Dois Mundos: Entre A Magia E O Poder.
11 O primeiro sacrifício
Notas iniciais
Mais uma vez eu me encontrava perto das nuvens, com o vento castigando meu rosto e meus cabelos virando uma bola de fios emaranhados. Eu me sentia tão bem voando que quase me esquecia aonde estava, o que estava fazendo, ou qualquer outra coisa. Quando eu voava, me sentia a pessoa mais poderosa e livre do mundo inteiro.
Eu apreciava tão intensamente meu “passeio” que parecia até que eu estava sozinha, montada naquele hipogrifo – apesar de estar dando uma “carona” para a insuportável da Tris. Clarisse se recusou abertamente a partilhar seu hipogrifo com ela, e antes que Caio pudesse sequer abrir a boca para se oferecer, eu o fiz. Preferi carregá-la eu mesma. E isso não tem nada a ver com ciúmes ou com o fato de eu ter percebido os olhares que a garota lançou para Caio. É claro que não.
A viagem durou várias horas, e conforme nos aproximamos dos limites da cidade, luzinhas começaram a pulular em nossa visão.
– Aterrise assim que passar pelo primeiro prédio! – berrou Tris em meu ouvido.
Assenti e fiz o que ela ordenou. Qualquer que fosse o caso, nós ainda não tínhamos nenhum plano, e segundo Héstia, Tris saberia bem o que fazer.
Clarisse e Caio pareceram hesitar antes de descer ao chão, mas assim fizeram.
– E então? Por que paramos?
– Fiz o que Triz me pediu, Caio.
– E desde quando alguém aqui escuta o que essa idiota diz? – Clarisse ainda estava um pouco ressentida com Tris e seus “amigos”, por conta do modo como nos trataram ao nos encontrar naquele beco.
Tris se limitou a encará-la nos olhos, inexpressivamente.
– Então... e quanto ao plano? – eu disse mais para quebrar o gelo, do que qualquer outra coisa.
– Eu não tenho um. – Tris disse como se fosse obvio.
Caio arqueeou as sobrancelhas. Clarisse inalou o ar pela boca.
– SE VOCÊ NÃO TEM UMA PORCARIA DE PLANO, POR QUE É QUE NÓS PARAMOS?! – quando Clarisse berrou a plenos pulmões, me senti extremamente grata à Tris por não estarmos em uma avenida lotada de gente.
– Porque eu achei que devíamos parar. Mesmo sem um plano, não sou tão burra a ponto de entrar na cidade montada em hipogrifos e simplesmente chegar na Casa Branca destruindo tudo. Não seja tão ridícula, Clarisse. Sem contar que vocês são os semideuses, lembram? Vocês não são os melhores? Então, vão em frente e montem um plano.
Em toda a minha vida, nunca tive que me segurar tanto para não socar a cara de alguém. Decidi jogar o jogo dela.
– Acho que você está certa. – disse lentamente. – Héstia cometeu um erro em te mandar conosco. Você é inútil. Pode ir embora. Não precisamos de você, vamos dar o nosso jeito.
Talvez eu tenha pegado um pouco pesado, já que para mim, uma das piores coisas que existem é se sentir inútil, impotente. Mas aquilo talvez resolvesse o problema de arrogância de Tris.
Clarisse tinha uma expressão de satisfação no rosto e Caio parecia um pouco incomodado.
Tris abriu e fechou a boca. Depois de repetir o movimento, finalmente disse:
– Não vou embora. Por mais que não precisem de mim, minha Senhora me deu uma missão. Nunca poderia voltar para lá sem cumpri-la.
– Então se esforce um pouco mais para isso. – eu disse. – Se você fosse mais gentil, talvez já estivessemos quase lá.
A garota me olhou com raiva.
– Ótimo. – rosnou ela.
– Hmmm... temos um mapa da Casa Branca, por acaso? – perguntou Caio subitamente.
– Nós não precisamos de mapa. – Clarisse disse suspirando, como se de repente estivesse decidindo nos contar algo crucial, que deveria ter sido dito há muito tempo. – A Casa Branca é um dos locais mais importantes dos Estados Unidos, e é aqui que está o Olimpo. Isso, somado ao fato de que tivemos mais de um presidente semideus, nos mostra que com certeza existem entradas secretas por lá.
Nós três encaramos Clarisse, um tanto perplexos – não por conta das entradas secretas e dos presidentes semideuses, mas sim porque saber disso poderia ter evitado aquela discussão. Se Clarisse fosse um pouquinho mais prestativa de vez em quando...
– E como é que achamos essas entradas? – perguntou Caio carrancudo.
– Nós não achamos. Ela acha. – Clarisse apontou para Tris, que pela primeira vez, se encolheu um pouco.
– Como? – a pergunta quase não saiu, parecia que a palavra tinha se arrastado para fora da garganta da garota. Tris não queria mostrar que estava tão confusa.
– Segundo ouvi no acampamento, quando Rachel Dare ajudou Percy no labirinto, ela simplesmente... sentia para onde deveria ir. Parece que ela não precisava pensar, não precisava se esforçar. Hum, até porque... se aquela desvairada precisasse ter usado o cérebro, Cronos já teria esmagado o Olimpo e todos nós há muito tempo.
Clarisse nunca perdia a oportunidade de debochar ou criticar alguém. Tentei ignorar. No meu curto período no Acampamento, Rachel havia sido uma das pessoas mais gentis com quem tive a oportunidade de falar.
– Certo, então por que ainda estamos aqui, parados? – Caio disse em um tom de crítica que eu ainda não conhecia. – Não deveríamos já estar lá? Ou se esqueceram que achar as esferas é apenas o primeiro passo, para só então, podermos ir atrás do cetro de minha mãe?
Quando Caio verbalizava a situação, tudo era muito mais assustador. Nós tínhamos pouquíssimo tempo. Quase nada.
– Certo. Vamos lá então. – disse Tris.
Washington era enorme. Andamos por quase uma hora e estávamos completamente perdidos. Nunca desejei tanto poder aparatar. Mas ainda não podia. E como tudo aquilo era simplesmente muito diferente de Saint Cattepole, eu não fui de utilidade alguma.
Então, Caio finalmente sugeriu que pegássemos um taxi e foi o que fizemos (eles me explicaram que táxis eram carros que levavam as pessoas por aí, ou algo do tipo).
Quando já nos encontrávamos dentro do carro, no caminho certo, fiquei completamente revoltada conosco. Podíamos ter resolvido tudo rapidamente, de maneira simples. Por que perdemos uma hora inteira andando, se era fácil assim? Sem contar o tempo que sempre perdíamos brigando. Já era mais do que tempo de parar com isso tudo... se sempre perdessemos metade do tempo fazendo nada, nunca alcançaríamos nosso objetivo.
Meia-hora depois, o motorista, é claro, não nos deixou exatamente na Casa Branca. Mas ele nos deixou perto.
Era em uma rua movimentada, e nós não sabíamos muito o que fazer. Encarei Tris por alguns segundos, na esperança de que algo se acendesse dentro dela e ela fizesse o que tinha de ser feito. Para minha surpresa, isso realmente aconteceu. Tris caminhou apenas alguns passos, parando em uma entrada de esgoto. Sim, esgoto.
– Você realmente não acha que vamos...?
– Não é esgoto. – respondeu a oriental, sorrindo. – Névoa. Venham dar uma olhada.
Me coloquei ao seu lado para poder ver melhor. Onde deveria haver apenas água suja e fedor, havia um túnel de pedra.
– Vamos descer? – perguntei.
– É isso aí.
Decidi ser a primeira. Olhei por cima dos ombros para ter certeza de que nenhum pedestre desocupado prestava atenção ao que estávamos fazendo e lancei meu corpo para baixo. Cai de pé, e apesar de a altura não ser grande, senti o impacto com o solo percorrendo da ponta dos meus dedos até os meus joelhos, fazendo minhas pernas tremerem e me forçando a arquear um pouco. Quando me recompus, todos já estavam dentro do túnel.
O caminho era inteiro de pedra, e o mesmo tipo de rocha que recobria as paredes e o teto, estava também no chão. Era tudo tão igual que minha cabeça começou a girar. A iluminação, apesar de existir, era fraca. Talvez, pois já não era usada há muito tempo.
– Ugh. Parece que não usam essa coisa há séculos. – estrilou Clarisse.
– Bom, séculos, acho que não. Décadas, talvez. Até porque, não acho que nosso atual presidente seja um semideus... – brincou Caio.
Deixei que Tris tomasse a frente e a seguimos por alguns minutos – ou algumas horas. Tris dobrava a esquerda, depois a direita, descia, subia, depois dobrava a esquerda outra vez. Em um certo momento Tris nos fez virar a esquerda, para logo depois dizer:
– Opa, opa. Acho que não é por aqui. Vamos voltar. – e então, fomos pela direita.
– Esses túneis não acabam nunca? – suspirou Caio.
– Eu não sei. – respondeu Tris. A garota estava tão concentrada, que não percebeu que a pergunta de Caio havia sido retórica.
– Hm... como isso funciona? – perguntei. – Quer dizer, você realmente só sente para onde deve ir?
Tris parou para pensar.
– Mais ou menos, eu acho. Os símbolos são o que mais ajudam... mas caso não haja símbolo algum, vou pela intuição. – respondeu ela.
– Símbolos? Mas que símbolos? – perguntou Clarisse.
– Ora, símbolos como aquele – Tris apontou para um tijolo que quase tocava o teto. Estreitei os olhos e depois de me esforçar bastante, pude ver que bem no meio da pedra, havia algum desenho minúsculo. Parecia uma letra grega.
– Puxa. – Caio parecia fascinado. – Como você reparou nisso desde o começo? Eu poderia andar por esses túneis durante mil anos e eu nunca teria visto uma marca sequer.
Tive que concordar com Caio. Para mim teria sido impossível ter visto aquilo. Tanto é, que aquele já devia ser o vigésimo túnel pelo qual passavamos e só agora eu tinha reparado – e somente porque Tris nos mostrou.
– Ah, eles são bem nítidos para mim. Achei que vocês também vissem eles claramente.
Depois disso, tentei prestar mais atenção às paredes, mas simplesmente não aconteceu. Eu corria os olhos por todas as pedras frenéticamente, mas não conseguia ver nada. Uma vez, posso jurar que vi aquela letra grega, delta. Mas antes que eu pudesse ter certeza, Tris nos mandou virar e eu o perdi de vista.
Quanto mais longe íamos, mais escuro parecia ficar e mais alto nossos passos ecoavam.
– Parem. – Tris disse de repente, com a voz profunda. – Vocês ouviram isso?
– Ouviram o qu-
E então, eu ouvi. Parecia distante, mas ao mesmo tempo, parecia perto — como se uma presença preenchesse cada túnel daquele labirinto subterrâneo. Era como se algo grande estivesse se movimentando muito rápido em nossa direção. Uma sensação gelada se espalhou do interior do meu coração para todas as outras partes do meu corpo. Vi os outros engolindo em seco.
– Será que devíamos correr? – não soube dizer se Caio estava fazendo piada ou perguntando seriamente, mas correr foi exatamente o que fizemos.
Corríamos atrás de Tris feito loucos, torcendo apenas para que ela não cometesse nenhum erro. Seguíamos a toda velocidade, quando fomos obrigados a parar com um tranco, quase caindo. Senti como se meu coração estivesse caindo pelo meu corpo, meus joelhos amoleceram e os pelos da minha pele se arrepiaram. Nós demos de cara com a coisa da qual estavamos correndo. Fugimos direto para ela.
Era grande e ocupava basicamente todo o espaço a nossa frente, bloqueando qualquer passagem. Tinha a cor do próprio túnel, como se tivesse nascido da terra e em seus olhos eu podia ver o mal — como se tudo o que era ruim no mundo houvesse sido condensado, derretido e depositado ali.
Ficamos atônitos por alguns segundos, predendo a respiração, até que a fera avançou em nossa direção.
– Bom, acho que só nos resta atacar. – Clarisse pronunciou essas palavras e se lançou contra o monstro.
A besta se desviou da lança da filha de ares mais rápido do que eu jamais julgaria possível para uma criatura daquele tamanho. Caio, Tris e eu nos juntamos e passamos a ajudar.
Conseguimos acertar alguns golpes, e de cada local ferido, escorria um líquido dourado. Parecíamos estar quase vencendo, quando a fera desferiu um golpe com seu braço gigante. Acertou Clarisse e Tris, em cheio, lançando as duas contra a parede. Caio parou por um segundo e olhou para elas desesperado.
– Ei, seu idiota! – berrei com raiva. – PARE!
Por alguma razão, o monstro me obedeceu. Ele literalmente parou e ficou me encarando. Caio aproveitou a deixa e enfiou sua espada no peito do gigante, que rugiu e começou a se desfazer em areia.
Corremos para ajudar as outras duas meninas. Por sorte, elas estavam conscientes.
– Foi apenas uma pancada. – disse Clarisse, certamente amenizando sua situação.
– Você não é filha de Afrodite, é? – perguntou Tris, subitamente, como se nenhuma luta nem nada do tipo tivesse acabado de acontecer.
– Não. Minha mãe é mortal. – respondi meio confusa com uma pergunta daquelas, especialmente naquele momento.
– Então como você pode ter charme? – perguntou ela me deixando ainda mais perdida.
– Charme?
– Sim. Você mandou o monstro parar e ele te obedeceu. Alguns filhos de Afrodite, os mais poderosos, tem esse poder – de persuadir ou até mesmo forçar os outros a fazerem o que querem. – Caio se intrometeu na conversa, com um semblante pensativo.
– Mas eu não sou filha de Afrodite. – disse com a voz firme, tentando colocar um fim naquela discussão sem sentido.
– Talvez seja Hermes. – Clarisse se manifestou dessa vez. – Sabe, como ele é o senhor dos ladrões, talvez essa coisa tenha a ver com ele...
– Gente, eu realmente acho que esse não é o melhor momento para discutir meu parentesco... temos uma esfera para pegar, lembram? – disse aquilo tentando parecer decidida, mas a verdade é que eu odiava aquele assunto. Ao mesmo tempo em que eu queria saber quem era meu pai, eu temia aquilo mais que tudo. Sem contar, que eu detestava quando eu fazia algo completamente sem querer, e todos achavam que eu, por alguma razão, tinha poderes especiais.
Os três me olharam apreensivos. Não entendia porque se importavam tanto com aquele assunto. Aquilo era problema meu e de mais ninguém.
– Okay, então. – disse Caio levantando as mãos, em sinal de redenção.
Em silêncio, andamos por mais alguns minutos, até que finalmente encontramos uma escada.
– É isso? – perguntou Clarisse.
–Sim. – respondeu Tris.
– E onde é que isso vai dar? – perguntei meio receosa. E se isso acabasse com nós quatro presos pelo FBI ou sei lá o que?
Tris deu de ombros. E então, por falta de outras opções, subimos.
Saímos em uma espécie de dispensa. Haviam sacos de farinhas, arroz, sacos de lixo e até materiais de construção ali.
– Aposto que dá na cozinha. – disse Clarisse apontando para a portinha no fundo da sala.
– Hum, sem querer ser pessimista mas... como é que vamos achar a esfera? – perguntou Tris. – Quer dizer, guiar vocês pelos túneis foi fácil mas... não acho que eu seja muito útil aqui em cima.
Nos entreolhamos encurralados. Se tentassemos procurar uma bola roxa pela Casa Branca sem plano algum, seríamos pegos. E depois, só pelos deuses.
– Ei! – tive uma ideia repentina. – A caixa. Talvez ela funcione como um ímã... Principalmente agora que contém uma esfera.
Clarisse pegou a caixinha que estava guardada em sua mochila e entregou para Caio.
– Acho que essa é com você, Ranbin. – disse ela.
Ele pegou a caixa e apesar de eu não ter visto nada acontecer, na mesma hora em que sua pele entrou em contato com a madeira, ele se dirigiu para a porta – e nós também.
– Nossa. Que rápido. – comentou Tris. – Qual é a sensação? Você simplesmente sente uma força ou...?
– É mais como um formigamento... não sei explicar. – respondeu ele.
– Puxa. Que coisa mais gay. – rebateu Clarisse debochada.
De fato, a dispensa dava para a cozinha, e por sorte, ela estava vazia.
– Que horas são? – perguntei. Aquela era a primeira vez desde que entramos em Washington, que essa pergunta me vinha na cabeça.
– Pouco mais que três da manhã. – respondeu Caio apontando para um relógio de parede.
– Por Ares! Quanto tempo ficamos naqueles túneis?
Achei melhor não responder a pergunta. Até porque, eu não me surpreenderiam se dissessem que haviam sido dias lá dentro.
Seguimos cautelosamente e em silêncio pelos corredores. Duas vezes, quase fomos surpreendidos por seguranças, mas no último momento, conseguimos no esconder.
– Onde acham que vai estar? – perguntei.
– Espero estar errado. Mas acho que todos sabemos onde a esfera provavelmente se encontra. – disse Caio. – No escritório particular do Poderoso Chefão.
Suspirei. Claro que aquele seria o lugar mais óbvio. O escritório do presidente com certeza era o cômodo mais bem protegido da casa toda.
Continuamos andando, e não deu outra. Paramos em frente a porta do escritório, sem saber como continuar.
– Ué... não deveria estar cheio de seguranças aqui? – Tris perguntou.
– Acho que nem eles podem vir aqui. Sem contar, que olha. – disse Caio apontando para um identificador ao lado da porta. – Tem senha, identificação digital e aposto que um belo alarme aí. Só o presidente entra, é isso.
– E como vamos entrar, então? Não podemos demorar. – disse.
– Quando eu abrir a porta, vocês devem ser MUITO rápidos. – foi tudo o que Clarisse disse. Então, quando eu entendi o significado de suas palavras já era tarde demais. A filha de Ares golpeou primeiro o aparelho de indentificação e depois a tranca da porta, com sua lança elétrica. Menos de dois segundos depois, sirenes soavam enlouquecidas e luzes vermelhas piscavam fora de controle.
Entramos os quatro dentro da sala e tramos a porta por dentro – com a lança. Passos e gritos já podiam ser ouvidos, vindos do lado de fora do corredor.
– Vamos Caio! – disse.
– Calma, calma. – disse ele tentando mantes a calma, revirando tudo. – Achei!
Me virei. A esfera se encontrava dentro de um globo de vidro, que junto com outros artigos raros, enfeitava a estante principal da sala. Quando Caio pegou o globo, começaram a forçar a porta.
– E agora? – perguntou ele de olhos arregalados.
Vasculhei a sala com o olhar, em busca de algo que pudesse ajudar.
– Vamos pular – eu disse abrindo a única janela da sala.
– O que?! – exclamaram todos juntos.
– Mas estamos no terceiro andar! – protestou Clarisse.
– Vamos! Agarrem um dos lados da cortina e pulem!
Provavelmente sem pensar, Tris agarrou um dos lados da enorme cortina e saiu janela afora. Clarisse me encarou por um segundo, mas ao ouvir a porta rachando atrás de nós tomou sua decisão. Vi em seu olhar uma contagem regressiva – Caio entendeu também. No três, Clarisse retirou sua lança da porta, agarrou a cortina e pulou, ao mesmo tempo em que Caio me segurava firme pela cintura e pulavamos juntos pelo outro lado. A cortina não era assim tão grande – e tampouco resistente o suficiente para aguentar eu, Caio e Clarisse ao mesmo tempo, então caímos livremente de uma altura de provavelmente dois metros e meio. Contudo, mal tivemos tempo para sentir a dor, pois já tivemos que nos levantar e correr – fugindo dos seguranças, dos cães policiais e de sei lá o que mais que estava atrás de nós.
– Por aqui! – ouvimos o berro de Tris e bem a tempo avistamos ela e Clarisse entrando por uma passagem no chão, ao lado de um arbusto.
Caio e eu corremos o mais rápido que nos era permitido, de mãos dadas. Pulamos no túnel e ao tocarmos o chão, a passagem se fechou atrás de nós.
Corremos atrás de Tris pelo que pareceram horas – mas talvez tivessem sido segundos, ou ainda dias. Só percebi que estava prendendo minha respiração quando faltou o ar. Expirei tão pesadamente que todos pararam.
– Me desculpem, eu...
– Não, Lyss. – disse Tris. – Vamos parar um pouquinho, minha cabeça está rodando.
Assenti, agradecida. Talvez, só talvez, ela não fosse assim tão ruim.
– Ahhh, essa foi por pouco. – a voz de Caio estava rouca e quando ele se pronunciou, notei que ainda segurava minha mão. Decidi não soltar.
– É melhor continuarmos. Não aguento mais esse tanto de terra em cima da minha cabeça. – disse.
– Sim. Vamos.
Não demorou muito para estarmos de volta à rua. Tomei uma lufada do pesado ar daquela cidade enorme.
– Como vamos achar nossos... pássaros? – perguntou Caio olhando em volta.
– Se abaixem! – Tris berrou tão alto e tão subitamente que me surpreendi por ninguém ter vindo nos interceptar. Nos abaixamos, e por cima de nossas cabeças um animal alado demoníaco passou rasando.
– Ah. Não era desse pássaro que eu estava falando. – disse Caio.
Nos colocamos a correr novamente, passando pelas ruas e edifícios como se elas fossem pinturas borradas de um velho almanaque. Percorremos uma distância enorme em pouquíssimo tempo, e quando nos demos conta estavamos encurralados em um beco. O mostro aterrisou e rosnou, furioso.
– Lá vamos nós outra vez. – suspirou Clarisse erguendo sua lança.
Desmbainhei Mousití e Caio e Tris fizeram o mesmo com suas armas. A criatura investiu como uma bomba nos fazendo dispersar. Ao tentar sair do caminho, Clarisse tombou para o lado. Avancei com a espada na mão, mas antes que o bronze pudesse entrar em contato com seu corpo, o animal se esquivou como um relâmpago, guinchando.
A batalha continuou se desenrolando por tanto tempo quanto parecia ser possível. Desferíamos golpes atrás de golpes, mas os poucos que acertavam o monstro, pareciam servir apenas para irritá-lo. Meus braços já estavam dormentes de empunhar a espada. Foi então, que parei por um segundo – e fui atingida. A garra pesada acertou minhas costas, rasgando do meu ombro até a base da minha cintura – foi uma sorte que não tenha me rasgado ao meio. A dor se espalhou pelo meu corpo de maneira rápida e eficaz. Desabei no chão, incapaz de mexer sequer um músculo do meu corpo. Sentia o sangue deixando o meu corpo de maneira patética. Por que ele não poderia ficar onde deveria?
– Lyss! LYSS! – Caio berrou a plenos pulmões, mas seu chamado parecia distante. Não havia como responder. Ele se abaixou ao meu lado, em uma posição protetora e murmurou coisas. Mas eu não conseguia entender. Não entendia nada.
– Sua carona chegou! – ouvi a voz de Tris ao fundo. – Vocês devem ir! Levem Lyss para algum lugar seguro! Vão!
“Vão”? Por que ela não iria vir conosco? Minha cabeça girava e girava, e quando Caio me levantou em seu colo, a vertigem quase me fez desmaiar. Mas eu não podia abandonar meus amigos justo naquele momento.
– Eu posso encontrar outra saída! Você mesma já viu! – ouvi Tris gritando em resposta a algo que Clarisse tinha dito. – Se vocês não forem agora, ela vai morrer! Vão! Já cumpri minha missão! A partir de agora, não tenho mais o que fazer com seu grupo!
Se eu conseguisse forças para sorrir, eu gargalharia da maneira mais sarcástica possível. Tris estava louca? Achava mesmo que a abandonaríamos com um monstro daqueles depois de tudo o que ela tinha feito por nós? Não era possível que ela fosse tão arrogante a ponto de pensar que largaríamos ela ali sozinha.
Mas então, senti o vento em meu rosto e a ideia do sorriso se apagou da minha mente – estávamos no ar. Eu, Clarisse e Caio. O que estávamos fazendo?! “NÃO PODEMOS DEIXÁ-LA ASSIM!” eu tentei gritar. Mas não adiantou. Eles não pareciam me ouvir. Na terceira tentativa de me pronunciar, perdi a consciência – exatamente no mesmo momento em que Tris se preparava para atacar de novo, em algum lugar lá embaixo, em um beco escuro.
Fale com o autor