Dois Verões
15 Certeza
Notas iniciais
Denise
Não dava mais pra fingir que estava tudo bem comigo. Só queria ir embora daquela praia, passar vários dias enfurnada no meu quarto fingindo que nada daquilo acontecera e depois voltar ao normal, como sempre fiz.
Por que eu não conseguia simplesmente me resolver? Não havia nada de diferente nele agora. Ele continuava fazendo as mesmas piadas idiotas de sempre, gastava horas debatendo com Cebola e Cascão sobre o último gibi do Cosmoguerreiro, o próximo filme do Armadura Dourada ou, sei lá, qualquer coisa besta da qual eles gostam.
Mas nesses dois anos que se passaram desde que conheci o Xavecão, eu fui descobrindo que tudo o que eu gostava nele sempre estivera ali, mesmo que eu nunca tivesse percebido.
A verdade é que eu queria ser como as meninas, que se jogam nas coisas sem medo e arriscam tudo por amor. Eu nunca fui assim. Sempre funcionei muito bem sozinha e, pra falar a verdade, tenho medo de compromissos. Só por isso nunca namorei, já que chances não me faltaram.
Dessa vez então, o meu medo de estragar tudo era maior que tudo. Porque não era um cara qualquer que eu posso simplesmente esquecer. Era o Xavier, o garoto que me conhecia desde a infância e que por tantos anos fora o meu melhor amigo.
Agora era um pouco tarde pra ter medo, uma vez que eu já estraguei tudo, porém ainda assim não consegui fazer nada. Só saí de perto e deixei ele falando com aquela garota que estava obviamente interessada.
Suspirei pesadamente, tentando conter as lágrimas que teimavam em querer cair. Se alguém dissesse pra a Denise de três anos atrás que hoje ela estaria chorando que nem uma idiota por causa do Xaveco, ela provavelmente não acreditaria e ainda riria da minha cara. Ali no estacionamento fazia um frio muito irritante e enquanto abraçava os meu próprios braços pra me esquentar, eu só conseguia pensar que estava no fundo do poço, numa situação tão ridícula que seria engraçada se não fosse comigo.
Pra piorar, dei de cara com o dono dos meus pensamentos m encarando com um olhar questionador assim que levantei os olhos.
— O que você quer? – perguntei, metade de mim querendo que ele fosse embora e a outra metade querendo que ficasse comigo pra sempre.
Ele não respondeu, só se aproximou, parando a poucos centímetros de mim como se não soubesse o que fazer. Eu devia estar sentindo vergonha por estar sendo vista daquele jeito, mas de repente isso deixou de ter importância.
— Eu to com frio. – dei um leve puxão na camisa dele, porque não tinha coragem de pedir o que realmente queria, mas precisava desesperadamente fazê-lo continuar ali.
Adivinhando os meus pensamentos, ele me abraçou. O puxei um pouco mais pra perto, vendo nos olhos dele tudo o que aconteceria a seguir.
Quando me beijou, milhares de borboletas tomaram o meu estômago. Suas mãos seguraram a minha cintura, num toque urgente e eu fiquei nas pontas dos pés, abraçando seu pescoço para me aproximar ainda mais. Parecia um sonho que eu não queria que acabasse.
Ele interrompeu o beijo, mas deixou a testa encostada na minha para não se afastar. Era como se me pedisse permissão pra continuar, embora pra mim fosse impossível dizer qualquer coisa que não fosse sim. Deixei um suspiro ansioso escapar, sem parar de olhar em seus olhos. Ele foi o primeiro a quebrar o contato, olhando em volta por um instante. Só então me dei conta de que ainda estávamos no meio do estacionamento do parque e que aquilo era muito estranho.
— Vamos sair daqui... – murmurei, antes que perdesse a coragem. Eu nem sabia ao certo o que queria fazer, mas só de pensar em ficar longe dele por um segundo que fosse, me batia um desespero que nunca senti antes.
— Você tem certeza? – perguntou, o rosto assumindo um tom avermelhado quando entendeu o que eu queria dizer. – Denise eu não acho que... – se interrompeu, provavelmente ao ver a minha expressão de tornando chateada diante daquela rejeição. – Quero você mais que tudo. Eu só não quero que seja... Desse jeito. – meneou com a cabeça em direção à van atrás de nós.
Eu não soube o que dizer diante daquela afirmação, então o beijei de novo para mostrar que não me importava. Ele correspondeu à altura mordendo levemente o meu lábio inferior, antes de descer a boca para o meu pescoço, espalhando beijos que fizeram o meu corpo todo arrepiar.
Se afastou outra vez, me olhando como que para ter certeza. Toda aquela cautela, apesar de estar me deixando louca, também me fazia gostar dele ainda mais. Eu nunca fiquei com um garoto que me tratou com tanto cuidado. É claro que também nunca quis ir tão longe com ninguém. Apesar de não ser muito ligada à essas besteiras românticas, parte de mim sempre quis esperar por um cara especial. E ela ele, só ele.
Diante da minha resposta positiva, ele pescou a chave da van no bolso da bermuda, se soltando de mim só pelo tempo suficiente para que entrássemos. Me sentei na primeira fileira de bancos e ele se juntou a mim, me beijando incontáveis vezes. Soltou o coque do meu cabelo, as mãos logo descendo para as minhas costas, me puxando até que eu estivesse sentada em seu colo. Me beijou outra vez, de um jeito lento, que contrastava com a rapidez com que sua mão passeava pelo meu corpo, escorregando até estar firme na minha coxa.
Acariciei sua nuca, entrelaçando os dedos nos cachos de seus cabelos e puxando de leve para que se distanciasse alguns centímetros. Ele me lançou um olhar confuso, com uma expressão séria que não era comum dele. Seu rosto estava levemente corado, a respiração descompassada, os lábios entreabertos. Era surreal pra mim querer aquele garoto daquele jeito. Por mais que estivéssemos completamente grudados, não parecia perto o suficiente.
Coloquei a mão em seu rosto, num gesto carinhoso e sorri antes de encostar meus lábios nos dele, sem deixar o beijo se aprofundar. Fui fazendo uma trilha de beijos que desceu por seu queixo, a barba por fazer me dando cócegas, até o pescoço. Beijei cada uma das pintinhas que ele tinha ali e deixei um chupão que com certeza ficaria marcado. Ele respondeu apertando a minha cintura por baixo da blusa, enquanto a outra mão continuava pressionando a minha perna sem cerimônia nenhuma.
Puxei sua camiseta para cima, jogando-a em um canto qualquer. Me joguei para trás até ficar deitada no banco, puxando-o junto comigo. Agora foi a vez dele espalhar carícias pelo meu pescoço e colo, até onde o pequeno decote da blusa o deixava ir. Enfiei novamente as mãos em seus cabelos, arranhando de leve sua nuca enquanto jogava a cabeça para trás e soltava um suspiro prazeroso que não consegui conter.
Ele apoiou a mão ao lado da minha cabeça no banco e se afastou outra vez. Me aproximei para lhe dar outro beijo, que ele correspondeu com muito mais entusiasmo. Eu podia sentir cada parte do corpo dele junto ao meu e por mais que achasse que o conhecia bem, nunca pensei que fosse encontrar aquele lado intenso e atordoante. Ele fazia tudo parecer tão perfeito, que era como se estivéssemos numa cena de filme romântico. Apesar de pela segunda vez os nossos beijos terem começado num impulso, era mais seguro do que qualquer coisa planejada. Eu queria beijá-lo até que seus toques se tornassem familiares e ele fosse só meu.
Quando ele tornou a se afastar, havia alguma coisa diferente na maneira com que me fitava. Os cabelos continuavam caindo sobre os olhos, os lábios continuavam vermelhos como antes, mas consegui sentir que ele não tinha mais tanta certeza como antes.
— Será que você ainda vai me olhar desse jeito amanhã? – sussurrou, suspirando pesadamente. – Eu não posso fazer isso. – continuou, tornando a se sentar. Passou a mão pelos cabelos aborrecidamente, desalinhando-os mais ainda. – Não sabendo que pra você não significa nada. – completou, me olhando nos olhos uma última vez, talvez esperando que eu fizesse alguma coisa.
Eu só consegui ficar estática, assistindo enquanto ele pegava a camiseta de volta no chão, deixava a chave em cima do banco e saía, sem nem se dar ao trabalho de voltar a fechar a porta da van.
Precisei de alguns minutos para processar tudo o que acontecera. O Xaveco, entre todos os outros que eu já conhecera, era o garoto mais incrível no planeta. Eu estava completamente apaixonada por ele, sem ter mais como negar ou voltar pra trás. Mas tinha dado um jeito de estragar tudo, como eu tanto temia.
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