Notas iniciais
Sentiram saudades? :)

No dia seguinte à estreia do reality, Lara se sentia mais leve. Ela finalmente estava se encontrando. Passou muito tempo vivendo em modo stand-by, como se a vida passasse diante de seus olhos e ela fosse uma mera espectadora. Mas agora, ela se sentia novamente no comando. A presença de Shin havia despertado algo nela que ela mal sabia que existia: um instinto maternal muito forte. Ela estava mais próxima de Tomás, e mais do que nunca queria dar toda a felicidade do mundo para o menino. Naquele momento, isso significaria se aproximar de Shin.

O menino não sabia que o repórter era seu tio, mas o admirava muito. Ele era seu mais próximo contato com o país de seu pai e para uma criança de seis anos isso é mais que o suficiente. E por isso Lara se arrumava para ir mais uma vez ao encontro do coreano. Por seu filho ela encararia o olhar acusador e magoado de Shin quantas vezes fosse necessário, por mais que doesse muito nela mesma também. E mesmo com todas as evidências que apontavam o provável descaso que enfrentaria, a morena sorria ao se arrumar.

Algo mais havia acordado nela com o repentino aparecimento de Shin, mas esse sentimento ela tentava deixar bem escondido. Nunca foi boa em relacionamentos e como sua última experiência havia sido mais que catastrófica, resolvera deixar essa parte da vida de lado. Talvez estivesse um pouco traumatizada, mas nunca se deixava pensar demais nesse assunto, pois não valia a pena. "Então por que esse frio na barriga agora?"

Ao chegar à Parker, suas mãos suavam. Ela foi até a lanchonete que tinha combinado com o coreano e resolveu pedir um café, para tentar se distrair. Quando ela o percebeu se aproximando, sorriu em sua direção, porém ele não retribuiu o gesto. Ela se levantou, esperando que ele a cumprimentasse, mas ele simplesmente se sentou. Sem graça, ela se sentou e tentou puxar assunto “Pelo visto isso vai ser pior que eu imaginava.” Ele a cortou tão logo ela começou a falar:

— Eu tenho que voltar e gravar a cabeça do Parker Talentos, fala logo o que você quer. — disse ele rudemente.

Lara começou a sentir um mal estar e, enquanto falava não conseguia deixar de se perguntar por que estava ali. O rosto de Tomás veio à sua mente, e ela se resignou. Não desistiria sem lutar. Apesar de contar que seu filho adorava a cultura coreana, Shin acabara de dizer que não se aproximaria do menino.

—Por que não, Shin? O garoto é seu sobrinho! E mesmo sem saber, já te curte pra caramba. Ele conta pra todo mundo que te conheceu! — disse ela, sentindo o conflito do repórter. Ele podia até tentar, mas não conseguia esconder totalmente que gostava do menino. Em um tom um pouco mais baixo ela adicionou — Você recebeu o pedido de amizade dele?

— Ele tinha que conviver era com o pai! Não comigo — disse Shin em voz alta de maneira repentina. Ela percebeu algo em seu olhar se quebrando. “Por minha causa. Sempre.” Novamente ele começava a explicar a exaustão que sentia por sempre ter que arcar com as consequências de seu irmão gêmeo. Ela sabia bem disso e sabia que antes o repórter fazia isso por amor ao irmão. Mas depois da confusão com Lara muita coisa mudara. Aparentemente até mesmo o sentimento por seu gêmeo.

— Cansei de arcar com as burradas do meu irmão!

Então era assim que ele via Tomás. “Uma burrada? Como ele podia ser tão injusto?” Sentiu a voz embargar quando respondeu:

— O Tomás não é uma burrada.

Ele tentou se corrigir, obviamente percebendo a besteira que tinha falado. Mas não deixou de lado o ataque à Lara:

— Não fui eu que fiz o filho em você. — disse pausadamente— Foi meu irmão!

“Ai. Essa doeu mais ainda.” Até quando ele jogaria isso na cara dela? Ela tentou achar as palavras certas para responder, mas era difícil. O mal estar estava aumentando e ela sentia que ia chorar. Tentou se concentrar. Shin a estava repreendendo como se ela quisesse que ele assumisse o papel de pai de Tomás e não era isso que ela queria. Ela adoraria ter o repórter em sua vida e na vida do filho, mas não podia obrigá-lo a isso. Não era esse seu objetivo.

—Eu não vim te pedir pra assumir os erros do Chang.

Isso pareceu surpreendê-lo, mas ele foi rápido ao responder:

— Nem poderia. O que é que você quer então? — disse ele com um tom de... “decepção?”

Aquilo deu novo fôlego à Lara e ela explicou sobre como o menino estava empolgado com o evento coreano que aconteceria dali alguns dias:

— Descola um convite pra mim e pro Tomás? Você nem precisa se relacionar com a gente se não quiser, mas proporciona uma tarde inesquecível pro menino! É pedir muito?

Os olhos dele se encheram de ternura, e Lara sentia que iria conseguir o que queria. Mas, para seu desapontamento, Shin foi absoluto:

— Já esgotei minha cota de convites, Lara. Sinto muito.

Ele levantou-se e saiu rapidamente antes que ela pudesse protestar. Lara ficou sentada um tempo, dizendo a si mesma que era para não desperdiçar o café.

Na verdade, ela tinha medo de voltar para casa. Medo da decepção de Tomás. Medo da responsabilidade que voltava a lhe afogar agora que a presença de Shin não era mais uma possibilidade. Não que ela quisesse impor à ele o fardo de criar seu filho. Mas ele era como uma máquina do tempo e a morena se sentia como a jovem que dera à luz a Tomás. E agora ele sairia novamente de sua vida, e ela seria puxada bruscamente de volta ao presente.

Sentiu vontade de chorar. Por seus erros, por não ser capaz de fazer nada útil pelo filho e principalmente por ter errado tanto no passado. Ela tivera um sentimento muito forte por Shin e por isso havia decidido se entregar a ele. Ela agira em função de seus sentimentos e não com a razão. “Mal de família”. Desde então, nunca mais havia se permitido pensar com o coração. Seu medo de falhar era tão grande, que cordas a prendiam à realidade, mesmo que ela tentasse se soltar.

Mas tinha que ser forte. Agora que havia reaprendido, pelo menos em parte, continuaria a guiar-se pelo amor. Por Tomás. Então devia ir para casa, para o filho. E tentaria fazê-lo esquecer de vez essa história de Coréia e de Shin-Soo.