Dois Lados

14 Capítulo 13


A sala estava barulhenta e o professor ainda escrevia os tópicos da aula, no quadro negro. Quando nós três entramos, todo mundo parou. Todo mundo nos olhou. E eu me arrepiei.

Todos estavam em pé e de repente, se sentaram e seus olhos começaram a sangrar. Eles não gritavam, não falavam, apenas olhavam para nós com os rostos cheios de sangue.

- Victoria! – Walt me “interrompeu”. Não sei se isso poderia ser chamado de devaneio, porque geralmente, os devaneios acontecem quando queremos pensar ou refletir sobre algo. Mas, eu não queria estar ali, ou pensar naquilo. Foi estranho.

- Eu só... – e me calei.

Entramos na sala e nos sentamos juntos. Kate do meu lado e Walt a minha frente. Não trocamos uma palavra até que a aula terminasse.

- Ah, e só para vocês saberem, temos uma nova aluna aqui! – o professor apontou para o fundo da sala. – Emma Carter! – ele sorriu.

Emma estava sentada na última cadeira da sala próxima a uma janela. Ela era branca e tinha cabelos pretos e olhos tão pretos que pareciam sem brilho. Ela estava de cabeça baixa, mas quando ouviu seu nome ela levantou o olhar.

- Então Emma, gostou da aula? – disse o professor vendo os outros alunos saírem pela porta.

Ela assentiu com a cabeça.

- O que está lendo? – ela tinha um livro vermelho com folhas amareladas, não dava pra ver o título ou a capa porque estava aberto sobre a mesa.

Eu, Walt e Kate nos olhamos. Então, resolvi ir falar com ela.

- Oi, Emma. Meu nome é Victoria Miller. E aqueles são Walt Anderson e Katherine Trumman, mas pode chamá-la de Kate. – eu sorri.

- Oi. – ela olhou para mim rapidamente e fechou o sorriso que começara a se formar. Emma guardou seu livro e se levantou.

Eu não me senti tão confortável com a reação dela, mas resolvi chamá-la para o almoço, e ela aceitou, um pouco envergonhada.

...

Estávamos nós quatro sentados na mesa próxima a saída do refeitório. Tudo estava silenciado. Pelo menos na nossa mesa. Eu não estava com fome, principalmente porque aquela história toda tinha me dado um embrulho no estômago. Apenas beliscava uma batata-frita ou outra.

- Então Emma... – Walt olhou para ela. – De onde você veio?

- Califórnia. – ela levantou a cabeça.

- Você gosta de livros? – eu perguntei.

- Sim, adoro. – e foi assim, com esta conversa estranha, que a Emma se soltou mais e começou a falar sobre a sua antiga escola.

Mas, por um momento, estávamos só eu e ela falando, enquanto Walt ia resolver algumas coisas do jogo de Sexta, e Kate havia ido no banheiro. E então, ela parou.

- Eu... Hm, não. Não posso... Ficar aqui. – ela gaguejava.

- Está tudo bem? – seus olhos eram desesperados e agora estavam se enchendo de lágrima. – Emma! – eu tentei ir atrás dela, mas de repente tudo girava pra mim. Eu fiquei tonta, e quando melhorei ela já havia sumido.

- Eu quero ir pra casa. – disse pra Kate e Walt, quando eles voltaram.

- Eu também. Não estou me sentindo bem. Sinto que devo fazer alguma coisa. E isso não sai da minha cabeça. – foi aí que eu e Walt nos olhamos, e percebemos que Kate já estava com a ideia de querer me matar, só que ainda não tinha de dado conta.

- Gente... – ela vestia um suéter folgado verde escuro, e uma calça apertada preta, e nos pés tinha umas botas velhas que ela não usava há anos. Kate não era do tipo que se vestia assim. Ela sempre se preocupou com ‘moda’, ela nunca deixava escapar uma bolsa que tinha acabado de sair! Mas, não era por isso que ela estava diferente, apenas percebi.

...

Não entendo porque sempre penso em coisas que não fazem sentido pra mim, ou que nunca vão me ajudar. Mas, pensei que... Emma poderia estar lendo o livro que eu li. O que tinha “AZ”. A capa era muito parecida, as folhas, as letras. Não sei, acho que estou muito preocupada com tudo isso. Preciso descansar.

...

Desta vez, Walt que dirigia, pois ele era o único que ainda estava bem psicologicamente. Ele deixou Kate em casa, e antes a enrolou em seu casaco, porque ela estava gelada demais, apesar de não estar fazendo tanto frio.

- Não sei como te agradecer. – eu disse.

- Não precisa. Sério. Vocês estão passando por momentos difíceis. Só quero ajudar. – ele estacionou no canto da rua e desceu comigo. Pedi pra que ele ficasse comigo aquela tarde.

Ele preparou uma caneca de chocolate quente para nós e nos sentamos no chão, próximos à lareira.

- Estou com medo. – eu observava o movimento do fogo com atenção.

- Não fique. Vai ficar tudo bem. Isso tudo é uma loucura. – ele tomou um gole e me abraçou. – Você já parou pra pensar que isso pode ter sido um pesadelo da Kate? – eu prestei atenção. – Lembra do ano passado? Ela teve um pesadelo e pensou que fosse real. Ela passou 3 dias agindo estranho, até se lembrar que na noite em que “aconteceu” aquilo ela estava na festa da garagem com a gente.

- Não. Desta vez não é um pesadelo. – eu olhei pra baixo.

- Como você tem tanta certeza?

Eu busquei o livro pra ele e abri nas páginas onde haviam as coisas principais. Ele não disse nada.

- Então, você, é uma descendente?

- Sim.

- E por que a sua irmã não é? – nos paramos.

Eu demorei um pouco pra responder, mas estava só eu e ele, e Walt era meu melhor amigo.

- Não sou filha dos meus pais. Sou adotada. – Neste momento só se ouvia o fogo queimando a lenha que estava acabando.

- Eu... Sinto muito. – ele me abraçou. Eu me senti bem. Confortável. Nunca tinha me sentido tão “em casa” como agora. A Mary devia ter sorte de ter o Walt como irmão.

- Eu atendo. – eu disse quando ouvi a campainha tocar.

- Victoria... Miller? – era a Emma. Ela estava com os cabelos molhados e seus olhos estavam mais claros. Como... – Só fica... Longe. Por favor. – ela agora chorava. Muito.

- O que?

- Por favor, Victoria. Não se aproxime do Scott. – Scott era o nome do garoto da delegacia. — Ou do Michael. Ou da Tammy. Ou de mim.