Dois Lados
9 Capítulo 8
Hoje seria o funeral de Mary. Estava quase pronta. Coloquei meu vestido preto e meus saltos, e coloquei a pulseira que meu pai havia me dado quando eu tinha 10 anos. “Be Brave” – Seja corajosa. Era o que tinha escrito ali, naquela pulseira dourada e fininha. Era o que eu precisava levar como lema naquele dia.
– Você está pronta? – minha mãe abriu a porta do quarto e se escorou no portal.
– Sim. – eu respirei fundo, ainda olhando para a minha imagem no espelho. E voltei o olhar para ela.
Eu estava com aquele simples vestido, meus cabelos longos e castanhos estavam soltos e bem penteados.
– Querida... Você tem certeza que... – ela me deu a mão.
– Sim. – eu a interrompi. – Eu não posso pensar neste vestido como um passado doloroso. É só um vestido. – Só o vestido que eu usei no funeral do meu pai. Exatamente daquele jeito.
– Tome. – minha mãe pôs um colar de ouro velho que havia pegado na sua caixa de joias, que tinha uma pedrinha verde clara que brilhava. – Combina com os seus olhos. – ela sorriu para mim.
Minha mãe parecia brilhar na luz do Sol que iluminava o meu quarto. Seus cabelos tingidos de vermelho escuro tinham voltas encantadoras que desciam até abaixo de seus ombros. O vestido que ela usava era um preto solto amarrado com um fio dourado na cintura. Seu batom vermelho realçava ainda mais os olhos verdes, de quem eu havia puxado.
– Ah, desculpe não ter avisado. Mas, enquanto você ainda dormia, a Tammy veio aqui e pediu para que você fizesse o discurso de hoje.
Eu assenti com a cabeça, mas eu não queria ter de falar na frente de todo mundo. As minhas memórias com a Mary, não eram as mesmas que as outras pessoas tinham com ela. É... Vou dizer isso. Parece convincente.
Eu e minha mãe entramos pela porta de trás da igreja, já que eu iria fazer o discurso. Alice, tinha sido deixada na casa da minha Tia Margaret. Entrei no salão e vi minha mãe acenar da igreja para mim.
Eu olhei pela cortina que levava a igreja e avistei Kate sentada ao lado da mãe e do pai. E Walt que estava no banco da frente guardando o lugar de seus pais, que recebiam atenciosamente aos convidados.
– Oi. – eu ouvi uma voz atrás de mim. Eu pulei de susto. Não podia ser... Eu não podia vê-la agora. E me virei.
– Ah! Oi! – eu respirei aliviada. Era o Josh. – Eu só...
– Te assustei? – ele riu.
– Não... Quer dizer, sim, mas está tudo bem. – eu me sentei ao lado dele em um divã que tinha naquele salão. – O que faz aqui?
– Naquele dia, em que eu fugi de casa, sabe? Bem, já era meia-noite, e a polícia acabou me pegando. Pensando que eu estava fazendo vandalismos pela cidade. – ele riu. – Então, eles me colocaram para fazer serviços comunitários. E o único lugar onde eu poderia ficar longe do meu pai, é aqui.
– Ah, me desculpa, fui eu, né? Você deveria estar escondido, e eu te levei pra rua...
– Não, está tudo bem. – ele olhou nos meus olhos. – É você quem vai fazer o discurso?
– É. – eu baixei a cabeça.
– É chato, não é? Eu já passei por isso. Eu tive que fazer o discurso do funeral da minha mãe... – ele olhou para os anjos de escultura que tinham no teto do salão.
– Sua mãe?
– É... Há 3 anos... Mas, quer saber? As memórias que eu tenho com ela, não são as mesmas que os outros têm. – era exatamente o que eu disse. É exatamente o que eu vou dizer.
– É verdade. – nós sorrimos um para o outro por alguns segundos, até que o Padre nos interrompeu, e me chamou para o discurso.
– Mary Tina Anderson. 6 de maio de 2013. – éramos obrigados a ler isto no início do discurso. – Tenho certeza de que, Mary, deixou lembranças em nossos corações, e essas lembranças foram boas. Mas, não posso falar muito, pois estaria falando sobre ela e eu. E este, não é o principal objetivo desta cerimônia. Porque, as memórias que eu tenho com ela, com certeza, não são as que ela tem com vocês. Obrigada.
Eu olhei para o salão que agora tinha suas cortinas abertas. Josh sorria para mim e aplaudia fortemente junto com os convidados que ali estavam. Mas, era só ele que eu ouvia. Só ele que eu via.
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