Dois Lados
43 Capítulo 42
Walt sentou-se com cuidado, pela sua expressão, ainda estava sentindo dor.
– O que... – ele olhou ao redor e viu o caos que o salão se encontrava. – Uau...
– Emma! – ele olhou para a mesa onde Emma estava deitada. Ele se levantou aparentemente tonto, se recostou na mesa com dificuldade e pôs mão com cuidado no rosto de Emma. – O que aconteceu... Eu... Emma, me desculpe... – ele engoliu seco, procurando palavras para falar.
– Tá tudo bem, Walt. – falou Emma tossindo. – Não foi... sua culpa.
Walt segurou a mão dela com firmeza e seus olhos se encheram de lágrimas, as mãos deles tremiam, eu nunca havia visto eles dois tão envolvidos daquela forma, eu não queria atrapalhar, mas eu tive que interromper.
– Walt... Temos que tirar essa faca dela. – falei baixinho.
– Tudo bem, eu vou ficar aqui. – falou ele segurando a mão dela mais forte.
Eu não pude olhar o procedimento. A mãe de Josh foi enfermeira, ele provavelmente saberia lidar com isso, então deixei que ele o fizesse. Eu confiava nele para isso.
– Vic, temos que fazer alguma coisa com o braço do Michael. – falou Charlotte, bem atrás de mim.
Eu havia me esquecido do pobre Michael, ele ainda estava desacordado no chão. O sangue parara de sair quando Misha saiu do corpo dele, de alguma forma aquilo estancou o sangramento.
Estava cansada de tentar entender tudo o que acontecia. Nada mais fazia sentido.
– Eu não sei o que fazer, Charlie. Temos que esperar ele acordar... – senti um pesar ao dizer aquilo. Me senti insensível. De alguma forma, eu havia me acostumado àquilo. Por mais que Michael fosse alguém com quem eu criei afeição, tinha que ser forte.
Charlie, então, decidiu deixá-lo em um sofá deitado.
Com dificuldade, eu segurei suas pernas, e ela segurou os braços dele e fizemos o máximo de esforço para levá-lo até o sofá.
Ao passarmos por Misha, que apenas assistia a situação em silêncio, ele lançou um sorriso sarcástico e doentio para mim.
– O que é tão engraçado, idiota? – falei.
– Vocês fazendo esforços além dos limites, para tentar salvar criaturas inúteis e que obviamente já vão morrer mesmo. – riu ele.
– Claro que você não entende, seu babaca. Você não tem sentimentos, você é um idiota metido, que resolveu entrar na história pra atrapalhar. – soltei Michael no sofá e fui até Misha. – Eles são nossos amigos. E eu me importo com eles e nada do que acontecer, vai me fazer deixá-los para trás.
De repente, um grito estridente percorreu o ambiente. Era Emma.
– Josh, está tudo bem aí? – perguntei assustada.
– Sim... – falou ele de dentes cerrados. – Eu acho... – ele parecia estar fazendo esforço, pela sua voz cansada.
Charlotte e eu fomos ver o que estava acontecendo.
– Ela disse que conseguiria se curar sozinha. – falou Josh ofegante, com a faca ensanguentada nas mãos. – Eu não sei o que está acontecendo.
Emma estava suando, ela parecia fazer esforço para fazer aquilo sarar.
– Emma? – falou Walt. – Emma!
– Eu... estou bem. É só que – ela fez uma careta. – dói muito fazer isso. Eu estou fraca, da briga, e curar exige muito esforço. Eu vou ficar bem, não se preocupem. – ela respirou fundo, como se estivesse concentrando.
– O que eu faço agora? – perguntou Walt.
– Walt. – ela lhe lançou um olhar típico de Emma, como se dissesse “para com isso, garoto”.
– Ok... – disse ele calmamente. – Ok.
Eu não pude conter o riso.
Estava aliviada que Emma estava conseguindo. Walt estava de volta. Michael, ainda respirava. Estava tudo... Quase bem.
Nós paramos sem saber o que fazer. E então, Josh resolveu quebrar o silêncio:
– Vamos interrogar logo esse cara. Não quero ter que olhar pra ele nem mais um minuto. – falou ele com raiva apontando para Misha.
– Tudo bem. – falei. – Você está bem?
– Estou. – disse Josh frio, sem nem tirar o olhar de Misha. – Mas vou ficar melhor quando esse idiota morrer.
Eu nunca havia escutado Josh falar daquele jeito. Ele sempre foi um pouco durão com algumas coisas, mas ele não tinha tanta sede de sangue com os inimigos. Por um segundo, eu pensei que ele não era mais o cara que me deu o colar no dia da Welcome Party. O cara por quem me apaixonei. Porém, eu me lembrei de tudo o que ele havia me dito, por todos os momentos que ele não desistiu de mim e nem dos meus amigos. Mas, eu não o culpava por isso. Com tudo o que vem acontecendo, todos nós mudamos.
Olhei para Walt, que ainda observava Emma deitava na mesa, coberta de sangue e arranhões.
– Estou feliz que você está vivo. – sussurrei.
– Também estou feliz por estar vivo. – ele riu. – E por vocês estarem... bem.
Nos abraçamos por longos segundos. Ele sempre foi meu melhor amigo, eu nunca poderia suportar perder mais alguém. Principalmente, por minha causa.
– Então, Misha. Comece a falar. Como você e seus capangas chegaram aqui? – perguntou Josh.
– Mudak. – sussurrou.
– Mu... O que?
– Mudak. Ele me chamava assim o tempo inteiro. Deve ser algum xingamento em russo. – disse Walt olhando para o homem com desprezo.
– Tanto faz. Fale logo, ou terei que obrigá-lo.
Misha gargalhou por longos minutos.
– Ah, garoto, você acha que consegue me ameaçar? – falou Misha com desdém. – Eu já passei por muito, garoto. Não saberia me torturar. – falou com o sotaque mais forte que o usual.
Josh ofegou.
– Então, vamos começar com coisas simples, Senhor Sou o Melhor. – Josh segurou com firmeza a faca que tirara de Emma e virou a cadeira de Misha. – Vou perguntar novamente. Como você chegou aqui?
– Não interessa, garoto, me tire logo daqui! – disse Misha impaciente.
Josh não pensou duas vezes. Segurou o dedo mindinho de Misha e o cortou fora.
Um grito estridente percorreu o salão. O sangue jorrava sem parar da mão de Misha que começara a se debater.
– Vamos incrementar isso. – disse Josh segurando o ombro de Misha. – Como vocês chegaram aqui e por que estão aqui?
– Nós... – a voz do russo tremia, aparentemente ele se segurava para não chorar.
Honestamente, continuava a me surpreender com Josh. Nunca o vi daquela maneira, também nunca imaginaria que ele pudesse ter coragem de fazer aquelas coisas, por mais que eu soubesse que era o certo. Além do mais, algo me dizia que Misha tinha a Pedra.
– Fale! – gritou Josh.
– Nós viemos atrás da Pedra. Não podíamos deixar os Feiticeiros tomar conta de todo aquele Poder. A Pedra é do nosso clã por direito. – falou Misha incerto. – Temos procurado por ela por anos e anos.
– E a encontraram? – perguntei.
– Sim.
– Por que é sua a Pedra? Por que isso dos feiticeiros? – perguntou Josh estranhando a história.
– Ah, isso é parte das regras, mudak. Não posso falar. – disse ele respirando fundo.
– Responda ou o mudak aqui vai cortar mais um dedo seu! – falou Josh se aproximando ao ouvido de Misha.
Eu não podia mais ver aquilo. Resolvi então checar Michael que estava atrás de mim em um sofá.
Ele ainda respirava com dificuldade. Mas ele estava vivo.
De repente, ele levantou em um suspiro.
– O que... O que aconteceu? – falou ele confuso. Ele olhou para o braço e percebeu que o havia perdido. – Meu Deus... Victoria! O que aconteceu comigo? Eu... Onde estamos?
– Eu sinto muito, Michael. – falei. – Aconteceu muita coisa desde que você sumiu.
– Eu sumi? Do que você está falando? – ele olhou ao redor. Sangue, estilhaços, mesas e armários quebrados. – Conseguimos sair do túnel, mas...
– Na verdade, fizeram esse trabalho pela a gente. – respondi.
Outro grito. Josh estava cada vez mais furioso, mas contanto que conseguisse as respostas necessárias...
Eu tentei resumir tudo o que havia acontecido, desde o sequestro de Charlie e eu, até quando ele foi possuído por um metamorfo russo maluco que torturou Walt durante dias.
– E então, achamos Josh e viemos pra cá. E achamos esses caras e acabamos com eles. Bom, isso é tudo. – falei sentando ao lado dele.
Michael deu mais uma olhada ao redor. Outro grito.
– Entendi. – ele respirou fundo como se estivesse tentando achar uma peça do quebra-cabeça. – Josh está conseguindo respostas, não é?
– Sim. Sobre a localização da Pedra.
– Ótimo, pois não temos muito tempo. – falou ele se levantando. – Vou dar uma olhada por aí, ver se acho algo útil.
– Claro. Só não saia daqui, por favor. – pedi.
Josh ainda estava interrogando Misha, que já estava sem dois dedos da mão direita e um da esquerda.
– Josh... – cheguei perto dele. – Isso é mesmo necessário? O que ele já falou?
– Ele disse que os feiticeiros vieram atrás deles pra matá-los, pois sabiam que eram espertos para conseguir a Pedra, ele mencionou que os metamorfos são meio que “donos” da Cidade Subterrânea, então conhecem melhor os lugares. – respondeu Josh enxugando o suor da testa.
– Mande-o dar a localização e depois acabe com ele. Não podemos perder tempo.
Josh assentiu com a cabeça e o fez.
– Então... Você a ouviu. Diga onde a Pedra está.
– Não adianta eu dar a droga da localização. Vocês vão estragar tudo! – falou ele com desdém.
– Você quer mesmo perder todos os dedos não é? – falou Josh com raiva.
– Não é questão de perder. Eu posso dizer. Está no cofre no subterrâneo, depois daquela grande a oeste. Blá blá blá. Mas você vão estragar tudo, porque os feiticeiros estão vindo e vocês não tem chance! – gritou ele.
Então Josh ofegante de raiva, andou para longe e jogou a faca bem no meio do peito de Misha, que foi sufocando aos poucos e morreu.
– O portão está trancado. – gritou Michael de longe. Ele havia escutado o que Misha havia dito.
– Temos que tentar abri-lo rápido. – falei.
– Afastem-se. Deixem comigo. – falou Emma se levantando com dificuldade da mesa.
Uma onda de felicidade me atingiu novamente. Emma estava bem, ela havia se recuperado, Michael estava acordado e Misha finalmente morto.
Emma lançou um pequeno feitiço que fez com que a fechadura se abrisse.
– Ótimo. – falou Michael. Ele às vezes parecia um explorador obsessivo que tinha curiosidade de participar de aventuras perigosas apenas para comprovar seus estudos. Talvez fosse isso mesmo. Mas pelo menos, ele havia nos ajudado até então, e havia sido nosso amigo.
Ele foi na frente descendo as escadas, logo depois foi Emma, Walt e Charlie.
Eu e Josh ficamos.
– Josh. – ele olhava estático para o chão. – Vai ficar tudo bem, está acabando. – eu segurei a mão dele. Quase chorei ao dizer aquelas palavras, pois não caíra a ficha de que tudo estava a algumas horas de acabar. Logo, eu poderia estar em casa, curar minha mãe, e voltar a minha vida normal e feliz com minha família. Não via a hora disso acontecer.
– Assim espero. – falou ele sério. Mas depois ele voltou-se para mim e me beijou intensamente. – Eu te amo. Eu fiz isso por você e faria tudo de novo se fosse preciso. Não importa quantos eu teria que matar, mas eu só me importo com você, Vic.
– Eu também te amo. E não fale isso, não teremos que matar mais ninguém. – falei.
– Você já parou pra pensar que esse pode ser nosso último beijo? – disse ele segurando meu rosto.
Eu lhe dei um tapa no braço.
– Como assim o último? Pretende acabar o nosso namoro depois de tudo?
– Não, claro que não. É só que... Eu tenho muito medo de você e aquele Poder. Ele pode mudar as pessoas. Ele pode fazer você ir esquecendo aos poucos sua essência e as pessoas que você costumava amar, pode te tornar uma feiticeira... Eu não sei se isso é muito bom, é só que... Eu tenho medo de te perder. – seus olhos se enchiam de lágrimas aos poucos. Agora parei para perceber que nunca havia visto Josh chorar.
– Josh... Não, não fale isso. Nós vamos arranjar um jeito de... Sei lá, parar isso. Eu também não sei se quero isso. Só irei fazer por minha mãe e por vocês. E Mary, é claro. – falei o beijando novamente. – Não vai ser o último.
– Achamos! Achamos! – gritou Michael.
Eu e Josh corremos para o cofre. Michael tinha uma pedra do tamanho da palma da sua mão, verde e brilhante, parecida com uma esmeralda, de fato bonita, mas causadora de um caos inemaginável.
– Muito bem, Emma, guarde-a. – falou Michael entregando-a com o maior cuidado.
Emma se concentrou bastante e a fez sumir. Provavelmente ela foi para um universo paralelo qualquer.
– Para a Cripta! – falou Michael animado.
Andamos por ali por uns trinta minutos ou mais, mas que pareciam uma eternidade.
Michael observava o lugar juntamente com Emma para procurar a Igreja. Charlotte andava ao meu lado calada assim como Josh.
– Charlie. – tentei. – Está tudo bem?
– Sim. – ela olhou para frente. – Estou apenas me situando... Digo, você disse que estou aqui há anos e, sei lá, só queria entender tudo.
– Somos duas. – eu ri.
– Estamos perto. – falou Emma. – Mais um pouco para o Leste e chegamos.
– Na verdade, é pro Norte, maninha. A propósito, feliz aniversário!
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