Dois é demais
7 Capítulo 7
Notas iniciais
– Não vai me contar mesmo o que aconteceu enquanto eu não estava em casa, Cadu?
– Aposto que eles se pegaram!
– NÓS NÃO NOS PEGAMOS CAIO! CALEM A BOCA VOCÊS DOIS!
– Então por que você fica tão bravo quando eu toco no assunto? — Bernardo perguntou
– Por que você já perguntaram isso sete vezes!
– Não precisa ficar nervosinho esquisitão! vamos mudar de assunto então. Eu hein...
Bernardo sabia ser irritante quando queria, mais irritante que o peste. Desde que me viu com o moreno naquela situação um tanto embaraçosa não parava de me atormentar. Aliás, eu estava com raiva dele e de William também.
Assim que meu meio-irmão começou a ir eu pude notar mesmo com sua pele morena que ele estava muito vermelho, mas não foi essa atitude que me pegou de surpresa. Ele me jogou no chão e foi pra bem longe de mim. Qual era o problema dele? aquele garoto só pode ser bipolar. Não olhei para a sua cara até oito horas quando o pai dele veio buscar.
A semana havia passado rapidamente e já era sexta feira. Hoje Ícaro não pôde nos levar então viemos apé deixando Caio em sua escola para depois irmos para a nossa. Bernardo tinha contato pro peste sobre o incidente e eles não paravam de fazer piadinhas. Eu preferia quando ainda era filho único.
Depois que passamos na escola do caçula Bernardo foi para junto dos amigos como de costume e eu segui pelo corredor. Ainda era cedo então todos os anos do ensino médio estavam perambulando pela escola e algo me chamou a atenção na cantina.
Em uma mesa no centro várias pessoas se aproximavam para consolar um garoto loiro. Ele estava meio cabisbaixo e pelo rosto vermelho era fácil adivinhar que tinha chorado. Mesmo de longe pude admirar suas feições. Ele era tão bonito...
Sua pele era bem branquinha, talvez até mais que a minha. Os cabelos eram cacheados e os olhos eram tão azuis como o céu em seus dias mais lindos. Eu sei que isso foi muito gay, mas seus olhos são realmente muito bonitos.
Eu odeio ver as pessoas tristes, mesmo que sejam desconhecidas. As pessoas estão o rodeando, principalmente garotas, como se ele fosse um copo de água no meio do deserto. Levou um tempo para que se afastassem dele, mas finalmente chegou e eu aproveitei a oportunidade.
Com o coração meio acelerado por ser tímido e o rosto levemente corado em me aproximei dele e tentei iniciar uma conversa. Mesmo sentado ele ainda continuava maior do que eu.
– Olá — Ele me olhou com aquelas safiras e sorriu. Era um sorriso triste, mas ainda assim um sorriso.
– Oi pequeno. Eu nunca te vi pela escola, é novato? — Sua voz era tão suave. Senti meus pelos se arrepiarem.
– Sim, cheguei segunda. E você? estuda aqui a muito tempo?
– Desde que comecei a frequentar a escola. Agora to no terceiro ano — Ele era da mesma sala que Will.
– Nossa, é muito tempo — Ele riu pelo nariz e ficamos uns dois minutos — que para mim pareciam horas — até que eu resolvi ser direto.
– Por que você tava chorando loiro?
– Briguei com meu pai — O loiro disse cabisbaixo.
– Brigar com o pai pelo celular logo de manhã deve ser ruim mesmo. Por que brigaram? — Eu estou com medo de ele se irritar comigo por eu estar me intrometendo em sua vida, mas agora não dava pra voltar atrás.
– Ele quer que eu arranje uma namorada. Já faz mais de um ano que eu não fico com ninguém e ele acha isso ruim.
– Desculpe falar loiro, mas seu pai é um idiota.
– Eu sei — Ele riu — Sabe, quando eu me relacionar sério com alguém eu quero que seja especial e não qualquer um. Essa pessoa vai ser tudo pra mim, eu vou entregar meu coração pra ela e ela vai entrar o seu.
– Isso é muito fofo loiro. Posso te dar um conselho?
– Sou todo a ouvidos, pequeno.
– Ouça o seu coração. Quando você tiver certeza que gosta de alguém, invista. É uma minoria que pensa que nem você sabia? isso é muito bom — No momento seguinte eu parei de raciocinar. Ele me abraçou e seu perfume é tão bom que me inebriou por completo.
– Nunca ninguém me disse isso, as pessoas nem ligam pro que eu penso ou pra minha opinião. Obrigado pequeno, você é o primeiro em muitos anos.
– N-não há de que — Gaguejei e rezei para que ele não visse como eu estava vermelho.
– Até esqueci de perguntar como você se chama e quantos anos você tem.
– Carlos Eduardo, mas me chame de Cadu, dezesseis anos. E você?
– Relaxa pequeno. Você não precisa saber meu nome, ainda vai ouvir falar muito de mim- Não entendi o que ele quis dizer com isso, mas o sinal havia tocado e eu tinha que ir pra aula.
Ao longo do caminho eu vi pessoas me olhando com curiosidade, mas a maioria dos olhares eram de ódio como se esperassem me matar com eles. Eu estava ficando com medo daquilo. O que eu fiz agora?
– Oi — Cumprimentei os três como de costume. Sócrates sussurrou um ''olá'' e Michelangelo apenas acenou com a cabeça enquanto copiava a lição que não tinha feito. Mas Mariana, tinha me ignorado completamente.
– Ei, Nina. Que foi? — Ele me lançou o mesmo olhar daquelas garotas e se virou novamente. Nunca a tinha visto com aquele cara, sempre estava sorrindo e pulando de um lado para o outro. Me senti mal por ela estar brava comigo, ainda mais que por que eu não sabia o motivo.
– O que houve com ela?
– Nós não sabemos — Sócrates respondeu por ela — ta emburrada desde que entrou na sala. Relaxa, é só ignorar que depois passa. Deve ser a tpm.
Foi isso que eu resolvi fazer. Afinal, não era nada demais. Eu não tinha feito nada de errado, pelo que me lembro.
–-
Sócrates estava errado e eu sentia as primeiras lágrimas inundando o meu rosto. Foi tudo muito rápido e antes que eu pudesse racionar, eu estava no chão com os olhos transbordando. Não era pela dor que eu estava chorando, era mais pela vergonha. Todos estavam rindo de mim, até mesmo os gêmeos caíram na gargalhada.
– Pra diretoria agora Mariana! Carlos Eduardo, pede pro inspetor colocar um gelo nisso antes que fique roxo — A professora de educação física mal terminou de dizer e eu já corria para as escadas. Nina ainda me olhava com ódio nos olhos.
Encontrei Arthur na cantina enquanto ele gritava com o fundamental para que eles parassem de correr. Assim que me viu seus olhos se arregalaram.
– Oh meu Deus, o que aconteceu com você? você está com um calombo no rosto.
– Eu tava na aula de educação física. Era um jogo de futebol, meninos contra meninas. Levei uma bolada na cara e ainda pior, da minha amiga! eu não sei por que ela ta agindo assim comigo — Seus olhos se apertaram como se ele já soubesse a resposta.
– Me diga rapaz, sua amiga por acaso gosta de algum garoto do colégio? nem que seja só uma quedinha.
– O que isso tem haver Arthur? ela gosta de um carinha do terceiro ano chamado Enzo Álvares.
– E você falou com mais alguém hoje além dos seus amigos?
– Um garoto do terceiro ano. Não perguntei o nome dele, mas... — Finalmente percebi o que ele estava querendo dizer — Jesus cristo! eu estava falando com Enzo? o garoto prodígio que todas as garotas querem?
– Todos estão comentando sobre isso. Não sei como ainda não caiu nos seus ouvidos.
Duas coisas passavam pela minha cabeça agora.
Primeira: então era por isso que aquelas garotas estavam querendo me matar com um olhar.
Segunda: ele era mesmo muito bonito como comentavam.
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