Dois Lados
24 Capítulo 23
Kate. Kate não estava ali. Senti como se o céu estivesse desabando naquele momento. Senti algo me engolindo. Ela não podia morrer.
– Onde ela... – então eu parei e olhei para todos. E lembrei que Kate havia ficado na cabana, trancada no quarto. – Não, não, não... – e corri pra dentro da casa.
Scott se levantava aos poucos, Elizabeth e George me observavam entretidos.
Então algo me parou. Não conseguia entrar por mais força que eu fizesse. Era isso que Elizabeth estava fazendo. Eles sabiam desde o começo que Kate estava na cabana, e que ela seria a vítima. Ela fez algum feitiço para que ninguém pudesse entrar.
– Solte ela agora! – gritou Emma com raiva. Então ela estendeu os braços em direção à cabana. Provavelmente eu estava tentando quebrar o feitiço ou algo assim, mas sem sucesso.
Elizabeth virou-se para Josh e Walt e se concentrou no chão abaixo deles. Aos poucos um círculo perfeito foi sendo desenhado ao redor deles, apenas com o olhar dela, ela os fez ficarem presos.
Eu tentei ir até eles, então George me segurou pelos braços com uma força incrível.
– É com você, meu filho. – disse ele para Scott dando um sorriso maligno.
– Não! – Emma correu até Scott antes que ele pudesse alcançar a porta. – Você não vai matá-la.
Emma derrubou seu irmão no chão e sacou a adaga. Desferiu um golpe contra seu peito, mas ele conseguiu desviar, levantando-se rapidamente e deixando Emma de joelhos do chão.
– Ah, eu vou sim. – disse Scott chutando as costas de Emma. Mas ela conseguiu se levantar rapidamente.
Ela correu até ele e o encostou na árvore onde antes ele havia batido, quando foi atingido pela magia de Emma. Então, ele fez a sua cara sombria, como se invocasse poderes de algum lugar. Ou talvez fosse só de família.
Ele deu um grito estrondoso e empurrou Emma com seus poderes, ela caiu de costas a uns 5 metros de distância. Ela estava fraca, havia cortes em seu rosto. Ela tentou se levantar, mas Scott foi mais rápido, ele estendeu seus braços em direção à Emma e a pressionou contra o chão, usando seus poderes. Por mais forte que ela fosse, ela não conseguia se livrar.
– Esta é uma das vantagens de não sair por ai protegendo os idiotas mortais. – ele chegou mais perto e deu um sorriso sarcástico. – Você aprende a usar seus poderes, a lutar, a sobreviver, e principalmente... – ele juntou suas forças e a lançou longe, jogando-a contra uma pedra enorme. – a matar.
Scott virou-se lentamente para a cabana como se nada o preocupasse, entrou na casa com uma facilidade irritante, e trouxe Kate se debatendo.
– Não! Não! Não me mate, por favor! Ah! É ele! Victoria... é ele! O homem que eu lhe falei, foi ele que fez aquilo comigo, que botou a ideia de que eu deveria te matar! Não! – Kate tentava apontar para George, ela estava histérica, talvez mais do que no dia da delegacia.
– Por favor, Scott, solte-a. – eu disse tentando soar calma, mas minha voz tremia.
Scott sem dizer sequer uma palavra, tirou uma adaga, parecida com a de Emma, do bolso e pôs no pescoço de Kate.
– Não, por favor, não. – eu não pude me conter. Ver minha amiga em perigo me fez chorar.
Olhei para Josh e Walt que estavam presos no círculo. Eles tentavam gritar, mas de alguma forma nenhum som chegava aos meus ouvidos, talvez aquilo fosse mais do que uma prisão.
– Em nome de Anis e Zyah, sacrifico esta alma mortal. In Infinitum. – e então ele cortou a garganta de Kate. Três vezes. Ele fechou os olhos e alguma fumaça roxa envolveu seu rosto. Ele respirou fundo e soltou o corpo sem vida de Kate.
– Kate! – gritei. Mas, ela estava morta. Ela não podia morrer. Ela disse que ficaria comigo. Minhas lágrimas escorriam rapidamente, não conseguia ver minha amiga morta.
Então, ouvi o que seria o resto de dois gritos. Josh e Walt, foram soltos. Não conseguia raciocinar tudo aquilo.
George me soltou, e a única coisa que pude ouvir foi uma voz longe dizendo “a próxima é você.”, e então eles sumiram. Eu cai de joelhos ali mesmo. Emma estava desacordada do outro lado da clareira, Kate estava morta, tudo estava acabado.
Tentei unir forças pra ir até Kate. Eu a segurei em meus braços e seu sangue escorreu pelo meu casaco, minha calça, e o chão estava encharcado. Josh tentou tirá-la de cima de mim, e levá-la à cabana. Mas tudo o que eu via era uma imagem embaçada, como se tudo estivesse em câmera lenta. Walt tentou me levantar devagar. Mas eu não conseguia. Minha vista escurecia, a manhã de repente se tornou escura. E eu apaguei.
Eu estava em um lugar claro, bem arborizado. Como o ultimo lugar onde estive no sonho com Mary, mas de repente me senti assustada como se aquele cemitério repulsante fosse aparecer novamente.
– Não precisa ter medo. – disse uma voz atrás de mim.
– Mary?
– Desculpe não ter dito nada muito claro, eu... não tive muito tempo. – disse ela escondendo o braço esquerdo atrás do corpo.
– Está tudo bem? O que foi aquilo? Aquele garoto e...
– Como eu já disse, os espíritos criam uma espécie de barreira para que ninguém perceba que eu estou contatando você. – ela pareceu um pouco nervosa. – Você está perdendo muito tempo, Tori.
– Mas, Kate ela... – senti um vazio como se tivesse lembrado de uma morte que acontecera há muito tempo.
– Eu sei, mas você precisa sair de Atlanta. Hoje mesmo.
– Mary, onde está a Kate? – eu disse, de repente só me importando com ela.
– Ela não vem para cá. É... complicado, Victoria. Prometo explicar depois, mas depois que os feiticeiros pegaram a pedra, nós não tivemos paz. Não como se tivéssemos antes disso, mas... você precisa pegá-la de volta. Precisa nos salvar.
– Se eu pegar o Poder... eu posso salvar a Kate?
– Salvá-la sim. Trazê-la de volta não. – ela me olhou solidária. – sei que esteve pensando nisso.
Eu não conseguia perguntar mais nada, minhas lágrimas reprimiram minha voz.
– Eu sinto falta dela, Mary.
– Eu sei. Mas, você não pode se prender a isto. Você ainda vai viver muitas coisas. – disse ela tentando tocar meu braço em vão.
– Viver muitas coisas? O que quer dizer com isto? Muita gente ainda vai morrer? É isso?
– Não. – respondeu Mary soando desconfiada. – Preciso ir. – então ela começou a correr pelos campos verdes até sumir na forte luz do sol.
– Mary! Mary, espere!
Eu não tinha mais esperanças ou forças para nada. Não podia continuar. Mas tinha que continuar. Por ela. Por Kate. Pelos meus amigos. Pela minha família.
Sentei-me numa pedra e enfiei o rosto entre as mãos, tentando parar de chorar.
– Olá? – ouvi uma voz masculina vindo do meu lado. Seus passos ficavam cada vez mais próximos. Então me levantei num susto.
Seu sorriso era brilhante e encantador, ele tinha um cabelo bem penteado, olhos azuis escuro, profundos, porém simpáticos. Ele vestia um uniforme de soldado. Era ele. O garoto do sonho anterior. Com certeza ele estava diferente. Bem menos assustador e frio.
– Quem é você? – perguntei enxugando as lágrimas.
– Você terá muito tempo pra me conhecer. – ele sorriu mais uma vez, de alguma forma eu me sentia tão confortável e relaxada ao olhar pra ele. Como se todos os problemas fossem coisas tão pequenas, quase insignificantes. Então ele tocou minha mão, e de alguma forma eu senti. Eram quentes. Mas, ele estava... morto. Então seu toque ficou gelado, tão gelado que eu sentia congelar. Tirei rapidamente a minha mão da mão dele e a olhei estranha, mas ele continuava com o mesmo sorriso.
Então tudo se apagou.
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