– Por que você não me contou? — Berrei enfurecido. A raiva já se apossava de quase todo meu corpo.

– Eu estava te preparando para dar a notícia.

Ela chorava como um bebê e aquilo me destruía por dentro, mas eu não podia fraquejar.

– Mentira! acha que eu sou idiota? se eu não tivesse pegado o resultado na sua gaveta só iria descobrir no seu enterro!

– Cadu, por favor, me escuta anjo. Você é minha vida e sabe disso. Eu sei que fui egoísta, mas eu não estava preparada para falar disso. Me perdoa — Assim que ouvi suas palavras uma lágrima teimosa escorreu por meu rosto e logo depois outras a acompanharam. Eu a abracei com toda a minha força.

– Não sei oque vou fazer sem você. Vou virar um vagabundo, um perdido no mundo — Falei aos prantos. Senti suas mãos macias nos meus cabelos.

– Promete que não se esquece de mim? nunca vai esquecer dos momentos que passamos juntos? — Perguntou com a voz embargada.

– Claro que prometo! — E assim nós ficamos soluçando juntos o resto da noite. Eu não queria sair de seu abraço quente por que não sabia se o teria novamente.

–-

Duas semanas depois ela se foi. Teresa Mendes era uma mulher sorridente que deixava alegria por onde passava e também era minha mãe. Ainda não consigo acreditar que a perdi para um câncer. Eu acabei entrando em em depressão depois disso. Não saía do quarto para nada, nem sei qual foi a última vez que conversei com alguém da minha idade. Tive que correr muito para não repetir de ano.

No mesmo dia do enterro da minha mãe o telefone de casa tocou. Era uma voz grossa desconhecida. Disse apenas algumas palavras e depois desligou na minha cara sem esperar que eu respondesse. Aquilo foi o suficiente para me deixar em choque.

– Aqui é seu pai garoto. Teresa morreu e agora você terá que morar comigo. Agora estou ocupado, mas irei te ligar mais vezes.

Pelo menos ele é direto. Depois disso fiquei sabendo um pouco mais sobre ele. Ele continua com a vaca que fugiu e teve dois filhos. Agora eu estava em um avião pela primeira vez na minha vida indo de Pinhal* para o centro de São Paulo. Minha nossa, nunca fui para lá, mas sei que é uma cidade enorme. Sempre me senti deslocado em lugares grandes, não quero nem pensar em como me sentiria lá.

As horas de voo pareceram minutos por que eu não conseguia parar de pensar na minha nova família. Será que ele falou para mim deles? é claro que sim. Ele não me faria morar lá sem avisa-los antes. Ou faria?

– O avião pousou há dez minutos, desce logo pirralho — Um cara baixo com um bigode grande chamou minha atenção e eu senti minhas bochechas queimarem de vergonha. Peguei minha mala velha e saí do avião.

O aeroporto era gigantesco, parecia um formigueiro humano. Eu sentia borboletas nascendo no meu estômago lutando por espaço. O sujeito me disse para esperar no banco que ficava do lado da fonte e assim eu fiz.

Não sabia quando tempo já havia se passado, mas para mim era uma eternidade agora que eu iria encontra-lo depois de tantos anos. Mesmo que ele não seja o melhor pai do mundo vou tentar me esforçar ao máximo para não deixar as coisas tensas entre nós.

– Filho? — Eu congelei. Aquela era a voz do telefone, não conseguia acreditar. Parei de brincar com meus dedos e de vagar levantei minha cabeça. Ele não estava muito diferente, apenas alguns cabelos brancos que se acumularam com o tempo. Era alto, cabelo castanho e olhos verdes.

– Olá Ícaro. Catorze anos são muito tempo, senti sua falta — Vi seu sorriso vacilar quando não o chamei de pai, mas foram por tão poucos segundos que eu pensei ter imaginado. Ele me abraçou com força

– Você tem os cabelos claros e o sorriso de sua mãe — Ele disse quando me tirou do aperto — Quero que conheça minha família.

Foi só ai que eu notei as outras três pessoas atrás do meu pai. Uma mulher, um garoto com mais ou menos minha altura e uma menino.

– Esse é o garoto que vem morar com a gente? ele é um esquisitão — Disse o pequeno com um sorriso sem dois dentes no rosto. O maior deu um peteleco nele e se virou para mim.

– Não liga pro Caio. Eu sou o Bernardo, vai ser legal ter um irmão mais velho — Disse o garoto animado.

Pelo resto do dia fiquei arrumando meu quarto. As paredes eram verdes, minha cor favorita. A casa era muito luxosa, tinha dois andares e uma piscina no jardim. Ícaro não era lá o homem mais rico do mundo, mas seu cargo de advogado dava um salário gordo.

Eu pensei que Isabel me odiaria e seria como a madrasta da Cinderela ou algo do tipo, mas ela não era assim. Há algum tempo atrás eu jamais diria isso, mas essa mulher é bem legal. Nós não trocamos mais de dez ou quinze palavras, mas ela disse que eu era bem vindo e parecia estar sendo sincera.

Caio é um pirralho que não parou de fazer perguntas desde que me viu pela primeira vez. Tinha sete anos e era aquela criança que não te deixa em paz um minuto e você tem vontade de esganar.

Bernardo é dois anos mais novo que eu. É um garoto bem legal e engraçado, já me fez rir muito no primeiro dia.

Jantei e quando deu onze horas subi para dormir. A ansiedade ainda corria por meu corpo. Amanhã seria meu primeiro dia de aula e eu não sei se estava preparado para aquilo. Algo me diz que alguma coisa vai acontecer, só não sei ainda o que é.

Notas finais
* Pinhal é uma cidade do Rio Grande do Sul com 3.000 habitantes muito pequena e esse é o motivo de Cadu ter ficado tão nervoso com a mudança. Ele nunca tinha saído da cidade e São Paulo é realmente uma cidade enorme. Como eu não sei cidades de São Paulo eu não coloquei nada específico, desculpem '-' Enfim, até aí foi somente uma explicação A partir do terceiro capítulo começa a história de verdade. Eu não sou muito boa em descrever cor de olho, cabelo, etc me perdoem.