Na semana 24 eu vou começar a sentir um negócio chamado dor... Eu nem sei o que é, mas pelo que os anjinhos me disseram, é um negócio ruim
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– Mãe, eu não posso ter essa criança, eu preciso fazer faculdade, preciso ser alguém na vida
– Sim eu sei minha filha, mas você não pode simplesmente matar esse bebe.
– Não fala matar, é uma palavra muito forte, só vou interromper a gravidez.
– Filha, a gente pode colocar o bebe para a adoção, não precisa ser assim...
– Não, mãe, não quero que o meu corpo se estique todo, que apareçam várias celulites e estrias
– É de uma vida da qual estamos falando, é o meu neto, ou neta que está ai. Você não pode simplesmente matá-lo
– Não é matar!!!!
– Você não pode interromper o nascimento de uma criança, só porque você e o besta do seu namorado não se preveniram. Já falei, que você não vai fazer, você sabe dos riscos. Sabe se o bebe não for retirado totalmente e parte dele ficar em você, você corre risco de vida, que quando você quiser ter filho, vai ter problemas, talvez nem consiga, corre o risco de hemorragia na hora, perfuração do útero, e inclusive a morte!
– Para mãe, pare de ficar tentando mudar a minha idéia, você sabe que eu não vou voltar atrás – as lagrimas percorriam o rosto da jovem de 14 anos. – Você sabe, que eu posso ter algum problema no parto, que sou muito nova.
– VOCÊ SABE QUE VOCÊ TEM MAIS RISCOS AINDA DE MORRER NUMA CLINICA CLANDESTINA!
– Pois é, se o aborto fosse legal, não teria esse problema!
– Cala a boca garota, você não sabe do que está falando, se isso for legalizado mais pessoas fariam. Eu não deixo você fazer isso porque a culpa foi sua, você vai ter que arcar com as conseqüências, segundo que, isso é uma violação no seu corpo e no do bebe. E o ultimo mas não menos importante, é porque não tem segurança nisso e também eu não confio nessas clinicas clandestinas e não vou querer que você faça algo ilegal. Se você quiser, coloque para a adoção, mas abortar jamais.
A garota sai chateada da sala, onde conversava com a sua mãe, a barriga já era visível, aquele bebe que crescia em sua barriga, não deveria estar lá, já conversara com o seu namorado estava tudo certo, mesmo que sua mãe não a apoiasse faria isso, pelo seu bem e pelo do bebe, não queria que ele não fosse amado. E não queria seu corpo “deformado”. Jose, seu namorado já tinha tudo programado, o amigo do seu pai conhecia uma clinica clandestina, uma das melhores, segundo ele. O medico era um obstetra renomado, que por fora fazia esses “lances”.
Três dias depois, Ela estava com o namorado e sogro. Era uma clinica de aparência normal.
– Camila, você está pronta? – Perguntou Jose para a namorada.
– Estou – Mas na verdade, o medo era de alguma coisa dar errado era avassalador. Mas o Doutor Marcelo era muito capacitado e com isso os riscos diminuiriam. pensava Camila.
Os três saíram do carro e entraram na clinica, a recepcionistas os trataram muito bem, faltava vinte minutos para o horário agendado. O silencio era grande.
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Hoje, eu não sei o que esta acontecendo, mas parece que a minha mamãe está muito triste, posso sentir isso. Não quer que ela sofra. Vou fazer carinho nela com os meus dedinhos que já se formaram.
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Camila estava mexendo em seus cabelos lisos e negros, enquanto os homens liam as revistas. O relacionamento amoroso deles não estavam nada bem, a gravidez abalou muito na relação. Mas ele não a abandonou, até era contra o aborto, mas se a sua amada tanto insistia, não podia fazer muita coisa, o corpo era dela, apesar do filho também ser seu. Mas a vontade de não tomar nenhuma posição definitiva era grande. Não queria se responsabilizar por qualquer escolha que fizesse.
– Camila – A voz grave do doutor soou pela fresta da porta. Apenas Camila entrou na sala. Tirou a sua roupa e vestiu o avental, se deitou na cama tipicamente de ginecologista e esperou por segundas ordens do doutor. Ele com mascara e tudo certinho aplicou a anestesia e logo que começou a fazer efeito induziu um aparelho, que suga o feto.
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Não sei o que esta acontecendo aqui, mas tem um barulho estranho,vindo lá do lado... Estou com medo... Não sei o que fazer... A minha perninha.. Ela, ela está indo.. Ta doendo mãe.Socorro mamãe, socorro, eles estão tirando as minhas perinhas. Mãe, mãe por favor me ajude, socorro. Aquele barulho está vindo novamente... Ele vai me matar mãe socorro por favor!
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O doutor Marcos tinha tirado o aparelho e pego as perninhas do feto já formada em um recipiente, depois continuou a tirar, até a cabeça dele. Para o doutor era algo normal, que aumentava a sua renda e podia ostentar seus carros luxuosos. Feliz com o resultado e sem nenhuma complicação no ato, fez os últimos ajustes na paciente e logo a encaminhou para um quarto pós operatório.
Cinco horas depois Camila desperta com o namorado ao seu lado.
– Oi amor, como foi? – Pergunta Marcos fazendo carinho na garota
– Acho que tudo bem, eu não senti nada
– É claro... – Disse se sentindo besta pela pergunta.
– E agora, está bem?
– Sim, só estou um pouco estranha por causa da anestesia... Só
Depois voltou para a casa, sua mãe não negou a própria filha, como ela tinha feito com o seu filho, mas a relação delas depois ficou mais fria.
Camila conseguiu terminar os estudos e fez moda, sua carreira era promissora. Infelizmente o relacionamento entre ela e Jose não foi para frente, mas conheceu Julio e se casaram e vivam felizes. Mas tinha um segredo entre eles.
– Amor, estou louco para ser pai, já estamos casados há 4 anos e ainda não tivemos filhos, eu quero ter um menino – Dizia Julio animando em um café da manhã de novembro. Ao ouvir essa palavras ela estremeceu. Sua boca ficou seca e seu coração acelerou.
– Eh- eu depois falamos disso meu bem – tentou falar, mas apenas conseguiu sussurrar. Depois que fez o aborto, não tinha uma noite em que não sonhava com isso, tinha pesadelos constantes e também sentia medo de crianças.
– Tem alguma coisa que eu não saiba meu bem? – Perguntou tocando em sua mão – Porque toda vez que eu falo em filhos, você fica assim, pálida. Você não gosta de crianças meu bem, é isso?
– Estou atrasada, olha a hora, preciso ir. Te amo – Fugiu da conversa mais torturante que tinha com o marido.
Ao caminho do trabalho começou a relembrar do momento em que fez o aborto, era uma criança, uma menina imatura e burra. Mas se não tivesse feito isso, talvez não estaria bem sucedida, será? Duvidas começaram a assombrar sua mente. O dia inteiro não fora na produtivo, tudo lembrava a clinica, tudo lembrava o feto, que tinha tirado. Voltou para casa mais cedo, decidida a contar sobre o que acontecera anos atrás para o seu marido.
Ele estava em casa, fazendo as planilhas do trabalho. A empregada passava aspirador em casa. E o barulho era parecido com o da maquina usada no aborto. Seu coração acelerou, começou a suar frio e entrou e pânico, levou as duas mãos para tampar os ouvidos e começou a gritar, com os fleches passando em sua mente, imaginando se aquela criança tivesse nascido, suas pernas não agüentaram e cederam. Julho veio correndo ao encontro e tentou acalmá-la, pediu para a empregada desligar o aparelho e ficou lá se ajoelhou ao lado da mulher, que chorava desesperadamente, tentando apagar todas as imagens que rodava sua cabeça a atormentado. Depois de alguns longos minutos, as lágrimas cessaram um pouco e a sanidade começou a voltar. O marido a levou para a cama e a deixou lá para repousar, mas ela não o deixou sair de perto dela.
– Amor, o que aconteceu?
– Eu... Eu preciso te contar algo – Disse deitada e olhando fixamente para os olhos do marido.
– Eu, há muitos anos.. quando eu era nova, uma criança de apenas 14 anos, eu e o meu namoradinho fizemos uma besteira... Eu... Fiquei grávida. – As lágrimas vieram a tona novamente, não consegui mais falar por causa dos soluços. Julho a abraçou novamente e fez carinho em sua cabeça na tentativa de acalmá-la.
– Calma meu bem... calma... E esta criança está aonde agora? Em que orfanato você a deixou? – O choro de Camila se intensificou ainda mais. Seu rosto estava inchado e só tomou folgo novamente vinte minutos depois.
– Eu... eu fiz algo terrível amor... eu... eu... abortei a criança – E novamente suas lágrimas escorrem pelo seu rosto, ela afunda o rosto no peito do marido e ensopa a camiseta do mesmo. Julho não sabia o que falar, não acreditará, que a sua mulher tinha cometido tamanho ato. Não estava em condições de julgá-la. E nem poderia, pois não sabia do ocorrido, inúmeras coisas passaram por sua mente. Não conseguiu não derramar lágrimas.
Uma semana depois da revelação, Camila estava indo para uma clinica psiquiátrica para tratar dos pânicos que tinha e das alucinações com o bebê, isso já vinha acontecido, mas não tão fortemente como depois daquele pequeno comentário de Julho tinha feito, o comentário que desencadeou o distúrbio.
Por conseqüência do aborto, ela não podia mais ter filhos.
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