Dois Lados
30 Capítulo 29
Quando acordei, percebi que Josh já havia descido. Tomei um banho rápido, e desci para o refeitório.
– Bom dia. – falei ao chegar.
– Bom dia. – respondeu Josh, que veio me dar um beijo. – Eu ia levar essas coisas pra você... – ele apontou pra uma bandeja de madeira escura que tinha um prato com torradas, um suco de laranja e uma maçã.
– Ah, não precisa. Mas obrigada mesmo assim. – respondi com um abraço.
Emma nos olhou e depois desviou o olhar de volta para o prato.
– Emma... Precisamos conversar. – sussurrei sentando ao lado dela.
– É mesmo? Agora precisamos conversar? – disse ela jogando a torrada mordida no prato. – Acho que deveríamos ter feito isso há muito tempo, não acha?
Eu respirei fundo e mantive a paciência. Sabia que ela estava chateada e que ficava assim quando estava triste ou indignada com alguma coisa. Talvez, estivesse os dois.
– Vamos... – levantei e fui para o deck velho atrás do portal do refeitório, que dava para um campo aberto com algumas flores plantadas ao redor da casa. E ela me seguiu.
Ela olhou para mim tentando dar um olhar de desprezo, mas a única coisa que conseguiu foi parecer uma garotinha mimada.
– Ok, o que está acontecendo? Você não é assim. Digo, sei que depois da... Morte de Kate, todos ficamos abalados. Ela era minha melhor amiga, e nem por isso saio descontando em todo mundo um sentimento meu.
– Olha, eu não estou descontando em ninguém... Quer dizer, não é só isso que está me deixando assim. – respondeu ela sentando na escada do deck.
– Então, o que é? – perguntei.
– É só que, estamos a pouco de uma cidade estranha que mal conhecemos e que pode nos destruir, você leu o livro e sabe muito bem do que eu estou falando. E o que mais precisamos agora, é ficar unidos e ter alguém confiável por perto. E eu, sinceramente, não confio nele... Ele acabou de chegar, e já quer comandar tudo.
– Emma, eu sei que nós temos uma parte do mapa, mas fora isso... O que mais nós temos? Quem nós temos? Nossa única escolha é deixar que ele nos guie, e sempre ficarmos armados, caso algo aconteça.
– É... Tanto faz. – disse ela com desdém.
– Mas, você está assim desde antes de Michael aparecer...
– Não... Não é nada...
– Você gosta dele, não é?
– O que?! Quem?! – disse ela parecendo nervosa.
– Walt. Você gosta dele. Eu percebi isso desde aquele dia que vocês saíram pela floresta. Você não precisa esconder isso, Emma, é...
– Eu não estou gostando de ninguém! Claro que não! Como você pode dizer isso? Walt? Qual é... – protestou ela, soando artificial.
Emma se levantou e voltou ao refeitório.
Durante o café da manhã não vi Michael e ninguém comentou nada, então resolvi não perguntar, tudo estava acontecendo por minha culpa, inclusive a chegada dele, então era melhor eu não me pronunciar.
Poucos minutos depois que acabamos, Michael adentrou na recepção sujo de terra e um pouco desgrenhado e tinha a mesma caixinha de madeira nas mãos.
– Onde estava? – perguntei me levantando.
– Bem, alguém tem que procurar a Cidade, não é? – disse ele sorrindo, esperando uma reação ansiosa.
– Conseguiu alguma coisa? – perguntou Walt.
– Ah, consegui! Não estamos muito longe... Fica há uns dois quilômetros daqui. Mas...
– Mas o que? – perguntou Emma levantando-se da cadeira.
– Vamos ter que nos separar. – disse ele.
– O que?! – todos protestamos.
– Não, temos que ir todos juntos! – disse Emma pondo-se a frente.
– Na verdade, temos dois trabalhos a fazer. – começou Michael, tentando nos acalmar. – Primeiro, achar a Varinha, ela está com a guardiã, pra isso, precisamos de uma bruxa... – ele olhou com cautela para Emma.
Emma respirou fundo. Percebi que ela estava prestes a explodir, já tinha estresse demais e para piorar ela odiava o fato de que um completo estranho estava liderando tudo.
– Tudo bem, eu vou. Onde fica?
– Não é muito longe, porém a entrada é mais complicada do que parece... Acho que precisa levar o jogador com você. – disse apontando para Walt.
O olhar de Emma estava quase gritando “não!”.
– Ah não, não precisa, eu sei me virar sozinha, acredite. – disse ela se dirigindo as escadas.
– Na verdade, acho que não poderia decifrar o enigma da rocha e afastá-la sozinha, precisa-se de no mínimo duas pessoas, e esse cara tem o físico para isto, então, acho melhor levá-lo. Confie em mim. – disse Michael.
Confiar nele era a última coisa que Emma faria. Então me pronunciei.
– Ele tem razão, Emma. Digo, você leu o livro... E eu também, sabemos sobre o portal da guardiã. Sabe que precisa de companhia.
– Tanto faz. Vamos logo. – chamou Walt sem nem olhar para ele. Walt engoliu seco e subiu as escadas atrás dela.
– E então, qual o próximo passo? – perguntou Josh me abraçando, como se dissesse “se ela for, eu vou junto”. Tenho certeza de que me cuido. Mas de certa forma, eu adorava quando ele dava uma de protetor, o que era quase sempre.
– Bem, o próximo, é entrar na Cidade Subterrânea. Como sobramos apenas nós... Vou explicar. – ele abriu o mapa de madeira. – Aqui é a entrada. – apontou ele para o que parecia portões. – Mas esse lugar é cheio de enigmas, então, precisamos apenas usar um elemento. A inteligência. Esse lugar nos fará pensar que precisamos de força, nos fará passar por testes. Mas não precisamos de nada disso. Apenas a inteligência e...
– A verdade. – completei observando atentamente as curvas do mapa que ainda me atraiam.
– Isso mesmo! – disse Michael com seus olhos arregalados como se tivesse encontrado o maior tesouro de sua vida. – Bem, vocês não tem nenhum segredo, não é? – ele nos olhou.
– A esse ponto, eu realmente não tenho nada a esconder. – respondi.
– Nem eu. – disse Josh. – Pode parecer estranho, mas sinto falta de quando meu único segredo era esconder que meu pai era um bêbado velho. – ele riu.
– Bom, ótimo! Então, vamos falar com nossa sábia! – disse Michael indo para o lado de fora do deck.
– Quem? – perguntou Josh. Mas Michael já estava longe demais, então o seguimos.
Pouco tempo depois Emma e Walt apareceram.
– Ei, espere aí! – disse Walt para Michael.
– Sim. – respondeu Michael se virando.
– Pensando bem... Por que justamente uma bruxa que tem que pegar a varinha que destrói os bruxos?
Michael olhou por alguns segundo para Emma e percebeu que ela estava distraída demais conjurando garrafas de água, para responder a pergunta de Walt.
– Bem, a Varinha é um objeto mágico especial, então, imagine a guerra que seria se qualquer ser humano, pudesse pegar a Varinha? Qualquer um poderia acabar com a raça dos bruxos. E bem, esta não é a lei da natureza, não é mesmo? Todos nós somos ensinados a aprendermos com nossos erros, até mesmo os bruxos. Do que adiantaria serem mortos se não aprendessem? A Varinha foi feita para um bruxo que tem um coração puro, um bruxo que tenha recusado viver como suas origens, um bruxo que não vive para matar, foi feita para uma única pessoa obtê-la. Um bruxo especial. E bem, acredito que sua amiga, seja a pessoa certa. – sorriu Michael.
Neste momento, senti a aura de agonia e raiva de Emma se dissipar. Ela sabia disso, mas no fundo nunca tinha pensado nisso, e nunca havia recebido algo assim.
– Obrigada. – disse ela tentando soar fria.
Acho que depois das belas palavras que Michael havia proferido sobre Emma, todos aceitaram mais o fato de que Michael estava ali, realmente para ajudar. E logo todos nós ficamos mais a vontade.
– Michael! – gritou Tessa do campo de margaridas. – Encontrei!
– Ah, Tessa, muito obrigado! – agradeceu ele. Tessa havia trazido um livro de magia e duas pedras em um saquinho de couro.
– O que?! – disse Emma, surpreendida. – Esse livro... é o próprio da... Guardiã? – ela tocava a capa como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
– É sim, minha querida. – respondeu Tessa com aquele seu sorriso que nunca saia do rosto.
– Mas, onde a senhora... Não é possível, segundo a lenda a guardiã queimou e destruiu o livro com os próprios feitiços dele.
Emma havia me contado que todos os livros de magia, objetos mágicos, e até mesmo os bruxos e criaturas mágicas, quando destruídos com os próprios feitiços que ele ensina, não pode ser recuperado. Nem mesmo da memória de quem já o estudou. É destruído eternamente, como se nunca houvesse existido.
– Bem, na verdade, como diz o nome... é uma lenda. – respondeu Tessa com uma voz pacífica. – Eu o mantenho desde 1952.
– O que? Como a senhora tem acesso a isso? Digo... é realmente o da guardiã? – perguntou Emma.
– Ah, minha querida, mas é claro que é, — ela segurou da mão de Emma. – é da minha mãe.
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