Dois Verões

5 Um impacto que nunca veio


Notas iniciais
Capítulo um pouquinho mais curto que os outros, mas compensa pelas cenas importantes! Boa leitura ♥

Xaveco ouvia atentamente a história que Denise lhe contava, mesmo que não estivesse entendendo muita coisa. Os dois caminhavam na praia alguns passos atrás dos amigos, que se esforçavam para levar Cebola, Marina e Franja para casa. Pela areia, o caminho era um pouco mais cansativo, mas bem mais curto e menos movimentado do que pela cidade.

Para alguns, a festa não terminara muito boa. Cascão estava de péssimo humor, ainda dividindo com Do Contra a tarefa de carregar seu melhor amigo. Mônica também havia perdido a graça da noite, em parte porque sua primeira tentativa de conversa com Do Contra depois do fim do namoro fora um absoluto desastre e em parte porque sabia que Cebola ficara assim por causa dela. Agora estava se perguntando se fora uma boa ideia ficar com aquele garoto no começo da festa. Então ela se ocupara em ajudar Franja, enquanto Magali e Cascuda andavam junto com Marina, que também passava mal.

Para outros, entretanto, a noite fora puro sucesso. Nimbus se enturmara com Bia e alguns amigos dela e acabara ficando lá no luau, mesmo com os outros indo embora. E Xaveco se divertira como não fazia há muito tempo.

Quando ia ao luau, normalmente se ocupava com os jogos do fliperama, ou matava tempo com seus amigos na praia, sem entrar muito na festa em si. Mas daquela vez ele tinha feito tudo o que não tinha coragem de fazer sozinho.

Começara com a bebida. Ele e a ruiva beberam mais um ou dois drinks e foram para a pista. A noitada inteira era uma confusão de lembranças divertidas e um tanto sem sentido em sua cabeça. Dançaram, ele a apresentara para as pessoas que conhecia, conversaram besteiras, riram de piadas sem graça nenhuma, ele a ensinara a ganhar na máquina de pinball, ela o ensinara a coreografia de uma de suas músicas favoritas (não que ambos tenham tido muito sucesso nessas duas empreitadas), enfim, se divertiram como se não houvesse nenhum problema no mundo.

— Será que a gente também tá andando torto daquele jeito? – o loiro arqueou as sobrancelhas, olhando Franja cambalear precariamente ao lado de Mônica.

— Claaaaaro que não! – ela respondeu, girando os olhos exageradamente. – A gente nem tá bêbado!

Ele não disse nada, mas riu alegremente em resposta. Realmente não estavam nem perto do estado dos três amigos, mas também não tão sóbrios quanto Cascuda ou Magali. Haviam bebido o suficiente para ficarem livres, leves e soltos. E só.

— Xaveco, me ajuda! – Denise gritou de repente, quando estavam quase chegando na casa. – Eu quero tirar uma foto bem ali! – completou, apontando as pedras altas, onde pequenas ondas batiam.

Ele a encarou um pouco confuso, assistindo-a jogar na areia as sandálias que segurava e andar vagarosamente até a água. “Vem!” ela gritou, fazendo-o acordar do transe e deixar os próprios tênis ali mesmo antes de segui-la. O garoto subiu nas pedras primeiro. O mar molhava as barras de seu jeans, que na confusão ele nem se lembrara de dobrar, e tornava a superfície um pouco escorregadia. O topo do pequeno monte, no entanto, estava praticamente seco.

A ruiva se apoiou nele, calculando mentalmente o melhor trajeto para cima. Quando estava quase chegando, acabou pisando em falso. Involuntariamente soltou um gritinho agudo e fechou os olhos à espera de um impacto que nunca veio. Quando os abriu novamente, a primeira coisa que viu foram os olhos castanhos do loiro. No impulso ele a puxara pela cintura para evitar a queda, puxando-a para bem perto de si. Ela sorriu sem graça, tentando se convencer de que as borboletas que perambulavam em seu estômago haviam surgido apenas por causa da bebida.

— Desculpa. – ela sorriu meio sem graça, mordendo o lábio inferior. Ele não disse nada, apenas seguiu aquele gesto com o olhar, o coração trabalhando a mil. Naquele segundo, todas as barreiras que ele erguera para ficar longe dela vieram abaixo, uma por uma. – O que a gente veio fazer aqui mesmo? – perguntou, parecendo confusa.

— Eu... Er... Não lembro. – arqueou as sobrancelhas. Realmente não se lembrava, mas não tinha importância, afinal era só uma ideia bêbada que provavelmente não fazia sentido nenhum. – Você quer descer?

— Não. – respondeu simplesmente.

Ele já ia soltá-la, mas o jeito que Denise o olhou o fez continuar ali. Ela sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo cacheado que insistia em escorregar para os olhos do garoto e em seguida pousou os lábios sobre os dele, tão suaves que quase não dava para sentir.

De início o beijo foi lento, mas à medida que os segundos passavam, foi se tornando a expressão de sentimentos que eles guardarem para si por todo aquele tempo. Ele apertou ainda mais a cintura dela, como se pudesse aproximá-la ainda mais, enquanto ela deixou uma das mãos subir para o rosto dele, enquanto a outra passeava pelo pescoço, as unhas deixando uma trilha de pequenos arranhões.

Quando se separaram, ambos estavam com as respirações e o coração acelerados. Denise repousou a cabeça no ombro de Xaveco, escondendo o rosto na curva de seu pescoço simplesmente porque não sabia o que dizer. Uma das mãos dele continuou firme nas costas dela, por debaixo da blusinha curta que vestia e a outra seguiu para os cabelos, puxando os elásticos para desfazer as maria-chiquinhas, que àquela altura da noite já estavam praticamente soltas. Deixou a mão escorregar ao longo dos fios ruivos, numa carícia sem jeito, mas atenciosa.

Ela cheirava a shampoo de morango, álcool e o mesmo perfume doce que usava há anos. Era quase ridículo a forma com que ele tinha aquele cheiro gravado na mente desde que se lembrava. Tinha passado tanto tempo lutando contra as coisas que sentia por ela, mas agora tudo isso parecia bobagem.

Ficaram ali por vários minutos, só com a lua, a praia e as estrelas de testemunha. Talvez estivessem parados por dois, dez ou trinta minutos, ele nunca saberia. Era como se o tempo estivesse congelado, porém ainda assim passando muito rápido.

— Isso tá me deixando com sono. – ela murmurou, a fala um pouco enrolada por causa da embriaguez.

— Tudo bem. – ele riu baixinho – Vamos?

— Uhum. – concordou, mas por mais alguns segundos nenhum dos dois se moveu.

Lentamente ela se soltou do abraço, parando para encará-lo por um momento. Dali para frente, Xaveco nunca mais se esqueceria daquele instante. O olhar dela seria mais uma lembrança presa em sua memória como se estivesse marcada a ferro, com o sorriso meio torto, os cabelos desgrenhados e a maquiagem um pouco borrada. Mais linda do que nunca. Mais presente do que nunca. Mais dele do que nunca.

Desceram das pedras devagar, com cuidado para evitar outros acidentes. Já na areia, pegaram seus sapatos e cambalearam para dentro de casa, um se apoiando no outro. A sala e os corredores estavam vazios, mas as luzes de ambos os quartos estavam acesas, indicando que ainda havia gente acordada.

Ela parou no corredor, sem saber como se despedir. Num súbito momento de coragem, ele a puxou para um outro beijo, mesmo sabendo que a qualquer momento alguém poderia aparecer e atrapalhar o momento. Denise sorriu, o beijando de novo, de novo e de novo, até que finalmente se separaram e ela foi para o próprio quarto, não sem antes lhe mandar um beijinho no ar.

O garoto ficou lá por um tempo encarando a porta fechada. De repente, era como se seu mundo inteiro tivesse virado de ponta-cabeça.

E ele gostava mais assim do que da maneira normal.

Notas finais
As pessoas ficam tão corajosas quando bebem... O problema é quando chega a manhã seguinte e bate a sobriedade, hehehe. Foi à partir das cenas desse capítulo que nasceu o enredo da fic, então to doida pra ver o que vocês acharam! No próximo capítulo teremos a continuação dos dramas, porque não pode faltar, né? Beijos Mia