Dois Lados
19 Capítulo 18
Notas iniciais
- Kate? – nós havíamos dormido depois daquilo tudo. E eu havia acordado primeiro. – Kate? – eu a balancei.
Ela abriu os olhos e eu me assustei. Dei um pulo pra trás.
- Kate... – eu tremia.
Ela não falava nada, toda a parte que deveria estar branca dos olhos de Kate, estava vermelha. Sua pele era pálida e dava pra ver algumas veias de seu pescoço descoberto.
Kate levantou-se rápido e me jogou no chão. De alguma forma ela arranjou um pedaço de lenha velha e estava prestes a me matar, quando Walt segurou o seu braço, fazendo-a reagir agressivamente pra cima dele.
Eu gritei, mas todos já estavam levantados. Emma colocou a mão na cabeça de Kate, que apertava Walt contra a porta, e a fez dormir.
Todos nós ofegávamos e observávamos aquela imagem esquisita deitada no chão. Eu olhei um pouco desesperada para Emma, e ela percebeu que eu estava preocupada.
- Não se preocupe. Ela está bem. Só irá dormir por algumas horas. – ela pegou os braços de Kate na intenção de levantá-la, e lançou um olhar para Josh que a ajudou a levá-la para a cama.
Eu respirei fundo, coloquei a mão na testa e me sentei no balcão.
- Obrigada por me salvar, Walt.
- Não foi nada... – ele se sentou no chão e encostou a cabeça nos joelhos. Eu me levantei e sentei ao seu lado.
- Walt... – passei a mão no cabelo dele. – Você pode conversar comigo. Você sabe disso.
- É só que... Eu cansei de ver as pessoas ao meu redor se machucando e não poder fazer nada! Olha pra a gente! Olha onde estamos! Você está em perigo, Kate tá com essa coisa nela, minha irmã morreu, sua mãe... – ficamos em silêncio.
- Eles me ligaram. – eu disse, depois de muitos minutos calada. – Minha mãe está em estado grave, no último estágio do câncer... Eu... – me afundei no ombro de Walt e chorei o máximo que podia.
Ele me abraçou e nós choramos juntos, até que Josh e Emma voltaram do quarto.
- Vic... – disse Emma. – Eu irei tentar quebrar o feitiço.
- Mas, você disse que...
- Eu sei. E é muito arriscado. Mas, já temos ameaça de mais. Ela não pode continuar desse jeito, Victoria! Ela vai acabar te matando, antes que os feiticeiros possam te encontrar!
- Ela não iria fazer isso, Emma.
- O que?! Tudo bem, Kate não faria isso! Mas, isso que está dentro dela, não pode ser controlado por ela, nem por ninguém! É como se tivesse vida própria. Não podemos deixá-la assim. Uma das duas vai acabar morrendo.
Eu assenti devagar e me encostei na parede.
...
Já era 6h da manhã e já estávamos de pé. Tínhamos que ter tudo o que Emma pedia em mãos, para que o feitiço possa funcionar.
- Então, eu nunca fiz isso, mas já li em um livro que os melhores elementos que pode ser usado para esse tipo de coisa, é algo da natureza.
- Como assim? – Josh estranhou.
- Quer dizer que, qualquer coisa da natureza, pode ser usada para quebrar um feitiço forte, ou... Criar um feitiço forte. – ela ergueu uma sobrancelha, como se não quisesse que ninguém perguntasse mais nada. – Preciso de vocês para isso.
- Josh e Walt, vão pegar um coelho. Victoria, você fica aqui.
- Por que eu tenho que ficar? – perguntei.
- Por que um coelho? Não tem nada mais fácil? Tantas árvores... Terra, sei lá. – interrompeu Josh.
- Porque sim. – ela não queria mais gastar tempo explicando nada. E ela tinha razão. Lancei um olhar para Josh ficar calado, e ele assentiu. – E... Victoria... Você vai ficar aqui, porque precisa ser protegida. E aqui, você vai estar comigo.
- Não. Irei ajudar os meninos. – reclamei. – Estarei protegida com eles. – cruzei os braços como se não esperasse resposta... Mas eu esperava.
Ela não disse nada. Apenas pegou um livro em sua mochila e foi para o quarto.
...
Nós três. Sozinhos. Na floresta. Estávamos calados, esperando por algum barulho em um arbusto para lançar a faca, que Josh pegara.
Walt saiu da clareira e entrou em um lugar que eu nunca tinha percebido antes. Era como uma caverna pequena com grandes arbustos ao redor fechando o caminho e o deixando um pouco sombrio.
- Walt! Pra onde você está indo? – eu e Josh andávamos com dificuldade no meio de tantas plantas e árvores caídas que tinham ali, enquanto Walt havia pegado a faca da mão de Josh e ido tranquilamente.
- Os coelhos devem se esconder por aqui. – sua voz já estava distante, ele estava entrando na caverna.
- Ei cara, eu acho que os coelhos não dormem em cavernas como estas não... Melhor a gente voltar. – gritou Josh. Nos entre olhamos. E Walt não voltou.
- Vamos... – eu tirei alguns galhos secos da frente e segui. – Nunca estive aqui... Não sabia que havia lugares assim em Atlanta... – Era admirável como aquele lugar parecia sombrio e abandonado, apesar de ser uma floresta.
Walt entrou na caverna e depois não o vimos. Entramos com ele, mas a caverna estava escura demais para nos enxergarmos, então resolvi puxar os dois pra fora, até que vimos uma luz vermelha em cima do que parecia uma pedra grande bem na nossa frente.
A luz era forte, e tremeluzia rápida, mas não iluminava o mínimo daquele lugar. Parecia que a luz do Sol, entrava só até uns dois passos depois da entrada da caverna, e o resto era totalmente escuro.
- Gente... Vamos sair daqui. – sussurrou Josh.
- Qual é cara, vamos ver o que é? – disse Walt.
- Não... É melhor voltarmos para a clareira, pegar esse coelho, e voltar para a cabana. – disse. Josh veio atrás de mim, Walt resistiu um pouco, e depois veio.
- Aí cara, é melhor você me dar essa faca. – disse Josh com calma.
- Não, eu tenho certeza de que... – começou Walt.
- Não, coelhos não se escondem em cavernas, ok? – Josh pegou a faca da mão de Walt.
- Olha cara, o que você entende disso? Você com certeza é uma daqueles garotos mimados que tem tudo o que quer! Não acho que você conheça bem. – ele começou a falar mais alto. Mas Josh tinha razão, coelhos não se escondem em cavernas.
- Cara eu só estou tentando ajudar, tá? Eu quero que isto acabe logo! Você não percebe que todos nós nos sentimos mal com isso? – Josh continuava calmo.
- Ah, você quer falar disso agora? Você não dá a mínima pra sua “namoradinha”! – zombou Walt. – Ela não te merece! A única coisa que você fez nesta porcaria de viagem foi ficar sentado de braços cruzados, enrustido nesse seu casaco de couro, sem dizer uma palavra. Fui eu que consolei sua “namorada” – ele fez as aspas de novo. – em tudo isso que tem aconteceu! – ele ofegava.
- Walt! – eu o empurrei. Não acreditava que ele tinha falado aquilo. Se estivesse com a faca provavelmente teria acontecido coisas piores.
Ele olhou pra mim. Meus olhos se enchiam de lágrimas. Queria parecer séria, mas tudo o que ele falou... Me magoou demais. Ele disse que me amava. Não acho que ele deveria estar fazendo isso. Ele nunca fora assim.
Sem olhar para Josh, ele deu a volta pela clareira e saiu.
Eu corri atrás dele.
- Você não tinha o direito de falar assim com ele! – minha voz falhava. – Ele só está tentando ajudar! Minha mãe está no hospital, sua irmã morreu, tem feiticeiros atrás de mim, e agora Kate com... Isto... – eu coloquei a mão na testa, mas estava muito irritada. – Ele tem me ajudado sim! Você não sabe de nada! O mínimo que você poderia fazer era se afastar! Ele tem cuidado de mim de um jeito que você nunca faria! – as lágrimas corriam pelo meu rosto contra a minha vontade. – E quer saber? Coelhos não se escondem em cavernas!
E então eu vi realmente os olhos de Walt tristes. Como se eu estivesse revivendo a noite da Welcome Party, quando estávamos no refeitório.
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