Doctors
4 My angel
Notas iniciais
Antes de começarem a ler lembrem "aparentemente, o mundo não é uma fabrica de realização de desejos" - John Green
“Ela é o meu anjo agora” incontáveis foram as vezes que eu repeti essa frase nos últimos meses, como se isso fosse me dar alguma consolação. No começo pensar isso só me dava raiva, depois tristeza e agora... agora eu não sei mais. Só espero que algum dia essa frase me traga paz.
A maioria das pessoas não pensa muito sobre a ultima vez, talvez seja melhor assim, pensar que tudo que você está fazendo possa ser pela ultima vez é algo aterrorizante, mas nós vivíamos assim, mas como tudo na vida, também tinha um lado bom, tudo que vivemos foi muito intenso. Mas falando em ultima vez, eu ainda me lembro do ultimo sorriso dela, do nosso ultimo beijo, ate da nossa ultima briga, que agora eu vejo que era tão boba. O problema é que eu não sabia na hora que seria a ultima vez, talvez se eu soubesse não fossem memorias tão boas assim.
Nosso ultimo dia não teve nada de grandioso, nada de grandes atos, não fugimos pra casar ou algo do tipo, como acontece nos filmes, nosso ultimo dia foi só mais um dia, o que não o torna menos especial pois dias comuns cheios de amor se tornam os dias mais especiais.
Ela chegou em casa mais cedo do que eu naquele dia e quando eu cheguei, nossa mesa estava arrumada para um jantar romântico e eu boba perguntei o que estávamos comemorando, então ela disse com o sorriso mais lindo do mundo que estávamos comemorando nosso amor e que esse era um motivo mais do que plausível para comemorações.
- Você é uma boba apaixonada. – Eu disse sorrindo e puxando-a para beijá-la.
- Apaixonada sim, boba... hum... talvez, mas só quando eu me perco no tempo olhando pra você.
Nós jantamos, era minha comida preferida, então fomos para o sofá ver um filme qualquer que foi completamente ignorado quando ela começou a me beijar.
- Você está mais linda hoje sabia? – ela me disse enquanto brincava com meu cabelo.
- Eu sou linda sempre, querida. – brinquei.
- Convencida! – Ela sorriu e começou a plantar vários beijos pelo meu rosto, que logo foram descendo pelo meu pescoço, mas o seu celular tocou interrompendo seus avanços. – Droga. – Ela murmuro e levantou para atende-lo, minutos depois estava voltando e me dizendo que tinha que ir ate o hospital.
- Eu volto logo. – Sorriu e me beijou calmamente, como se quisesse prologar aquilo pela eternidade. Como eu desejei que tivesse sido possível.
A porta havia acabado de fechar e segundos depois voltou a se abrir. – Eu te amo. – ela disse sorrindo. – tinha que voltar pra dizer isso, porque vai que você esquece.
- Eu nunca vou esquecer, assim como nunca vou deixar de te amar também. E vai, ou vai acabar se atrasando.
- Ok, chefa. – Disse me dando o ultimo sorriso que eu veria em seus lábios.
Como eu disse, nada grandioso, só um simples ultimo momento de amor. Eu já remoí essa cena na minha mente milhões de vezes, não é algo planejado, eu só não consigo parar. E também não, quero... são as ultimas partes dela que eu tenho em mim. O cheiro que ela deixou na minha blusa aquela noite se perdeu com o tempo, talvez eu tenha gasto ele demais. A ultima foto que tiramos juntas ainda está na mesa de cabeceira, naquela época tudo parecia que ia tomar um rumo diferente. Ela disse que ficaria comigo ate o fim e ficou, mas eu pensei que o fim seria meu... eu estava preparada para partir, mas não para vê-la partir... talvez seja um exagero, mas isso doeu mais que a morte pra mim.
Cameron foi a minha força, minha dadiva, meu anjo, ela nem chegou a saber disso... mas ela salvou minha vida. Mesmo quando ela já tinha partido eu nunca desisti de lutar por minha vida, porque eu tinha prometido a ela que seria corajosa. Eu tive que aprender a ser forte por mim mesma, mas de algum modo eu ainda sentia força dela me apoiando, me mantendo de pé, me mantendo viva.
Se eu aprendi alguma coisa com tudo isso é que não devemos tomar nada por garantido, nem o melhor e nem o pior, de algum modo a vida arranjou um jeito de me dar os dois... eu me curei e isso era a melhor coisa que eu podia esperar, mas eu perdi Cameron e isso... eu nunca poderia imaginar algo tão ruim acontecendo. Mas tudo isso aconteceu. Se você me perguntasse hoje se eu me arrependo de alguma coisa, eu diria que não, porque eu tenho certeza de que onde a Cameron estiver ela também não se arrepende. Nós tivemos o nosso tempo de “final feliz” e foi mais puro, intenso e verdadeiro do que o que a maioria das pessoas tem em uma vida toda.
Uma vez ela me disse que achava que tínhamos nos encontrado em outras vidas. Bom Cameron, se isso é verdade nós vemos na próxima e dessa vez chegue mais cedo.
E Cameron... eu sei que gritei com você dizendo que era uma mentirosa, porque não tinha ficado comigo, porque tinha ido embora e me deixado sozinha... me desculpe por isso, eu não estava realmente com raiva, eu só... não suportava a ideia de um mundo sem você. Eu ainda não suporto... mas eu sei que se estivesse aqui brigaria comigo por passar tanto tempo sozinha, então por isso hoje aceitei sair com algumas amigas do hospital, vou levá-las ao nosso restaurante do lago, espero que não se importe... eu sei que poderia ter escolhido qualquer outro lugar, mas é que eu ainda quero sentir um pedacinho de você sempre comigo... você continua sendo a minha força Cam. E eu continuo te amando... você é a melhor memoria que eu tenho guardada no coração... conhecer você foi melhor coisa que aconteceu na minha vida, então obrigada meu amor, por ter sido tudo que eu precisei que você fosse.
Eu te amo, Cameron, por um milhão de motivos, mas especialmente por ter me transformado em uma guerreira tão boa como você.
***
Os olhos verdes chamaram imediatamente a atenção de Eva, ela conhecia bem olhos como aquele. O prontuário só informou o que o coração dela já sabia “Henry Cameron”. – Oi garoto, o que você andou aprontando em? – ela disse com um sorriso.
- Eu caí de uma árvore, nada demais.
- Bom, isso eu só vou poder dizer depois que olhar seu raio x. – Ela examinou a imagem. – Seu tornozelo não está quebrado, só está torcido.
- Ai graças a deus! – A mulher de longos cabelos castanhos que acompanhava o garoto exclamou.
- Você é o que dele? – Eva disse, achando a mulher muito jovem pra ser mãe do garoto.
- Eu sou a professora dele.
- Hum... professores costumam acompanhar seus alunos ao medico?
- Bom... é que somos um colégio interno. E...
- E eu não tenho família pra me acompanhar. – Henry completou.
- Hum... sinto muito.
- Eu só tinha a minha irmã, mas ela também se foi. – A memoria de Eva se voltou para um dos piores momentos de sua vida, a recente perca de Cameron, agora que forçou um pouco a lembrança se deu conta de que havia mesmo um garotinho lá. “Ela nunca me falou sobre ele... talvez achando que teríamos tempo”.
- Sua irmã se chamava Allison? – Eva disse ansiosa.
- Sim, você a conhecia? Ela era medica também.
- Sim, eu a conhecia... – Uma lagrima silenciosa rolou o rosto de Eva e ela tratou logo de secá-la. – Ela era minha... amiga. – teria tempo de explicar depois.
- Você é a Eva? – O garoto disse com espanto.
- Sim. – Eva disse com igual espanto por perceber que o garoto já havia ouvido falar sobre ela.
- Ela me escreveu sobre você.
- Mesmo?
- Sim. Mas ela me disse que você estava doente... – o olhar do garoto ficou triste.
- Não estou mais. Eu estou curada, em boa parte por causa da sua irmã.
- Sabe, ele iria me levar pra conhecer você... mas então...
- Ela se foi. – Eva completou e então se voltou para a professora de Henry. – Se você quiser ir pra casa, não se preocupe, eu fico aqui com Henry. – A professora sorriu e assentiu, então se despediu de ambos e saiu, garantindo que voltaria logo pela manhã.
Eva e Henry conversaram quase a noite inteira, depois que ela cuidou da perna do garoto, o que nem era sua área, cada um contou suas historias sobre Cameron, eles riram, choraram, mas de algum modo agora que estavam juntos se sentiam confortados.
- Acho que ela gostaria de nos ver juntos. – Henry disse sorrindo.
- Eu também acho. – Eva concordou.
- Talvez... – o garoto começou a falar e então se deteve.
- Talvez o que?
- Nada... só uma ideia boba que passou pela minha cabeça... que talvez nos devêssemos ficar juntos.
Eva ficou em silencio por um tempo e então tocou carinhosamente o rosto do garoto. – Eu não acho que seja uma ideia boba, eu acho que era o que Cameron iria querer.
- Talvez tenha sido ela que mexeu os pauzinhos lá em cima pra gente se encontrar aqui. – Henry sorriu.
- Ela é bem capaz mesmo. – Eva disse juntando sua risada a do garoto.
- Eva... – Ele disse serio. – eu sei que ela não era só sua amiga. – o garoto tirou o celular do bolso. – acho que você devia ler isso, foi a ultima coisa que ela me escreveu sobre você.
Eva pegou o celular hesitante.
“[...] garoto, você ainda é muito novo pra entender, mas quando conhecê-la vai saber imediatamente porque eu me apaixonei por ela. Eva é linda de todas as formas que uma pessoa pode ser linda e eu amo tanto que não sei como algum dia eu consegui viver sem ela, quando eu olho pra trás só vejo o quanto minha vida era vazia e bagunçada, mas agora com Eva tudo parece fazer parte de um encaixe perfeito, tudo está repleto de amor, do nosso amor. Você vai gostar dela, tenho certeza, vai ser a cunhada mais linda que você já teve. Então nos vemos no sábado pirralho. Xoxo Allison”.
Eva estava chorando, aquelas eram as ultimas palavras de Cameron que ela teria. Henry passou o braço em volta da medica e a confortou. – Ela te amava muito, Eva. – ele disse gentilmente.
- Eu sei... é só tudo tão injusto.
- É.
Os dois ficaram um longo tempo em silencio, ate que Eva o rompeu. – Você quer mesmo ficar comigo, Henry?
- Sim! – O garoto disse sem hesitar.
- Eu poderia tentar adotar você... eu não sei como Cameron deixou sua situação na escola.
- Bom, eu supostamente ficaria lá ate terminar todos os estudos, então poderia usar o dinheiro da família pra ir pra faculdade.
- Ninguém deve passar a vida inteira sozinho em uma escola. Eu vou fazer o que puder pra te levar comigo o mais rápido possível.
Henry sorriu. – Então... você seria minha mãe? – ele disse timidamente.
- Acho que sim garoto. Seria sua mãe... – Eva disse contemplando as ultimas palavras e se dando conta que Henry era o ultimo presente que Cameron estava lhe dando.
Notas finais
Respondendo a segunda pergunta, que suponho que seja algo como: mas pq você fez isso? bom, eu avisei que a fic era dramática.
E quanto ao Henry, bom eu ja tinha terminado o capitulo, mas não quis deixar Eva sozinha, então veio a segunda parte.
Espero que mesmo tendo feito vocês chorarem tenham gostado da historia e ate a próxima fic ou a qualquer momento nos extras de Neverland :)
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